Já dizia aquela impagável paródia do conde vampiro: Dracula sucks! Estava dia desses folheando o livro V Is for Vampire: The A-Z Guide to Everything Undead (1996), de David J. Skal, e encontrei uma observação deveras curiosa que quero compartilhar aqui com vocês. Vejam só o comentário do autor no verbete fellatio, depois de ponderar diversas implicações diretas ou indiretas entre vampirismo e sexo oral: “Quando assistida corretamente, até mesmo a indigesta versão cinematográfica de Drácula de 1931 contém algumas surpresas de, digamos, cair o queixo. Renfield, o raivoso servo de Drácula, apesar de ter sido mordido pelo conde, não apresenta qualquer marca, pelo menos não no pescoço. Durante a viagem marítima rumo à Inglaterra há uma tomada muito interessante, quando Renfield abre o caixão do vampiro: certamente alguém deve ter percebido que quando Drácula se senta, seu rosto vai diretamente às calças de Renfield - como que ávido por um burrito cheio de sangue para o café-da-manhã”. O vídeo está aí para cada um tirar suas próprias conclusões: does Dracula really suck?
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Drácula (1931)
Já dizia aquela impagável paródia do conde vampiro: Dracula sucks! Estava dia desses folheando o livro V Is for Vampire: The A-Z Guide to Everything Undead (1996), de David J. Skal, e encontrei uma observação deveras curiosa que quero compartilhar aqui com vocês. Vejam só o comentário do autor no verbete fellatio, depois de ponderar diversas implicações diretas ou indiretas entre vampirismo e sexo oral: “Quando assistida corretamente, até mesmo a indigesta versão cinematográfica de Drácula de 1931 contém algumas surpresas de, digamos, cair o queixo. Renfield, o raivoso servo de Drácula, apesar de ter sido mordido pelo conde, não apresenta qualquer marca, pelo menos não no pescoço. Durante a viagem marítima rumo à Inglaterra há uma tomada muito interessante, quando Renfield abre o caixão do vampiro: certamente alguém deve ter percebido que quando Drácula se senta, seu rosto vai diretamente às calças de Renfield - como que ávido por um burrito cheio de sangue para o café-da-manhã”. O vídeo está aí para cada um tirar suas próprias conclusões: does Dracula really suck?
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Wolfblood: A Tale of the Forest (1925)
Para celebrar a estréia mundial da refilmagem do clássico The Wolf Man, trago para vocês o mais antigo longa-metragem de lobisomem que se tem conhecimento. Wolfblood: A Tale of the Forest (1925) é um melodrama mudo estadunidense inspirado em lendas sobre o Loup Garou, ambientado nas profundezas das florestas canadenses, onde duas companhias rivalizam na produção de madeira. Quando o administrador de uma das madeireiras é gravemente ferido numa briga, o médico que o atende salva sua vida fazendo transfusão usando sangue de lobo. O homem então passa a ter medo de se transformar em lobisomem. O filme é uma relíquia histórica que deve interessar somente a quem gosta de conhecer produções dos primórdios do cinema. A narrativa é simplista e convencional, praticamente desprovida de elementos horroríficos.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
You Asked for It: Bela Lugosi (1952)
Raríssima aparição de Bela Lugosi na televisão, num episódio do programa You Asked for It, no qual os telespectadores escolhiam por carta as atrações que gostariam de ver no ar. Mais uma vez com suas vestimentas de Drácula, o veterano Lugosi levanta-se do caixão e participa do programa realizando um breve número de ilusionismo, transformando uma bela moça num morcego vampiro.
A beldade em questão é Shirley Patterson, aspirante a estrela que acabara de fazer um papel menor no thriller em 3-D Second Chance, mas logo desapareceu como que num passe de mágica. Na entrevista final Lugosi anuncia seus próximos projetos: um filme em 3-D chamado Phantom Ghoul e a série de TV Dr. Acula, ambos jamais concretizados. E lembre-se: você pediu por isso!
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Convite à Morte (1978)
Hoje é dia de Super Bowl, o maior espetáculo esportivo da Terra! New Orleans Saints contra Indianapolis Colts. Como é...? O quê? Ah, sim... Cinéfilo odeia esportes, eu tinha esquecido. Especialmente futebol - mesmo quando a bola não é redonda. E rock’n’roll, pode? Pois tem show do The Who no intervalo, que tal? Classic rock de primeira grandeza! Errr... nem isso foi capaz de animá-lo? Então vamos voltar ao tema original deste blog e falar de um filme de horror com participação do veterano crooner desta noite.
Roger Daltrey tem uma carreira relativamente prolífica como ator, paralelamente à sua atividade como o homem que melhor faz girar microfones pelos palcos do mundo. Depois de estrelar os musicais Tommy (1975) e Lisztomania (1975) e antes de McVicar (1980), Daltrey fez uma pequena, porém enfática, participação no filme de horror Convite à Morte, em 1978. O ator-cantor posteriormente apareceria em outros filmes do gênero, como Vampirella (1996), uma produção de baixo orçamento baseada na curvilínea musa dos quadrinhos, e Príncipe das Trevas: A Verdadeira História de Drácula (2000), um drama histórico sobre Vlad Tepes, o tirano da Valáquia. Daltrey ainda interpretou um Diabo pop na série de TV Strange Frequency (2001), uma curiosa mistura de rock e horror.
A presença de Roger Daltrey em Convite à Morte (The Legacy), não obstante, é como touchdown no jogo de hoje: um mero detalhe. Ele basicamente interpreta a si próprio, um extravagante astro pop que sofre uma das mortes mais indignas já vistas num filme de horror: engasgado com comida. Katharine Ross e Sam Elliott - casados na vida real - são os verdadeiros astros do filme. Ela faz o papel de uma arquiteta americana contratada para um misterioso trabalho na Inglaterra, para onde ambos partem durante os créditos de abertura. Gosto muito do Sam Elliott (bem mais do que de Katharine, que parece sempre preocupada com algo), mas aqui ele definitivamente estraga o clima do filme com sua permanente cara de safado (ele parece o Harry Reems, de Garganta Profunda, em versão mais carismática).
