CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

Mostrando postagens com marcador preto e branco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador preto e branco. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de abril de 2010

The Mascot (1934)


   Recentemente Laura Cánepa postou em seu excelente blog dois vídeos sugerindo uma semelhança estética entre Vincent, de Tim Burton, e uma animação da UPA produzida em 1953, adaptada do conto The Tell-Tale Heart, de Edgar Allan Poe. Imediatamente me lembrei deste encantador curta francês em stop-motion, dirigido pelo polonês Ladislas (ou Wladyslaw) Starewicz (1882-1965), pioneiro do cinema de animação radicado em Paris.
   Intitulado Fétiche em francês e The Mascot em inglês, com 26 minutos de duração, tem algumas cenas tocantes e memoráveis (como o cachorrinho pendurado na janela do automóvel), além de técnicas de animação que somente Starewicz dominava, como a filmagem com câmera em movimento para criar efeitos mais dinâmicos.
   Quem estiver em dúvida sobre a relação que faço deste filme com o estilo de cinema de fantasia infanto-juvenil de Tim Burton, confira a cena do ‘Baile do Diabo’ e preste atenção nos traços dos personagens. Impossível não lembrar dos bonecos de traços longilíneos ou rotundos dos filmes de stop-motion como O Estranho Mundo de Jack e A Noiva-Cadáver. Burton anunciou recentemente que seu próximo projeto será refilmar seu próprio curta Frankenweenie em 3D. O filme de Burton, assim como o curta desta postagem, também é sobre um cãozinho de estimação bem peculiar. Vamos ver no que isso vai dar...
   Para assistir ao filme aqui no blog é preciso usar o navegador Internet Explorer. Quem quiser baixar o filme na íntegra, em formato MPEG2, com 1,3 GB, basta clicar aqui.

domingo, 25 de abril de 2010

Alice in Wonderland (1903)


   Primeira adaptação para o cinema do livro escrito por Lewis Carroll em 1865, que está nas telas brasileiras atualmente na espetacular releitura feita por Tim Burton. Essa versão muda foi recentemente restaurada pelo British Film Institute, utilizando a única cópia do filme ainda existente, e apresentada com cenas tingidas de várias cores, recuperando o formato em que havia sido exibida na época. O curta, com cerca de 10 minutos, foi relançado oficialmente em fevereiro deste ano. A película original está em péssimas condições de conservação, mas isso não atrapalha o prazer de conhecer essa relíquia fílmica, que apresenta efeitos visuais surpreendentes para uma obra realizada ainda nos primórdios da arte cinematográfica. Para baixar no seu computador o filme original, clique aqui. A versão disponível para download é cerca de dois minutos mais curta do que a restaurada e está sem o tingimento colorido, mas vale o clique mesmo assim.

sábado, 24 de abril de 2010

The Image (1967)


   Curta-metragem inglês de horror experimental, sem diálogos, realizado pelo estreante Michael Armstrong e protagonizado pelo também debutante David Bowie, então com 20 anos e já se aventurando pelo mundo das artes, na música e no cinema. Um jovem pintor (Michael Byrne) é assombrado pela imagem de seu quadro, que cria vida na forma do sinistro, fantasmagórico e muito anêmico Bowie. O artista se desespera e faz o possível para se livrar de sua criação, esfaqueando seguidas vezes a imagem que teima em persegui-lo.
   O filmete causou impacto suficiente para garantir a Armstrong, na época com apenas 23 anos, a oportunidade de realizar seu primeiro longa-metragem, The Haunted House of Horror (1969). O diretor queria novamente seu amigo David Bowie no papel principal, mas teve que se render à predileção do produtor Tony Tenser por Mark Wynter, um astro pop com a carreira em decadência. O filme, produzido pela Tigon, tem ainda Frankie Avalon, Jill Haworth e Dennis Price no elenco. A Tigon foi outra das rivais da Hammer no mercado de horror britânico (ao lado da Amicus e, mais tarde, da Tyburn), produzindo obras como The Blood Beast Terror (1968), Witchfinder General (1968), Curse of the Crimson Altar (1968), Blood on Satan’s Claw (1971) e Doomwatch (1972).
   O promissor Armstrong a seguir foi para a Alemanha filmar o polêmico Hexen bis aufs Blut gequält (Mark of the Devil, 1970), com Herbert Lom, Udo Kier, Olivera Vuco e Reggie Nalder, um dos filmes mais violentos do gênero e dever-de-casa para qualquer fanático por torture porn. Depois desses dois filmes promissores, Armstrong praticamente desapareceu do mapa e não realizou mais nenhum trabalho relevante, até ressurgir em 1983 como roteirista de A Mansão da Meia-Noite, dirigido por Pete Walker.
   Quanto a David Bowie, vale comentar que o camaleão do rock sempre levou sua carreira como ator mais seriamente do que a maioria dos seus colegas roqueiros, como John Lennon, Mick Jagger e Bob Dylan, que cometeram extravagâncias em celulóide aparentemente por pura fanfarronice. Bowie tem créditos consideráveis nas telas, incluindo contribuições ao cinema fantástico em filmes como O Homem Que Caiu na Terra, Fome de Viver, Labirinto e Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer.
   O curta The Image foi filmado no período de três dias, em setembro de 1967, e ficou relegado ao esquecimento durante anos. Foi remontado em 1984, quando uma cretina trilha sonora eletrônica foi gravada para substituir a música original, muito mais climática e adequada à narrativa arrepiante, surreal e inquietante do filme. A versão disponível aqui é a original, pois somos puristas e inimigos mortais da nojenta década da new wave.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

The Flesh and Blood Show (1972)

   Um ano depois do lançamento do thriller Die Screaming Marianne (1971), o britânico Pete Walker voltou ao horror aderindo ao estilo de cinema que se convencionou rotular de grand guignol, a violência física e explícita, repleta de cenas de mutilação e esquartejamento. Sua associação com essa tendência não poderia ter surgido de maneira mais significativa do que com o shocker The Flesh and Blood Show (1972), cujo cenário é justamente o palco de um teatro especializado em espetáculos sensacionalistas. O enredo proposto pelo roteirista Alfred Shaughnessy é simples e ordinário: um grupo de jovens atores se reúne num velho teatro abandonado localizado num pier desativado, onde a trupe deve ensaiar uma comédia erótica. Porém, pouco depois de chegarem ao local, os jovens começam a ser mortos brutalmente por um homicida misterioso. A premissa é similar às tramas de mistério e assassinato de Agatha Christie, incrementado com banho de sangue e criatividade homicida, com uma contagem de cadáveres digna dos exemplares slasher que surgiriam nos próximos anos.


