CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Season of the Witch (1972)

   Possivelmente o pior filme dirigido por George A. Romero, este Season of the Witch foi sua segunda investida no horror, depois da frustrante tentativa de se fazer cinema mais ‘sério’ com There’s Always Vanilla. O filme de estréia do diretor, claro, é Night of the Living Dead. Originalmente intitulado Hungry Wives e depois Jack’s Wife e relançado dez anos depois com o nome Season of the Witch, o longa - e bota longa nisso: o filme completo tem 130 minutos, reduzidos para ainda penosos 105 na versão em DVD - é um equívoco em quase todos os níveis, mas ainda dá para tentar ver algum aspecto positivo no filme.
   Um desses méritos talvez fosse o fato de se tratar de um filme adulto com mulheres de meia idade discutindo suas vidas sexuais. Mas quando constatamos o quanto essas mulheres são desagradáveis (o elenco todo é formado por amadores desprovidos de qualquer talento dramático) e que os diálogos parecem improvisados e sem a mínima inspiração, logo isso se torna outra das fraquezas do filme. O calcanhar-de-aquiles de Romero parece mesmo ser a direção de atores: cada um faz o que bem entende em cena, e quando não há diálogos, a expressão dos personagens fica entre a cara de pateta e a completa ausência de emoção.
   A esposa de Jack é uma mulher de meia-idade desgostosa com o marido grosseirão e à beira da depressão por não poder saciar o seu desejo sexual ainda ardente. Nas reuniões com outras mulheres de sua faixa etária, ela se sente deslocada e sem graça, até que descobre o maravilhoso mundo da bruxaria. Ela se arrisca a comprar umas quinquilharias numa lojinha especializada no tema - durante esta cena toca a canção “Season of the Witch”, de Donovan, o que explica o título pelo qual esse filme ficou mais conhecido - e começa a fazer uns feitiços caseiros. O primeiro deles é para atrair até sua casa um rapaz que estava saindo com sua filha. O garotão chega e eles fazem sexo selvagem e suarento.


   Tivesse sido realizado com mais empenho e talento, certamente seria um bom filme e hoje seria lembrado por sua relevante posição feminista. Há inclusive quem enxergue nuances bergmanianas na obra. O tema da mulher frustrada sexualmente que tem pesadelos com um homem violento invadindo sua casa certamente tem potencial dramático e interessantes implicações freudianas. Entretanto, num balanço geral, o filme não é mais do que enfadonho, arrastado. A cena da maconha parece durar para sempre e as discussões entre mãe e filha não se justificam. Os únicos momentos realmente inspirados são os pesadelos da mulher atacada pelo homem mascarado. Nestas cenas, a banalidade dá lugar a tomadas com iluminação marcada por fortes contrastes de claro e escuro e montagem dinâmica, com ângulos inventivos que remetem obrigatoriamente a Night of the Living Dead.
   Romero a seguir dirigiu o irregular The Crazies e seguiu com os dois pés fincados bem fundo no horror. Mesmo contrariado, virou um cineasta filiado ao gênero e, finalmente, resignou-se à condição de pai dos zumbis quando decidiu dar continuidade à saga dos mortos-vivos, a qual até o momento conta com os capítulos Dawn, Day, Land, Diary e Survival. São os aficionados por essas obras que têm interesse em olhar para o passado para conhecer o que mais o cineasta tem a oferecer; às vezes se deparando com decepções como esta.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Mystery! (1984-1988)


   O programa Mystery!, exibido no canal PBS - espécie de TV Educativa dos ianques - foi criado em 1980 para levar ao espectador estadunidense histórias de crime, mistério e suspense importadas da televisão britânica, incluindo contos clássicos de detetive adaptados da obra de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Isso seria mais do que o suficiente para que a série fosse um grande sucesso, porém muitos outros detalhes a transformaram num autêntico clássico da telinha.
   Os créditos de abertura foram criados por ninguém menos do que o ilustrador Edward Gorey, célebre por seus desenhos mórbidos e macabros, mas ao mesmo tempo charmosos, engraçados e encantadores. Quem acha Tim Burton ‘gênio’ ou mesmo original com seu horror liberado para menores precisa conhecer melhor a obra de Gorey. Quem se interessar em saber mais sobre ele, tem uma ótima entrevista com o ilustrador - já falecido - no site da PBS, na qual Gorey rejeita sua relação com o horror, comparado ao cartunista Charles Addams ou mesmo com Stephen King. Derek Lamb, o animador responsável pela abertura do programa, conta sua relação com Gorey neste ótimo depoimento, no qual revela os bastidores da criação.
   Durante algumas temporadas, Mystery! exibiu episódios das séries protagonziadas pelo britânico Jeremy Brett como o detetive Sherlock Holmes, produzidas pela TV inglesa Granada. Brett é considerado por muita gente como o melhor intérprete do personagem criado por Conan Doyle, e estas adaptações das histórias originais do escritor estão entre as mais fiéis já realizadas (não tenho certeza se essas séries chegaram à TV brasileira, mas algumas histórias foram lançadas em VHS por aqui). A primeira série foi The Adventures of Sherlock Holmes (1984-1985), com 13 episódios, seguida por The Return of Sherlock Holmes (1986-1988), com 11 episódios, e ainda os longas The Sign of Four (1987) e The Hound of the Baskervilles (1988). Todas foram exibidas no programa Mystery! Brett seguiu interpretando o famoso detetive em séries curtas (The Case-Book of Sherlock Holmes e The Memoirs of Sherlock Holmes) até sua prematura morte em 1995, vitimado por um ataque cardíaco.
   O anfitrião responsável por introduzir estes episódios na antologia da PBS não poderia ser mais adequado: o veterano Vincent Price, ainda carismático e fascinante mesmo septuagenário, mantendo sua postura aristocrática dos áureos tempos. Selecionei nesta postagem as aberturas de todos os episódios apresentados por Price, uma valiosa coleção para quem cultua este ícone do horror. Nas temporadas seguintes do programa, Price foi sucedido pela maravilhosa Diana Rigg, que assumiu o posto de anfitriã.
   A combinação precisa entre a graça de Gorey, a imponência de Price, a dignidade de Brett e o brilhantismo de Conan Doyle, reunidos num único programa, é um daqueles momentos em que acreditamos que, sim, às vezes as coisas podem ser perfeitas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Terceiro Tiro (1955)

Homenagem a John Forsythe (1918-2010).