Seguindo a tradição dos filmes ingleses de horror e mistério, praticamente toda a ação acontece numa suntuosa mansão, repleta de convidados extravagantes. Convite à Morte tem todos os elementos necessários para ser um baita clássico do horror setentista, com o argumento de Jimmy Sangster combinando conspiração satânica e um punhado de mortes sádicas e absurdamente inventivas - incluindo uma moça que se afoga na piscina quando fica presa numa barreira invisível e uma mulher que tem o corpo todo perfurado por estilhaços de um espelho. Tem até uma freira que se transforma em gato. Para sabotar tudo isso, temos o banal Richard Marquand (O Retorno de Jedi) cuidando da direção, imprimindo um inadequado ritmo de aventura e uma atmosfera de distante casualidade. Quanto à interação entre personagens, suspeitos e vítimas, ainda que peculiares, são tão superficiais quanto os peões do jogo de tabuleiro Detetive. A trilha sonora é outro grave equívoco, incluindo uma indigesta canção estilo balada discothèque, cantada por Kiki Dee, que acaba com qualquer resquício de seriedade. Ah, falando em música, já comentei que hoje tem show do The Who?!
ATUALIZAÇÃO: aí está o vídeo do The Who no Super Bowl. No mínimo, o melhor pocket-show do ano. Atenção para os raios laser: aparentemente é o mesmo equipamento que a banda emprestou para Ridley Scott usar no filme Alien, o 8º Passageiro (1979), na cena em que os astronautas descobrem os ovos alienígenas.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
As Garras do Mal (2001)
Cinco jovens amigos são convidados para uma rave e partem rumo ao local da festa, onde um deles pretende conseguir dinheiro vendendo drogas. A farra logo termina em briga e eles são expulsos do local. Na estrada, de volta para casa, socorrem uma moça que diz ter sido vítima de uma seita satânica cujos seguidores se autodenominam Sombras. Uma van passa a persegui-los em alta velocidade e os jovens sofrem um grave acidente. Eles conseguem escapar dos perseguidores e perambulam pela mata durante a noite, em busca de abrigo, e acabam matando alguns dos satanistas. Ao amanhecer, conseguem fugir e pedem ajuda num pacato vilarejo próximo.
A trama de As Garras do Mal (Devil’s Prey, 2001), lançado em DVD no Brasil como Sombras do Mal, é convencional em todos os detalhes, inclusive em suas surpresas absolutamente previsíveis. Logo de cara fica óbvio que a moça que eles socorrem é membro da tal seita satânica, por mais que ela se esforce em parecer vítima. Quando isso é revelado, muito mais tarde, não causa qualquer surpresa. Igualmente previsível é o papel de Patrick Bergin, um suposto pastor religioso que, com aquela cara de canalha, é incapaz de convencer qualquer cristão. Bergin tem alguma experiência como vilão no cinema (teve o privilégio de encarnar Drácula no ano seguinte), mas é difícil olhar para a cara dele e não lembrar de seu papel de cafajeste em Dormindo com o Inimigo, perseguindo a indefesa Julia Roberts num dos muitos thrillers com mulheres em perigo da década de 1990.
O saldo final desse As Garras do Mal é a mesma ladainha de sempre: aos pecadores é permitida apenas a redenção, mas mesmo assim eles devem ser punidos de maneira implacável, como acontece com o traficante de drogas e sua namorada promíscua. Por sua vez, o casal de namorados que demonstra mais responsabilidade e consciência social durante toda a história é misericordiosamente poupado de um destino mais trágico. O filme ainda guarda uma surpresa para o final, mas trata-se de um epílogo tão ridículo que só pode ser encarado como um deboche, uma brincadeira de mau gosto com o pobre espectador.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
O Casarão da Morte Negra (1966)
Fiquei devendo o comentário de mais um filme do Lon Chaney Jr., e mesmo que ninguém tenha cobrado, vou cumprir a promessa. Eu ia rever o mexicano La Casa del Terror (1960), um dos muitos filmes ruins de Lon Jr., mas decidi ver este raríssimo House of the Black Death (1966), exibido na TV brasileira como O Casarão da Morte Negra. Lon sem dúvida merece muito seu lugar entre os grandes nomes do cinema de horror, mas sua vida e carreira são um tanto trágicas demais. Depois do brilhareco efêmero como o lobisomem Lawrence Talbot nos filmes da Universal na década de 1940 e os exemplares da deliciosa cinessérie Inner Sanctum, sua carreira foi ladeira abaixo a partir do começo dos anos 1950. Chaney se tornou alcóolatra - alguns dizem que ele pegou gosto pela bebida durante as intermináveis sessões de maquiagem que tinha que enfrentar para virar monstro - e não são raras as ocasiões em que ele parece bêbado em cena. Um exemplo clássico disso é sua famigerada atuação na versão para a TV de Frankenstein.
O satanismo estava em alta quando O Casarão da Morte Negra foi realizado, mas isso não quer dizer que qualquer dos envolvidos necessariamente saiba o que está fazendo. Muito pelo contrário; é o tipo mais cafona de satanismo, com discípulos encapuzados e sacerdotisas clamando “Oh, Satanus!” com toda a pompa durante patéticos rituais de magia negra. Diante do desastre iminente, só nos resta curtir a desavergonhada exploração de belas senhoritas em danças sensuais. Nisso o filme acerta em cheio, e se hoje O Casarão da Morte Negra é uma espécie de cult movie, isso se deve muito mais à dança exótica da britânica Sabrina do que pelas presenças de Lon Chaney Jr. e John Carradine. Confira no vídeo abaixo o que o filme tem de melhor a oferecer.
A produção é de uma miséria flagrante e aparentemente o filme ficou engavetado até 1975, quando foi exibido na televisão estadunidense. O desempenho dos dois grandes veteranos do horror - que nunca aparecem em cena juntos - é risível mesmo em comparação ao baixo padrão que já haviam estabelecido à essa altura de suas respectivas carreiras. Lon Chaney Jr. ostenta uma barriga indecente e um ridículo par de chifres diabólicos, no papel de Belial DeSade, o líder dos satanistas, protagonizando os momentos mais constrangedores. John Carradine, surpreendentemente contido, é pouco aproveitado, o que lhe poupa de um bocado de embaraços. A trama é sobre um casal de doutores que chega a um vilarejo assolado por adoradores de Satã, onde o clássico confronto entre razão e superstição se interpõe às mortes misteriosas que ocorrem na região, atribuídas a um lobisomem. Maldições de família e um duelo entre feiticeiros rivais também são jogados no caldeirão desta indigesta produção de baixa qualidade.
