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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
terça-feira, 22 de março de 2011
O Ogro, de Márcio Júnior e Márcia Deretti
Enquanto o cinema brasileiro de horror ainda aguarda uma improvável (re)descoberta por parte do grande público, uma visão que vá além de Zé do Caixão e Ivan Cardoso, as histórias em quadrinhos nacionais desse mesmo gênero já são devidamente consagradas e reconhecidas por sua importância e pioneirismo. Nomes como Nico Rosso, Flavio Colin, Rodolfo Zalla, Eugênio Colonnese, Jayme Cortez, Gedeone Malagola, Julio Shimamoto e outros há décadas são respeitados e cultuados por aficionados por HQs de horror, celebrados como verdadeiros ‘mestres’ dessa arte que desafia o preconceito de alguns e nunca deixa de ser apreciada.
Uma parte desse capítulo importante na história dos quadrinhos nacionais está ganhando uma nova dimensão e um novo formato, por meio da realização de um curta-metragem de animação que dá movimento e som a um clássico das HQs. O projeto é capitaneado por Márcio Júnior, um apaixonado incondicional por quadrinhos de horror, com a colaboração de Márcia Deretti na produção e de Wesley Rodrigues na direção de animação. O curta, que deve ser o primeiro de uma série, resgata a história O Ogro, desenhada por Julio Shimamoto e escrita por Antônio Rodrigues, publicada originalmente na edição nº 27 da revista Calafrio, em 1984. A HQ é considerado um marco na carreira de Shima, um artista conhecido por sua inquietude criativa, que desenhou a história usando tinta branca sobre cartolina preta.
As etapas de criação do projeto, realizado pela Marte Produções, podem ser acompanhadas em detalhes no blog oficial do curta, que traz trechos da HQ original e todo o processo de adaptação para a animação, com participação efetiva de Julio Shimamoto, atualmente com 72 anos e em plena atividade quadrinística. Shima ampliou o quadro das cenas mais fechadas, oferecendo aos animadores um universo mais definido, desenhou cenários e esboçou model sheets dos três personagens da HQ. O curta, com cerca de oito minutos, deve estrear ainda no primeiro semestre deste ano, e certamente marcará presença em vários festivais de cinema. Para conhecer melhor o projeto, vale a pena ler a entrevista com Márcio Júnior publicada no site Bigorna, especializado em histórias em quadrinhos.
A idéia é inovadora e merece a torcida de todos pelo sucesso da empreitada, que deve prosseguir com a adaptação de outro clássico das HQs brasileiras de horror, desta vez uma obra-prima de Jayme Cortez.
segunda-feira, 21 de março de 2011
quinta-feira, 10 de março de 2011
Rock Horror Show (1975)
Quem não gosta de Rocky Horror Show só pode ser ruim da cabeça e doente do pé. Um dos maiores fenômenos pop de todos os tempos, a peça musical escrita por Richard O’Brien sintetiza toda uma era, o casamento perfeito entre a fase nostálgica do rock’n’roll e as antigas sessões duplas de filmes de horror e ficção científica, tudo embalado com uma sensualidade sem limites no auge da androginia e do amor livre. Obviamente, era material perfeito para o cinema, e não demorou para surgir Rocky Horror Picture Show, provavelmente o maior clássico das sessões malditas e o derradeiro cult movie.
O que nem todo mundo sabe é que o impacto do sucesso da peça ecoou no Brasil imediatamente, com a adaptação de Rock Horror Show (escrito assim mesmo) para os nossos palcos, encenada inicialmente no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro. Os bastidores dessa produção podem ser acompanhados no blog de Edy Star, nosso maior representante do glam rock, nas partes um, dois e três. Está tudo contado por quem participou da coisa, portanto não vou reproduzir tudo aqui. Só quero contar que Edy relata como substituiu Eduardo Conde no papel de Frank Father [sic], e que quando chegou ao teatro, o roqueiro Serguei estava de prontidão para se candidatar ao posto. O elenco original contava ainda com Lucélia Santos, Zé Rodrix, Wolf Maia e Diana Strella nos principais papéis. A peça posteriormente foi montada nos palcos paulistanos, com Paulo Villaça, Antonio Biasi e Lúcia Turnbull substituindo alguns dos atores da versão carioca.
A trilha sonora da montagem carioca foi lançada em LP em 1975, pela Som Livre, mas infelizmente não está disponível em CD. A produção do disco ficou por conta de Guilherme Araújo e Zé Rodrix, responsável também por algumas adaptações. O repertório do LP inclui as três faixas anexadas nos vídeos acima - “Science Fiction” (Lucélia Santos), “Nostalgia Rock’n’Roll” (Zé Rodrix) e “Me Toque, Me Toque, Toque, Toque” (Diana Strella) - e traz ainda “O Anel de Noivado” (Wolf Maia e Diana Strella), “Luz na Casa de Frankstein” (Diana Strella, Wolf Maia e Kao Rossman), “A Espada da Morte” (Acácio Gonçalves e Nildo Parente), “Eu Te Faço Ser Homem” (Eduardo Conde), “É Só Me Chamar, Tudo Bem” (Wolf Maia e Diana Strella), “Eu Vou Partir” (Eduardo Conde) e “Só o Amor Interessa” (Wolf Maia, Diana Strella e Nildo Parente). Quem conhece bem o repertório original certamente notou a falta de algumas canções, especialmente a clássica “Time Warp”, mas suponho que só colocaram no disco o que cabia em 45 minutos.
sábado, 5 de março de 2011
Bellini e o Demônio (2010)
O decadente detetive particular Remo Bellini é contratado por um cliente desconhecido para encontrar O Livro da Lei. Desorientado e em estado de constante delírio devido ao vício em remédios de tarja preta, o investigador recebe um volumoso adiantamento pelo trabalho e inicia sua missão de encontrar o tal livro, aparentemente sem método algum. Bellini mergulha num submundo de crimes violentos, rituais satânicos e conspiração. Depois de consultar um demonólogo, fica sabendo que O Livro da Lei é um dos tomos escritos por Aleister Crowley, o maior bruxo da Nova Era e anunciador do Anticristo. Ao mesmo tempo que busca desesperadamente o livro, assassinatos violentos perturbam a rotina de policiais da cidade. Bellini é avisado pelo demonólogo que quando quatro pessoas forem sacrificadas na fase cheia da lua, a Besta subirá em sua nova forma - e os cadáveres vão se acumulando.