   A antológica entrada em cena de John Forsythe, cantando “Flaggin’ the Train to Tuscaloosa”, de Raymond Scott, na comédia macabra dirigida por Alfred Hitchcock, que discute sexo e morte com desconcertante casualidade, ao ponto de ser uma das obras ainda incompreendidas por parte do público.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Linnea Quigley’s Horror Workout (1990)


   Tem que correr, tem que suar, tem que malhar... vamos lá! Não me canso de enumerar as coisas ridículas e constrangedoras que a década de 1980 consagrou. Foi a época na qual imperou o mau gosto e o exagero; a era do completo equívoco, em especial na maneira que as mulheres se vestiam e se maquiavam: penteados armados, terninhos com ombreiras e pintura facial de envergonhar o palhaço Bozo.
   Um dos fenômenos próprios da então chamada “geração saúde”, que se valia de um discurso muito vago sobre cuidar melhor do corpo, foi a obsessão por malhar, puxar ferro, ter o cooper feito. Foi nesse clima que a atriz Jane Fonda lançou um vídeo de ginástica que se tornou um inesperado campeão de vendas. Não, caro jovem, você não leu errado: um vídeo com uma balzaquiana malhando virou fenômeno de vendas em home video! Tanto que muita gente - semi-celebridades em busca de um trocado rápido - embarcou na onda da malhação e produziu seu próprio vídeo de workout; até mesmo a então já aposentada estrela erótica Traci Lords investiu nesse filão de gosto mais discutível do que pornô underage.
   Em meio a todas essas fitas de mulheres promovendo a importância de manter a forma, nenhuma consegue ser mais estapafúrdia e ao mesmo tempo divertida do que o Horror Workout protagonizado por Linnea Quigley, no qual a espevitada scream queen e sua patota, entre outras peripécias, fazem flexões e alongamentos enquanto tentam sobreviver a um ataque de zumbis. O vídeo - um surreal cruzamento entre os exercícios de Jane Fonda, a dança putrefada de Thriller e o humor escrachado de A Volta dos Mortos-Vivos - fez do termo “sacudir o esqueleto” algo mais do que apropriado.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Língua Assassina (1996)


   Se é que algum dia alguém se questionou como seria uma mistura da cafonice de Pedro Almodóvar com o banho de sangue de Peter Jackson e personagens ultrajantes ao gosto de Álex de la Iglesia, o resultado seria parecido com esta ridícula comédia de horror anglo-espanhola. Língua Assassina (La Lengua Asesina), dirigida por Alberto Sciamma em 1996, é uma combinação de elementos de filmes clássicos de ficção científica - pense em coisas como A Mulher de 15 Metros - e momentos de total nojo escatológico (no auge da era dos efeitos visuais).
   O filme, se é que vale alguma coisa, merece ser visto pela presença da charmosíssima Melinda ‘Mindy’ Clarke, que antes havia aparecido como uma zumbi sensual em A Volta dos Mortos Vivos Parte 3. Mindy sofre uma mutação esquisita e torna-se uma vampe com uma enorme língua, a qual possui vida própria e força descomunal. A garota tenta de tudo para se livrar do monstro asqueroso, mas a língua assume o controle e começa a matar. O roteiro absurdo abusa do humor histérico, violência de gibi e poodles que viram gente. O filme conta ainda com breves participações de Robert Englund (Freddy Krueger) e Doug Bradley (Pinhead). O estilo é de trash assumido, mas o filme fez carreira internacional, sendo premiado em festivais de cinema fantástico como Fantasporto, Fantafestival e Sitges.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Triângulo do Diabo (1975)



   Não é exagero afirmar que, dentro da história do filme de horror, as produções para a TV ainda são um tesouro a ser resgatado. A década de 70 teve excepcionais telefilmes do gênero produzidos e exibidos pelas grandes redes norte-americanas, mas muita gente hoje desconhece essas obras, que estão na seleta parcela dos títulos genuinamente raros. Telefilmes, originalmente, foram concebidos para serem veiculados somente na televisão e, por isso, pouquíssimos chegaram ao mercado de vídeo, mesmo na época do VHS. Triângulo do Diabo (Satan’s Triangle, 1975), dirigido por Sutton Roley, é uma das obras-primas inesquecíveis dessa mídia, apresentando um script muito acima da média (o roteirista William Read Woodfield depois escreveu tramas policiais para a telessérie Columbo) e grandes desempenhos de Doug McClure e da top-billing Kim Novak, belíssima como nunca e encantadora mesmo depois da casa dos 40 anos.
   Triângulo do Diabo é o tipo de filme que quem viu jamais esquece. Faz parte da minha infância, da descoberta desse gênero fascinante e sempre esteve entre meus filmes de horror preferidos - e um dos que mais me assustou, sem sombra de dúvida. Foi reprisado inúmeras vezes nos meses finais da Rede Manchete (pouco antes de se transformar em RedeTV!). Não consegui gravar em nenhuma dessas ocasiões e só meti a mão numa cópia em VHS fazendo troca com um colecionador do Nordeste (para quem mandei Pink Flamingos em troca - só para citar mais uma loucura pela cinefilia). Com algum esforço, Triângulo do Diabo pode ser encontrado em formato digital pela rede, mas a cópia tampouco é grande coisa.