Harold Daniels, realizador de carreira modesta, é o único diretor creditado, mas Reginald Le Borg e Jerry Warren (este sim, indubitavelmente, é o pior cineasta do mundo) também contribuiram com algumas cenas. O resultado final é uma colcha de retalhos que nunca convence, misturando indiscriminadamente lobisomens e culto satânico. Resumindo, uma confusão dos diabos!
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Caçadores de Mentes (2004)
Renny Harlin escreveu seu nome de maneira infame na história do cinema de horror ao dirigir aquela horrível prequel de O Exorcista em 2004, um raro caso de filme detestado unanimemente. No mesmo ano ele fez esta mistura de ação, suspense e horror, sem se definir por nenhum dos gêneros. Caçadores de Mentes (Mindhunters) é outro filme a mostrar a supostamente fascinante rotina dos agentes do FBI - depois de O Silêncio dos Inocentes e Arquivo X, esse parece o emprego dos sonhos de todo mundo que quer viver emoções fortes.
A trama acompanha o treinamento de um grupo de perfiladores (é desta maneira que a legenda traduz profiler, não sabia da existência dessa palavra), agentes policiais encarregados de traçar perfis dos assassinos mais perigosos para tentar antecipar seus passos antes que voltem a matar. O encarregado pelo grupo é interpretado por Val Kilmer, no breve papel de um agente durão e intolerante, que parece ter um prazer sádico de humilhar os alunos. Os treinandos são liderados por Christian Slater, outro que aparece pouco e é responsável pela única genuína surpresa do filme, pois é o primeiro a ser morto por um serial killer que se infiltrou no grupo disposto a eliminar um a um.
A premissa - pouco provável, mas esse é o menor dos problemas do filme - coloca os recrutas isolados numa ilha onde devem investigar uma série de crimes numa missão simulada. Porém, logo no primeiro cenário eles já descobrem que estão diante de homicídios bem reais, cometidos por um assassino metódico, com obsessão por detalhes. Relógios quebrados, estrategicamente posicionados, apontam o horário em que ocorrerá a próxima morte, então o objetivo dos sobreviventes - entre eles o rapper LL Cool J - é tentar impedir que o criminoso volte a agir. Cada morte é precedida por pistas enigmáticas que o assassino planta no local; mistérios absolutamente desinteressantes, de tão improváveis e absurdos. Uma dessas charadas é uma série infindável de números, que um dos agentes decifra como sendo a velocidade da luz. Isso significa que um deles será morto por luz; ou melhor, por lâmpadas elétricas que provocarão uma descarga de alta voltagem ao entrar em contato com a água. Perto disso, até as sádicas armadilhas de Jigsaw em Jogos Mortais parecem mais plausíveis.
No final das contras, Caçadores de Mentes não é um filme tão ruim dentro desse subgênero de serial killers, mas é indicado mais para quem gosta de mortes espetaculares, explosões, correria desenfreada e exibição generalizada de macheza - até as mulheres são do tipo que falam aos berros e empunham armas - do que propriamente aos apreciadores de uma boa trama de horror e mistério.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
O Monstro Elétrico (1941)
Lon Chaney Jr. é apenas mais um em meio a inúmeros astros de Hollywood com uma trajetória ao mesmo tempo fascinante e trágica. É também outro dos muitos artistas de talento limitado que devem aos filmes de horror sua popularidade perene e o renovado interesse por sua carreira. Basicamente, Chaney Jr. tem um único papel respeitável em sua trajetória fora do horror, como o simplório Lennie em Of Mice and Men (Carícia Fatal), de 1939, adaptado do celebrado livro de John Steinbeck.
Filho de um dos maiores astros do cinema mudo, o consagrado “homem das mil faces” Lon Chaney, responsável por caracterizações memoráveis como O Fantasma da Ópera e O Corcunda de Notre Dame, Lon Chaney Jr. não apenas relutou em seguir os passos de seu pai no horror, mas na própria carreira de ator, só entrando para o cinema depois da morte do pai. No início, fez papéis menores, aparecendo principalmente em faroestes, usando seu verdadeiro nome, Creighton Chaney. Acabou se rendendo aos filmes de horror, e à pressão dos produtores de usar o famoso nome paterno, no começo da década de 1940, quando acabou se tornando uma figura chave no segundo grande ciclo de filmes do gênero em Hollywood.
Todos conhecem o amadiçoado Lawrence Talbot que Chaney Jr. interpretou no clássico O Lobisomem (1941) e em todas as continuações produzidas pela Universal - e cujo remake vem aí, e tem tudo para ser muito ruim, a começar pelo diretor (Joe Johnston, cria de Lucas e Spielberg, assinou alguns dos piores blockbusters de ação e fantasia das duas últimas décadas). Portanto, para evitar o óbvio, escolhi comentar o filme que marcou a estréia de Chaney Jr. no horror, o relativamente obscuro O Monstro Elétrico (Man Made Monster), também realizado em 1941, com direção do mesmo George Waggner que logo em seguida voltou a trabalhar com o ator em O Lobisomem.
O filme inicialmente seria mais um veículo para colocar Karloff e Lugosi frente a frente, com um roteiro que reaproveita vários elementos de filmes de horror da época, em especial The Invisible Ray e Frankenstein. Chaney Jr. é um homem simplório e ingênuo - impossível não pensar novamente em seu Lennie de Carícia Fatal - que sobrevive a um grave acidente de ônibus, quando o veículo se chocou contra uma torre de alta tensão. Ele só resistiu ao choque porque está acostumado a receber descargas elétricas, trabalhando como atração de circo fazendo truques com faíscas e eletricidade.
Um respeitado cientista se interessa em realizar experiências com o rapaz, que aceita a oferta e se submete aos testes ingenuamente. Porém, todo cientista bom tem um assistente maluco; neste caso, Lionel Atwill no auge da vilanice. Sem que o patrão saiba, ele passa a submeter a cobaia humana a descargas cada vez mais fortes de eletricidade, até transformar o pobre Lon Chaney Jr. num ‘homem elétrico’, um homicida descontrolado que foge do laboratório e passa a matar - literalmente até que sua energia se descarregue.