Bellini e o Demônio é o segundo filme adaptado dos livros policiais de Tony Bellotto, talvez mais conhecido como um dos integrantes da banda de rock Titãs. O anterior foi Bellini e a Esfinge, dirigido por Roberto Santucci em 2001. Nos dois, o detetive do título é interpretado por Fábio Assunção, fisicamente adequado ao papel, mas sua atuação não está acima do nível das telenovelas, com todos os cacoetes e exageros típicos de uma mídia que não tolera sutilezas.
A referência inicial que se tem diante da sinopse do filme é um cruzamento entre Coração Satânico, de Alan Parker, e O Último Portal, de Roman Polanski, e essa impressão paira durante todo o filme, indo e vindo. Porém, a bagunça é tamanha que em vários momentos fica duvidoso que caminho o filme pretende seguir. Alguma soluções narrativas são mais do que discutíveis, como colocar personagens dentro da própria cena que estão narrando num flashback. Tenta mostrar estilo, mas é apenas bobo, risível. A câmera treme, chacoalha e trepida em toda cena tensa - e o filme é todo tenso e dramático. Há um abuso de tomadas subjetivas, do tipo ‘alguém espreitando’, sem que nunca fique claro se é de fato o ponto de vista de algum personagem, um anseio de colocar o espectador numa posição desconfortável ou pura baderna. Num dos momentos mais absurdos, a câmera está dentro de um envelope de papel, olhando para a cara de Fábio Assunção, que olha para dentro do envelope! Por que? Impossível saber.
Fazia tempo que eu não via um filme (brasileiro) tão problemático. Certamente há algo de errado num filme que passou pelas mãos de quatro montadores e que tem três créditos distintos de roteiro (eu nunca tinha visto, num mesmo filme, créditos de ‘roteiro original’ e ‘roteiro adaptado’!). A trama tem buracos escandalosos; certamente passagens importantes foram eliminadas na montagem final, enquanto somos bombardeados por cenas repetitivas - Bellini às voltas com seus comprimidos e os policiais batendo cabeças durante as investigações. O diretor Marcelo Galvão andou dando entrevistas renegando o corte imposto pelo produtor. Enquanto que algumas fontes apontam que o filme tem 120 minutos de duração, a versão em DVD é substancialmente mais curta, com 85 minutos.
Porém, só podemos avaliar o filme lançado, não a versão ‘original’ que habita o limbo. Em comparação a Os Famosos e os Duendes da Morte e A Erva do Rato, dois filmes brasileiros recentes que possuem tênues - porém ricas e relevantes - relações com o horror, e são acusados de ‘pretensiosos’ devido às ambições artísticas, Bellini e o Demônio perde feio. Tenta ser artístico e estiloso onde não deveria; conta uma história relativamente simples, mas teima em complicá-la a troco de nada. Numa época em que Cisne Negro vira uma mania mundial, a proposta narrativa de Bellini e o Demônio poderia ser melhor aceita pelo grande público, mas as soluções são lastimáveis.
O próprio lançamento do filme é um drama à parte. Finalizado em 2008, foi exibido em maio do mesmo ano no festival de Los Angeles, nos Estados Unidos, de onde trouxe um prêmio de atuação para Fábio Assunção. Em setembro participou de um festival de cinema do Rio de Janeiro. Sua estréia comercial aconteceu quase dois anos depois, em agosto de 2010, passando praticamente despercebido. Co-produzido pelo TeleCine, nunca teve apoio decente do canal; nunca vi comercial na televisão ou qualquer coisa do tipo. Foi parar no DVD, também sem muita gente dar atenção, lançado alguns dias atrás. Desconfio, por mera desconfiança mesmo, que o fracasso nas bilheterias de Encarnação do Demônio, lançado em 8 de agosto de 2008, tenha influenciado na carreira abortada de Bellini e o Demônio, que chegou a ter sua data de lançamento marcada para 24 de outubro de 2008. Será que temeram que a temática ‘demoníaca’ pudesse afastar o público, numa época em que só se investe em filmes espíritas e com mensagens positivas?
É uma pena, pois tinha tudo para ser um pequeno grande filme de horror brasileiro. Enquanto não temos caminhos originais a percorrer, pelo menos poderíamos manter o gênero vivo com filmes mais convencionais, porém feitos com correção e sinceridade. Há cenas boas no filme, ou pelo menos com potencial latente, como a do demonólogo interpretado por Jack Militello. Porém, a superficialidade de conteúdo é denunciada pelo fato de levar tão a sério um sujeito como Aleister Crowley, o mais pop dos ocultistas, e a quem os que se dizem verdadeiros satanistas dão às costas e chamam de charlatão. Para encerrar, o anticlimático final surpresa - revelado no trailer, talvez pela ganância de achar que o nome de Marília Gabriela pudesse ser um chamariz de público - mostra em que pé estamos em termos de horror brasileiro.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
ATUALIZAÇÃO: Uma Descida ao Inferno de Zé do Caixão (2010)
Recebi no início da tarde de hoje, e acabei de assistir agorinha mesmo, o documentário Uma Descida ao Inferno de Zé do Caixão, realizado pelos estudantes Daiane Sousa, Dênis Matos e Marcela Alves. Há alguns meses, tive o prazer de gravar uma longa entrevista para os meninos aqui em Jundiaí, numa lanchonete rock’n’roll, quando procurado por eles para contribuir com o documentário, e foi bacana poder colaborar com o projeto.
O resultado final ficou bem bacana, apesar da duração relativamente curta, com apenas 28 minutos (a gente sempre acha que tem algo mais a ser dito sobre a figura complexa do Mojica). Melhor ainda foi ver as encantadoras divagações da amiga e colega de brasilidades horroríficas Laura Cánepa, que indiquei para ser entrevistada para o projeto, e que, assistindo ao produto finalizado, tenho certeza que faria uma falta imensa se não tivesse participado. O cineasta e antropólogo Kiko Goifman (FilmeFobia), o jornalista, crítico e biógrafo mojicano André Barcinski e a psicanalista Maria Lúcia Homem - que parece viajar bem mais do que os delírios de Zé do Caixão costumam provocar - também oferecem esclarecimentos sobre as conflitantes figuras de José Mojica Marins e sua imortal criação Zé do Caixão. Ah, claro, o Mojica também é entrevistado, numa calçada qualquer de São Paulo, mas seu depoimento, aparentemente regado a loiras geladas, é um tanto criptografado. Puramente Mojica, claro.
