CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Luigi Cozzi apresenta Black Cat e Paganini Horror no Fantaspoa


   O horror tomou conta do Cine Bancários na terceira noite da mostra Luigi Cozzi no Fantaspoa. O programa duplo desta quinta-feira foi formado pelo raríssimo The Black Cat (O Gato Negro no programa oficial do festival, mas exibido a partir de uma cópia em VHS intitulada Filmagem Macabra) e o divertido Paganini Horror. Foram os dois últimos filmes dirigidos por Luigi Cozzi e ainda que não sejam o epitáfio digno de uma carreira que durou duas décadas, são obras das quais o veterano cineasta italiano pode se orgulhar tranquilamente.
   The Black Cat merece lugar de destaque na filmografia de Cozzi por ser uma espécie de conclusão não-oficial da trilogia das ‘Três Mães’ de Dario Argento, precedida por Suspiria (1977) e Inferno (1980), e só concluída em 2007 com o desastroso La Terza Madre (lançado no Brasil sob o insuspeito título de O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas). Na conversa com a platéia ao final da sessão, Luigi Cozzi explicou que o filme surgiu de uma idéia de Daria Nicolodi, na época esposa de Argento e roteirista de Suspiria, que estava interessada em finalmente realizar a parte final da trilogia. Nicolodi a princípio seria a protagonista do filme, que deveria se chamar De Profundis (em inglês, From the Depths), mas Cozzi mexeu tanto no roteiro que ela acabou se desinteressando pelo filme.


   O que a princípio era uma sequência convencional da saga das três bruxas se tornou um filme sobre os próprios bastidores dessa produção, contando a história de um diretor e um roteirista que convencem um produtor a investir no filme, enquanto suas respectivas esposas brigam pelo papel principal, o da maligna bruxa Levana. Cozzi disse que não se sentia à vontade mexendo no material de Dario Argento (“e ele provavelmente me mataria”, brincou).
   E onde entra o gato preto nessa história toda? Pois é, a princípio nem deveria entrar, mas Cozzi teve que enfiar um maldito felino na trama, num arremedo muito pouco convincente, para contentar um distribuidor norte-americano que havia anunciado o título The Black Cat, baseado no conto de Edgar Allan Poe, e precisava de um filme que correspondesse ao prometido. Desta maneira, De Profundis se transformou em Edgar Allan Poe’s The Black Cat, com a desculpa de que “todo gato preto é uma bruxa disfarçada”.


   O filme é uma bagunça como a maioria dos filmes oitentistas de Cozzi, com um roteiro que abusa do surrealismo (o diretor defende a idéia de que os dois filmes da noite são uma mistura de horror e ficção científica), mas não deixa de ter momentos interessantes; além de esbanjar estilo, numa tentativa de emular a atmosfera tanto de Argento quanto de Bava, evocados na fotografia com o uso de filtros azuis e luzes com tons intensos de vermelho e verde.
   Cozzi atribui o rico conteúdo histórico do roteiro ao vasto conhecimento de Daria Nicolodi em literatura sobrenatural, citando De Profundis (1857), do poeta francês Charles Baudelaire (transformado em ‘Boldlair’ ou coisa parecida na legenda do VHS nacional) e indo além, referindo-se ao livro Suspiria de Profundis (1845), de Thomas De Quincey, como a origem de tudo.


   O filme acaba deixando de lado essa trama toda acerca da bruxa Levana e se concentra nos percalços que envolvem uma produção do gênero, um mesquinho jogo de vaidades no qual todo mundo tem que ceder um pouco em benefício do filme. A obra é imperfeita e longe de estar livre de defeitos, mas não deixa de ser interessante a maneira como Cozzi trata a rivalidade entre as atrizes e o que elas são capazes de fazer para ficar com o papel. O final, com moral de conto-de-fadas, pode ser interpretado como o processo de preparação de um artista que se deixa ser engolido pela obra, criando ao seu redor uma espécie de blindagem emocional que cria uma ilusão de vida ideal, fazendo com que sua grande rival se torne sua melhor amiga e o marido (que estava prestes a se divorciar dela) seja o alicerce da família feliz.