   O cenário isolado, arrepiante e sinistro como qualquer teatro vazio, é ideal para provocar sustos e sobressaltos, mas o excesso de personagens - e, consequentemente, de potenciais suspeitos - acaba tornando a trama um bocado tediosa de se acompanhar. Curiosamente, a premissa não é muito diferente de Ensaio Geral: A Noite das Fêmeas (1976), interessante suspense dirigido por Fauzi Mansur, no qual também acontece uma série de crimes misteriosos em meio a um grupo teatral. Pete Walker compensa da maneira mais básica a carência de maiores qualidades no roteiro: cenas de sexo. O elenco de beldades escalada para o filme é notável, todas aparecendo mais do que à vontade em cena, mostrando que Walker ainda não havia se livrado totalmente dos vícios de sua carreira no sexploitation.
   O diferencial do filme é a sequência final de flashback, rodada em 3D, quando é revelada a identidade do assassino, mas infelizmente esse trecho está em preto e branco na versão lançada em DVD, perdendo todo o efeito tridimensional. Mais convencional e careta do que a investida anterior de Pete Walker no cinema de horror, The Flesh and Blood Show é também mais divertido do que seu predecessor. Não oferece grandes desafios intelectuais e é narrado sem maiores ambições, porém é um prazeroso exemplar baseado na tradicional fórmula de pessoas presas num lugar sombrio e ameaçadas por um assassino misterioso. Nos filmes seguintes, Walker enfim mostraria ao que veio e passaria a exercer um estilo mais único.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Frankenstein (1910)


   Cem anos atrás, precisamente no dia 18 de março de 1910, a companhia produtora de Thomas A. Edison apresentava sua assombrosa versão cinematográfica do clássico Frankenstein, livro escrito por Mary Shelley quase um século antes. O filme é histórico por ter sido uma das primeiras importantes investidas do cinema estadunidense no gênero, e mesmo que seja marcado por situações melodramáticas características do cinema mudo, com muita pantomima e algumas soluções ingênuas, é bem mais interessante do que muitos estudiosos de cinema fizeram parecer ao longo de algumas décadas. O fato é que o filme permaneceu obscuro por muito tempo, chegando a ser dado como perdido, reaparecendo em sua versão integral somente neste século. Vale muito a pena ver essa obra seminal - tem apenas 12 minutos de duração - e também baixar a versão do filme no formato MP4 para enriquecer sua filmoteca.

quinta-feira, 25 de março de 2010

O Morcego Vampiro (1933)


   Fay Wray, a primeira rainha do grito do cinema, marcou seu nome no horror aparecendo em apenas meia dúzia de filmes do gênero, realizados entre 1932 e 34. O Morcego Vampiro (The Vampire Bat, 1933) não é tão popular quanto King Kong, mas é um de seus filmes mais divertidos. Um vilarejo alemão é aterrorizado por uma série de mortes misteriosas, atribuídas pelos supersticiosos moradores do local a ataques de morcegos vampiros. O policial que investiga o caso não acredita na existência do sobrenatural e tenta capturar o assassino, o qual está bem mais próximo do que ele pode imaginar.
   Produção barata da Majestic Pictures, com desenvolvimento bastante previsível, mais um exemplar do gênero abordando o surrado tema do cientista que pesquisa a vida eterna sem medir as consequências. Fay Wray está linda como sempre e Dwight Frye (o melhor Renfield das telas), mais uma vez, faz o papel de louco. Para ver o filme, use o navegador Internet Explorer.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Experiments in the Revival of Organisms (1940)


   Depois de todo o rebuliço causado pelo curta-metragem Juvenília entre os amantes de cachorros que visitam este blog, aqui está algo para realmente aguçar a militância no combate à crueldade contra animais, principalmente os pobrezinhos que são cortados, perfurados e cutucados em laboratórios científicos. O filme Experiments in the Revival of Organisms (1940) é um pseudocumentário curto realizado na União Soviética em fins da década de 1930, registrando as assombrosas façanhas da equipe liderada pelo Dr. S.S. Bryukhonenko no Instituto Experimental de Fisiologia e Terapia, em Voronezh, na tentativa de reviver organismos mortos. Bryukhonenko, o arquétipo irretocável do ‘cientista louco’, conduz experiências grotescas com cachorros, extraindo seus órgãos vitais (coração e pulmão) e os mantendo funcionando fora do corpo. A cena mais impressionante (e, por extensão, a mais desagradável e repulsiva) é a da cabeça decapitada de um cãozinho que é mantida viva por algumas horas por meio de um complexo maquinário. O derradeiro experimento mostra um cachorro sendo ressuscitado depois de ficar morto durante dez minutos, quando todo o sangue que foi retirado de seu corpo é novamente injetado em seu organismo por meio de uma engenhoca batizada de Sistema Artificial de Circulação de Sangue.
   Falando estritamente em termos cinemáticos (que é o que realmente importa aqui), este bizarro filme de propaganda comunista é um tesouro proibido nos anais dos filmes de horror e ficção cietífica, tendo provavelmente servido de inspiração para obras cultuadas como The Brain That Wouldn’t Die, Donovan’s Brain, The Frozen Dead e tantas outras sobre cientistas que tentam reviver cérebros, cabeças e membros emputados. Comprova, acima de tudo, que os cientistas loucos da ficção ainda ficam devendo aos seus colegas do mundo real.
   Prefiro não discutir mais detalhadamente a autenticidade, veracidade ou mesmo a validade do filme como documento científico, mas é flagrante o quanto ele borra os limites entre documentário, propaganda e ficção científica. O filme é repleto de cenas perturbadoras, cruéis e até doentias; o próprio ambiente do laboratório é assustador, com cientistas de aparência sinistra. A Medicina moderna contradiz muitas das ‘façanhas’ apresentadas no filme: como seria possível, por exemplo, o cérebro do cãozinho não sofrer nenhum dano grave depois de ficar dez minutos sem oxigenação?
   O documentário, em sua versão americanizada, é apresentado pelo Prof. J.B.S. Haldane, que afirma ter sido testemunha dos experimentos retratados no filme, tornando a farsa ainda mais complexa e preocupante, demonstrando na prática o poder de manipulação que as autoridades enxergavam no cinema. O epílogo é de um absurdo ridículo, no clima de “tudo fica bem quando acaba bem”, e é impressionante que alguém acreditasse na veracidade dessas proezas mesmo naquela época.

