CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Mostra Retrospectiva Troma

   Atenção, cinéfilos apaixonados por filmes podreira e cinema independente em geral: a cidade de São Paulo vai virar Tromaville... pelo menos durante uma semana! Entre os dias 31 de maio e 5 de junho, acontece no Cine Olido, na Avenida São João, a Mostra Retrospectiva Troma, dedicada à mais antiga produtora independente em atividade no mundo. O evento foi idealizado e organizado pela Black Vomit, produtora de Fernando Rick (Rubão o Canibal, Feto Morto, Coleção de Humanos Mortos), em parceria com a Galeria Olido, que recentemente nos ofereceu a mostra dedicada a Francisco Cavalcanti, em homenagem à produção da Boca do Lixo.
   O festival apresentará oito dos melhores filmes da Troma, começando pelas quatro partes da saga O Vingador Tóxico (1984-1999), e ainda Poultrygeist, a Noite dos Frangos Mortos (2006), Canibal! O Musical (1993), Um Terror de Equipe (1999) e Tromeu e Julieta (1996), além de três documentários sobre a Troma. Todos os filmes serão exibidos com legendas em português, em sessões gratuitas às 15h, 17h e 19h30.
   A azeitona na empada acontecerá no dia 4, quando o cineasta Lloyd Kaufman, fundador e presidente da Troma e uma verdadeira lenda viva do cinema independente, apresentará sua “master class” Make Your Own Damn Movie, das 13h às 19h. O evento contará com coffee break e tradução simultânea - e também é tudo de graça! As vagas são limitadas (no momento desta postagem restavam apenas algumas poucas das 150 cadeiras oferecidas), portanto os interessados devem se inscrever o quanto antes no site da Black Vomit. As inscrições vão até o dia 23 de maio.
 







terça-feira, 29 de março de 2011

Barbe-Bleue (1901)