   Outros telefilmes de horror que marcaram minha infância foram Spectro (Spectre, 1977), escrito por Gene Roddenberry, e Veja o Que Aconteceu ao Bebê (Look What’s Happened to Rosemary’s Baby, 1976); este último um abacaxi inacreditável sobre o qual escreverei aqui no blog algum dia. Telespectadores mais velhos costumam lembrar de títulos como Exortação (Black Noon, 1971), A Fazenda Crowhaven (Crowhaven Farm, 1970) e Killdozer (1974), além dos dois sensacionais longas do repórter investigativo Carl Kolchak.
   As imagens dessa postagem são do acervo do Jaime Palhinha, que mais uma vez embeleza o blog com suas musas, apresentando aos nossos visitantes frequentes essa visão inspiradora da belíssima Kim Novak. Também serve para registrar uma época na qual os canais de TV até pagavam anúncios no jornal para anunciar seus filmes, e a crítica especializada os levava a sério.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Os Garotos Perdidos (1987)

Homenagem a Corey Haim (1971-2010).


   Estas duas imagens são a contribuição do Jaime Palhinha para o tributo ao ex-ídolo teen Corey Haim. Observem o circuito de salas de cinema nas quais o filme estreou no estado de São Paulo: nada menos do que dez salas apenas na capital e mais cinco em cidades próximas, como Campinas e Santos. Isso serve para mostrar como o filme foi tratado como um grande lançamento na época.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Alice Cooper: Along Came a Spider (2008)


   Não é de hoje que Alice Cooper rima com horror. Aliás, a relação do veterano roqueiro de Detroit com temas macabros deu origem ao chamado ‘shock rock’, ou ‘rock horror’, na década de 1970. O conceito havia sido rascunhado pelas extravagantes performances de Screamin’ Jay Hawkins pelo menos quinze anos antes, mas foi Alice Cooper, com seus exageros cênicos dignos de espetáculos da Broadway, incluindo decapitações e enforcamentos em pleno palco, quem deu vida à idéia. Desde Kiss, Misfits, Mötley Crüe e Gwar, até King Diamond, Rob Zombie, Marilyn Manson e Lordi, todo mundo que destila a receita rock+horror deve um bocado a Alice Cooper.
   Along Came a Spider é o álbum mais recente da titia do rock pesado (sei que não chega a ser novidade - foi lançado há cerca de um ano e meio - mas só faz dois meses que tenho esse blog e não queria deixar passar a oportunidade de escrever um pouco sobre o disco!). Marca o retorno do roqueiro ao estilo hard rock clássico, depois de ele se aventurar pelo hard farofa, heavy tradicional e metal industrial. O álbum segue a tradição ‘conceitual’ do clássico Welcome to My Nightmare (1975), narrando uma história linear ao longo de todas as faixas.
   Trata-se da história de um serial killer conhecido como ‘Spider’, que captura, tortura, mata e arranca uma perna de cada vítima. Seu objetivo é juntar oito pernas e construir sua própria aranha. Não chega a ser algo inovador ou especialmente original, mas mostra a visão - um tanto ingênua - que Alice tem do horror, inclusive sua obsessão por bichos asquerosos.


   A relação de Alice Cooper com filmes de horror rendeu participações nas cinesséries Sexta-Feira 13, interpretando a canção-tema “He’s Back (The Man Behind The Mask)” no sexto exemplar (lembro até hoje quando vi, embasbacado, o vídeo dessa música no Fantástico!) e A Hora do Pesadelo, nada menos do que como o pai de Freddy Krueger, também no sexto filme da saga. Também fez papéis menores em outros filmes, como em O Príncipe das Sombras (1987), de John Carpenter, e protagonizou o espanhol Leviatán (1984), dirigido por Claudio Fragasso, lançado em VHS no Brasil como Monster Dog: Uma Noite de Horror, no qual interpreta um roqueiro que vira lobisomem.
   Para promover o lançamento de Along Came a Spider, o roqueiro lançou no YouTube este vídeo de dez minutos, reunindo três canções do álbum: “Vengeance Is Mine” (com participação de Slash na guitarra), “(In Touch With) Your Feminine Side” e a balada mórbida “Killed By Love”. Co-dirigido por Piggy D. e Gabrielle Geiselman, o vídeo é todo ambientado no manicômio onde Spider foi trancafiado. Tem alguns momentos interessantes, mas poderia ter sido melhor concebido e realizado. (Não pode ser comparado, por exemplo, ao charmoso especial para a TV inspirado no álbum Welcome to My Nightmare, feito em 1975, com a preciosa participação de Vincent Price.)
   Em compensação, os trailers promocionais do álbum Along Came a Spider são bem interessantes, então decidi também reproduzi-los aqui. Destaque para o terceiro trailer, que recria o inesquecível monólogo final de Psicose (1960) na íntegra, celebrando em grande estilo o casamento de rock pesado e filme de horror.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Perils of Julia and Gill Man (1954)

   O acervo de imagens da revista Life disponível na internet está repleto de preciosidades que a gente só encontra depois de pesquisar muito no site. Entre as coleções históricas consta até uma visita à casa sinistra onde viveu o serial killer Ed Gein, em 1957. O cinema, como não poderia deixar de ser, tem lugar de destaque no arquivo da Life, com muitas sessões fotográficas exclusivas. Uma das mais curiosas é a série que reproduzo aqui, intitulada Perils of Julia and Gill Man. Clicada pelo fotógrafo Edward Clark em 1954 nas locações do filme O Monstro da Lagoa Negra, da Universal, mostra a curvilínea Julia Adams às voltas com a criatura escamosa descoberta no Rio Amazonas. Acho extremamente charmosa essa coloração envelhecida das fotografias, dando um toque nostálgico às imagens, ao mesmo tempo ingênuas e sensuais, com Miss Adams absolutamente irresistível em seu inimitável maiô.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Banquete de Taras (1982) e As Taras do Mini Vampiro (1987)