O filme pode ser considerado apenas um clássico menor da Universal, histórico por marcar a estréia de Lon Chaney Jr. no horror, mas a produção é desleixada. O filme não se preocupa sequer em mostrar o personagem de Chaney Jr. desempenhando seus truques de circo: o filme já começa com a cena do acidente com o ônibus. O ator tem um de seus piores desempenhos - ele só descobriria seu registro ideal como o perturbado lobisomem, no mesmo ano - mas em compensação é sempre uma delícia ver Lionel Atwill em ação, devorando com voracidade seu papel de vilão.
Apesar de os créditos não fazerem qualquer referência a isso, é bem provável que o charmoso equipamento elétrico usado pelo cientista louco no laboratório - cheio de máquinas de soltar faíscas e raios - seja mais uma criação de Ken Strickfaden, cujas geniais engenhocas ficaram famosas a partir do clássico Frankenstein (1931). No final das contas, O Homem Elétrico é um filme de menor importância na história do horror, mas marcante por ter dado início à carreira de Lon Chaney Jr. no gênero e motivar o segundo grande ciclo de filmes americanos de horror.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Halloween II (2009)
Se quisermos analisar com seriedade e cuidado um filme como Halloween II (2009), antes de mais nada temos que nos questionar com o quanto de frescor e imparcialidade conseguimos ver um filme como esse - ou qualquer filme, de fato. É preciso não apenas nos livrarmos de quaisquer conceitos pré-estabelecidos do que seria - neste caso específico - um segundo capítulo da já bastante popular franquia do psicopata Michael Myers, mas acima de tudo nos despirmos o máximo possível da mania de querermos ver um filme do ponto de vista daquilo que gostaríamos que ele fosse, e não de como ele objetivamente é. Muitos textos que leio sobre filmes recentes são pouco instigantes, porque o autor se preocupa demais com o fator “gostei/não gostei”, e menos em tentar esmiuçar o que o filme é de fato, sobre os temas que ele trata e em que níveis isso acontece. Peço licença para ter essa pretensão ao falar de Halloween II.
Para começar, um pouco sobre o que achei do primeiro Halloween (2007) e dos demais filmes dirigidos por Rob Zombie. Apesar de tecnicamente bem feito e com algumas cenas violentas realizadas com talento, a refilmagem de Halloween comete o erro imperdoável de tentar justificar a psicopatia de Michael Myers, atribuindo sua maldade e deformidade de caráter ao meio ambiente decadente onde o menino vive: pai alcoólatra, mãe prostituta, vizinhança pobre... Um amontoado de clichês que violentaram e desrespeitaram a obra-prima de John Carpenter (o filme original de 1978, aposto que todo mundo viu...), cuja força reside justamente no fato de que não há explicação para aquilo em que se tranforma o pequeno Michael. Carpenter levou o horror ao último refúgio do sonho americano: os bucólicos subúrbios da classe média, com suas ruas arborizadas e vizinhança pacata. Michael Myers é uma pessoa tão normal que Carpenter se dá ao luxo de iniciar o filme com a visão subjetiva do assassino; é alguém tão comum que nós mesmos nos sentimos em seu lugar. E isso é perturbador.
Depois de uma bem-sucedida carreira no rock pesado, Rob Zombie decidiu partir para a carreira de cineasta, especificamente como diretor de filmes de horror. Seus primeiros filmes são tão anárquicos quanto imperfeitos: A Casa dos 1000 Corpos (2003) e Rejeitados pelo Diabo (2005) exalam a irresponsabilidade de quem cresceu influenciado pelo horror apocalíptico da década de 1970, mas não são para todos os gostos. Ainda que seja exagero afirmar que Zombie esteja se tornando um sujeito mais tradicional, há uma sensível e incontestável diferença entre seus primeiros filmes e os dois Halloween. Isso fica mais evidente no caso de Halloween II, no qual Zombie inclusive parece disposto a refletir sobre o impacto social do culto aos anti-heróis, coisa tão comum no caso de slashers.
Delírios de um cara quase normal
Depois de fazer dois filmes doidões, nos quais sacrificou lógica, bom-senso e bom-mocismo em favor de estilo, desenvolvimento de personagens e muita cara-de-pau, Zombie teve que aderir a um formato mais convencional de cinema. Seu desafio é exprimir nos filmes o que fazia na música: ainda que brutal, violento e agressivo ao extremo, era capaz de acrescentar um pouco de ginga, de melodia, de ritmo. O heavy metal com batida dançante e camadas intensas de som eletrônico fez com que a música de sua banda White Zombie - e, depois, de Rob Zombie em carreira-solo - rompesse os limites do público metaleiro e ele se tornasse popular também em meio a um público pouco familiarizado com o rock pesado. Mesmo com sua voz gutural e o visual de homem-das-cavernas, Rob até virou uma espécie de sex symbol para mocinhas mal-comportadas. A questão é se Rob é ou não capaz de traduzir isso em uma arte muito mais complexa e menos abstrata: o cinema.
Halloween II mostra um Rob Zombie que começa a amadurer como cineasta e aos poucos demonstra que tem algo próprio a oferecer. Não obstante a obrigatoriedade de seguir a mitologia de Michael Myers - que rendera sete longas antes de ter seu reboot em 2007 - ele é capaz de contar uma história renovada, com elementos complexos que enriquecem a franquia e abrem um leque de possibilidades interessantes para o futuro.
A sequência de abertura é o momento mais poderoso do filme, com 25 minutos de uma verdadeira orgia de suspense e mortes violentas, tendo como principal cenário um hospital numa noite de chuva torrencial, no qual o horror reinicia para a azarada Laurie Strode (Scout Taylor-Compton), nossa protagonista. A cena toda é embalada por uma onírica e onipresente “Nights In White Satin”, assombrosa balada do grupo The Moody Blues, estabelecendo uma referência musical ao fantasma todo de branco da mãe de Michael Myers, tema que domina o filme e explica as motivações do assassino. A canção é belíssima e, para quem quiser conhecer, inseri abaixo o vídeo que é usado no próprio filme.