   O cinema, como nós o conhecemos, não foi inventado pelos Irmãos Lumière, mas sim por um mágico francês de nome Georges Méliès. Foi ele quem, literalmente, mostrou que cinema era magia, que fotografias em movimento poderiam - ou mesmo deveriam - ser um meio para se registrar a ficção, o faz-de-conta, o impossível, e não apenas flagrar momentos do nosso cotidiano. Méliès ganha ainda mais importância quando falamos particularmente do cinema fantástico: ele praticamente inaugurou o gênero horror com Le Manoir du Diable (1896), fez a primeira obra-prima de ficção científica com Le Voyage dans la Lune (1902), e adaptou alguns contos de fadas tradicionais, como Cendrillon e Barbe-Bleue, nos quais pôde abusar de cenários espetaculares, com perspectiva e profundidade, e elaboradas tomadas com vários figurantes.
   Barbe-Bleue, ainda que não seja dos filmes mais comentados de Méliès, é o curta-metragem que costumo exibir na abertura do curso A História do Cinema de Horror, para mostrar aos participantes um dos primeiros exemplares desse gênero; ou, caso seja ousadia demais rotulá-lo de ‘horror’, pelo menos representa o que podemos considerar como embrião do horror cinematográfico e do filme fantástico como um todo. A idéia é surpreender a platéia com um trabalho que pode ser considerado visionário, sem qualquer exagero, e desta maneira derrubar logo de cara quaisquer preconceitos (ou, mais especificamente, ‘pré-conceitos’) ou resistências em relação àquilo que pode ser o cinema de horror.
   O curta é uma adaptação da tradicional história do assassino Barba Azul, imortalizada na versão do francês Charles Perrault, sobre um homem que se casa pela oitava vez, depois que suas sete esposas anteriores faleceram (aparentemente, de causas desconhecidas ou inexplicadas). Quando se muda para a mansão do marido, a oitava esposa recebe as chaves de todos os aposentos da propriedade, mas é instruída pelo marido a jamais entrar num dos quartos. Quando ele se ausenta, obviamente, a primeira coisa que ela faz é visitar o tal aposento proibido, dominada pela invencível curiosidade feminina.
   Visualmente, o curta tem todo o charme encantador e irresistível das produções de Méliès, com cenários suntuosos criados de maneira simples, figurinos espalhafatosos e objetos com dimensões exageradas para exprimir de maneira enfática sua função narrativa (destaque para a imensa garrafa de champanhe na festa de casamento e a chave desproporcional que Barba Azul entrega à esposa).
   É no terço final de seus breves nove minutos de duração que o filme ganha força e mostra a arte inimitável de Méliès: ao descobrir o segredo sinistro que o quarto proibido esconde, a nova esposa enfim percebe o perigo que está correndo. A partir desse momento, o turbilhão emocional enfrentado internamente pela heroína é representado visualmente por meio de imagens surrealistas que externam os pensamentos macabros da mulher, como quando ela enxerga as sete vítimas anteriores do Barba Azul como chaves gigantes - um recurso narrativo brilhante que imediatamente nos comunica que todas elas tiveram o mesmo fim trágico e sofreram a mesma punição. Desta maneira, o curta praticamente inventa o ‘horror psicológico’, estilo narrativo que os historiadores costumam afirmar ter surgido somente na década de 40, com as produções de Val Lewton, ou mesmo com o lançamento de Psicose, em 1960. Na pior das hipóteses, Barbe-Bleue antecipou em quase quinze anos The Avenging Conscience (1914), de D.W. Griffith, e em duas décadas a fantasia e o imaginário surreal do Expressionismo Alemão.
   O diabrete que aparece saltitante em cena, uma imagem recorrente nos filmes de Méliès, simboliza a mente envenenada pela curiosidade destrutiva e pela ação inconsequente, um ousado recurso narrativo que pontua o curta com momentos de puro surrealismo e fantasia. Um homem décadas à frente do seu tempo, George Méliès sofreu como tantos outros gênios da arte - incompreendido em sua época, desprezado e condenado ao ostracismo no fim da vida, mas posteriormente celebrado e reconhecido por suas criações revolucionárias que serviriam de inspiração para impulsionar definitivamente o cinema de fantasia, ficção científica e horror.

terça-feira, 22 de março de 2011

O Ogro, de Márcio Júnior e Márcia Deretti


   Enquanto o cinema brasileiro de horror ainda aguarda uma improvável (re)descoberta por parte do grande público, uma visão que vá além de Zé do Caixão e Ivan Cardoso, as histórias em quadrinhos nacionais desse mesmo gênero já são devidamente consagradas e reconhecidas por sua importância e pioneirismo. Nomes como Nico Rosso, Flavio Colin, Rodolfo Zalla, Eugênio Colonnese, Jayme Cortez, Gedeone Malagola, Julio Shimamoto e outros há décadas são respeitados e cultuados por aficionados por HQs de horror, celebrados como verdadeiros ‘mestres’ dessa arte que desafia o preconceito de alguns e nunca deixa de ser apreciada.
   Uma parte desse capítulo importante na história dos quadrinhos nacionais está ganhando uma nova dimensão e um novo formato, por meio da realização de um curta-metragem de animação que dá movimento e som a um clássico das HQs. O projeto é capitaneado por Márcio Júnior, um apaixonado incondicional por quadrinhos de horror, com a colaboração de Márcia Deretti na produção e de Wesley Rodrigues na direção de animação. O curta, que deve ser o primeiro de uma série, resgata a história O Ogro, desenhada por Julio Shimamoto e escrita por Antônio Rodrigues, publicada originalmente na edição nº 27 da revista Calafrio, em 1984. A HQ é considerado um marco na carreira de Shima, um artista conhecido por sua inquietude criativa, que desenhou a história usando tinta branca sobre cartolina preta.