   A seguir, novamente com sala lotada e gente sentada nos degraus, foi exibido Paganini Horror, que pelo menos cumpriu bem sua função de divertir a platéia, que não se intimidou em rir nas partes mais absurdas (a cena do fungo mortal oriundo da madeira usada na fabricação dos violinos Stradivarius é do tipo ‘ver pra crer’). O filme é sobre uma banda de pop rock formada por três garotas e um baterista que, em busca do sucesso garantido, adquire a partitura de uma composição inédita de Niccolò Paganini, o violinista italiano que dizem ter vendido a alma ao Diabo.
   A esperta produtora da banda, ao saber da novidade, tem a idéia de gravar um videoclipe numa mansão sinistra para promover a canção, afinal nunca ninguém fez nada parecido antes (“exceto Michael Jackson com a música ‘Thriller’ e seu sensacional videoclipe!”, fazem questão da salientar, num dos diálogos mais impagáveis do filme).
   Quando chegam à tal mansão, cuja dona é ninguém menos do que Daria Nicolodi, não demora para que o fantasma do violinista maldito comece a despachar os intrusos com requintes cruéis do melhor estilo slasher (muitas cenas nessa mesma linha tiveram que ser eliminadas quando o orçamento foi drasticamente reduzido durante a produção).


   Entre as atrações de Paganini Horror estão as canções interpretadas pela banda de garotas, as quais Luigi Cozzi admite não serem de seu agrado, “mas foi o que pudemos fazer com o curto orçamento”, defende o diretor. O detalhe problemático é que as duas principais canções são plágios escandalosos de músicas de sucesso: uma é “You Give Love A Bad Name”, do Bon Jovi, cuspida e escarrada; a outra é a cara e o focinho de “Twilight”, do Electric Light Orchestra (as duas podem ser devidamente conferidas nos vídeos acima).
   No bate-papo ao final da sessão, Cozzi falou sobre o prazer de ter trabalhado com Donald Pleasence neste filme (no qual ele interpreta o próprio Diabo) e citou como exemplo contrário as extravagâncias que teve que aturar de Klaus Kinski durante as filmagens do desastroso Nosferatu em Veneza, no qual fez pouco mais do que filmar o ator caminhando a esmo sob a bela luz do amanhecer, simplesmente porque era tudo que Kinski tinha vontade de fazer.
   Cozzi ainda falou sobre sua paixão pelo cinema, que surgiu quando ele viu o clássico Vinte Mil Léguas Submarinas (1954), da Disney, ainda quando criança, o fim do cinema italiano, engolido pela televisão e sua política que visa exclusivamente o lucro, e o prazer de trabalhar nos Estados Unidos em Dois Olhos Satânicos, onde teve o apoio de uma equipe técnica jovem e empolgada, em contraste aos velhotes desinteressados que normalmente encontrava na Itália.
   Ao final da sessão, finalmente decidi pegar um autógrafo com Luigi Cozzi. Soletrei meu nome a ele dizendo que era “igual Carlo Ponti, mas com ‘s’ no final”. Ao ver a Bia ao meu lado, também a postos para pegar um suvenir, Cozzi comentou, com um largo sorriso: “Então ela só pode ser a Sophia Loren!”. Tem como alguém ser mais simpático?

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Luigi Cozzi apresenta Contamination e Starcrash no Fantaspoa

   O segundo dia da mostra Luigi Cozzi começou mais cedo, com entrevistas marcadas para a TVE para uma reportagem sobre o Fantaspoa que vai ao ar, se não me engano, na próxima terça-feira. Eu planejava ver então os dois episódios da série de TV La Porta sul Buio, programados para às 17 horas, mas acabei trocando a sessão de cinema pelo convite de Luigi Cozzi e comitiva - ou seja, Felipe M. Guerra - para ver os últimos minutos do jogo entre Alemanha e Espanha num restaurante próximo. Cozzi comemorou o gol espanhol e festejou a “final inédita” da Copa, com Espanha enfrentando a Holanda no domingo. Aproveitei a deixa e contei a Cozzi que em 2002, durante a produção da coleção de DVDs do Zé do Caixão, o Mojica sempre chegava atrasado às gravações das trilhas de comentário em áudio porque ficava em casa vendo os jogos da Copa do Mundo.
   Também tive que explicar a barra-pesada do caso do goleiro Bruno, do Flamengo, que naquele momento estava sendo preso acusado de assassinato, pois a TV estava ligada na Band, com aquela baixaria toda do Datena no Brasil Urgente. Pobre Luigi, não merecia isso...