O documentário merece ser prestigiado, no mínimo, por representar um agradável sopro de idéias arejadas e uma urgência de se compreender um dos nossos cineastas mais particulares e o artista mais ativo do horror nacional. Tomara que o filme tenha uma sobrevida fora das salas de avaliação acadêmica; que se torne extra de algum lançamento em DVD ou apareça na programação do Canal Brasil ou coisa parecida.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
ATUALIZAÇÃO: O Lobisomem de Gedeone Malagola e Nico Rosso
Esta é para os aficionados pelos quadrinhos nacionais de horror. Um visitante anônimo escreveu um comentário na postagem original que fiz sobre o Lobisomem da dupla Malagola/Rosso com link para a edição completa da edição de luxo do gibi. Fica a dica para quem quer ter na coleção essa preciosidade. Eu já tenho o meu exemplar, edição em papel mesmo, com direito a autógrafo do Gedeone e tudo!
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Exorcismo Negro (1974)
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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Trovão da Montanha (2010)
Quem me deu a dica deste curta-vídeo-musical foi o próprio montador da peça, Paulo Sacramento, uma visita sempre querida e mais do que bem-vinda a este blog. Trata-se de mais uma peripécia de Ivan Cardoso, que continua com sua verve irônica, promovendo parcerias impossíveis, desta vez unindo Mr. Robert Zimmermann com o imortal Vincent Price. O resultado é bastante divertido, casando o rock mais básico com o horror camp da banda mecânica comandada pelo indefectível Dr. Anton Phibes tocando seu órgão. Quem provavelmente vai delirar com esse encontro imaginário é minha amadinha Bia, fãzoca de ambos, Dylan e Price. Quanto ao Sacramento, tive o imenso prazer de ver muito recentemente a excelente entrevista que ele concedeu ao programa Sala de Cinema, da SESC TV, um cara que só faz bem ao cinema brasileiro e por quem tenho cada vez mais admiração e respeito.
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segunda-feira, 5 de julho de 2010
O Jovem Tataravô (1936)
A sessão de hoje do Fantaspoa promete ser um momento especial no festival, ao menos àqueles que compartilham do entusiasmo e interesse em tudo que cerca nosso tão pouco conhecido cinema de gênero. A exibição do filme O Jovem Tataravô, uma comédia musical produzida pela Cinédia em 1936, resgata um item raro de nossa filmografia, naquele que é considerado o primeiro longa-metragem brasileiro com elementos fantásticos. O filme será exibido às 19 horas no Cine Bancários, em Porto Alegre, na única atração do dia, e ao final eu e a Laura Cánepa iremos debatê-lo com os espectadores. A exibição é também uma espécie de trailer do curso O Horror no Cinema Brasileiro, que acontece nos dias 10 e 11 deste mês e apresentará um vasto panorama do gênero em nosso país, agora sem a concorrência dos horrores da seleção do Dunga, pois as aulas acontecem no final de semana das finais da Copa do Mundo (porém, terminam antes do início dos jogos, então ninguém vai ficar sem futebol!).
Para ilustrar esta postagem, capturei a apresentação do filme realizada pela Zezé Motta no Canal Brasil. Também compilei alguns textos antigos sobre o filme, amostras de como a obra foi recebida na época, em críticas pitorescas e peculiares. Artigos recentes fazem abordagens mais históricas do filme, como o texto assinado por Ricardo Calil, disponível no site da Programadora Brasil, e principalmente o excelente e completíssimo ensaio da Laura publicado na revista eletrônica Carcasse, datado de setembro de 2006.
“Num leilão, com uma caixa, Menezes arremata certo papel com certa oração poderosa (fazia voltar ao mundo o mais enterrado dos mortos). Organiza-se uma sessão, estabelecendo-se a corrente, invoca-se e zás: surge o tataravô de Menezes, o que logo mais, barbeado, penteado e metido em fatiotas bem lançadas, se mete a conquistas, cai numa farrinha e até a aviação se entrega! A audácia do jovem tataravô, que chegou ao cúmulo de enredar no amar sua própria bitataraneta, leva seu ‘inventor’ a recorrer à macumba para devolvê-lo ao nada. Consegue-o, para o alívio de todos, principalmente do noivo.” (Cine-Repórter, nº 125, 1936)
“(...) bem conduzido e com diálogos, versos e ‘bolas’ muito felizes. Música: encantadora! Sem exceção de um só número de sua música, a partitura do filme é maravilhosa, destacando-se entre os números a canção final do cabaré. Gravação, sonora! A melhor que já se fez no Brasil e, diga-se (mas para dizer pouco), poderia ter ido aos Estados Unidos para voltar de lá com a classificação de perfeita. Impressões da platéia; muito boa. Desde o primeiro dia, até hoje, o público deu sempre gostosas gargalhadas e sempre nas mesmas ‘bolas’. Presencamos, realmente, em várias sessões, o público rindo a valer. O filme agradou inteiramente. Este agrado se justifica - boa música, bom som, bom enredo, artistas discretos, fotografia boa em geral.” (W.S., Imparcial, 1 de setembro de 1936)
“O Jovem Tataravô, tal como está, na tela do Odeon, com os seus defeitos e virtures, é um filme nacional que se impõe. E, estando muito acima da mediocridade, é um trabalho que enche de justificado orgulho e patriotismo a qualquer fã brasileiro, que encontra, neste celulóide, o testemunho insofismável, indiscutível, de que o nosso cinema evoluiu com uma rapidez extraordinária. (...) Em matéria de fotografia e som, O Jovem Tataravô representa a ‘Autêntica Vitória da Cinédia’, pois ‘Ainda Não Vimos Nada Melhor’. A fotografia, principalmente, é de uma nitidez que surpreende. (...) Em primeiro plano coloco, pela naturalidade cinematográfica com que atuam, Darcy Cazarré, Lygia Sarmento e Carlos Frias, este o verdadeiro primeiro galã que o cinema brasileiro encontrou. (...) A direção de Luiz de Barros é bem apreciável. O argumento de Gilberto de Andrade é magnífico e esplêndido de comicidade. É fator seguro de êxito.” (Alfredo Sade, A Batalha, 16 de setembro de 1936) “Um novo filme brasileiro e, tomado de um modo geral, na minha opinião, o melhor de quantos têm sido apresentados até agora. É, já, um trabalho que não envergonha, que pode ser visto, porque não desagrada. Há a distinguir nele três ‘motivos’: o que diz respeito à sua técnica material; o da sua interpretação e direção e o enredo. Quanto a sua feitura material, teçamos loas à Cinédia, pelo trabalho de seus estúdios. O filme é cem por cento bom em sua fotografia e gravação. O ambiente bem decorado, se bem com pouca variedade.” (Paulo Lavrador, A Nação, 17 de setembro de 1936)