sábado, 6 de março de 2010

Sherlock Holmes: The Man Who Disappeared (1951)


   Passada toda a onda em torno do novo Sherlock Holmes, vamos voltar a falar do bom e velho detetive criado por Arthur Conan Doyle. O tópico, desta vez, é este raro piloto de uma série de televisão, realizado em 1951. A série, entretanto, foi rejeitada pelos executivos do canal e somente este episódio de meia hora foi concretizado. O vídeo está disponível logo acima (se você não usa o navegador Internet Explorer, possivelmente não está enxergando o vídeo; não sei por que isso acontece!).
   O episódio, intitulado The Man Who Disappeared, é baseado no conto The Man with the Twisted Lip, publicado originalmente em dezembro de 1891. O conto foi traduzido para o português como O Homem de Lábio Torcido e O Homem da Boca Torta, e pode ser lido acessando este endereço. Quem se interessar em conhecer melhor a chamada obra ‘canônica’ de Sherlock Holmes deve visitar esta página.
   A história, mais tarde reunida na antologia As Aventuras de Sherlock Holmes, é da fase na qual o Dr. Watson havia se casado, deixando Holmes morando sozinho no apartamento da Baker Street. A trama não é das melhores e o desfecho chega a ser um pouco previsível para quem já está acostumado aos truques do detetive, mas tem alguns momentos interessantes. O conto, que tem parte de sua ação ambientada numa casa de ópio, faz citação explícita ao vício de Sherlock Holmes em cocaína. Tais referências cocainômanas foram eliminadas na versão para a TV, que também trata de adequar a situação de Holmes e Watson ao seu convencional estado de solteirões colegas de quarto. De resto, a trama é razoavelmente fiel ao conto, aproveitando a premissa na primeira metade e inserindo elementos mais mirabolantes e mudando substancialmente o final.
   Sherlock Holmes é interpretado por John Longden, que teve papel de destaque em dois filmes do início da fase sonora de Alfred Hitchcock (Blackmail e The Skin Game). As feições de Longden, vinte anos mais velho do que quando atuou para Hitchcock, são incrivelmente semelhantes à imagem de Sherlock Holmes consagrada pelas ilustrações clássicas publicadas na revista Strand em fins do século retrasado. Mesmo que este piloto não seja brilhante, não é exagero afirmar que Longden poderia ter interpretado um memorável Sherlock Holmes, caso a série tivesse vingado.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Alice Cooper: Along Came a Spider (2008)


   Não é de hoje que Alice Cooper rima com horror. Aliás, a relação do veterano roqueiro de Detroit com temas macabros deu origem ao chamado ‘shock rock’, ou ‘rock horror’, na década de 1970. O conceito havia sido rascunhado pelas extravagantes performances de Screamin’ Jay Hawkins pelo menos quinze anos antes, mas foi Alice Cooper, com seus exageros cênicos dignos de espetáculos da Broadway, incluindo decapitações e enforcamentos em pleno palco, quem deu vida à idéia. Desde Kiss, Misfits, Mötley Crüe e Gwar, até King Diamond, Rob Zombie, Marilyn Manson e Lordi, todo mundo que destila a receita rock+horror deve um bocado a Alice Cooper.
   Along Came a Spider é o álbum mais recente da titia do rock pesado (sei que não chega a ser novidade - foi lançado há cerca de um ano e meio - mas só faz dois meses que tenho esse blog e não queria deixar passar a oportunidade de escrever um pouco sobre o disco!). Marca o retorno do roqueiro ao estilo hard rock clássico, depois de ele se aventurar pelo hard farofa, heavy tradicional e metal industrial. O álbum segue a tradição ‘conceitual’ do clássico Welcome to My Nightmare (1975), narrando uma história linear ao longo de todas as faixas.
   Trata-se da história de um serial killer conhecido como ‘Spider’, que captura, tortura, mata e arranca uma perna de cada vítima. Seu objetivo é juntar oito pernas e construir sua própria aranha. Não chega a ser algo inovador ou especialmente original, mas mostra a visão - um tanto ingênua - que Alice tem do horror, inclusive sua obsessão por bichos asquerosos.