   A sessão seguinte foi Alien, o Monstro Assassino (1980), praticamente lotada e com a companhia do recém-chegado Leandro Caraça, e ainda Laura Cánepa, Carlos Thomaz Albornoz, Blob e toda a galera mais legal dessas bandas, como o Cristian Verardi e o Marcelo Severo. O principal filme da noite, Starcrash, exibido às 21 horas, lotou de vez o Cine Bancários e teve muita gente sentando pelas escadas.
   Foi ótimo rever Alien, o Monstro Assassino, do qual eu só me lembrava de algumas cenas - basicamente, os ovos explodindo e o sangue jorrando. Também lembrava que tinha alguma coisa relacionada com café colombiano, mas fiquei surpreso ao constatar o quanto o filme bebe na fonte da fase áurea da ficção científica, paixão confessa de Luigi Cozzi. A estrutura do roteiro me lembrou demais o clássico The Beast from 20,000 Fathoms (O Monstro do Mar), de 1953, o primeiro grande filme com efeitos visuais em stop-motion de Ray Harryhausen. Cozzi explicou que seu trabalho, basicamente, era convencer os produtores que seu filme era na toada de Alien, o 8º Passageiro e que, portanto, ia render uma nota preta nas bilheterias. Depois disso, ele ficava à vontade para fazer o filme que queria. Deliciosamente antiquado, sobram na obra de Cozzi citações explícitas a filmes como O Mundo em Perigo (1954), Usina de Monstros (1957) e a produção japonesa The H-Man (1958).
   O bate-papo com a platéia após a exibição de Starcrash durou mais de uma hora e foi recheada de anedotas sobre como funcionavam os bastidores do cinema comercial italiano na época. Cozzi contou, por exemplo, que o projeto que resultou em Alien, o Monstro Assassino começou como uma imitação de Síndrome da China e teve influência do êxito de bilheteria do Zombi 2, de Lucio Fulci, que estava rendendo muita grana aos produtores naquele momento.


   O cineasta detalhou o cronograma de produção de Starcrash, segundo ele próprio, a primeira imitação de Star Wars a ser produzida, com as filmagens iniciando em meados de setembro de 1977. O filme chegou às telas no início de 1979. Falando sobre o clima infanto-juvenil de Starcrash, Cozzi comentou que quis fazer um filme caricatural, inspirado nas histórias em quadrinhos do Mickey, especialmente suas aventuras detetivescas. As aparições do Conde Zarth Arn, o vilão interpretado por Joe Spinell, com suas gargalhadas malignas, arrancou risos da platéia, que entrou na brincadeira e parece ter curtido bastante a ingênua saga espacial de Cozzi.
   O diretor também contou que o robô Elle foi interpretado pelo então marido da estrela Caroline Munro, que encheu o saco dos produtores até conseguir um papel no filme. Durante as filmagens, o sujeito continuou atormentando o diretor com detalhes irrelevantes e, enciumado com o clima entre sua esposa e o co-astro David Hasselhoff, acabou convencendo Cozzi a encerrar o filme sem o esperado beijo entre os heróis, que apenas se abraçam amigavelmente ao fim da aventura.
   Falastrão e acessível, Cozzi comentou que seu filme também é uma homenagem a Ray Harryhausen (os robôs malignos que são chamados de Golems no filme são óbvias referências aos esqueletos espadachins dos filmes de fantasia de Harryhausen), citou os diretores John Ford, Stanley Kubrick e Jack Arnold como suas grandes influências e comentou a amizade com outros grandes nomes do cinema fantástico italiano, como Riccardo Freda, Mario Bava, Antonio Margheriti e, claro, Dario Argento.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Luigi Cozzi apresenta Hércules no Fantaspoa