   As etapas de criação do projeto, realizado pela Marte Produções, podem ser acompanhadas em detalhes no blog oficial do curta, que traz trechos da HQ original e todo o processo de adaptação para a animação, com participação efetiva de Julio Shimamoto, atualmente com 72 anos e em plena atividade quadrinística. Shima ampliou o quadro das cenas mais fechadas, oferecendo aos animadores um universo mais definido, desenhou cenários e esboçou model sheets dos três personagens da HQ. O curta, com cerca de oito minutos, deve estrear ainda no primeiro semestre deste ano, e certamente marcará presença em vários festivais de cinema. Para conhecer melhor o projeto, vale a pena ler a entrevista com Márcio Júnior publicada no site Bigorna, especializado em histórias em quadrinhos.



   A idéia é inovadora e merece a torcida de todos pelo sucesso da empreitada, que deve prosseguir com a adaptação de outro clássico das HQs brasileiras de horror, desta vez uma obra-prima de Jayme Cortez.

sábado, 5 de março de 2011

Bellini e o Demônio (2010)


   O decadente detetive particular Remo Bellini é contratado por um cliente desconhecido para encontrar O Livro da Lei. Desorientado e em estado de constante delírio devido ao vício em remédios de tarja preta, o investigador recebe um volumoso adiantamento pelo trabalho e inicia sua missão de encontrar o tal livro, aparentemente sem método algum. Bellini mergulha num submundo de crimes violentos, rituais satânicos e conspiração. Depois de consultar um demonólogo, fica sabendo que O Livro da Lei é um dos tomos escritos por Aleister Crowley, o maior bruxo da Nova Era e anunciador do Anticristo. Ao mesmo tempo que busca desesperadamente o livro, assassinatos violentos perturbam a rotina de policiais da cidade. Bellini é avisado pelo demonólogo que quando quatro pessoas forem sacrificadas na fase cheia da lua, a Besta subirá em sua nova forma - e os cadáveres vão se acumulando.
   Bellini e o Demônio é o segundo filme adaptado dos livros policiais de Tony Bellotto, talvez mais conhecido como um dos integrantes da banda de rock Titãs. O anterior foi Bellini e a Esfinge, dirigido por Roberto Santucci em 2001. Nos dois, o detetive do título é interpretado por Fábio Assunção, fisicamente adequado ao papel, mas sua atuação não está acima do nível das telenovelas, com todos os cacoetes e exageros típicos de uma mídia que não tolera sutilezas.


   A referência inicial que se tem diante da sinopse do filme é um cruzamento entre Coração Satânico, de Alan Parker, e O Último Portal, de Roman Polanski, e essa impressão paira durante todo o filme, indo e vindo. Porém, a bagunça é tamanha que em vários momentos fica duvidoso que caminho o filme pretende seguir. Alguma soluções narrativas são mais do que discutíveis, como colocar personagens dentro da própria cena que estão narrando num flashback. Tenta mostrar estilo, mas é apenas bobo, risível. A câmera treme, chacoalha e trepida em toda cena tensa - e o filme é todo tenso e dramático. Há um abuso de tomadas subjetivas, do tipo ‘alguém espreitando’, sem que nunca fique claro se é de fato o ponto de vista de algum personagem, um anseio de colocar o espectador numa posição desconfortável ou pura baderna. Num dos momentos mais absurdos, a câmera está dentro de um envelope de papel, olhando para a cara de Fábio Assunção, que olha para dentro do envelope! Por que? Impossível saber.
   Fazia tempo que eu não via um filme (brasileiro) tão problemático. Certamente há algo de errado num filme que passou pelas mãos de quatro montadores e que tem três créditos distintos de roteiro (eu nunca tinha visto, num mesmo filme, créditos de ‘roteiro original’ e ‘roteiro adaptado’!). A trama tem buracos escandalosos; certamente passagens importantes foram eliminadas na montagem final, enquanto somos bombardeados por cenas repetitivas - Bellini às voltas com seus comprimidos e os policiais batendo cabeças durante as investigações. O diretor Marcelo Galvão andou dando entrevistas renegando o corte imposto pelo produtor. Enquanto que algumas fontes apontam que o filme tem 120 minutos de duração, a versão em DVD é substancialmente mais curta, com 85 minutos.