“(...) Mesmo sendo um filme de linha, despretensioso, embora de assunto fantástico, pode-se considerar O Jovem Tataravô um dos melhores filmes brasileiros que já vimos. (...) A história é interessantíssima e sua adaptação agrada bastante. A direção de Luiz de Barros é também agradável. (...) É mais cinematográfico e agrada muito mais. Na interpretação gostosa de Cazarré (na tela, o mesmo artista sincero do palco e uma magnífica aquisição do cinema), Marcel Klass, Dulce Weytingh, Lygia Sarmento, Manoelino Teixeira e Manoel Rocha. (...) O Jovem Tataravô surpreende a muita gente.” (P.R., Correio da Noite, 17 de setembro de 1936)
“Num leilão, com uma caixa, Menezes arremata certo papel com certa oração poderosa (fazia voltar ao mundo o mais enterrado dos mortos). Organiza-se uma sessão, estabelecendo-se a corrente, invoca-se e zás: surge o tataravô de Menezes, o que logo mais, barbeado, penteado e metido em fatiotas bem lançadas, se mete a conquistas, cai numa farrinha e até a aviação se entrega! A audácia do jovem tataravô, que chegou ao cúmulo de enredar no amar sua própria bitataraneta, leva seu ‘inventor’ a recorrer à macumba para devolvê-lo ao nada. Consegue-o, para o alívio de todos, principalmente do noivo.” (Cine-Repórter, nº 125, 1936)
“(...) bem conduzido e com diálogos, versos e ‘bolas’ muito felizes. Música: encantadora! Sem exceção de um só número de sua música, a partitura do filme é maravilhosa, destacando-se entre os números a canção final do cabaré. Gravação, sonora! A melhor que já se fez no Brasil e, diga-se (mas para dizer pouco), poderia ter ido aos Estados Unidos para voltar de lá com a classificação de perfeita. Impressões da platéia; muito boa. Desde o primeiro dia, até hoje, o público deu sempre gostosas gargalhadas e sempre nas mesmas ‘bolas’. Presencamos, realmente, em várias sessões, o público rindo a valer. O filme agradou inteiramente. Este agrado se justifica - boa música, bom som, bom enredo, artistas discretos, fotografia boa em geral.” (W.S., Imparcial, 1 de setembro de 1936)
“O Jovem Tataravô, tal como está, na tela do Odeon, com os seus defeitos e virtures, é um filme nacional que se impõe. E, estando muito acima da mediocridade, é um trabalho que enche de justificado orgulho e patriotismo a qualquer fã brasileiro, que encontra, neste celulóide, o testemunho insofismável, indiscutível, de que o nosso cinema evoluiu com uma rapidez extraordinária. (...) Em matéria de fotografia e som, O Jovem Tataravô representa a ‘Autêntica Vitória da Cinédia’, pois ‘Ainda Não Vimos Nada Melhor’. A fotografia, principalmente, é de uma nitidez que surpreende. (...) Em primeiro plano coloco, pela naturalidade cinematográfica com que atuam, Darcy Cazarré, Lygia Sarmento e Carlos Frias, este o verdadeiro primeiro galã que o cinema brasileiro encontrou. (...) A direção de Luiz de Barros é bem apreciável. O argumento de Gilberto de Andrade é magnífico e esplêndido de comicidade. É fator seguro de êxito.” (Alfredo Sade, A Batalha, 16 de setembro de 1936) “Um novo filme brasileiro e, tomado de um modo geral, na minha opinião, o melhor de quantos têm sido apresentados até agora. É, já, um trabalho que não envergonha, que pode ser visto, porque não desagrada. Há a distinguir nele três ‘motivos’: o que diz respeito à sua técnica material; o da sua interpretação e direção e o enredo. Quanto a sua feitura material, teçamos loas à Cinédia, pelo trabalho de seus estúdios. O filme é cem por cento bom em sua fotografia e gravação. O ambiente bem decorado, se bem com pouca variedade.” (Paulo Lavrador, A Nação, 17 de setembro de 1936)
“(...) Mesmo sendo um filme de linha, despretensioso, embora de assunto fantástico, pode-se considerar O Jovem Tataravô um dos melhores filmes brasileiros que já vimos. (...) A história é interessantíssima e sua adaptação agrada bastante. A direção de Luiz de Barros é também agradável. (...) É mais cinematográfico e agrada muito mais. Na interpretação gostosa de Cazarré (na tela, o mesmo artista sincero do palco e uma magnífica aquisição do cinema), Marcel Klass, Dulce Weytingh, Lygia Sarmento, Manoelino Teixeira e Manoel Rocha. (...) O Jovem Tataravô surpreende a muita gente.” (P.R., Correio da Noite, 17 de setembro de 1936)
domingo, 4 de julho de 2010
Fantaspoa: Curtas Nacionais de Ação
Um Animal Menor
Cortejo Negro
Mapa-Múndi
O Nome do Gato
Ouroboros
Os Sete Trouxas
sábado, 3 de julho de 2010
Fantaspoa: Curtas Nacionais de Animação
Abracadabra
Os Anjos do Meio da Praça
Bob Mosca
Josué e o Pé de Macaxeira
O Jumento Santo na Cidade Que Se Acabou Antes de Começar
A Última Noite
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domingo, 27 de junho de 2010
Mangue Negro no Canal Brasil
A legião de admiradores de Mangue Negro tem mais um motivo para festejar: o filme estréia hoje no Canal Brasil, às 22h30, com reprise na madrugada do dia 29, em verdadeiro horário de zumbi, às 4h30. Para quem apostou no filme como o representante de uma nova maneira de se fazer cinema no Brasil (e o melhor: cinema de gênero!), essa é outra grande conquista. Por mais que a gente valorize outros bravos realizadores amadores que se dedicam ao gênero com produções feitas aos trancos e barrancos, existe um abismo entre o talento artístico de Rodrigo Aragão e todos os demais. Pelo menos por enquanto. Torcemos sempre para que surjam novos talentos.
Não tenho certeza, mas acredito que seja a primeira vez que chega à telinha do Canal Brasil um filme de ficção praticamente amador (não podemos usar o termo ‘cinema independente’ em nosso precário cenário nacional, onde quase tudo é independente!).
A chegada do filme à programação da TV por assinatura foi devidamente registrada nas páginas da revista Monet, numa excelente matéria assinada por Dafne Sampaio, a qual reproduzo nesta postagem. Quem ainda não viu Mangue Negro, esta é mais uma ótima oportunidade de se conhecer a auspiciosa estréia de Rodrigo no longa-metragem, enquanto aguardamos o lançamento do igualmente promissor A Noite do Chupacabras.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Ensaio Sobre a Cegueira (2008)
Homenagem a José Saramago (1922-2010).