   A relação de Alice Cooper com filmes de horror rendeu participações nas cinesséries Sexta-Feira 13, interpretando a canção-tema “He’s Back (The Man Behind The Mask)” no sexto exemplar (lembro até hoje quando vi, embasbacado, o vídeo dessa música no Fantástico!) e A Hora do Pesadelo, nada menos do que como o pai de Freddy Krueger, também no sexto filme da saga. Também fez papéis menores em outros filmes, como em O Príncipe das Sombras (1987), de John Carpenter, e protagonizou o espanhol Leviatán (1984), dirigido por Claudio Fragasso, lançado em VHS no Brasil como Monster Dog: Uma Noite de Horror, no qual interpreta um roqueiro que vira lobisomem.
   Para promover o lançamento de Along Came a Spider, o roqueiro lançou no YouTube este vídeo de dez minutos, reunindo três canções do álbum: “Vengeance Is Mine” (com participação de Slash na guitarra), “(In Touch With) Your Feminine Side” e a balada mórbida “Killed By Love”. Co-dirigido por Piggy D. e Gabrielle Geiselman, o vídeo é todo ambientado no manicômio onde Spider foi trancafiado. Tem alguns momentos interessantes, mas poderia ter sido melhor concebido e realizado. (Não pode ser comparado, por exemplo, ao charmoso especial para a TV inspirado no álbum Welcome to My Nightmare, feito em 1975, com a preciosa participação de Vincent Price.)
   Em compensação, os trailers promocionais do álbum Along Came a Spider são bem interessantes, então decidi também reproduzi-los aqui. Destaque para o terceiro trailer, que recria o inesquecível monólogo final de Psicose (1960) na íntegra, celebrando em grande estilo o casamento de rock pesado e filme de horror.

terça-feira, 2 de março de 2010

Juvenília (1994)


   Antes do advento do DVD e - principalmente - da internet, curtas-metragens ficavam restritos a uma pequena camada de cinéfilos, quase sempre estudantes de audiovisual. O restante nem sabia da existência desses filmetes, ou só ouviam falar a respeito, sem saber onde encontrá-los. Não é exagero dizer que a história do curta-metragem brasileiro ainda precisa ser devidamente contada. Para deixar minha contribuição nessa difícil empreitada, quero resgatar aqui um dos curtas nacionais mais impactantes que já tive o privilégio de assistir (na sala de cinema, onde seu efeito é ainda mais devastador!): Juvenília, escrito, produzido, dirigido e montado por Paulo Sacramento em 1994. Sacramento é diretor do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), produtor de Encarnação do Demônio (2008) e o mais premiado (e requisitado) montador do atual cinema brasileiro.
   Há alguns anos, Juvenília foi motivo de polêmica numa lista de discussão da qual eu fazia parte, com os argumentos se limitando à questão do direito (ou não) de se matar um animal para fazer arte. Espero estar elevando a discussão com esta postagem, tentando ver além desse detalhe e buscar a essência do filme. Tenho certeza que Juvenília continua chocando e causando polêmica (duvido que esta não seja uma de suas propostas), mas espero que a oportunidade de (re)ver o filme possa melhorar as argumentações. Fica o aviso àqueles que ainda não conhecem o curta: Juvenília tem cenas explícitas de violência contra um cachorro. Quem não tiver estômago forte, é melhor nem assistir ao curta!


   O filme, totalmente narrado por stills em preto e branco, mostra um grupo de jovens que, sem qualquer motivo aparente, decidem espancar um cachorro. O elemento chocante, até mesmo revoltante, é a maneira casual com a qual se dedicam à tarefa, rindo e se divertindo com a brincadeira. Como toda obra de arte, o curta é aberto a interpretações (muitas das que eu li são completamente desprovidas de inteligência), mas para mim é o retrato perfeito da doom generation, dos jovens tomados pelo tédio e pela absoluta falta de objetivos - algo como a ressaca pós-grunge. Um rebelde que golpeia o vácuo, sem sequer saber o motivo de sua explosão de violência.
   A cópia do curta disponível aqui, via YouTube, foi retirada de um surrado VHS. Está em péssimas condições, mas plenamente assistível. O próprio Sacramento não tem uma cópia melhor, pois o curta nunca foi transferido para o formato digital. Até que isso seja providenciado, o vídeo quebra o galho. A seguir, uma breve entrevista que fiz este final de semana com o cineasta para contar um pouco sobre seu filho mais controverso.


Qual foi o processo usado para a realização de Juvenília? Foram feitas as fotografias e depois transferidas para 35 mm?
   Sim, fizemos primeiramente um storyboard bem detalhado, e a partir dele encenamos com os atores e fotografamos ao invés de filmar. Uma vez batidas, reveladas e ampliadas as fotos, eu as filmei de uma maneira bem tosca, em VHS mesmo. Fui para uma ilha de edição de corte seco (VHS!!) e fiz um rascunho da montagem. Uma vez feito esse trabalho, minutei os tempos que precisava, filmei as ampliações das fotos em um table-top, que é basicamente uma câmera 35mm de cinema presa em um trilho vertical, apontada para uma base onde se prendem fotografias ou desenhos. É o equipamento usado (ou melhor, era!) para qualquer filme de animação. Essa montagem prévia no VHS foi fundamental pois tínhamos apenas duas latas de 35mm, ou seja, menos de 9 minutos de material virgem. Como o filme finalizado teria 7 minutos, veja o aperto! Bom, depois do table-top, revelamos o filme e fui para uma moviola já com o magnético transcrito para fazer a montagem. Era assim antes do advento da tecnologia digital, hoje seria tudo bem mais fácil e barato!

O filme causa incômodo no espectador por mostrar jovens saudáveis e alegres cometendo um ato abominável. Qual é a mensagem que o curta quer passar?
   Como diria o Orson Welles, um filme morre quando vira veículo de uma mensagem. Não há moral da história, mas um sentimento muito forte que o filme provoca. Ele faz o espectador pensar, utilizando-se do cinema e da violência como um anti-espetáculo, algo realmente terrível. Ao final do filme, há uma quebra decisiva de perspectiva. Está claro que não estamos ao lado da barbárie.