   O veterano cineasta italiano Luigi Cozzi, o principal convidado da sexta edição do Fantaspoa, apresentou na noite de ontem seus épicos de fantasia Hércules e As Aventuras de Hércules no Cine Bancários, no centro de Porto Alegre. Carismático e sempre disposto a conversar com a platéia, Cozzi entra para a galeria das figuras mais simpáticas a participar do festival mais importante deste gênero realizado no Brasil.
   Os filmes são um pout-pourri de diversas produções de aventura da época, como Superman, o Filme, Conan, o Bárbaro e Fúria de Titãs, do qual pega emprestado a idéia dos mesquinhos deuses mitológicos manipulando o destino dos personagens. No segundo filme, a citação a Fúria de Titãs fica ainda mais explícita na cena da Medusa que vê a própria imagem refletida no escudo do herói e se transforma em pedra. Cozzi reconheceu a influência da megaprodução Superman de 1978 no estilo do seu filme e revelou que convenceu os produtores israelenses Menahem Golam e Yoram Globus a investir no projeto depois que o definiu como “um Superman do passado”.
   Aos espectadores menos preparados, Hércules (1983) é simplesmente incompreensível. Eu mesmo não entendi nada. Sua atmosfera de fantasia misturado a ficção científica – não muito diferente dos exemplares infanto-juvenis de Godzilla, por exemplo, outra paixão confessa de Cozzi – é encantadora, repleta de cenas com efeitos especiais charmosos e artesanais, com o indefectível sabor oitentista. O enredo, porém, é complicado demais, com os caprichos dos deuses, cada um querendo passar a perna no outro, tornando tudo muito confuso; não dá para saber quem está contra e quem está a favor de Hércules, pobre coitado.
   O herói interpretado por Lou Ferrigno, famoso pelo papel do Incrível Hulk na TV, é anunciado no início como o homem mais forte e inteligente do mundo. Forte ele até que pode ser, foi capaz inclusive de separar a Europa da África, dividindo os continentes. Mas chamá-lo de inteligente é exagerar na dose: Hércules é enganado por praticamente todo mundo que cruza seu caminho, e sempre surge alguém para lhe dar a idéia do que fazer a seguir. Outro contrasenso da trama é que todo mundo na história parece ter mais poderes do que Hércules: todos soltam raios, criam seres do nada e interferem na trama, enquanto que Hércules pode contar somente com seus músculos superdesenvolvidos e sua inesgotável ingenuidade.