   Porém, só podemos avaliar o filme lançado, não a versão ‘original’ que habita o limbo. Em comparação a Os Famosos e os Duendes da Morte e A Erva do Rato, dois filmes brasileiros recentes que possuem tênues - porém ricas e relevantes - relações com o horror, e são acusados de ‘pretensiosos’ devido às ambições artísticas, Bellini e o Demônio perde feio. Tenta ser artístico e estiloso onde não deveria; conta uma história relativamente simples, mas teima em complicá-la a troco de nada. Numa época em que Cisne Negro vira uma mania mundial, a proposta narrativa de Bellini e o Demônio poderia ser melhor aceita pelo grande público, mas as soluções são lastimáveis.
   O próprio lançamento do filme é um drama à parte. Finalizado em 2008, foi exibido em maio do mesmo ano no festival de Los Angeles, nos Estados Unidos, de onde trouxe um prêmio de atuação para Fábio Assunção. Em setembro participou de um festival de cinema do Rio de Janeiro. Sua estréia comercial aconteceu quase dois anos depois, em agosto de 2010, passando praticamente despercebido. Co-produzido pelo TeleCine, nunca teve apoio decente do canal; nunca vi comercial na televisão ou qualquer coisa do tipo. Foi parar no DVD, também sem muita gente dar atenção, lançado alguns dias atrás. Desconfio, por mera desconfiança mesmo, que o fracasso nas bilheterias de Encarnação do Demônio, lançado em 8 de agosto de 2008, tenha influenciado na carreira abortada de Bellini e o Demônio, que chegou a ter sua data de lançamento marcada para 24 de outubro de 2008. Será que temeram que a temática ‘demoníaca’ pudesse afastar o público, numa época em que só se investe em filmes espíritas e com mensagens positivas?


   É uma pena, pois tinha tudo para ser um pequeno grande filme de horror brasileiro. Enquanto não temos caminhos originais a percorrer, pelo menos poderíamos manter o gênero vivo com filmes mais convencionais, porém feitos com correção e sinceridade. Há cenas boas no filme, ou pelo menos com potencial latente, como a do demonólogo interpretado por Jack Militello. Porém, a superficialidade de conteúdo é denunciada pelo fato de levar tão a sério um sujeito como Aleister Crowley, o mais pop dos ocultistas, e a quem os que se dizem verdadeiros satanistas dão às costas e chamam de charlatão. Para encerrar, o anticlimático final surpresa - revelado no trailer, talvez pela ganância de achar que o nome de Marília Gabriela pudesse ser um chamariz de público - mostra em que pé estamos em termos de horror brasileiro.

terça-feira, 1 de março de 2011

Cisne Negro (2010)