Na minha opinião, este é uma espécie de filme de zumbi disfarçado, mais cerebral do que visceral, mas ainda assim um exemplo das possibilidades do horror no cinema. Não que muita gente concorde comigo, mas isso é outra história. O português José Saramago escreveu o livro em 1995 e foi premiado com o Nobel de Literatura em 1998. A adaptação de Fernando Meirelles leva às telas a história de uma inexplicável epidemia de cegueira, altamente contagiosa, que atinge inúmeras pessoas de uma metrópole indefinida. Os infectados são recolhidos a abrigos, onde são precariamente alimentados e cuidados, e para onde mais vítimas são enviadas a cada dia. Uma mulher imune ao contágio diz estar cega para ficar em quarentena com o marido infectado, sendo a única pessoa no local capaz de enxergar. É dramático e apocalíptico, às vezes assustador e cruel, mas também esperançoso, uma parábola sobre o desmoronamento da sociedade a partir de uma fraqueza humana.
sábado, 5 de junho de 2010
Quem Tem Medo da Verdade? (1970): Grande Otelo
Quem viu O Despertar da Besta (ou Ritual dos Sádicos), a obra-prima metalinguística realizada em 1970 por José Mojica Marins, certamente se lembra do trecho no qual aparece o cineasta sendo julgado no programa de TV Quem Tem Medo da Verdade?, um autêntico lixo televisivo que nos faz pensar duas vezes antes de dizer que temos saudades dos “bons tempos” da televisão, ou que o sensacionalismo invadiu as telinhas brasileiras apenas recentemente.
O programa foi ao ar entre os anos de 1968 e 1971, exibido pela TV Record, e tinha como proposta a presunção de julgar ‘culpada’ ou ‘inocente’ alguma figura pública notória, acusando o sujeito dos mais absurdos crimes (que iam da irresponsabilidade social ao alcoolismo ou simplesmente um subjetivo mau gosto). Um júri de celebridades era convidado a cada programa para dar o veredito final, entre eles a figura odiável de Sílvio Luiz, que funcionava como o provocador oficial do programa, tendo como única missão ofender e agredir verbalmente os convidados. Resumindo, alguém que assumia seu péssimo caráter, um instrumento que se sujeitava ao sensacionalismo barato neste veículo concebido única e exclusivamente para dar audiência.
O programa era produzido e dirigido por Carlos Manga, que era também o apresentador, na posição patética de presidente do júri. Ultrajante, humilhante e inaceitável, Quem Tem Medo da Verdade? infelizmente serviu de escola para todo o lixo que invade a televisão nos dias de hoje, descendo ao nível de programas como o de Luciana Gimenez e outros que afortunadamente sequer sei da existência.
O episódio postado aqui coloca no banco dos réus ninguém menos do que Grande Otelo, que durante mais de duas horas foi esculhambado publicamente, acusado de alcoolismo e de ter sido negligente com seus compromissos profissionais e sociais, inclusive de ter agredido homens e mulheres devido ao seu vício. No júri estão celebridades como o atleta Adhemar Ferreira da Silva e o compositor Adoniran Barbosa, além de Clécio Ribeiro e Paulo Azevedo, que fazem companhia a Sílvio Luiz no papel de ofender o convidado, o suposto ‘réu’, num desavergonhado festival de hipocrisia.
O episódio postado aqui coloca no banco dos réus ninguém menos do que Grande Otelo, que durante mais de duas horas foi esculhambado publicamente, acusado de alcoolismo e de ter sido negligente com seus compromissos profissionais e sociais, inclusive de ter agredido homens e mulheres devido ao seu vício. No júri estão celebridades como o atleta Adhemar Ferreira da Silva e o compositor Adoniran Barbosa, além de Clécio Ribeiro e Paulo Azevedo, que fazem companhia a Sílvio Luiz no papel de ofender o convidado, o suposto ‘réu’, num desavergonhado festival de hipocrisia.
Grande Otelo teve a defesa realizada pelo diretor José Carlos Burle, um dos grandes nomes do cinema brasileiro, fundador da companhia Atlântida e realizador de Moleque Tião (1943), filme - hoje considerado perdido - que marcou a estréia de Grande Otelo como protagonista nas telas. Mesmo diante da brilhante defesa de Burle, que destaca o valor de Otelo como artista acima de tudo, o ator foi condenado por seis votos a dois. Talvez seja melhor não levar tão a sério toda essa idiotice e ficar com a inspirada frase final de Adoniran Barbosa ao defender o colega de copo: “Absolvo porque ele é um grande artista e um grande amigo meu e daqui a pouco nós vamos sair por aí tomar umas e outras juntos”.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Embrujada (1969)
Esta é a melhor cena de horror do filme Embrujada, co-produção Argentina-Brasil estrelada pela [preencha este espaço com seu superlativo preferido para espécimes humanos do sexo feminino] Isabel Sarli. O filme foi exibido há alguns anos, em sua versão original, no saudoso canal Retrô, como Enfeitiçada. Desconfio que esta cena não existe na versão brasileira, exibida nos cinemas como Mulher Pecado, com dez anos de atraso e uma trama que - segundo as fontes da época - é completamente diferente. No lugar da curiosa lenda do Pombero, uma entidade demoníaca que se manifesta quando ‘La Coca’ Sarli apronta suas safadezas, a remontagem brasileira insere uma desinteressante trama de contrabandistas ambientada na fronteira do Paraguai. Também acrescenta cenas com Teresa Sodré, outro prejuízo.
O diretor Armando Bo é considerado uma espécie de Russ Meyer dos pampas. Não é difícil entender por que. Inspiração e matéria-prima ele tinha em casa, pois era casado com Sarli. O galã de quase todos os filmes estrelados por ela era Victor Bo, nada menos do que filho de Armando. (Pausa para reflexão...)
Pois é... Bem, voltando ao mundo real... quase todos os filmes do casal eram vetados sumariamente na Argentina, censurados no Brasil e faziam sucesso no circuito alternativo de Nova Iorque e em outros paraísos dos raincoaters. A intelectualidade militante da época adorava odiar as peripécias de Isabel Sarli, que foi descrita - com inequívoca elegância - como “provável símbolo sexual para quem ganha menos de três salários mínimos” por um crítico do Jornal da Tarde.