   As Aventuras de Hércules (1985) dá continuidade à saga num estilo mais convencional, inspirado diretamente na mitologia grega (“tinha pouco tempo para escrever o roteiro, então fui a uma livraria e comprei um livro dessa grossura sobre os mitos gregos”, contou Cozzi), sem os elementos de ficção científica que tornaram tão peculiar o exemplar anterior. Ao beber diretamente na fonte, Cozzi realizou um filme mais sombrio e pessimista, porém também muito mais fácil de se compreender. Novamente temos deuses e semi-deuses caprichosos eternamente envolvidos em disputas de ego e vaidade, mas desta vez Hércules é mais útil e decisivo no desenrolar da trama. Seu objetivo também é mais claro: o musculoso herói deve recuperar os sete raios de Zeus, seu pai celestial, que foram roubados por um oponente e escondidos na barriga de sete monstros espalhados pela Terra.
   A conversa com Luigi Cozzi ao final da sessão, apesar da aparente timidez da platéia, encerrou em grande estilo a primeira noite com a retrospectiva da obra do cineasta italiano. Cozzi, ao lado de João Pedro Fleck e Felipe M. Guerra, curador da mostra, divertiu os presentes ao explicar em detalhes a origem do projeto, quando os homens poderosos da Cannon o chamaram às pressas para escrever um roteiro sobre Hércules em substituição ao ‘piece of shit’ proposto por Claudio Fragasso e Bruno Mattei. Cozzi então lhes ofereceu uma abordagem infanto-juvenil com elementos de ficção científica, com monstros mecânicos e máquinas metálicas, para a satisfação de Golam-Globus. O filme foi lançado diretamente no mercado estadunidense (“os italianos não viam sentido em fazer um Hércules vinte anos depois de esse tipo de filme ter saído de moda”, explicou Cozzi), onde faturou cerca de U$ 40 milhões, para a felicidade dos investidores.
   Outro momento divertido foi quando Cozzi revelou que As Aventuras de Hércules surgiu meio que casualmente, quando os produtores desistiram da produção Os Sete Gladiadores, que estava nas mãos de Bruno Mattei, e decidiram fazer um segundo filme com o herói grego. O detalhe é que Lou Ferrigno, o protagonista, não podia saber que estava filmando cenas de um segundo Hércules, e não do filme combinado sobre gladiadores. Por isso as cenas finais de As Aventuras de Hércules apresentam versões animadas do ator, feitas em rotoscopia e transformadas por meio de efeitos visuais. À certa altura, a versão animada de Hércules se transforma em King Kong e ele luta com um Godzilla feito só de luz.
   Luigi Cozzi admitiu também que copiou o ‘Monstro do Id’ do clássico de ficção científica Planeta Proibido (1956) por meio do processo de rotoscopia: “eu tinha uma cópia desse filme, que é um dos meus preferidos, e mandei o desenhista copiar toda a animação, cena a cena, pois o filme foi feito às pressas, não tínhamos tempo para nada”, revelou o cineasta. Luigi Cozzi e seus Hércules fora de moda são a essência do cinema de exploração italiano, onde pouco se cria, tudo se transforma e a criatividade surge de onde menos se espera. Certa vez o ator David Warbeck definiu assim o talento de Lucio Fulci: “é a capacidade de transformar nada em alguma coisa”. E isso vale para a maioria dos cineastas do gênero fantástico italiano.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Jovem Tataravô (1936)


   A sessão de hoje do Fantaspoa promete ser um momento especial no festival, ao menos àqueles que compartilham do entusiasmo e interesse em tudo que cerca nosso tão pouco conhecido cinema de gênero. A exibição do filme O Jovem Tataravô, uma comédia musical produzida pela Cinédia em 1936, resgata um item raro de nossa filmografia, naquele que é considerado o primeiro longa-metragem brasileiro com elementos fantásticos. O filme será exibido às 19 horas no Cine Bancários, em Porto Alegre, na única atração do dia, e ao final eu e a Laura Cánepa iremos debatê-lo com os espectadores. A exibição é também uma espécie de trailer do curso O Horror no Cinema Brasileiro, que acontece nos dias 10 e 11 deste mês e apresentará um vasto panorama do gênero em nosso país, agora sem a concorrência dos horrores da seleção do Dunga, pois as aulas acontecem no final de semana das finais da Copa do Mundo (porém, terminam antes do início dos jogos, então ninguém vai ficar sem futebol!).


   Para ilustrar esta postagem, capturei a apresentação do filme realizada pela Zezé Motta no Canal Brasil. Também compilei alguns textos antigos sobre o filme, amostras de como a obra foi recebida na época, em críticas pitorescas e peculiares. Artigos recentes fazem abordagens mais históricas do filme, como o texto assinado por Ricardo Calil, disponível no site da Programadora Brasil, e principalmente o excelente e completíssimo ensaio da Laura publicado na revista eletrônica Carcasse, datado de setembro de 2006.