Uma análise hitchcockiana 


   “Todos os bons filmes já foram feitos”, disse certa vez Peter Bogdanovich, crítico brilhante e cineasta de luz intermitente. O que pode parecer uma resignada descrença no cinema moderno é, na verdade, uma declaração apaixonada pelos filmes clássicos, aqueles que nunca terminam de dizer o que têm a dizer. São cada vez mais raras as novas idéias no cinema contemporâneo; não é o tipo de mídia onde a invenção e a novidade sejam regras. O normal é a repetição e a aposta no que está dando certo. A enxurrada de remakes e continuações nas últimas temporadas de Hollywood é uma triste constatação disso.
   Novidade: talvez esteja aí o cerne da discussão que divide o público de Cisne Negro entre devotos incondicionais e detratores impiedosos. O primeiro grupo se encanta com a complexidade da narrativa e o uso de símbolos e metáforas para retratar perturbações mentais; o segundo se irrita por isso não ser novidade alguma. Acho exagero levar a questão a tais extremos; novidade, é bom que se diga, nunca foi pré-requisito para bom cinema. Falando mais especificamente dos filmes de gênero, Carpenter, DePalma, Argento e Tarantino não são necessariamente originais, porém tampouco são realizadores desprezíveis.
   É nesse patamar que pretendo encaixar Darren Aronofsky, especificamente pelo que fez em Cisne Negro. O filme virou uma verdadeira coqueluxe em rodinhas de conversa de cinema, indo do diletantismo à erudição, e provavelmente sou a última pessoa do mundo a escrever sobre ele. A desculpa é prestar uma homenagem à premiação de Natalie Portman com o Oscar, a única real barbada dessa festa (está bem, Toy Story 3 como melhor animação era ainda mais previsível!). Porém, o viés de meu artigo é uma análise hitchcockiana do filme, a partir de suas características mais marcantes. Não quero reivindicar nenhuma originalidade no texto, pois acho a análise bastante óbvia; só quero deixar claro que não li nenhuma resenha sobre o filme e nem consultei as seções de trivias e movie connections do IMDb, por exemplo. Não sou do tipo que lê todas as críticas disponíveis antes de formar a minha opinião. A diversão, quero acreditar, é justamente expor as próprias idéias e dar início a uma discussão que, quando é boa, nunca se encerra.

Sexo e morte

   O nome de Alfred Hitchcock costuma ser evocado, quase sempre em vão, sempre que é lançado algum filme razoável de suspense. Muitas vezes, o responsável pela comparação sequer cita quais circunstâncias promovem tal aproximação; provavelmente apenas acha “chique e elegante” comparar algo a Hitchcock. O fato é que o rotundo diretor inglês não era gênio apenas porque era dotado de uma técnica impecável e contava histórias de suspense como mais ninguém. O que o tornava único - e, paradoxalmente, faz com que muitos o imitem - era sua obsessão, basicamente, por dois temas intimamente relacionados que, em suma, justificam nossa existência: sexo e morte.
   Todos os grandes filmes de Hitch foram elaborados sob a égide desse duo: Chantagem e Confissão, Pacto Sinistro, Um Corpo Que Cai, Psicose, Marnie, Frenesi, entre outros. O único outro tema que parecia interessar a Hitchcock era viagem, o que curiosamente o associa a Jim Morrison, dos Doors, que certa vez declarou que todas as canções de sua banda eram sobre “amor, morte e viagem”. Darren Aronofsky certamente não estava pensando em viagem quando fez Cisne Negro; tampouco é um filme sobre balé ou sobre uma jovem em crise porque tem medo de fracassar na carreira, como alguns parecem acreditar. Cisne Negro é, pura e simplesmente, um filme sobre sexo e morte, como esses dois temas se relacionam e como um inevitavelmente conduz ao outro.