A premissa segue a cartilha da série: Michael Myers, transformado num homicida praticamente indestrutível, retorna à cidadezinha de Haddonfield em plena noite de Halloween para atormentar a vida da pobre Laurie Strode e de quaisquer desavisados que cruzarem seu caminho. Porém, quem espera apenas mais um banho de sangue obtuso, o filme surpreende ao humanizar seus personagens, sejam eles vítimas ou vilões. É uma verdadeira carnificina, não se engane, um slasher com todos os seus elementos indispensáveis, mas não há como não se comover com algumas das mortes. O elenco também é excepcional, com Brad Dourif no difícil papel de um xerife perturbado pelos fatos ocorridos no filme anterior. Surpreende também o Dr. Sam Loomis interpretado por Malcolm McDowell. Ao contrário do abnegado e obcecado psiquiatra interpretado com brilhantismo por Donald Pleasence nos filmes originais, McDowell encarna um sujeito oportunista e mau-caráter, que tira proveito de toda a tragédia envolvendo os crimes e escreve um livro no qual revela segredos da vida de todos os envolvidos. O lançamento do livro acontece em pleno 31 de outubro, dia de Halloween. A atuação de McDowell, como sempre, é notável, mantendo o filme em alto nível.
No entanto, para poder se apreciar plenamente um filme como Halloween II, é preciso aprender a conviver com as contradições de seu autor. Rob Zombie é um típico subproduto da cultura pop americana, muito similar a Stephen King: ambos recheiam suas obras de referências diretas aos seus ídolos, puramente pelo prazer do tributo, e não se constrangem em replicar trechos de obras famosas como forma de “homenagem” ou “citação” (claro, Tarantino faz a mesma coisa e todo mundo acha o máximo). Porém, devemos reconhecer que quando Zombie usa “Freebird” no clímax de Rejeitados pelo Diabo, ele ajuda a nova geração de espectadores a aprender que isso é essencialmente uma música, um dos grandes clássicos da cultura popular do século passado, e não apenas a fase do boss no Guitar Hero (a propósito, se interessar a alguém, Rob Zombie participa do disco de estúdio mais recente do Lynyrd Skynyrd, que aliás é muito bom). Ou seja, ao recusar a armadilha fácil da auto-indulgência, ele compõe um mosaico rico em referências e contribui no resgate de parte da cultura pop.
Bem-vindo ao meu pesadelo
No final, entretanto, é tudo questão de afinidade. No mundo imaginário de Rob Zombie, é comum que meninas teenagers se divirtam ouvindo “Kick Out The Jams”, do MC5, pendurem quadros de Alice Cooper e Charles Manson pela casa (Manson é uma das obsessões de Zombie), ou mesmo saiam dirigindo loucamente ao som de “Am I Evil”, do Diamond Head, e se fantasiem como personagens do musical The Rocky Horror Picture Show. Claro que isso tudo fala muito mais do próprio Zombie do que da personagem que ele quer mostrar (no caso, Laurie Strode), ainda que algumas letras - especialmente a de “Am I Evil” - sirvam também como importante elemento narrativo. Paradoxal, mas ao mesmo tempo revelador, acaba denunciando uma certa ansiedade por parte de Rob Zombie de preencher a tela com seus ídolos, em total descompromisso com a lógica (exceto que se disponha a interpretar tudo como um quebra-cabeça que se completa no final...).
O filme tem outros pontos positivos, como a relação complexa entre as garotas e o fracasso do tratamento psiquiátrico de Laurie, com Margot Kidder no papel da doutora. O final também é especialmente poderoso e novamente fazendo uso correto de uma canção pop, um coda adequado a um filme que busca ter vida própria ao mesmo tempo que deixa portas e janelas abertas para um eventual terceiro capítulo. A ambiguidade da tomada final é uma amostra do que Rob Zombie é capaz de criar - e, esperamos, um indício do que ele tem de melhor a oferecer futuramente.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O Horrível Segredo do Dr. Renault (1942)
O que seria do cinema clássico de horror sem os cientistas loucos? Simplesmente não seria, claro. Desde os pioneiros Caligari e Mabuse, passando por Frankenstein, Phibes e Moreau, os doutores do horror e da ficção científica são personagens indispensáveis para mostrar as bobagens que o Homem é capaz de cometer quando mexe com o que não deve. Boris Karloff, Bela Lugosi, Peter Lorre, Vincent Price, Peter Cushing... todos viveram médicos memoráveis nas telas. Porém, poucos tinham o physique du rôle do cientista louco tão convincente quanto George Zucco, que interpretou tantos doutores ao longo da carreira que fica difícil imaginá-lo em qualquer outro papel.
O Horrível Segredo do Dr. Renault (Dr. Renault’s Secret), de 1942, é uma produção modesta - porém feita com competência - da Twentieth Century-Fox, na qual Zucco interpreta o cientista do título, cujo segredo envolve a transmutação de feras selvagens em seres humanos. A referência que nos vem à cabeça imediatamente é o livro A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, adaptado algumas vezes às telas, mas o filme também se baseia em Balaoo, curta-metragem mudo francês, de 1913, com roteiro inspirado na obra de Gaston Leroux, e na refilmagem americana da mesma obra, The Wizard, de 1927.
A trama acompanha a chegada de um jovem médico novaiorquino à França, onde planeja se casar com a bela sobrinha do Dr. Renault. O médico é recebido na cidade por Noel, um criado sinistro, de poucas palavras e comportamento submisso, que o leva até a propriedade de seu patrão. Noel, nascido na ilha de Java, tem dedicação absoluta à moça, que o trata com condescendência e uma certa dose de compaixão. Ninguém sabe das experiências do Dr. Renault - claro, elas são secretas - e muito menos que Noel é cria do cientista, que o transformou de um gorila feroz num ser humano domado e obediente. Entretanto, o traumático - e mal resolvido - processo de mutação de Noel o tornou humano ao ponto de ele ser capaz de ressentir a perda de sua natureza, vivendo em constante conflito. O choque entre o instinto e o comportamento racional acaba por torná-lo violento e homicida.