   “Num leilão, com uma caixa, Menezes arremata certo papel com certa oração poderosa (fazia voltar ao mundo o mais enterrado dos mortos). Organiza-se uma sessão, estabelecendo-se a corrente, invoca-se e zás: surge o tataravô de Menezes, o que logo mais, barbeado, penteado e metido em fatiotas bem lançadas, se mete a conquistas, cai numa farrinha e até a aviação se entrega! A audácia do jovem tataravô, que chegou ao cúmulo de enredar no amar sua própria bitataraneta, leva seu ‘inventor’ a recorrer à macumba para devolvê-lo ao nada. Consegue-o, para o alívio de todos, principalmente do noivo.” (Cine-Repórter, nº 125, 1936)
   “(...) bem conduzido e com diálogos, versos e ‘bolas’ muito felizes. Música: encantadora! Sem exceção de um só número de sua música, a partitura do filme é maravilhosa, destacando-se entre os números a canção final do cabaré. Gravação, sonora! A melhor que já se fez no Brasil e, diga-se (mas para dizer pouco), poderia ter ido aos Estados Unidos para voltar de lá com a classificação de perfeita. Impressões da platéia; muito boa. Desde o primeiro dia, até hoje, o público deu sempre gostosas gargalhadas e sempre nas mesmas ‘bolas’. Presencamos, realmente, em várias sessões, o público rindo a valer. O filme agradou inteiramente. Este agrado se justifica - boa música, bom som, bom enredo, artistas discretos, fotografia boa em geral.” (W.S., Imparcial, 1 de setembro de 1936)
   “O Jovem Tataravô, tal como está, na tela do Odeon, com os seus defeitos e virtures, é um filme nacional que se impõe. E, estando muito acima da mediocridade, é um trabalho que enche de justificado orgulho e patriotismo a qualquer fã brasileiro, que encontra, neste celulóide, o testemunho insofismável, indiscutível, de que o nosso cinema evoluiu com uma rapidez extraordinária. (...) Em matéria de fotografia e som, O Jovem Tataravô representa a ‘Autêntica Vitória da Cinédia’, pois ‘Ainda Não Vimos Nada Melhor’. A fotografia, principalmente, é de uma nitidez que surpreende. (...) Em primeiro plano coloco, pela naturalidade cinematográfica com que atuam, Darcy Cazarré, Lygia Sarmento e Carlos Frias, este o verdadeiro primeiro galã que o cinema brasileiro encontrou. (...) A direção de Luiz de Barros é bem apreciável. O argumento de Gilberto de Andrade é magnífico e esplêndido de comicidade. É fator seguro de êxito.” (Alfredo Sade, A Batalha, 16 de setembro de 1936)   “Um novo filme brasileiro e, tomado de um modo geral, na minha opinião, o melhor de quantos têm sido apresentados até agora. É, já, um trabalho que não envergonha, que pode ser visto, porque não desagrada. Há a distinguir nele três ‘motivos’: o que diz respeito à sua técnica material; o da sua interpretação e direção e o enredo. Quanto a sua feitura material, teçamos loas à Cinédia, pelo trabalho de seus estúdios. O filme é cem por cento bom em sua fotografia e gravação. O ambiente bem decorado, se bem com pouca variedade.” (Paulo Lavrador, A Nação, 17 de setembro de 1936)
   “(...) Mesmo sendo um filme de linha, despretensioso, embora de assunto fantástico, pode-se considerar O Jovem Tataravô um dos melhores filmes brasileiros que já vimos.  (...) A história é interessantíssima e sua adaptação agrada bastante. A direção de Luiz de Barros é também agradável. (...) É mais cinematográfico e agrada muito mais. Na interpretação gostosa de Cazarré (na tela, o mesmo artista sincero do palco e uma magnífica aquisição do cinema), Marcel Klass, Dulce Weytingh, Lygia Sarmento, Manoelino Teixeira e Manoel Rocha. (...) O Jovem Tataravô surpreende a muita gente.” (P.R., Correio da Noite, 17 de setembro de 1936)