O mundo é um palco


   O estilo narrativo de Cisne Negro segue um ensinamento hitchcockiano que pode ser resumido por uma frase célebre de Shakespeare: “o mundo inteiro é um palco”. A atuação, a dissimulação, a falsidade, mentira ou transformação, inclusive física, tanto no palco quanto fora dele, está presente em muitos filmes de Hitchcock: Assassinato, Pavor nos Bastidores, Um Corpo Que Cai, Cortina Rasgada, Trama Macabra e tantos outros. O processo enfrentado por Nina (Natalie Portman) no filme de Aronofsky é o mesmo de muitas heroínas hitchcockianas: tentar ser outra pessoa, assumir uma identidade que não é a dela, voluntariamente ou por alguma necessidade circunstancial.
   Também podemos interpretar como uma metáfora do próprio processo da criação artística, da construção de uma personagem ou de uma trama. Hitchcock fez exatamente isso em Janela Indiscreta, Disque M para Matar e Um Corpo Que Cai, nos quais há em cena um “diretor” que conduz a trama e o rumo dos personagens.
   A obsessão trágica de Nina em se tornar o Cisne Negro é a mesma de Scotty, um ex-policial, ao decifar o mistério de Um Corpo Que Cai: ele é prisioneiro de sua profissão e, portanto, não é capaz de não cumprir sua missão, mesmo que isso custe seu grande amor. Existem outros personagens similares na galeria hitchcockiana, como Mr. Memory, de Os 39 Degraus, incapaz de não responder uma pergunta quando é questionado, ou Lila, uma balconista de uma loja de discos que não resiste à tentação de olhar o que rola na vitrola da Sra. Bates ao invadir a velha casa sinistra de Psicose.
   Natalie Portman foi merecidamente elogiada, e vem colecionando prêmios em toda festa que comparece, por seu desempenho num papel duplo, e isso nos leva a outra obsessão de Hitchcock: a personalidade dividida, a idéia de que temos dois lados em constante conflito, o bom e o mau, às vezes convivendo dentro de uma mesma pessoa (Psicose), em outras, cindido em dois personagens (Pacto Sinistro). Aronofsky inclusive recorre a um truque essencialmente hitchcokiano para enfatizar isso, abusando do uso de espelhos (vide Psicose). O doppelgänger existe no cinema pelo menos desde o expressionismo alemão (O Estudante de Praga), mas Hitchcock de alguma maneira se apoderou do tema e o tornou seu.

Voando alto

   O quebra-cabeças hitchcockiano de Cisne Negro se completa com outras peças que compõem um enredo de obsessão, paranóia e pesadelo: a sexualidade reprimida que aflora com consequências trágicas (A Tortura do Silêncio, Psicose, Marnie), a ambiguidade sexual (Assassinato, Festim Diabólico, Psicose) e a mãe dominadora (Interlúdio, Psicose, Os Pássaros), elementos que se combinam com naturalidade. A cena na qual Nina tenta estimular seu desejo sexual se masturbando na cama, até perceber, horrorizada, a presença da mãe, que dorme numa poltrona ao lado da cama, combina de maneira soberba tanto o horror quanto o humor negro hitchcockianos.
   E, obviamente, não podemos esquecer aquela que talvez seja a mais reconhecível assinatura de Hitchcock e que tem relação explícita com Cisne Negro: a presença de pássaros para representar perturbação mental, loucura e delírio. Desde Chantagem e Confissão até a obra-prima Os Pássaros, passando inevitavelmente por Psicose, o diretor recorreu ao simbolismo das aves para retratar almas atormentadas e emoções sufocadas. O clímax do filme de Aronofsky também segue a cartilha do Mestre do Suspense em seus desfechos clássicos: a queda fatal, o despencar no abismo, muitas vezes punindo culpados e pecadores. Sabotador, Um Corpo Que Cai e Intriga Internacional são alguns dos filmes de Hitchcock que terminam com pessoas caindo no abismo, como acontece com Nina em Cisne Negro.