Zucco tem participação destacada no papel do cientista, cuja brutalidade com a qual trata Noel acaba denunciando sua frustração diante do fracasso evidente. Porém, o veículo é todo de J. Carrol Naish, que encabeça o elenco e encarna com coragem o difícil papel do homem-símio javanês, ao mesmo tempo sensível, tímido e selvagem. Naish foi um prolífico e respeitado ator característico, com mais de duzentos créditos ao longo de quatro décadas de carreira. Por algum estranho motivo, não consigo tirar da cabeça seu impagável Dr. Daka, o deliciosamente ridículo cientista e espião japonês que interpretou no seriado Batman, de 1943. Naish encerrou a carreira no abismal Dracula vs. Frankenstein (1971), de Al Adamson, filme que tristemente também pôs um ponto final na trajetória de Lon Chaney Jr. nas telas.
A curta duração de O Horrível Segredo do Dr. Renault - com menos de uma hora - não permite que o roteiro explore todas as possibilidades da trama. Para piorar, ainda tem que lidar com personagens banais como o jovem doutor, cuja presença em cena aparentemente serve para garantir um supostamente indispensável interesse romântico. O mistério fica por conta da série de mortes inexplicadas ocorridas nas proximidades e a presença de outros personagens suspeitos.
Mesmo que não esteja entre os clássicos do horror das décadas de 1930 e 40, este filme não merece o ostracismo ao qual foi condenado, retratando um interessante embate entre criador e criatura. Não encontrei o trailer no YouTube, então digitalizei do meu DVD e inseri no site para poder exibi-lo aqui. Ganhei esse DVD do meu grande amigo Jaime Palhinha, que me presenteou com a coleção Fox Horror Classics Vol. 2, que tem ainda os filmes Chandu the Magician e Dragonwyck. Deixarei para falar do Lon Chaney Jr. mais tarde. Na próxima postagem, comentarei um filme recente, para não ficar repetitivo.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Morrendo de Medo (1947)
Para contemplar as presenças de George Zucco e Bela Lugosi na enquete acerca dos astros do horror clássico, escolhi rever em DVD esta confusa produção de 1947, que vi há muitos anos (se não me engano) num site de vídeos stream. Quem quiser conhecer esta paupérrima produção da Screen Guild basta clicar no botão play acima (preferencialmente usando Internet Explorer); ou, se for do tipo completista, pode baixar o filme legalmente aqui, de graça.
Morrendo de Medo (Scared to Death) é o único filme de horror colorido da carreira de Bela Lugosi, feito num processo econômico chamado Cinecolor (ou Natural Color, segundo os créditos de abertura). Deve haver alguma coisa errada na cópia que circula em DVD e na internet, pois uma tal “máscara verde” que tem alguma importância na trama na verdade é azul! Problemas daltônicos à parte, trata-se de um convencional filme ruim na carreira de Zucco e Lugosi, dupla fadada a atuar em filmes ruins durante grande parte de suas carreiras. A trama é confusa e estapafúrdia, seguindo o padrão enxuto das produções dos estúdios pobres da década de 1940: personagens confinados a um único cenário, pouquíssima ação e muito falatório.
Costuma-se dizer que George Zucco era a opção barata quando Lugosi e Karloff não estavam disponíveis, mas essa é uma maneira simplória e equivocada de tratá-lo. Zucco sempre dava um ar de dignidade aos filmes que fazia, com seu profissionalismo e dedicação. Mais do que Lugosi, que quase sempre parecia estar no limite da paródia, Zucco se esforçava em soar natural em seus papéis, por mais esdrúxulos que fossem. O duelo entre os dois astros em Morrendo de Medo - no qual interpretam primos que não são exatamente melhores amigos - é uma amostra fiel da diferença de estilo (e talento) entre os dois. Lugosi, acompanhado pelo diminuto Angelo Rossitto (meu anão cinematográfico predileto, cuja carreira vai de Freaks, de 1932, a Mad Max III, de 1985), surge em cena para atrair para si todas as suspeitas. Capa preta, olhar misterioso, falar entre dentes... Bela é o hipnotizador Leonide, o estereótipo do vilão. Tão maligno e sinistro que fica óbvio desde o início que ele é inocente. Zucco, por sua vez, compõe um personagem mais cativante, de fala mansa, manipulador, cínico.
O filme é narrado todo em flashback, em tom de comédia de humor negro, pelo cadáver de uma moça que relembra sua morte enquanto aguarda ser autopsiada no necrotério. Suas seguidas intervenções, acompanhada por uma repetitiva vinheta sonora, são ridículas e irritantes. Igualmente inconveniente é o papel de Nat Pendleton, um segurança que perambula pela clínica fazendo investigações por conta própria. A trama envolve uma série de personagens suspeitos que transitam pela tal clínica, na qual o Dr. Zucco é uma espécie de psiquiatra. Morrendo de Medo é notável apenas por se tratar de um dos pouquíssimos filmes de horror realizados em 1947, época em que o gênero foi praticamente banido de Hollywood, deixando Lugosi, Karloff e outros atores desempregados. É também um dos últimos filmes de Zucco, que tem cerca de 25 títulos de horror no currículo, sendo outros dois deles em companhia de Lugosi. Ele assumiu o papel que seria de Lionel Atwill, que adoeceu - e acabou falecendo - pouco antes de iniciadas as filmagens. Zucco morreu em 1960, muitos anos depois de ter se afastado das telas, o que deu origem ao rumor de que ele passou seus últimos dias enlouquecido num sanatório, agindo como um personagem típico dos seus filmes.