sábado, 3 de julho de 2010

Fantaspoa: Curtas Nacionais de Animação

Abracadabra

Os Anjos do Meio da Praça

Bob Mosca

Josué e o Pé de Macaxeira

O Jumento Santo na Cidade Que Se Acabou Antes de Começar

A Última Noite

domingo, 27 de junho de 2010

Mangue Negro no Canal Brasil


   A legião de admiradores de Mangue Negro tem mais um motivo para festejar: o filme estréia hoje no Canal Brasil, às 22h30, com reprise na madrugada do dia 29, em verdadeiro horário de zumbi, às 4h30. Para quem apostou no filme como o representante de uma nova maneira de se fazer cinema no Brasil (e o melhor: cinema de gênero!), essa é outra grande conquista. Por mais que a gente valorize outros bravos realizadores amadores que se dedicam ao gênero com produções feitas aos trancos e barrancos, existe um abismo entre o talento artístico de Rodrigo Aragão e todos os demais. Pelo menos por enquanto. Torcemos sempre para que surjam novos talentos.
   Não tenho certeza, mas acredito que seja a primeira vez que chega à telinha do Canal Brasil um filme de ficção praticamente amador (não podemos usar o termo ‘cinema independente’ em nosso precário cenário nacional, onde quase tudo é independente!).


   A chegada do filme à programação da TV por assinatura foi devidamente registrada nas páginas da revista Monet, numa excelente matéria assinada por Dafne Sampaio, a qual reproduzo nesta postagem. Quem ainda não viu Mangue Negro, esta é mais uma ótima oportunidade de se conhecer a auspiciosa estréia de Rodrigo no longa-metragem, enquanto aguardamos o lançamento do igualmente promissor A Noite do Chupacabras.

sábado, 19 de junho de 2010

Ídolos: Casa da Colina


   Odeio reality shows. Simplesmente odeio, não suporto ver nenhum. Na verdade, nunca assisti, mas não me interesso na coisa. O único que achei interessante - e mesmo assim não assisti - era um programa argentino que anunciou que ia escolher o melhor roteiro de um curta-metragem a ser filmado numa casa supostamente mal-assombrada. Não sei que fim isso levou, mas o que importa é que o tema casa mal-assombrada nos traz a este bizarro trecho do programa Ídolos, exibido na Record, com o qual esbarrei por acidente.
   O trecho mostra o candidato André Marques, de 19 anos, um sujeito que não consegue nem falar direito, pagando mico em rede nacional interpretando uma canção de sua autoria, chamada “Casa da Colina”, diante dos três jurados do programa. A música é... assim, uma coisa de doido. Tão fascinande, na verdade, que não resisti à tentação de transcrever a letra: “A casa é má, baby, lá tem fantasmas, yeah yeah, é mal-assombrada, viu?, e fantasmas moram na casa da colina. Vou passar um dia nessa casa cheia de espíritos, yeah. Vou levar muitos sustos, não vai ter futebol. Casa mal-assombrada, yeah yeah. Casa mal-assombrada... Casa da colina. Eu vou passar um dia nessa casa cheia de espíritos. Venha comigo, vou te levar... Casa da colina...”. A parte do futebol é um enigma total, adorei.
   Se essa postagem não receber nenhum comentário, vou entender. Também fiquei sem palavras.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ensaio Sobre a Cegueira (2008)

Homenagem a José Saramago (1922-2010).


   Na minha opinião, este é uma espécie de filme de zumbi disfarçado, mais cerebral do que visceral, mas ainda assim um exemplo das possibilidades do horror no cinema. Não que muita gente concorde comigo, mas isso é outra história. O português José Saramago escreveu o livro em 1995 e foi premiado com o Nobel de Literatura em 1998. A adaptação de Fernando Meirelles leva às telas a história de uma inexplicável epidemia de cegueira, altamente contagiosa, que atinge inúmeras pessoas de uma metrópole indefinida. Os infectados são recolhidos a abrigos, onde são precariamente alimentados e cuidados, e para onde mais vítimas são enviadas a cada dia. Uma mulher imune ao contágio diz estar cega para ficar em quarentena com o marido infectado, sendo a única pessoa no local capaz de enxergar. É dramático e apocalíptico, às vezes assustador e cruel, mas também esperançoso, uma parábola sobre o desmoronamento da sociedade a partir de uma fraqueza humana.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Banglar King Kong (2010)