   Vampiros, esses coitados, não têm vez no cinema brasileiro. Não estou dizendo que os chupadores noturnos não tenham mostrado em nossas telas seus dentes pontiagudos, suas capas esvoaçantes e sua insaciável sede de sangue. Mostraram sim, e em quantidade (ainda que nem sempre em qualidade), mas quase nunca foram levados a sério. Parece que nossos cineastas já decidiram que vampiro não assusta em cenários tropicais.
   Obras kine-cômicas como Um Sonho de Vampiros, Olhos de Vampa, As Sete Vampiras e o irreverente Nosferato no Brasil - estes dois últimos assinados pelo esculhambador-mór Ivan Cardoso - se encarregaram de aniquilar quaisquer rastros do poder apavorante dos vampiros de antanho. Sob nosso calor tropical, Bela Lugosi não apenas is dead; neste rincão onde se plantando tudo dá, ele foi sumariamente enterrado e serviu de adubo para comédias que trataram de humilhar a figura clássica do desmorto.

Banquete de Taras

   Talvez essa nem seja a principal intenção deste horror erótico dirigido por Carlos Alberto Almeida e lançado em 1982, mas garanto que você não vai levar Banquete de Taras a sério depois de assistir os primeiros cinco minutos. A premissa é clássica e o filme até pega emprestado alguns elementos góticos de obras estrangeiras: começa com a chegada a Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, de um estranho homem vestido de preto. Ele visita a mansão de Vladmir Vladislav, um jovem escultor que leva mais uma vida de playboy do que a de um artista plástico. O visitante revela que está no Rio de Janeiro para cuidar dos planos de além-túmulo de um ancestral do escultor, um conde vampiro morto há mais de 500 anos na Transilvânia. O tal conde continua vivo em espírito e precisa de sangre fresco para renascer. O plano é tão simples quanto canalha: para saciar a sede de sangue do titio, Vladmir deve fazer sexo com quatro mulheres diferentes em quatro noites seguidas de lua cheia. O rapaz acha bem razoável a proposta, não faz qualquer objeção e as orgias logo começam.
   A melhor idéia do filme são as mulheres que, depois de serem possuídas sexualmente pelo escultor, são transformadas em estátuas de pedra que passam a decorar o jardim de sua mansão. A referência direta, obviamente, é o clássico O Moinho das Mulheres de Pedra (1960), dirigido pelo italiano Giorgio Ferroni, mas o filme é conduzido de maneira tão pouco imaginativa que mesmo detalhes assim acabam se perdendo. Completa a bagunça uma trilha sonora que mistura indistintamente Ravel, Roberto Carlos, Rick Wakeman, Pink Floyd e Bernard Herrmann.
   Para quem se contenta com um punhado de cenas de sexo softcore, Banquete de Taras pode até divertir um pouco, no sentido ‘sala-especial’ de diversão. Porém, mesmo seu erotismo é contestável: a cena de abertura fica entre o hilário e o grotesco, quando o emissário do conde usa seu incrível poder hipnótico para induzir uma mulher mais velha (e não muito atraente) a se masturbar dentro do ônibus! Entretanto, nada provoca mais risos incontroláveis do que o ridículo Newton Couto posando como uma versão barata de Christopher Lee, com a diferença de ter feições mais engraçadas do que assustadoras - e muitos centímetros a menos em estatura. Aliás, falando nisso, já estamos prontos para falar de nosso próximo exemplar...

As Taras do Mini Vampiro

   Aproveitando a visita do grande corintiano Diogenes ao blog (o legal desse formato é que podemos chamar pelo nome a maioria dos leitores!), vou comentar um filme bônus: nada menos do que o cult trash As Taras do Mini Vampiro (1987), dirigido por José Adalto Cardoso. O Diogenes sempre propagou aos quatro ventos que é fã do filme, e principalmente de seu diminuto astro, o anão Chumbinho, protagonista também do pornô bad-trip Fuk Fuk à Brazileira (1986), que Jean Garrett assinou sob o esperto pseudônimo J.A. Nunes; então está feita a homenagem ao amigo!
   Tudo que ficava no quase no filme comentado anteriormente chega às últimas consequências em As Taras do Mini Vampiro. O humor, desta vez, é escrachado, e o sexo, tão explícito quanto é possível imaginar. No mau sentido. Aquele explícito grosseiro, feio, desagradável, capaz de disassociar erotismo de pornografia (eu, ao contrário de muita gente, acredito que pornografia é essencialmente erótica, mesmo quando seu foco principal são closes genitais).
   O filme acompanha as desventuras do personagem do título, um horrendo anão vampiro que ataca casais (e, às vezes, trios) em seus momentos de intimidade. A trama é ambientada em Batatal, uma pacata cidadezinha do interior, e logo a grotesca criatura vai parar na primeira página dos jornais e atrai a atenção de políticos oportunistas e um excêntrico caçador de vampiros, interpretado por Renalto Alves. É fácil demais apontar os defeitos no filme, pois eles são muitos, porém é muito mais interessante vasculhar seus méritos. Os momentos de humor às vezes funcionam: impossível resistir, por exemplo, à safadeza do prefeito da cidadezinha, que quer a todo custo tirar proveito da situação para fazer com que Batatal fique conhecida nacionalmente. A cena do vampiro arrastando seu caixão pelo campo tem algo de trágico, macabro e poético, mas é melhor eu não comparar com a tomada semelhante que aparece em Nosferatu, o Vampiro da Noite (1979), de Werner Herzog...
   A conclusão que podemos chegar é que As Taras do Mini Vampiro é algo que só pode ser devidamente apreciado por alguém com gosto adquirido pela coisa. É para os iniciados, para quem experimentou sangue e quer mais, mais, mais!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Vlad Tepes e Erzsébet Báthory