Pombero revivido
A maquiagem do endemoniado Pombero no filme não é nenhum primor de efeitos especiais, mas se tornou cult o bastante para que um maluco argentino que trabalha desenvolvendo máscaras de monstros recriasse a entidade, que aparecerá num vídeo musical da banda de psychobilly Los Tolchocos. Confira aqui como ficou a bizarra máscara pintada e finalizada (são as mesmas imagens acima), e aqui para ver o making of dessa inusitada empreitada.
Pois é... Bem, voltando ao mundo real... quase todos os filmes do casal eram vetados sumariamente na Argentina, censurados no Brasil e faziam sucesso no circuito alternativo de Nova Iorque e em outros paraísos dos raincoaters. A intelectualidade militante da época adorava odiar as peripécias de Isabel Sarli, que foi descrita - com inequívoca elegância - como “provável símbolo sexual para quem ganha menos de três salários mínimos” por um crítico do Jornal da Tarde.
Pombero revivido
A maquiagem do endemoniado Pombero no filme não é nenhum primor de efeitos especiais, mas se tornou cult o bastante para que um maluco argentino que trabalha desenvolvendo máscaras de monstros recriasse a entidade, que aparecerá num vídeo musical da banda de psychobilly Los Tolchocos. Confira aqui como ficou a bizarra máscara pintada e finalizada (são as mesmas imagens acima), e aqui para ver o making of dessa inusitada empreitada.
terça-feira, 2 de março de 2010
Juvenília (1994)
Antes do advento do DVD e - principalmente - da internet, curtas-metragens ficavam restritos a uma pequena camada de cinéfilos, quase sempre estudantes de audiovisual. O restante nem sabia da existência desses filmetes, ou só ouviam falar a respeito, sem saber onde encontrá-los. Não é exagero dizer que a história do curta-metragem brasileiro ainda precisa ser devidamente contada. Para deixar minha contribuição nessa difícil empreitada, quero resgatar aqui um dos curtas nacionais mais impactantes que já tive o privilégio de assistir (na sala de cinema, onde seu efeito é ainda mais devastador!): Juvenília, escrito, produzido, dirigido e montado por Paulo Sacramento em 1994. Sacramento é diretor do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), produtor de Encarnação do Demônio (2008) e o mais premiado (e requisitado) montador do atual cinema brasileiro.
Há alguns anos, Juvenília foi motivo de polêmica numa lista de discussão da qual eu fazia parte, com os argumentos se limitando à questão do direito (ou não) de se matar um animal para fazer arte. Espero estar elevando a discussão com esta postagem, tentando ver além desse detalhe e buscar a essência do filme. Tenho certeza que Juvenília continua chocando e causando polêmica (duvido que esta não seja uma de suas propostas), mas espero que a oportunidade de (re)ver o filme possa melhorar as argumentações. Fica o aviso àqueles que ainda não conhecem o curta: Juvenília tem cenas explícitas de violência contra um cachorro. Quem não tiver estômago forte, é melhor nem assistir ao curta!
O filme, totalmente narrado por stills em preto e branco, mostra um grupo de jovens que, sem qualquer motivo aparente, decidem espancar um cachorro. O elemento chocante, até mesmo revoltante, é a maneira casual com a qual se dedicam à tarefa, rindo e se divertindo com a brincadeira. Como toda obra de arte, o curta é aberto a interpretações (muitas das que eu li são completamente desprovidas de inteligência), mas para mim é o retrato perfeito da doom generation, dos jovens tomados pelo tédio e pela absoluta falta de objetivos - algo como a ressaca pós-grunge. Um rebelde que golpeia o vácuo, sem sequer saber o motivo de sua explosão de violência.
A cópia do curta disponível aqui, via YouTube, foi retirada de um surrado VHS. Está em péssimas condições, mas plenamente assistível. O próprio Sacramento não tem uma cópia melhor, pois o curta nunca foi transferido para o formato digital. Até que isso seja providenciado, o vídeo quebra o galho. A seguir, uma breve entrevista que fiz este final de semana com o cineasta para contar um pouco sobre seu filho mais controverso.
Qual foi o processo usado para a realização de Juvenília? Foram feitas as fotografias e depois transferidas para 35 mm?
Sim, fizemos primeiramente um storyboard bem detalhado, e a partir dele encenamos com os atores e fotografamos ao invés de filmar. Uma vez batidas, reveladas e ampliadas as fotos, eu as filmei de uma maneira bem tosca, em VHS mesmo. Fui para uma ilha de edição de corte seco (VHS!!) e fiz um rascunho da montagem. Uma vez feito esse trabalho, minutei os tempos que precisava, filmei as ampliações das fotos em um table-top, que é basicamente uma câmera 35mm de cinema presa em um trilho vertical, apontada para uma base onde se prendem fotografias ou desenhos. É o equipamento usado (ou melhor, era!) para qualquer filme de animação. Essa montagem prévia no VHS foi fundamental pois tínhamos apenas duas latas de 35mm, ou seja, menos de 9 minutos de material virgem. Como o filme finalizado teria 7 minutos, veja o aperto! Bom, depois do table-top, revelamos o filme e fui para uma moviola já com o magnético transcrito para fazer a montagem. Era assim antes do advento da tecnologia digital, hoje seria tudo bem mais fácil e barato!
O filme causa incômodo no espectador por mostrar jovens saudáveis e alegres cometendo um ato abominável. Qual é a mensagem que o curta quer passar?
O filme causa incômodo no espectador por mostrar jovens saudáveis e alegres cometendo um ato abominável. Qual é a mensagem que o curta quer passar?
Como diria o Orson Welles, um filme morre quando vira veículo de uma mensagem. Não há moral da história, mas um sentimento muito forte que o filme provoca. Ele faz o espectador pensar, utilizando-se do cinema e da violência como um anti-espetáculo, algo realmente terrível. Ao final do filme, há uma quebra decisiva de perspectiva. Está claro que não estamos ao lado da barbárie.
Como foram realizadas as cenas de esquartejamento e evisceração do cachorro? O animal foi morto durante as filmagens?
Como foram realizadas as cenas de esquartejamento e evisceração do cachorro? O animal foi morto durante as filmagens?