O duplo do duplo

   Não tenho a intenção de argumentar que Cisne Negro é um bom filme por ser um apanhado de temas tipicamernte hitchcockianos; o que me interessa observar é que Aronofsky emprega esses símbolos de maneira que dialogam diretamente com o estilo de Hitch. Não são características que encontramos casualmente nos filmes do Mestre do Suspense; são, isso sim, os alicerces de sua maneira de contar histórias. Mesmo os filmes menores do diretor costumam ser discutidos com interesse por apresentarem as mesmas preocupações. Cisne Negro, mesmo com suas imperfeições, também merece suscitar o mesmo tipo de debate, pelo menos para quem acha que vale a pena discutir as muitas possibilidades do horror. (Às vezes tenho a impressão que apenas filmes imperfeitos me interessam, pois são eles que nos revelam o processo humano - portanto fadado a erro - da criação cinematográfica; são eles que nos convidam à discussão, aguçam os sentidos e inflamam opiniões.)
   O tema não é novo - a quem quiser conferir outros bons filmes sobre doppelgänger, recomendo As Irmãs Diabólicas, A Janela Secreta, A Metade Negra e até os brasileiros O Sósia da Morte e Gêmeas - mas o filme de Aronofsky tem brilho próprio por conseguir compor personagens tão cativantes e envolver o público em sua obsessão particular. Num nível mais pessoal, comemoro que um filme denso e sombrio como este se torne tão popular e um papel feminino desses seja tão premiado, pois pode ser a deixa para que o cinema industrial americano invista em mais produções deste estilo e contemple níveis de horror que fujam do óbvio.
   A lição final, inevitável, é que ainda há o que se aprender com o cinema de Hitchcock, algo que fica muito além da visão superficial de imitadores de pirotecnias, maneirismos e finais-surpresa.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Reveillon Maldito (1980)


   Só para não dizerem que abandonei de vez meus prezadíssimos leitores, estou aqui, no apagar de 2010, para desejar a todos um Feliz Ano Novo no estilo desse blog; ou seja, com uma pitada de maldade e derramamento de sangue. Uma obscuridade segregada à não tão saudosa era do VHS, o filme Reveillon Maldito (New Year’s Evil), produzido pela Cannon, é um dos exemplares mais esquemáticos do subgênero slasher, ainda preso ao truque da “morte pelo calendário”, pegando carona em Halloween e Sexta-Feira 13, e que depois seguiria com Dia dos Namorados Macabro e Feliz Aniversário para Mim.
   A trama envolve a apresentadora de um especial de Ano Novo na televisão que recebe um telefonema ameaçador de um psicopata misterioso, o qual anuncia que à meia-noite matará pessoas conhecidas dela. A mulher fica apavorada quando surge a primeira vítima do assassino, que voltará a matar na virada de ano nos outros fusos horários do país. Tolo, previsível e sem clima, o filme é prejudicado por personagens sem carisma e pelo plano absurdo e inverossímil do maníaco, envolvendo situações ridículas e humilhantes.


   O clima de festa fica por conta da banda de hard rock Shadow e a punk/new wave Made in Japan, as quais, até onde sei, limitaram-se ao eterno e silencioso anonimato depois desta oportunidade cinematográfica. O Shadow, para o meu gosto particular, é melhorzinho, num estilo que lembra uma versão mais domesticada do Diamond Head. Nem sei se chegaram a gravar algum álbum ou mesmo se a trilha do filme saiu oficialmente em LP, mas a canção do vídeo acima é suficientemente divertida para garantir uma passagem de ano agitada e no autêntico clima de rock horror. Desta maneira, desejo a todos que tenham um maldito reveillon embalado por tudo que há de bom.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

The Misfits: Live at Dearborn Michigan (1983)


   Este vídeo bootleg é para quem gosta de passar o Halloween em clima de festa horror punk. Trata-se de um raríssimo registro de uma apresentação da banda The Misfits em Dearborn, Michigan, no dia 7 de janeiro de 1983, gravada para o programa de TV Why Be Something You’re Not. A banda é liderada pelo catatau enfezado Glenn Danzig, nos vocais, e conta ainda com Doyle na guitarra, Jerry Only no baixo, e Robo na bateria. O set-list do show é este: “Earth A.D.”, “I Turned Into A Martian”, “Skulls”, “Devilock”, “Queen Wasp”, “Mommy, Can I Go Out And Kill Tonight?”, “Hate Breeders”, “Braineaters”, “Halloween”, “Bullet”, “Horror Business” e “We Are 138”. O áudio não está muito bom, mas pode divertir quem quiser um pouco de agitação punk neste Halloween.

Príncipe das Sombras (1987)

Homenagem a Lisa Blount (1957-2010).

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