Morrendo de Medo permaneceu inédito no Brasil tanto nos cinemas quanto na televisão, mas foi lançado em VHS há uma eternidade. Também passou no saudoso canal Retrô, da Sky. Amanhã comentarei mais um filme com George Zucco, desta vez uma produção de primeira linha, para variar. Quem quiser conhecer outras obras dele, recomendo The Flying Serpent (1945), no qual ele controla um pássaro mitológico para eliminar seus rivais, e Dead Men Walk (1943), refilmagem disfarçada de Drácula, com direito a dose dupla de Zucco e a preciosa presença de Dwight Frye, num de seus últimos filmes, interpetando um maluco obviamente inspirado em Renfield.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
O Mistério das Duas Irmãs (2009)
Não sou daquelas pessoas que adivinham finais de filme, mas acho que já vi coisas o bastante para prever alguns truques. Em algumas raras situações saquei logo de cara a surpresa que determinados filmes reservam para o final. Foi assim com O Mistério das Duas Irmãs (The Uninvited), que se mostrou óbvio para mim desde o comecinho. Tendo em mente o truque no qual o filme sustenta sua narrativa, pude ir confirmando cada vez mais que eu estava com a razão. Porém, ao contrário de destruir o prazer de assistir ao filme, fui capaz de curtir ainda mais a maneira engenhosa com a qual a trama é conduzida. E, para pegar de surpresa mesmo os mais espertinhos (como eu), o filme ainda guarda uma reviravolta final - esta sim, imprevisível para este escriba. O Mistério das Duas Irmãs, dirigido por Charles e Thomas Guard, é o tipo de filme que vale a pena ver pelo menos duas vezes; a primeira pelo prazer da história, a segunda para ve como tudo é conduzido seguindo uma lógica própria. Acredito que um filme seja um universo fechado em si próprio. As regras que ele cria, desde o primeiro fotograma até a cena final, vale somente para a duração do filme, e é por meio desse conjunto de parâmetros que devemos julgar o desenrolar de uma trama. Nesse sentido, considero O Mistério das Duas Irmãs suficientemente honesto com aquilo que ele propõe. As atitudes dos personagens, a maneira como interagem e as decisões que tomam seguem uma lógica determinada pelo ponto de vista adotado na narrativa. Gosto muito quando um filme nos convence de que os personagens estão agindo da maneira que julgam ser a mais correta, para depois nos mostrar como estamos equivocados. Acho genial, por exemplo, a reviravolta final de O Chamado, quando Rachel (Naomi Watts) liberta o espírito de Samara, acreditando estar fazendo a coisa certa - quando, na verdade, está permitindo que o fantasma da menina cometa ainda mais malvadezas.
O Mistério das Duas Irmãs, refilmagem do sul-coreano Janghwa, Hongryeon (lançado por aqui como Medo, mas mais conhecido como A Tale of Two Sisters), é rico em personagens fazendo bobagens devido à incapacidade de raciocinar de maneira correta. Conta a história de uma garota que retorna para casa depois de se tratar numa clínica psiquiátrica, onde fez terapia para superar a perda trágica da mãe, morta num incêndio do qual a menina pouco se lembra. De volta para casa, ela passa a viver com o pai e sua nova madrasta, tendo ainda a companhia da irmã rebelde. Logo a menina se convence que a namorada de seu pai foi a causadora da tragédia que culminou no incêndio que matou sua mãe e decide investigar o passado dela. Uma série de acontecimentos assustadores levam a história a um desfecho trágico e surpreendente.
Um filme bem narrado, envolvente e dinâmico, com todos os elementos necessários para agradar tanto ao consumidor casual do gênero quanto aos aficionados por horror. Acima de tudo, um filme que consegue se sustentar mais pela história interessante do que por cenas violentas e sustos exagerados.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Passageiros da Noite (2008)
Não é de hoje que o cinema de horror tenta meter medo ao inserir o caos nas situações mais cotidianas. É a essência do gênero fazer com que o espectador passe a ter receio de atravessar a rua, atender ao telefone ou mesmo apagar a luz antes de dormir. Sentir medo sempre é bom, faz parte do instinto de sobrevivência animal, e se um filme for capaz de perturbá-lo a ponto de você ficar com ele na cabeça durante dias ou semanas ou meses, o filme cumpriu seu papel. Passageiros da Noite (Shuttle) definitivamente não é recomendado para quem costuma andar de lotação, ainda mais se for tarde da noite. A história é relativamente simples, acompanhando a noite de terror de um grupo de passageiros desavisados que acaba entrando na van errada, mas a força do filme está na maneira como as surpresas vão sendo apresentadas ao longo da trama. É o tipo de filme em que você pensa que as coisas não podem mais piorar - e elas sempre pioram. Seguindo a tendência dos filmes de violência extrema que invadiram as telas nos últimos anos, Passageiros da Noite em determinado momento induz o espectador a torcer por uma morte misericordiosa para os protagonistas - somente para então nos negar esse alívio amargo e nos abandonar desamparados diante do caos absoluto.
Duas amigas retornam de uma viagem de férias no México. A mala de uma delas é extraviada no aeroporto e as garotas acabam ficando sem condução em plena madrugada. Embaixo de uma chuva torrencial, conseguem parar uma van de lotação que passava pelo local. O motorista (Tony Curran, cujo desempenho excepcional evita que o filme se torne monótono), que já tinha um passageiro na van, aceita levar até seus respectivos destinos as duas amigas e outros dois rapazes que elas conheceram no aeroporto e que passaram a flertar com elas ao longo da noite.
Não demora para que a viagem se torne infernal: o motorista parece não conhecer o caminho, aventurando-se pela parte mais barra-pesada da cidade. As coisas se complicam quando fura um pneu da lotação e um dos rapazes sofre um grave acidente quando tentava ajudar o motorista a tirar a roda. A partir de então, o filme se empenha a mostrar algumas das maneiras mais cruéis e impiedosas de torturar física e psicologicamente os quatro jovens, com a dose indispensável de agressão ao corpo, mutilações, esquartejamentos e humilhação. Para a maioria dos espectadores, é um entretenimento inofensivo, mas o realismo com que a ação transcorre na tela, até o final pessimista e inesperado, nos faz pensar em que ponto termina a ficção e onde esbarramos na dura realidade cotidiana.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Vingança Diabólica (1933)
Continuando o mini-ciclo de pequenos clássicos de horror e mistério com Lionel Atwill, temos aqui mais uma realização modesta do ano de 1933, desta vez uma produção da Paramount, estúdio que, na época, tinha menos tradição no gênero - em comparação com Universal e Warner, por exemplo. Vingança Diabólica (Murders in the Zoo), dirigido por A. Edward Sutherland, é divertido e relativamente violento, com algumas cenas de mortes típicas dos abusos do período que antecedeu o Código Hays. O momento mais impressionante é a cena da mocinha atirada num poço de crocodilos para ser devorada viva. Devido a exageros como este, alguns anos depois os moralistas de Hollywood frearam a produção de filmes de horror. Atualmente, fitas da época conhecida como “pre-code” são muito cultuadas. Basta assistir Vingança Diabólica para entender o porquê.