Tínhamos um sério problema para realizar esse filme. Como mexeríamos com vísceras de um animal, havia a possibilidade de contaminar a equipe e o elenco com raiva, uma doença horrível. Um cachorro só transmite a raiva nos últimos dias de sua doença, então ele morre. Quando um cachorro morde uma pessoa, ele é preso e posto de quarentena. Se ele morrer nos três dias seguintes à dentada, o caso é grave. A pessoa vitimada deve então tomar injeções fortes e perigosíssimas. Se o cachorro não morrer, não há necessidade, pois ele não está contaminado. Como nosso cachorro estaria já morto, não poderíamos ter certeza se ele estava doente ou não. Por isso tivemos que arrumar um animal em um canil em uma cidade próxima, onde não haviam registros de raiva nem em cachorro nem em morcegos há cinco anos. Os canis funcionavam assim: um cachorro era recolhido da rua e ficava três dias esperando que alguém reclamasse por ele. Se ninguém o procurasse, após três dias ele era sacrificado. Por dia aconteciam de 5 a 10 sacrifícios nesse canil que eu visitei. Eles apoiaram a realização do filme e eu pude escolher um entre os corpos eliminados naquele dia. Foi com esse corpo que filmamos, já morto portanto. Ah, sim, a presença do cachorro na filmagem era muito desagradável, ainda mais depois de seu ventre aberto. Muitos atores se recusaram a colocar as mãos ali dentro e eu mesmo tive que fazê-lo nos planos fechados!
A trilha sonora é uma faixa do disco Ummagumma, do Pink Floyd. Por que escolheu essa música?
A trilha sonora é uma faixa do disco Ummagumma, do Pink Floyd. Por que escolheu essa música?
A faixa chama-se “A Saucerful of Secrets”. No disco Ummagumma tem a versão ao vivo, que utilizamos. Era fundamental para minha concepção os aplausos finais. Tive a idéia desse filme ouvindo essa música e acho que ela se encaixa à perfeição com o que eu queria. Lembrando que o filme é praticamente um video-clip, não tem diálogos ou qualquer edição de som acrescentada à faixa. Bem, a música não é creditada por motivos óbvios!
A tomada final, na minha opinião, é o momento mais poderoso do filme, devido à longa exposição da imagem do cãozinho. Isso me lembrou o estilo de Werner Herzog, que costuma inserir cenas parecidas em seus filmes, chegando a deixar o espectador desconcertado. Em Juvenília, temos tempo de pensar que o cãozinho será a próxima vítima do grupo, ou que ele é mais civilizado do que o Homem, ou que vai vingar a morte do outro cachorro... O que, afinal, significa esta última cena?
A tomada final, na minha opinião, é o momento mais poderoso do filme, devido à longa exposição da imagem do cãozinho. Isso me lembrou o estilo de Werner Herzog, que costuma inserir cenas parecidas em seus filmes, chegando a deixar o espectador desconcertado. Em Juvenília, temos tempo de pensar que o cãozinho será a próxima vítima do grupo, ou que ele é mais civilizado do que o Homem, ou que vai vingar a morte do outro cachorro... O que, afinal, significa esta última cena?
Nunca tinham feito essa comparação com o Herzog, que muito me honra. Para mim ele é o maior diretor de cinema vivo do mundo, penso que ninguém nunca foi tão longe quanto ele. Bem, o tempo de exposição desse plano é fundamental. O filme não se completa, ele recusa-se a acabar, ele obriga o espectador a ter uma reação, a tomar uma posição. Após a música encerrar, ainda faço um ou dois zooms, em silêncio, rumo ao cachorrinho. Está claro, ele somos nós, os espectadores, as testemunhas dessa história. Essa última foto foi dirigida pela Debora Waldman, que desenhou também o storyboard. Nessa hora eu estava na delegacia mais próxima, prestando esclarecimentos, pois um morador do entorno do set de filmagem (a sede atual da Cinemateca Brasileira, antigo Matadouro Municipal) nos denunciou. E a polícia que veio nos prender foi a mesma que havíamos solicitado para fazer o isolamento da área, mas que não compareceu alegando “falta de efetivo”!!!
Como foi a recepção do curta nos festivais em que foi exibido?
Como foi a recepção do curta nos festivais em que foi exibido?
Foi super mal exibido em festivais brasileiros na época, embora tenha se tornado muito conhecido nos bastidores, na classe cinematográfica. No exterior, ao contrário, ele foi exibido em uns 40 países e ganhou prêmios bem importantes na Itália e na Alemanha. Mas o maior deles foi o de Melhor Filme no festival Rencontres Internacionales Henri Langlois, na França, um dos mais renomados festivais de escolas de cinema do mundo. Para se ter uma idéia, no júri estavam, entre outros, a Bulle Ogier (atriz de O Discreto Charme da Burguesia) e a Caroline Champetier (fotógrafa de diversos filmes do Godard). Foi muito foda. Mas aqui no Brasil eu fiquei estigmatizado e levei sete anos até conseguir fazer outro filme!
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Banquete de Taras (1982) e As Taras do Mini Vampiro (1987)
Vampiros, esses coitados, não têm vez no cinema brasileiro. Não estou dizendo que os chupadores noturnos não tenham mostrado em nossas telas seus dentes pontiagudos, suas capas esvoaçantes e sua insaciável sede de sangue. Mostraram sim, e em quantidade (ainda que nem sempre em qualidade), mas quase nunca foram levados a sério. Parece que nossos cineastas já decidiram que vampiro não assusta em cenários tropicais.
Obras kine-cômicas como Um Sonho de Vampiros, Olhos de Vampa, As Sete Vampiras e o irreverente Nosferato no Brasil - estes dois últimos assinados pelo esculhambador-mór Ivan Cardoso - se encarregaram de aniquilar quaisquer rastros do poder apavorante dos vampiros de antanho. Sob nosso calor tropical, Bela Lugosi não apenas is dead; neste rincão onde se plantando tudo dá, ele foi sumariamente enterrado e serviu de adubo para comédias que trataram de humilhar a figura clássica do desmorto.
Banquete de Taras
Talvez essa nem seja a principal intenção deste horror erótico dirigido por Carlos Alberto Almeida e lançado em 1982, mas garanto que você não vai levar Banquete de Taras a sério depois de assistir os primeiros cinco minutos. A premissa é clássica e o filme até pega emprestado alguns elementos góticos de obras estrangeiras: começa com a chegada a Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, de um estranho homem vestido de preto. Ele visita a mansão de Vladmir Vladislav, um jovem escultor que leva mais uma vida de playboy do que a de um artista plástico. O visitante revela que está no Rio de Janeiro para cuidar dos planos de além-túmulo de um ancestral do escultor, um conde vampiro morto há mais de 500 anos na Transilvânia. O tal conde continua vivo em espírito e precisa de sangre fresco para renascer. O plano é tão simples quanto canalha: para saciar a sede de sangue do titio, Vladmir deve fazer sexo com quatro mulheres diferentes em quatro noites seguidas de lua cheia. O rapaz acha bem razoável a proposta, não faz qualquer objeção e as orgias logo começam.