Como foram realizadas as cenas de esquartejamento e evisceração do cachorro? O animal foi morto durante as filmagens?
   Tínhamos um sério problema para realizar esse filme. Como mexeríamos com vísceras de um animal, havia a possibilidade de contaminar a equipe e o elenco com raiva, uma doença horrível. Um cachorro só transmite a raiva nos últimos dias de sua doença, então ele morre. Quando um cachorro morde uma pessoa, ele é preso e posto de quarentena. Se ele morrer nos três dias seguintes à dentada, o caso é grave. A pessoa vitimada deve então tomar injeções fortes e perigosíssimas. Se o cachorro não morrer, não há necessidade, pois ele não está contaminado. Como nosso cachorro estaria já morto, não poderíamos ter certeza se ele estava doente ou não. Por isso tivemos que arrumar um animal em um canil em uma cidade próxima, onde não haviam registros de raiva nem em cachorro nem em morcegos há cinco anos. Os canis funcionavam assim: um cachorro era recolhido da rua e ficava três dias esperando que alguém reclamasse por ele. Se ninguém o procurasse, após três dias ele era sacrificado. Por dia aconteciam de 5 a 10 sacrifícios nesse canil que eu visitei. Eles apoiaram a realização do filme e eu pude escolher um entre os corpos eliminados naquele dia. Foi com esse corpo que filmamos, já morto portanto. Ah, sim, a presença do cachorro na filmagem era muito desagradável, ainda mais depois de seu ventre aberto. Muitos atores se recusaram a colocar as mãos ali dentro e eu mesmo tive que fazê-lo nos planos fechados!

A trilha sonora é uma faixa do disco Ummagumma, do Pink Floyd. Por que escolheu essa música?
   A faixa chama-se “A Saucerful of Secrets”. No disco Ummagumma tem a versão ao vivo, que utilizamos. Era fundamental para minha concepção os aplausos finais. Tive a idéia desse filme ouvindo essa música e acho que ela se encaixa à perfeição com o que eu queria. Lembrando que o filme é praticamente um video-clip, não tem diálogos ou qualquer edição de som acrescentada à faixa. Bem, a música não é creditada por motivos óbvios!

A tomada final, na minha opinião, é o momento mais poderoso do filme, devido à longa exposição da imagem do cãozinho. Isso me lembrou o estilo de Werner Herzog, que costuma inserir cenas parecidas em seus filmes, chegando a deixar o espectador desconcertado. Em Juvenília, temos tempo de pensar que o cãozinho será a próxima vítima do grupo, ou que ele é mais civilizado do que o Homem, ou que vai vingar a morte do outro cachorro... O que, afinal, significa esta última cena?
   Nunca tinham feito essa comparação com o Herzog, que muito me honra. Para mim ele é o maior diretor de cinema vivo do mundo, penso que ninguém nunca foi tão longe quanto ele. Bem, o tempo de exposição desse plano é fundamental. O filme não se completa, ele recusa-se a acabar, ele obriga o espectador a ter uma reação, a tomar uma posição. Após a música encerrar, ainda faço um ou dois zooms, em silêncio, rumo ao cachorrinho. Está claro, ele somos nós, os espectadores, as testemunhas dessa história. Essa última foto foi dirigida pela Debora Waldman, que desenhou também o storyboard. Nessa hora eu estava na delegacia mais próxima, prestando esclarecimentos, pois um morador do entorno do set de filmagem (a sede atual da Cinemateca Brasileira, antigo Matadouro Municipal) nos denunciou. E a polícia que veio nos prender foi a mesma que havíamos solicitado para fazer o isolamento da área, mas que não compareceu alegando “falta de efetivo”!!!

Como foi a recepção do curta nos festivais em que foi exibido?
   Foi super mal exibido em festivais brasileiros na época, embora tenha se tornado muito conhecido nos bastidores, na classe cinematográfica. No exterior, ao contrário, ele foi exibido em uns 40 países e ganhou prêmios bem importantes na Itália e na Alemanha. Mas o maior deles foi o de Melhor Filme no festival Rencontres Internacionales Henri Langlois, na França, um dos mais renomados festivais de escolas de cinema do mundo. Para se ter uma idéia, no júri estavam, entre outros, a Bulle Ogier (atriz de O Discreto Charme da Burguesia) e a Caroline Champetier (fotógrafa de diversos filmes do Godard). Foi muito foda. Mas aqui no Brasil eu fiquei estigmatizado e levei sete anos até conseguir fazer outro filme!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Drácula (1931)


   Já dizia aquela impagável paródia do conde vampiro: Dracula sucks! Estava dia desses folheando o livro V Is for Vampire: The A-Z Guide to Everything Undead (1996), de David J. Skal, e encontrei uma observação deveras curiosa que quero compartilhar aqui com vocês. Vejam só o comentário do autor no verbete fellatio, depois de ponderar diversas implicações diretas ou indiretas entre vampirismo e sexo oral: “Quando assistida corretamente, até mesmo a indigesta versão cinematográfica de Drácula de 1931 contém algumas surpresas de, digamos, cair o queixo. Renfield, o raivoso servo de Drácula, apesar de ter sido mordido pelo conde, não apresenta qualquer marca, pelo menos não no pescoço. Durante a viagem marítima rumo à Inglaterra há uma tomada muito interessante, quando Renfield abre o caixão do vampiro: certamente alguém deve ter percebido que quando Drácula se senta, seu rosto vai diretamente às calças de Renfield - como que ávido por um burrito cheio de sangue para o café-da-manhã”. O vídeo está aí para cada um tirar suas próprias conclusões: does Dracula really suck?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Wolfblood: A Tale of the Forest (1925)

   Para celebrar a estréia mundial da refilmagem do clássico The Wolf Man, trago para vocês o mais antigo longa-metragem de lobisomem que se tem conhecimento. Wolfblood: A Tale of the Forest (1925) é um melodrama mudo estadunidense inspirado em lendas sobre o Loup Garou, ambientado nas profundezas das florestas canadenses, onde duas companhias rivalizam na produção de madeira. Quando o administrador de uma das madeireiras é gravemente ferido numa briga, o médico que o atende salva sua vida fazendo transfusão usando sangue de lobo. O homem então passa a ter medo de se transformar em lobisomem. O filme é uma relíquia histórica que deve interessar somente a quem gosta de conhecer produções dos primórdios do cinema. A narrativa é simplista e convencional, praticamente desprovida de elementos horroríficos.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

You Asked for It: Bela Lugosi (1952)