   As lendas medievais sobre defuntos que se levantavam de seus túmulos para se alimentar dos vivos, nos rincões mais excêntricos da Europa, forneceram o combustível necessário para que os poetas imortalizassem nas letras o mito do vampirismo. Os espantosos e insistentes relatos de casos vampíricos na Sérvia, Hungria, Morávia, Polônia e outros países eram, de fato, mais estranhos do que qualquer ficção. Porém, duas figuras históricas, ambas de traços carregados e extravagantes, também foram essenciais para dar vida ao monstro, agregando características mais humanas ao vampiro, até então meros carniçais incapazes de raciocinar.
   As peripécias sangrentas de Vlad Tepes e Erzsébet Báthory, cada um à sua maneira, enriqueceram de detalhes a criação de Drácula, a obra máxima do vampirismo literário, lavrada pelo irlandês Bram Stoker no apagar da era Vitoriana. Durante a segunda metade do século XX, depois de um longo período de esquecimento, ambos foram redescobertos pela cultura popular e suas lendas - muito mais do que os fatos históricos - passaram a compor de maneira indelével o imaginário vampírico.
   Os primeiros filmes que comentarei neste ciclo vampiresco são duas cinebiografias que recontam com riqueza histórica os feitos de Vlad Dracula e Erzsébet Báthory. Apesar de terem pouco (no caso do primeiro, nenhum) conteúdo vampírico, são filmes indispensáveis para quem se interessa por estas fascinantes figuras.

Vlad Tepes (1979)

   Suntuosa produção romena que relata os momentos cruciais na vida de Vlad Tepes (1431-1476), especialmente os últimos anos da sangrenta batalha que o voivode da Valáquia liderou contra a invasão do exército turco-otomano em Belgrado, em 1456. O filme é um épico bélico que peca basicamente pelo excesso de diálogos - não sou das pessoas mais inteligentes para acompanhar conspirações políticas, bloqueios de rotas comerciais, acordos de armistício ou negociações de cargos e postos de comando - mas cujo ritmo dinâmico providencialmente impede que a trama perca o interesse. Quem não conhece a história de Vlad Tepes, indico a leitura rápida deste verbete. Também altamente recomendável é o livro Em Busca de Drácula e Outros Vampiros, de Raymond T. McNally e Radu Florescu, lançado em 1995 no Brasil pela editora Mercuryo, que talvez ainda esteja em catálogo.


   O filme, financiado pelo fundo de cinema romeno, tem um nível de produção excepcional, com cenários grandiosos e centenas de figurantes nas batalhas em campo aberto. O papel principal é interpretado com absoluta convicção por Stefan Sileanu, encabeçando um ótimo elenco. Vários episódios pitorescos da biografia de Vlad Tepes são recriados com riqueza de detalhes, como os mendigos que ele mandou aprisionar e queimar vivos depois de lhes oferecer um generoso banquete, ou quando mandou pregar os turbantes na cabeça dos embaixadores turcos que visitavam seu castelo e recusaram-se a retirar os ornamentos. As grotescas execuções por empalamento também são mostradas com toques macabros e sinistros. Porém, o filme opta por resgatar a imagem heróica de Vlad Tepes, mostrando-o como um governante intolerante e cruel, de punho firme, porém disposto a chegar às últimas consequências para proteger sua nação e seu povo. O filme mostra que parte do mito das atrocidades atribuídas a Vlad Tepes foi inventada por seus oponentes, que se valeram da lógica de que uma mentira contada repetidas vezes inevitavelmente torna-se verdade.
   Devo essa raridade fílmica ao amigo Cayman, que me avisou ter encontrado a película num fórum de obras raras. Tenho duas versões do filme, mas somente a mais curta, com 102 minutos, tem legendas em inglês. A versão uncut tem 134 minutos, mas é falada em romeno e eu sou fraco nesse idioma. Mesmo assim, assisti também a essa versão longa e, pelo que pude perceber, tem apenas mais cenas de diálogos e alguns episódios que foram cortados da outra edição, mas nada relacionado a violência ou horror. A história do voivode também foi relatada em Príncipe das Trevas: A Verdadeira História de Drácula (2000), telefilme que abusa de situações mais apelativas para convencer que, no fundo, Vlad Tepes era gente boa.

The Countess (2009)

   O companion perfeito para o filme sobre Vlad Tepes seria a biografia Bathory (2008), co-produção da Eslováquia, República Tcheca e Hungria que reconta a história da condessa de maneira revisionista, retratando-a basicamente como uma vítimas das circunstâncias e da ganância de seus oponentes. Da mesma forma que o filme romeno resgata o Drácula histórico por meio de seus feitos militares, Bathory é interessante por mostrar como a condessa Erzsébet Báthory (1560-1614) é vista por (pelo menos parte de) seus compatriotas, livre de preconceitos e extravagâncias caricatas perpetuadas no decorrer do século XX.
   Entretanto, escolhi The Countess por ser um filme mais recente e, na minha opinião, mais interessante em termos cinemáticos. É um projeto de estimação de Julie Delpy, que dedicou vários anos em sua realização (há cerca de quatro anos, tive o roteiro deste filme em mãos - mas não cheguei a lê-lo - quando visitei um amigo que acabara de voltar de Hollywood). Se por um lado Vlad Tepes emprestou seu apelido ‘Drácula’ ao vampiro de Bram Stoker, foram as barbaridades supostamente cometidas pela Condessa Erzsébet Báthory que enriqueceram o monstro literário com obsessões sanguíneas.