A melhor idéia do filme são as mulheres que, depois de serem possuídas sexualmente pelo escultor, são transformadas em estátuas de pedra que passam a decorar o jardim de sua mansão. A referência direta, obviamente, é o clássico O Moinho das Mulheres de Pedra (1960), dirigido pelo italiano Giorgio Ferroni, mas o filme é conduzido de maneira tão pouco imaginativa que mesmo detalhes assim acabam se perdendo. Completa a bagunça uma trilha sonora que mistura indistintamente Ravel, Roberto Carlos, Rick Wakeman, Pink Floyd e Bernard Herrmann.
Para quem se contenta com um punhado de cenas de sexo softcore, Banquete de Taras pode até divertir um pouco, no sentido ‘sala-especial’ de diversão. Porém, mesmo seu erotismo é contestável: a cena de abertura fica entre o hilário e o grotesco, quando o emissário do conde usa seu incrível poder hipnótico para induzir uma mulher mais velha (e não muito atraente) a se masturbar dentro do ônibus! Entretanto, nada provoca mais risos incontroláveis do que o ridículo Newton Couto posando como uma versão barata de Christopher Lee, com a diferença de ter feições mais engraçadas do que assustadoras - e muitos centímetros a menos em estatura. Aliás, falando nisso, já estamos prontos para falar de nosso próximo exemplar...
As Taras do Mini Vampiro
Aproveitando a visita do grande corintiano Diogenes ao blog (o legal desse formato é que podemos chamar pelo nome a maioria dos leitores!), vou comentar um filme bônus: nada menos do que o cult trash As Taras do Mini Vampiro (1987), dirigido por José Adalto Cardoso. O Diogenes sempre propagou aos quatro ventos que é fã do filme, e principalmente de seu diminuto astro, o anão Chumbinho, protagonista também do pornô bad-trip Fuk Fuk à Brazileira (1986), que Jean Garrett assinou sob o esperto pseudônimo J.A. Nunes; então está feita a homenagem ao amigo!
Tudo que ficava no quase no filme comentado anteriormente chega às últimas consequências em As Taras do Mini Vampiro. O humor, desta vez, é escrachado, e o sexo, tão explícito quanto é possível imaginar. No mau sentido. Aquele explícito grosseiro, feio, desagradável, capaz de disassociar erotismo de pornografia (eu, ao contrário de muita gente, acredito que pornografia é essencialmente erótica, mesmo quando seu foco principal são closes genitais).
O filme acompanha as desventuras do personagem do título, um horrendo anão vampiro que ataca casais (e, às vezes, trios) em seus momentos de intimidade. A trama é ambientada em Batatal, uma pacata cidadezinha do interior, e logo a grotesca criatura vai parar na primeira página dos jornais e atrai a atenção de políticos oportunistas e um excêntrico caçador de vampiros, interpretado por Renalto Alves. É fácil demais apontar os defeitos no filme, pois eles são muitos, porém é muito mais interessante vasculhar seus méritos. Os momentos de humor às vezes funcionam: impossível resistir, por exemplo, à safadeza do prefeito da cidadezinha, que quer a todo custo tirar proveito da situação para fazer com que Batatal fique conhecida nacionalmente. A cena do vampiro arrastando seu caixão pelo campo tem algo de trágico, macabro e poético, mas é melhor eu não comparar com a tomada semelhante que aparece em Nosferatu, o Vampiro da Noite (1979), de Werner Herzog...
A conclusão que podemos chegar é que As Taras do Mini Vampiro é algo que só pode ser devidamente apreciado por alguém com gosto adquirido pela coisa. É para os iniciados, para quem experimentou sangue e quer mais, mais, mais!
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
O Lobisomem de Gedeone Malagola e Nico Rosso
O Lobisomem vem aí, então não há momento melhor do que este para relembrarmos o melhor exemplar brasileiro sobre o tema. Desta vez não me refiro a cinema, apesar de o Brasil ter algumas interessantes contribuições ao imaginário licantropo na sétima arte, mas sim às histórias em quadrinhos. Portanto, quero aproveitar esta ocasião para homenagear o roteirista e desenhista Gedeone Malagola, um dos gigantes das HQs em nosso país, criador do conde lobisomem Louis Von Boros. Tive o privilégio de conhecer o Gedeone, que morava aqui em Jundiaí, não muito longe da minha casa, e é uma pena que não pudemos tocar nenhum projeto juntos. Durante minha breve passagem pelo jornal Bom Dia, escrevi o obituário do Gedeone. Foi uma honra e uma grande tristeza, pois eu acompanhava, à distância, os problemas de saúde que ele enfrentava no fim da vida, confinado à cadeira de rodas e sem poder sequer ter acesso à coleção de quadrinhos que ele tanto amava, que ficava numa parte da casa praticamente inacessível para ele.
As primeiras histórias do Lobisomem de Gedeone foram publicadas por volta de 1963. As três edições que reproduzo aqui são da segunda fase do personagem, de 1974, com desenhos do genial Nico Rosso, o melhor desenhista dos quadrinhos brasileiros de horror, ilustrador das HQs clássicas de Zé do Caixão. A arte-final é de Kazuhiko, assistente de Rosso. São reedições da editora Ninja e estou postando esses quadrinhos para divulgar um pouco mais o trabalho desses pioneiros do horror em nosso país, pois acho que eles ainda são pouco comentados, mesmo entre os aficionados pelo tema.
As primeiras histórias do Lobisomem de Gedeone foram publicadas por volta de 1963. As três edições que reproduzo aqui são da segunda fase do personagem, de 1974, com desenhos do genial Nico Rosso, o melhor desenhista dos quadrinhos brasileiros de horror, ilustrador das HQs clássicas de Zé do Caixão. A arte-final é de Kazuhiko, assistente de Rosso. São reedições da editora Ninja e estou postando esses quadrinhos para divulgar um pouco mais o trabalho desses pioneiros do horror em nosso país, pois acho que eles ainda são pouco comentados, mesmo entre os aficionados pelo tema.
A primeira história foi reeditada em julho de 2002 num álbum de luxo lançado em tiragem limitada pela Opera Graphica, mas, curiosamente, uma página foi suprimida na nova versão (é uma página onde só rola sexo, não me perguntem por que cortaram!), então aqui vocês podem conferir a HQ na íntegra. Espero que apreciem este pequeno regalo e prestigiem nosso saudoso Gedeone em tempos de lua cheia.
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