   Outra versão de King Kong, desta vez uma produção de Bangladesh em ritmo de Bollywood. Perfeito para os defensores do cinema ‘simples e ingênuo’ feito lá pelas bandas do sul da Ásia, para intelectuais, descolados e fãs de absurdos em geral. Resumindo: o cinema deles evoluiu ao estágio dos Trapalhões na década de 1970. O mais difícil de acreditar é que se trata de um filme de 2010. Isso mesmo, essa é uma produção deste ano, não uma relíquia de 30 anos atrás. O trailer é inacreditável. Kong canta. E dança. E a galera vibra com mais uma celebração do trash sem noção e sem vergonha na cara.

sábado, 5 de junho de 2010

Quem Tem Medo da Verdade? (1970): Grande Otelo


   Quem viu O Despertar da Besta (ou Ritual dos Sádicos), a obra-prima metalinguística realizada em 1970 por José Mojica Marins, certamente se lembra do trecho no qual aparece o cineasta sendo julgado no programa de TV Quem Tem Medo da Verdade?, um autêntico lixo televisivo que nos faz pensar duas vezes antes de dizer que temos saudades dos “bons tempos” da televisão, ou que o sensacionalismo invadiu as telinhas brasileiras apenas recentemente.
   O programa foi ao ar entre os anos de 1968 e 1971, exibido pela TV Record, e tinha como proposta a presunção de julgar ‘culpada’ ou ‘inocente’ alguma figura pública notória, acusando o sujeito dos mais absurdos crimes (que iam da irresponsabilidade social ao alcoolismo ou simplesmente um subjetivo mau gosto). Um júri de celebridades era convidado a cada programa para dar o veredito final, entre eles a figura odiável de Sílvio Luiz, que funcionava como o provocador oficial do programa, tendo como única missão ofender e agredir verbalmente os convidados. Resumindo, alguém que assumia seu péssimo caráter, um instrumento que se sujeitava ao sensacionalismo barato neste veículo concebido única e exclusivamente para dar audiência.
   O programa era produzido e dirigido por Carlos Manga, que era também o apresentador, na posição patética de presidente do júri. Ultrajante, humilhante e inaceitável, Quem Tem Medo da Verdade? infelizmente serviu de escola para todo o lixo que invade a televisão nos dias de hoje, descendo ao nível de programas como o de Luciana Gimenez e outros que afortunadamente sequer sei da existência.


   O episódio postado aqui coloca no banco dos réus ninguém menos do que Grande Otelo, que durante mais de duas horas foi esculhambado publicamente, acusado de alcoolismo e de ter sido negligente com seus compromissos profissionais e sociais, inclusive de ter agredido homens e mulheres devido ao seu vício. No júri estão celebridades como o atleta Adhemar Ferreira da Silva e o compositor Adoniran Barbosa, além de Clécio Ribeiro e Paulo Azevedo, que fazem companhia a Sílvio Luiz no papel de ofender o convidado, o suposto ‘réu’, num desavergonhado festival de hipocrisia.
   Grande Otelo teve a defesa realizada pelo diretor José Carlos Burle, um dos grandes nomes do cinema brasileiro, fundador da companhia Atlântida e realizador de Moleque Tião (1943), filme - hoje considerado perdido - que marcou a estréia de Grande Otelo como protagonista nas telas. Mesmo diante da brilhante defesa de Burle, que destaca o valor de Otelo como artista acima de tudo, o ator foi condenado por seis votos a dois. Talvez seja melhor não levar tão a sério toda essa idiotice e ficar com a inspirada frase final de Adoniran Barbosa ao defender o colega de copo: “Absolvo porque ele é um grande artista e um grande amigo meu e daqui a pouco nós vamos sair por aí tomar umas e outras juntos”.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dr. Pyckle and Mr. Pride (1925)


   Deliciosa paródia de O Médico e o Monstro com Stan Laurel em seus momentos mais hilariantes. As traquinagens Mr. Pride, assoprando uma língua-de-sogra e lambendo desafiadoramente uma bola de sorvete, são exemplos perfeitos da genialidade nonsense do cinema mudo. A cena da transformação, uma pantomima com todos os exageros possíveis, é uma paródia da versão séria estrelada por John Barrymore cinco anos antes. Um verdadeiro tesouro fílmico! Clique aqui para baixar esse filme em versão DivX.
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