   Julie Delpy assina o roteiro e a direção e estrela esta ambiciosa obra no papel da poderosa nobre húngara que, ao perceber sua beleza se desvanecendo no espelho, descobre ao acaso que o sangue de moças virgens tem poder rejuvenescedor. Porém, ao contrário do clima fantasioso de muitas das versões anteriores levadas às telas, The Countess retrata Báthory essencialmente como uma mulher fragilizada emocionalmente que começa a enlouquecer ao vislumbrar sua própria mortalidade. A condessa, aos 38 anos, apaixona-se por um rapaz de 21, o qual corresponde ao seu amor, mas uma série de desencontros provocados pelo invejoso e ciumento pai do jovem desencadeia um processo que descamba para as famosas crueldades cometidas pela nobre.
   The Countess, mais do que um filme de horror sobre uma das maiores assassinas da História, é um estudo sobre a suscetibilidade feminina a elogios fáceis, à leviandade do egoismo e o abuso de poder. O desempenho de Delpy é ao mesmo tempo tocante e corajoso, comovente em sua dedicação a um papel difícil, aparecendo a maior parte do tempo em cena com feições cansadas, de aspecto quase doentio, desprovida de beleza ou sensualidade. Os diálogos são precisos e fogem da armadilha de grande parte dos dramas de época, que costumam revestir as falas com uma improvável formalidade. As cenas de tortura e assassinato inserem o filme no gênero horror e chegam a provocar repulsa em seu grafismo, mostrando a maneira impessoal (quase casual) com a qual Báthory tratava suas vítimas. O filme evita mostrar as agressões pelo ponto de vista das virgens, o que torna ainda mais chocante a maldade da condessa.
   Acredito que conheço todos os filmes sobre a Condessa Bathory - e são muitos, uma legião! - mas não assisti a todos (quem entende mesmo do assunto é a Beatriz Saldanha, autora de um excelente artigo - ainda inédito - sobre a condessa sangrenta). Mas ouso afirmar que The Countess é, de longe, o melhor filme já realizado sobre o tema. Nada sei sobre sua repercussão, se fracassou ou se colheu críticas favoráveis, mas é o tipo de filme que merece um público amplo, de preferência pessoas capazes de compreender suas muitas facetas, pois trata-se de uma obra que ainda merece ser discutida profundamente.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Trog, o Monstro das Cavernas (1970)

   O canto-de-cisne da veterana atriz Joan Crawford - na época com 65 anos, ela morreria sete anos depois - Trog, o Monstro das Cavernas (1970) é dos filmes mais controversos de sua carreira e de todos os envolvidos em sua realização. Obra-prima menosprezada ou lixo irremediável? Definitivamente não era o tipo de filme que os velhos fãs de Miss Crawford esperavam àquela altura e boatos dizem que a reação da atriz, após ver a obra completa, ficou entre decidir se afastar das telas e cometer suicídio. Sabiamente, ela optou apenas pela aposentadoria. O tempo se encarregou de mostrar que o desastre não era tão grande assim e a atriz segue até hoje colecionando novos séquitos de admiradores. Afinal, não é exagero afirmar, existem basicamente dois tipos de filmes: os comuns, esses que a gente assiste todo dia, e os filmes de Joan Crawford.
   Aliás, o termo correto nem é “filme”, e sim “veículo”. Para se entender o fenômeno Joan Crawford - e especialmente seus fãs - é preciso compreender cinema como uma fábrica de magia, do culto à imagem acima de tudo. O star-system hollywoodiano sempre colocou os astros e estrelas acima de qualquer coisa; nada de “cinema de autor”. Cinema de astros. Filmes era “veículos” para astros e estrelas brilharem e não muito mais do que isso.
   Claro que a coisa não é tão simples assim. O cinema é uma arte viva e em constante transformação. Joan Crawford atravessou a história da sétima arte desde o período dos filmes silenciosos até à portinha da década de 1970. Ela tem também lugar garantido no coração dos aficionados pelo gênero horror desde que transtornou a mente de Lon Chaney no clássico do mudo O Monstro do Circo (1927). Décadas mais tarde, foi visionária ao conceber O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962) como um veículo para si e para a colega/rival Bette Davis. O êxito estupendo de Baby Jane originou um ciclo de fitas de horror psicológico sobre velhotas psicóticas, espécie de “menopausa do horror”, dando sobrevida às carreiras de estrelas aposentadas (e quase esquecidas) como Barbara Stanwyck, Olivia De Havilland, Joan Fontaine, Tallulah Bankhead, Lana Turner e Veronica Lake.

Congelado no tempo

   Entretanto, Trog não é Baby Jane; nem mesmo é Almas Mortas ou Espetáculo de Sangue. É algo completamente diferente... que ainda aguarda descrição. O filme começa com três jovens exploradores descobrindo quase ao acaso uma gruta onde vive um homem pré-histórico. Uma respeitada antropóloga inglesa (Joan Crawford), com especial interesse por primatas, fica sabendo da descoberta e imediatamente decide resgatar Trog (abreviação carinhosa de “troglodita”) de sua caverna úmida para mantê-lo enjaulado em seu centro de pesquisas, onde poderá estudá-lo em tempo integral. A doutora acredita estar diante do “elo perdido” da evolução do Homem e que o primata sobreviveu milhões de anos em suspensão criogênica.