   Raríssima aparição de Bela Lugosi na televisão, num episódio do programa You Asked for It, no qual os telespectadores escolhiam por carta as atrações que gostariam de ver no ar. Mais uma vez com suas vestimentas de Drácula, o veterano Lugosi levanta-se do caixão e participa do programa realizando um breve número de ilusionismo, transformando uma bela moça num morcego vampiro.
   A beldade em questão é Shirley Patterson, aspirante a estrela que acabara de fazer um papel menor no thriller em 3-D Second Chance, mas logo desapareceu como que num passe de mágica. Na entrevista final Lugosi anuncia seus próximos projetos: um filme em 3-D chamado Phantom Ghoul e a série de TV Dr. Acula, ambos jamais concretizados. E lembre-se: você pediu por isso!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Casarão da Morte Negra (1966)



   Fiquei devendo o comentário de mais um filme do Lon Chaney Jr., e mesmo que ninguém tenha cobrado, vou cumprir a promessa. Eu ia rever o mexicano La Casa del Terror (1960), um dos muitos filmes ruins de Lon Jr., mas decidi ver este raríssimo House of the Black Death (1966), exibido na TV brasileira como O Casarão da Morte Negra. Lon sem dúvida merece muito seu lugar entre os grandes nomes do cinema de horror, mas sua vida e carreira são um tanto trágicas demais. Depois do brilhareco efêmero como o lobisomem Lawrence Talbot nos filmes da Universal na década de 1940 e os exemplares da deliciosa cinessérie Inner Sanctum, sua carreira foi ladeira abaixo a partir do começo dos anos 1950. Chaney se tornou alcóolatra - alguns dizem que ele pegou gosto pela bebida durante as intermináveis sessões de maquiagem que tinha que enfrentar para virar monstro - e não são raras as ocasiões em que ele parece bêbado em cena. Um exemplo clássico disso é sua famigerada atuação na versão para a TV de Frankenstein.
   O satanismo estava em alta quando O Casarão da Morte Negra foi realizado, mas isso não quer dizer que qualquer dos envolvidos necessariamente saiba o que está fazendo. Muito pelo contrário; é o tipo mais cafona de satanismo, com discípulos encapuzados e sacerdotisas clamando “Oh, Satanus!” com toda a pompa durante patéticos rituais de magia negra. Diante do desastre iminente, só nos resta curtir a desavergonhada exploração de belas senhoritas em danças sensuais. Nisso o filme acerta em cheio, e se hoje O Casarão da Morte Negra é uma espécie de cult movie, isso se deve muito mais à dança exótica da britânica Sabrina do que pelas presenças de Lon Chaney Jr. e John Carradine. Confira no vídeo abaixo o que o filme tem de melhor a oferecer.


   A produção é de uma miséria flagrante e aparentemente o filme ficou engavetado até 1975, quando foi exibido na televisão estadunidense. O desempenho dos dois grandes veteranos do horror - que nunca aparecem em cena juntos - é risível mesmo em comparação ao baixo padrão que já haviam estabelecido à essa altura de suas respectivas carreiras. Lon Chaney Jr. ostenta uma barriga indecente e um ridículo par de chifres diabólicos, no papel de Belial DeSade, o líder dos satanistas, protagonizando os momentos mais constrangedores. John Carradine, surpreendentemente contido, é pouco aproveitado, o que lhe poupa de um bocado de embaraços. A trama é sobre um casal de doutores que chega a um vilarejo assolado por adoradores de Satã, onde o clássico confronto entre razão e superstição se interpõe às mortes misteriosas que ocorrem na região, atribuídas a um lobisomem. Maldições de família e um duelo entre feiticeiros rivais também são jogados no caldeirão desta indigesta produção de baixa qualidade.
   Harold Daniels, realizador de carreira modesta, é o único diretor creditado, mas Reginald Le Borg e Jerry Warren (este sim, indubitavelmente, é o pior cineasta do mundo) também contribuiram com algumas cenas. O resultado final é uma colcha de retalhos que nunca convence, misturando indiscriminadamente lobisomens e culto satânico. Resumindo, uma confusão dos diabos!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1952)

   Nesta segunda e última parte do ciclo de filmes do argentino Carlos Hugo Christensen anteriores à sua fase brasileira comentarei duas interessantes produções da década de 1950. Os dois filmes são adaptações de histórias de suspense e horror do escritor William Irish (pseudônimo literário de Cornell Woolrich), autor também do conto que originou Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, entre outros. Eu planejava escrever também sobre o filme venezuelano El Demonio És un Angel (1950), aparentemente uma comédia romântica com algum toque de fantasia e sobrenatural, mas ainda não tenho o filme. Prometo comentá-lo aqui no blog logo que eu conseguir uma cópia.

Si Muero Antes de Despertar (1952)


   Possivelmente o filme mais interessante de Christensen em sua fase clássica argentina, realizado com notável inspiração e talento, adaptado do conto “If I Should Die Before I Wake”, de William Irish. Recentemente, Si Muero Antes de Despertar ganhou certa notoriedade entre pesquisadores e aficionados por filmes de horror por sua trama supostamente antecipar a premissa de A Hora do Pesadelo (1984), com um vilão semelhante ao infanticida Freddy Krueger. De fato, há algumas semelhanças entre os filmes, como o cruel homicida que seduz e mata crianças. O tema é pesado e corajoso, remetendo ao clássico M, o Vampiro de Düsseldorf (1931), de Fritz Lang; semelhança que também deve ter chamado a atenção dos mexicanos, pois o filme foi lançado naquele país com o título El Vampiro Acecha.

   Si Muero Antes de Despertar tem um clima de conto de fadas sombrio, com alusão a “João e Maria” em algumas cenas. Christensen inteligentemente intensifica o mistério ao mostrar pouco o odiável assassino, um pedófilo que atrai crianças com promessas de doces e brinquedos. A história é narrada pela ótica de um garotinho, única testemunha do desaparecimento de suas coleguinhas de escola. O título se refere a uma oração que as crianças fazem antes de dormir - outra coincidência com A Hora do Pesadelo, que também ficou caracterizado por uma sinistra cantiga de ninar.
   Escolhi para o vídeo a cena do menino sonhando com o assassino, mergulhado num cenário surreal de pesadelo, com destaque para o plano da mão do infanticida se projetando subitamente e oferecendo uma guloseima ao menino, num momento tenso e ameaçador - e também com um flagrante teor sexual.