A trama é simplória, mas o suficiente para manter a ação contínua na tela: Atwill é Eric Gorman, milionário e filantropo que passa o tempo caçando animais selvagens na Indochina. Quando enche um navio de bestas-feras, ele parte de volta à América para doar a bicharada para um zoológico. Porém, nem tudo é diversão na vida de Gorman. Casado com uma bela e jovem esposa que não o ama, ele faz o possível para manter os rapazes longe da mulher. Um dos pretendentes termina amarrado e literalmente com a boca costurada, abandonado no meio da selva para ser comido por tigres. Na viagem de volta, a esposa infiel encontra-se com outro amante no navio e eles combinam se casar assim que ela conseguir o divórcio. Gorman, porém, está ciente das escapadelas da esposa e planeja eliminar o rival usando um de seus bichinhos de estimação - uma enorme cobra mamba, um dos répteis mais mortíferos do mundo.
Obviamente, o filme é todo de Atwill, que parece mais do que à vontade no papel do vilão frio e sádico. Também é dele a melhor frase do filme. Ao ser acusado pela esposa de ter matado o amante dela, vítimado por uma misteriosa picada de cobra durante um jantar beneficente, Gorman responde sarcasticamente: “Você não acredita realmente que passei a noite toda com uma enorme cobra no bolso do paletó, não é mesmo? Isso não seria justo com meu alfaiate”.
O ponto baixo do filme é a irritante presença do cômico Charlie Ruggles, no papel do atrapalhado assessor de imprensa do zoológico. Alívios cômicos como esse são comuns nos filmes de horror dessa época - e quase sempre estragam a diversão, como acontece também com o fetichista Mad Love (1935), estrelado por Peter Lorre. O papel de herói de Vingança Diabólica coube a um muito jovem Randolph Scott, em comecinho de carreira. O futuro astro do faroeste interpreta um cientista que passa o filme todo pesquisando um antídoto para o veneno da cobra mamba, o que torna o final mais do que previsível.
O filme é dirigido de maneira leve por Sutherland, mais conhecido por suas comédias, especialmente pela parceria com W.C. Fields. Ele começou a carreira como ator e foi um dos Keystone Kops originais das populares comédias mudas. Foi assistente de Charlie Chaplin e flertou apenas brevemente com o cinema fantástico, dirigindo a comédia de ficção científica The Invisible Woman (1940). Típico de uma produção rasteira, o filme tem gafes inaceitáveis, como quando Ruggles erra uma frase e descaradamente repete a fala, mas consegue divertir mesmo nos dias de hoje. Saiu em DVD importado e não é difícil de ser encontrado pelas ondas da rede.
Por enquanto, basta de Lionel Atwill! Se tudo correr bem, amanhã falaremos um pouco sobre um dos filmes mais obscuros de Boris Karloff.
The Sphinx (1933)
O primeiro filme que vi em 2010 é um modesto melodrama de mistério produzido pela Monogram em 1933. A Monogram foi o mais miserável de todos os miseráveis estúdios de Hollywood, mas seus filmes têm um charme irresistível, com tramas tão absurdas que beiram o surreal. Geralmente, os filmes da Monogram se resolvem praticamente na conversa - pouquíssima ação, absoluta pobreza visual e personagens quase caricaturais. The Sphinx, dirigido por Phil Rosen - responsável por vários títulos do ciclo do detetive Charlie Chan - é um desses casos, tendo como único trunfo no enredo um suspeito de assassinato que prova sua inocência no tribunal por ser surdo-mudo. O papel é de Lionel Atwill, vilão do segundo escalão do primeiro grande ciclo de filmes de horror de Hollywood. A única testemunha do crime é o faxineiro do prédio onde foi encontrada a vítima mais recente, um corretor de ações da bolsa de valores que foi estrangulado dentro de seu próprio escritório. Depois de perpetrar o crime, o homicida sai tranquilamente do prédio, pede fogo para acender o charuto e pergunta as horas ao faxineiro, que logo em seguida encontra um corpo estendido no chão.
É o quarto crime cometido com as mesmas características em apenas um mês e a polícia não tem pista alguma do suspeito. Porém, claro, como em quase todos os filmes de horror/mistério desse período, há um intrépido repórter determinado a fazer o serviço que a polícia é incapaz de fazer. Sem muita explicação lógica, o sujeito decide investigar os crimes e tem certeza de que o criminoso é mesmo o tal surdo-mudo, um respeitado cavalheiro que surge na história apenas e tão-somente como suspeito - e nós, espectadores, somos convencidos de que só ele pode ser o assassino, pois é ele, e ninguém mais, quem sai da cena do crime após cada assassinato. Há um falatório de que ele é um milionário muito respeitado, mas nada fica muito claro. O mistério é frágil, a tensão é praticamente nula e a solução do enigma é tão óbvia quanto decepcionante: existem dois sujeitos, o surdo-mudo que senta no banco dos réus e seu irmão gêmeo, o estrangulador.
É curioso observar que as vítimas do assassino são corretores de ações, poucos anos depois da Grande Depressão que quebrou a bolsa de valores em 1929, e cujos efeitos devastadores ainda eram sentidos pelo povo estadunidense. O filme talvez fosse mais envolvente se tivesse vítimas menos detestáveis; afinal, quem sentiria a falta de um corretor?? Lionel Atwill, que na mesma época aterrorizou a encantadora Fay Wray em Doctor X, The Vampire Bat e Mystery of the Wax Museum, apareceu em duas dúzias de filmes de horror até 1946, ano de sua morte, quase sempre como coadjuvante. O filme é todo dele, com um desempenho bastante sutil, pois passa a maior parte do filme calado. Mas seu sorrisinho inocente chega a ser ridículo às vezes.Assisti a esse filme como parte do ciclo dos grandes astros do horror mundial que estou realizando. É verdade que Atwill está longe de ser assim tão “grande”, mas não existem muitos astros de cinema identificados com o horror, então ele merece seu espaço. Não sei se o filme é inédito no Brasil; imagino que tenha sido exibido na televisão lá pelos anos 60 ou 70. Está disponível em DVD importado e circula pela internet em cópia de domínio público, portanto não é nada difícil de encontrar. A ilustração desse post é uma edição da revista Filmfax, a única publicação do mundo capaz de estampar Lionel Atwill na capa!
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