   O conceito genérico de “a maior descoberta científica da civilização moderna” é uma invenção antiga do cinema; vem pelo menos desde O Mundo Perdido (1925) e King Kong (1933). O roteiro de Trog parte dessa situação básica e apela para lugares-comuns para retratar a natureza selvagem de Trog, que aprecia música suave, mas se enfurece quando ouve rock (não nos enfurecemos nós todos?); fica com expressão serena ao fitar a cor azul, mas vira fera quando vê a cor vermelha, e assim por diante. Mesmo assim, há algumas situações curiosas nessa relação entre doutora e homem-primata. A antropóloga coloca uma coleira em Trog e o trata como a um bicho de estimação, a quem sua filha, com vago interesse pela novidade, passa a alimentar e tomar conta. Elas depois o tratam como criança - uma criança retardada, como faz questão de frisar a doutora - e lhe dão brinquedos. Trog, porém, é muito sensível; prefere brincar de boneca e estraçalha geringonças barulhentas. São curiosas as insinuações de que ele teria tendências gay: além de gostar de bonecas, Trog também se encanta com o lacinho cor-de-rosa que a doutora usa no pescoço. Desta maneira, não apenas Freud foi introduzido na pré-história, como observou o crítico Rubem Biáfora, mas também o homossexualismo!


Longe de casa

   Trog é um misto de monstro de Frankenstein e King Kong. Como o primeiro, tem a mente de uma criança que precisa ser tratada com paciência, compaixão e compreensão. Como o segundo, comporta-se de maneira indomável, é incapaz de negar sua natureza selvagem e tem saudades de casa - neste ponto, o filme comete o erro histórico (e muito comum) de mostrar homens primitivos convivendo com dinossauros, ao representar as lembranças de Trog em seu habitat natural. As cenas usadas nesta breve sequência em flashback foram tiradas do filme O Milagre da Vida (1956), dirigido por Irwin Allen, com efeitos em stop-motion de Ray Harryhausen.


   Não é apenas Trog quem está longe de casa, mas também a antropóloga com seus princípios nobres. A Ciência, ensina o filme, não tem lugar num mundo no qual o progresso é sinônimo de urgência. Não há tempo para se olhar para o passado - o futuro precisa ser construído hoje. Esse pensamento é manifestado por meio do personagem interpretado por Michael Gough, inimigo declarado da doutora e interessado somente nas terras onde o troglodita foi encontrado. O ódio do empresário em relação à criatura primitiva é o de alguém que tenta negar sua origem animal. A Polícia se mostra igualmente obtusa, determinada somente em destruir aquilo que considera perigoso, tratando Trog como um simples assassino. Quando finalmente o Exército é chamado, o problema é resolvido da única maneira que os militares são capazes de entender: destruindo tudo.
   No final, o enigma de Trog - esse Kaspar Hauser da era paleolítica - é sepultado nos confins de sua caverna, aonde o pensamento reacionário, envergonhado ao fitar no espelho suas próprias fraquezas primitivas, prefere ocultar o passado. A objetividade intolerante do mundo moderno, em seu progresso voraz, não se importa com a investigação científica e é ela - a Ciência - a maior derrotada da história.

Dama para sempre

   A princípio pode nem parecer um filme de Joan Crawford, mas basta a estrela surgir em cena para que ela o transforme num filme seu. Miss Crawford mantém o estilo elegante e glamuroso e não repete figurinos ao longo de todo o filme, seja usando um macacão de mineradora, uma camisola esvoaçante ou elegantemente trajada para defender seus princípios científicos no tribunal.
   Dentro do gênero horror, a atriz já fora mesquinha e dessimulada em Baby Jane e fornecera rico material para psiquiatras em Almas Mortas. Não seria exagero dizer que aqui ela poderia fazer qualquer papel: poderia ser o vilão vivido por Michael Gough; até mesmo ser o próprio Trog, e ainda assim seu desempenho seria no padrão Crawford; ou seja, entregando-se completamente à personagem.
   A atriz esteve no Brasil na época da realização do filme, em 1970, mas não para promover Trog, que permaneceu inédito nos cinemas do país (só foi exibido na televisão, anos mais tarde), preterido pelos executivos da Warner por THX 1138, longa-metragem que marcou a estréia de George Lucas. Crawford visitou o país para inaugurar uma fábrica da Pepsi Cola, empresa da qual era uma das diretoras.


   O elenco de apoio é cheio de atrações. Michael Gough, assim como o próprio filme, costuma ser impiedosamente malhado pela crítica, mas sua performance exagerada é tão deliciosa quanto os papéis que viveu em Horrores do Museu Negro (1959), Konga (1961) e Feras Sanguinárias (1963). Também aparecem em papéis menores Robert Hutton (O Monstro de York), David Warbeck (A Casa do Além) e a menininha Chloe Franks, que no ano seguinte aterrorizaria a vida do papai Christopher Lee no melhor episódio de A Casa Que Pingava Sangue. Trog, o homem de neandertal, é interpretado pelo ex-lutador de wrestling Joe Cornelius, usando uma máscara de primata criada por Charles Parker com restos do prólogo de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick.
   Freddie Francis, provavelmente o mais irregular entre os grandes realizadores de filmes de horror, assina a direção, que deixa a desejar. A produção é de Herman Cohen, famoso pelos filmes de monstros adolescentes dos anos 50, responsável também pelo filme anterior de Miss Crawford, Espetáculo de Sangue (1968). Seu estilo chocante é perfeitamente respresentado pela cena do açougueiro que Trog pendura no gancho - isso é o que na época ainda se chamava de grand guignol. O roteiro é de Aben Kandel, escritor regular das produções de Cohen, baseado num argumento de Peter Bryan e John Gilling (diretor de Os Monstros da Morgue Sinistra, A Epidemia dos Zombies e A Serpente). A montagem é de Oswald Hafenrichter, que trabalhou no Brasil na época da Vera Cruz (Caiçara, Veneno, Sinhá Moça, Luz Apagada, O Cangaceiro, Floradas na Serra) e passou os últimos anos da vida editando filmes de horror.
   E a palavra final, como não poderia deixar de ser, é de Joan Crawford. Ou quase isso: interpelada por um repórter que deseja uma declaração sua após a destruição do homem-primata, Crawford apenas afasta o microfone e caminha para longe. Nada mais tinha a dizer. Foi sua despedida das telas e, como sempre acontecia, a câmera a acompanha até o último frame.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Convite à Morte (1978)