No Abras Nunca Esa Puerta (1952)

   Novamente Christensen recorre aos contos de suspense de William Irish neste excelente exemplar de cine negro (a maneira como os argentinos se referem ao film noir). O filme é formado por duas histórias: “Alguien al Teléfono”, adaptada do conto “Somebody on the Phone”, e “El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar”, baseada em “Hummingbird Comes Home”. O cineasta demonstra domínio absoluto da linguagem do cinema de suspense, construindo cenas tensas e climáticas. A iluminação com forte contraste entre luz e sombra, os enquadramentos inventivos e a montagem dinâmica, favorecendo a sucessão de eventos misteriosos, propiciam ao filme uma qualidade comparável ao melhor que se produziu no gênero na Hollywood da década de 1940.


   Alguien al Teléfono é sobre a morte misteriosa de uma jovem, que teoricamente teria cometido suicídio, e o desejo insano de seu irmão de vingá-la, indo em busca de um suposto agiota que a perturbava com telefonemas enigmáticos. A trama é relativamente simples e econômica, até previsível a certo momento, mas impressiona pela maneira como é conduzida. A relação entre irmão e irmã não deixa de ser intrigante. Eles moram juntos e aparentemente o rapaz tem por ela um ciúme possessivo. Não conheço a obra literária de Woolrich, mas o estilo me lembrou os contos trágicos da EC Comics, em especial das revistas policiais como Crime SuspenStories e Shock SuspenStories. O vídeo que capturei mostra o momento em que o rapaz é perturbado por um dos telefonemas misteriosos. Você terá que assistir ao filme para entender o que acontece...


   El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar é outro exuberante exercício de suspense, sobre uma noite de horror vivida por uma senhora cega que mora com a sobrinha num velho casarão. A idosa aguarda esperançosa a visita do filho, com quem ela não se encontra há anos, visita essa que acontece de maneira inesperada e traumatizante. O rapaz chega na calada da noite, acompanhado por dois amigos, um deles gravemente ferido. O filho diz que sofreram um acidente de carro, mas à esta altura já sabemos que são criminosos que acabaram de cometer um assalto. O líder do bando só é identificado por uma peculiar melodia que costuma assobiar entre dentes - aqui Christensen mais uma vez estabelece um elo com M, o Vampiro de Düsseldorf. O trecho em vídeo que selecionei é o momento em que a mãe decide enfrentar sozinha o problema, mas novamente prefiro deixar sem explicação a conclusão da trama.

   Quem tem algum interesse no cinema clássico sul-americano não pode deixar de conhecer a obra de Carlos Hugo Christensen nesse período. Para mim foi uma satisfação redobrada; há anos queria ver esses filmes, pois considero o Christensen um dos principais realizadores do cinema de horror brasileiro. Entre as demais obras do cineasta que podem (ou não) flertar com o horror, não consegui localizar Con el Diabo en el Cuerpo (1947), Leonora dos Sete Mares (1956) e A Casa de Açúcar (1996). Quem tiver qualquer informação de como eu poderia conseguir cópias desses filmes, peço por gentileza que entre em contato comigo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1946-1949)

   Cineasta nascido na Argentina e radicado no Brasil durante mais de 40 anos, Carlos Hugo Christensen começou a carreira em seu país natal em 1939. Fez cerca de 50 longas até 1996, quando realizou o raro A Casa de Açúcar, não exibido no Brasil. Sua obra se caracteriza por temas como a chegada da adolescência e o amadurecimento, reencontros e a tentativa de se resgatar um passado romântico por meio de reminiscências perdidas no tempo. Passou por Chile (La Dama de la Muerte, 1946), Venezuela (El Demonio És un Ángel, 1950) e Peru (Armiño Negro, 1953) antes de começar a filmar no Brasil, em 1955, onde chegou inclusive a dirigir um filme sobre Pelé.
   Dentro do gênero horror, suas mais notórias contribuições foram os filmes brasileiros Enigma para Demônios e A Mulher do Desejo (A Casa das Sombras), ambos de 1975, com roteiros do próprio Christensen e de Orígenes Lessa inspirados em obras de Carlos Drummond de Andrade, Nathaniel Hawthorne e Samuel Taylor Coleridge. O cineasta já demonstrara interesse pelo gênero durante seu período itinerante pela América do Sul, quando flertou com o suspense sombrio, o conto policial e com diferentes estilos de narrativas de horror em vários filmes. Finalmente consegui localizar sete destas obras e enfim pude conferir sua inequívoca vocação para filmar tramas sinistras e tensas.
   Curiosamente, estas realizações de Christensen que beiram o horror são justamente do período no qual o gênero estava desprestigiado e ameaçado de extinção tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, entre o pós-guerra e o início da era nuclear (1946-1952). É uma época de poucas e esparsas realizações dentro do gênero, o que torna as obras de Christensen ainda mais relevantes e históricas.

La Dama de la Muerte (1946)

 

   O primeiro importante filme de terror de Christensen é esta produção chilena, uma das primeiras películas produzidas no país, um thriller de horror repleto de bons momentos de medo e suspense, personagens bem desenvolvidos e final impactante. Excelente adaptação do conto “The Suicide Club”, de Robert Louis Stevenson, publicado originalmente no livro New Arabian Nights (quem se interessar pode baixar o livro em formato PDF aqui numa cópia facsímile da edição de 1905). A trama, ambientada na Londres da era Vitoriana, é sobre um rapaz desesperado que se envolve com um clube secreto de suicidas. A cena que selecionei é o momento em que ele teme estar sendo perseguido por um de seus colegas de clube, encarregado de assassiná-lo (reparem nas imagens surreais que o assombram, incluindo dois policiais que formam uma enorme e ameaçadora aranha). O conto de Stevenson foi filmado diversas outras vezes, inclusive na antologia muda alemã Histórias Tenebrosas (Unheimliche Geschichten), realizada por Richard Oswald em 1919.