   Hoje é dia de Super Bowl, o maior espetáculo esportivo da Terra! New Orleans Saints contra Indianapolis Colts. Como é...? O quê? Ah, sim... Cinéfilo odeia esportes, eu tinha esquecido. Especialmente futebol - mesmo quando a bola não é redonda. E rock’n’roll, pode? Pois tem show do The Who no intervalo, que tal? Classic rock de primeira grandeza! Errr... nem isso foi capaz de animá-lo? Então vamos voltar ao tema original deste blog e falar de um filme de horror com participação do veterano crooner desta noite.
   Roger Daltrey tem uma carreira relativamente prolífica como ator, paralelamente à sua atividade como o homem que melhor faz girar microfones pelos palcos do mundo. Depois de estrelar os musicais Tommy (1975) e Lisztomania (1975) e antes de McVicar (1980), Daltrey fez uma pequena, porém enfática, participação no filme de horror Convite à Morte, em 1978. O ator-cantor posteriormente apareceria em outros filmes do gênero, como Vampirella (1996), uma produção de baixo orçamento baseada na curvilínea musa dos quadrinhos, e Príncipe das Trevas: A Verdadeira História de Drácula (2000), um drama histórico sobre Vlad Tepes, o tirano da Valáquia. Daltrey ainda interpretou um Diabo pop na série de TV Strange Frequency (2001), uma curiosa mistura de rock e horror.
   A presença de Roger Daltrey em Convite à Morte (The Legacy), não obstante, é como touchdown no jogo de hoje: um mero detalhe. Ele basicamente interpreta a si próprio, um extravagante astro pop que sofre uma das mortes mais indignas já vistas num filme de horror: engasgado com comida. Katharine Ross e Sam Elliott - casados na vida real - são os verdadeiros astros do filme. Ela faz o papel de uma arquiteta americana contratada para um misterioso trabalho na Inglaterra, para onde ambos partem durante os créditos de abertura. Gosto muito do Sam Elliott (bem mais do que de Katharine, que parece sempre preocupada com algo), mas aqui ele definitivamente estraga o clima do filme com sua permanente cara de safado (ele parece o Harry Reems, de Garganta Profunda, em versão mais carismática).


   Seguindo a tradição dos filmes ingleses de horror e mistério, praticamente toda a ação acontece numa suntuosa mansão, repleta de convidados extravagantes. Convite à Morte tem todos os elementos necessários para ser um baita clássico do horror setentista, com o argumento de Jimmy Sangster combinando conspiração satânica e um punhado de mortes sádicas e absurdamente inventivas - incluindo uma moça que se afoga na piscina quando fica presa numa barreira invisível e uma mulher que tem o corpo todo perfurado por estilhaços de um espelho. Tem até uma freira que se transforma em gato. Para sabotar tudo isso, temos o banal Richard Marquand (O Retorno de Jedi) cuidando da direção, imprimindo um inadequado ritmo de aventura e uma atmosfera de distante casualidade. Quanto à interação entre personagens, suspeitos e vítimas, ainda que peculiares, são tão superficiais quanto os peões do jogo de tabuleiro Detetive. A trilha sonora é outro grave equívoco, incluindo uma indigesta canção estilo balada discothèque, cantada por Kiki Dee, que acaba com qualquer resquício de seriedade. Ah, falando em música, já comentei que hoje tem show do The Who?!

ATUALIZAÇÃO: aí está o vídeo do The Who no Super Bowl. No mínimo, o melhor pocket-show do ano. Atenção para os raios laser: aparentemente é o mesmo equipamento que a banda emprestou para Ridley Scott usar no filme Alien, o 8º Passageiro (1979), na cena em que os astronautas descobrem os ovos alienígenas.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A Força dos Sentidos (1980)

   Maravilhosa incursão de Jean Garrett pelo universo fantástico, A Força dos Sentidos (1980) é uma obra de inspiração lovecraftiana com um clima poético e melancólico que considero comparável aos melhores trabalhos de Jean Rollin (em especial, Lèvres de Sang). Faz algum tempo que quero escrever um texto à altura deste filme, pois ainda acho que pouco se escreveu de instigante a respeito dele (Excitação, do mesmo Garrett, é muito mais popular entre os cinéfilos interessados na produção nacional). Acabei optando por fazer uma fortuna crítica do filme.
   Quem se aventurar pelos textos compilados abaixo certamente achará fascinante a pluralidade de opiniões. Aqueles que ainda não conhecem os textos de Jairo Ferreira - de quem tive o privilégio de ser “colega” na série especial do centenário do cinema no Jornal da Tarde - poderão acompanhar o quanto ele conhecia de cinema fantástico. Não apenas foi um dos poucos críticos brasileiros que apreciava filmes de horror e ficção científica, mas um dos raríssimos a escrever sobre o tema com sabedoria. Por sua vez, a crítica de Rubens Ewald Filho - definido com sagacidade genial aqui - é mais um atestado de preconceito pequeno-burguês, capaz de enxergar no filme somente méritos técnicos. Isso também parece ser a única coisa perceptível para os demais críticos.
   Caso queiram ler coisas ainda mais assustadoras, confiram os documentos oficiais do processo de censura do filme.

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