El Angel Desnudo (1946)

 

   Este melodrama argentino, parcialmente filmado no Rio de Janeiro, é notável pelo clima fatalista e trágico que domina a película. Não se trata necessariamente de um filme de suspense, porém é carregado de angústia e tensão. Uma jovem argentina em visita ao Rio de Janeiro recebe uma carta desesperada de seu pai, o qual lhe pede que tente conseguir uma grande quantia em dinheiro com um velho conhecido dele. O sujeito em questão é um consagrado escultor, que recebe a moça cheio de segundas intenções. O filme é sobre o dilema moral enfrentado pela protagonista, que se questiona se deve ou não sujeitar-se aos caprichos do escultor, o qual deseja “contemplar sua beleza nua inteiramente” em troca do empréstimo.
   A barganha adquire traços malditos, como se sua entrega ao artista representasse algo irreversível, definitivo, até mesmo sua morte. O tema do sacrifício por amor se torna ainda mais intenso pelo fato de a moça salvar o pai de uma situação humilhante, pagando as dívidas contraídas pelo velho com jogatina. O escultor, insinua a trama, é o próprio Diabo, com cavanhaque mefistofeliano e personalidade reclusa. Permeia o filme esse desejo do profano pela pureza, o casamento do angelical com o diabólico. Há poucos momentos realmente impactantes, então selecionei para o vídeo a cena final, que mostra o confronto entre anjo e demônio.

La Muerte Camina en la Lluvia (1948)

 

   Este clássico filme de mistério e suspense é um dos grandes momentos nos primeiros anos da carreira de Christensen, versão argentina do livro L’Assassin Habite au 21, do autor belga S.A. Steeman. A história foi filmada anteriormente por Henri-Georges Clouzot, em sua estréia nas telas, em 1942, e não seria surpreendente que a versão de Christensen tenha sido fortemente influenciada por essa adaptação anterior, mas infelizmente não assisti ao filme de Clouzot para compará-los.
   É uma trama de mistério do tipo “quem foi?”, sobre um assassino psicopata que deixa um bilhete com sua assinatura junto de cada vítima. Seu nome é S. López e toda a cidade de Buenos Aires fica aflita com os crimes cometidos pelo misterioso homicida. Uma testemunha ocular de um dos crimes descobre que o assassino mora numa pensão, onde transcorre toda a ação do filme até que o culpado é desmascarado.
   Selecionei a cena de abertura para o vídeo, uma exuberante amostra da narrativa de suspense concisa que Christensen certamente aprendeu com o mestre Hitchcock: a economia e objetividade dos planos e o processo de informação imagética remete ao início de The Lodger: A Story of the London Fog (1927): ambos compõem o perfil do assassino a partir de fragmentos de informações e o efeito que isso causa nas pessoas.

La Trampa (1949)

 

   Outra produção argentina, adaptação do livro Algo Horrible en la Leñera (Something Nasty in the Woodshed, 1942), de Anthony Gilbert, pseudônimo da autora inglesa Lucy Beatrice Malleson. É um típico melodrama feminino, com alguns exageros próprios do gênero, mas com andamento envolvente e clima constante de suspense. Conta a história de uma solteirona que responde a um anúncio de jornal publicado por um homem recluso à procura de esposa. Não demora para percebermos que o carismático galanteador na verdade é um golpista frio que só planeja se apoderar da fortuna dela.
   A angústia vivida pela protagonista remete a clássicos melodramas sobre mulheres à mercê de homens cruéis, como Suspeita (1941) e Interlúdio (1946), de Alfred Hitchcock, e os veículos da estrela Joan Crawford, Precipícios d’Alma (1952) e Frenesi de Paixões (1955). A trama envolve também um suposto fantasma que assombra a propriedade. Selecionei para o vídeo o momento mais horrorífico do filme, justamente a aparição do tal fantasma.


   A lamentar, somente a qualidade lastimável de conservação desses filmes - alguns com créditos de abertura incompletos, copiados da TV ou de velhos VHS. Isso atesta a raridade dos mesmos e também um certo desprezo com o qual aparentemente são tratados por nossos vizinhos; certamente não muito diferente de como (des)cuidamos dos nossos próprios.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Monstro Elétrico (1941)

   Lon Chaney Jr. é apenas mais um em meio a inúmeros astros de Hollywood com uma trajetória ao mesmo tempo fascinante e trágica. É também outro dos muitos artistas de talento limitado que devem aos filmes de horror sua popularidade perene e o renovado interesse por sua carreira. Basicamente, Chaney Jr. tem um único papel respeitável em sua trajetória fora do horror, como o simplório Lennie em Of Mice and Men (Carícia Fatal), de 1939, adaptado do celebrado livro de John Steinbeck.
   Filho de um dos maiores astros do cinema mudo, o consagrado “homem das mil faces” Lon Chaney, responsável por caracterizações memoráveis como O Fantasma da ÓperaO Corcunda de Notre Dame, Lon Chaney Jr. não apenas relutou em seguir os passos de seu pai no horror, mas na própria carreira de ator, só entrando para o cinema depois da morte do pai. No início, fez papéis menores, aparecendo principalmente em faroestes, usando seu verdadeiro nome, Creighton Chaney. Acabou se rendendo aos filmes de horror, e à pressão dos produtores de usar o famoso nome paterno, no começo da década de 1940, quando acabou se tornando uma figura chave no segundo grande ciclo de filmes do gênero em Hollywood.
   Todos conhecem o amadiçoado Lawrence Talbot que Chaney Jr. interpretou no clássico O Lobisomem (1941) e em todas as continuações produzidas pela Universal - e cujo remake vem aí, e tem tudo para ser muito ruim, a começar pelo diretor (Joe Johnston, cria de Lucas e Spielberg, assinou alguns dos piores blockbusters de ação e fantasia das duas últimas décadas). Portanto, para evitar o óbvio, escolhi comentar o filme que marcou a estréia de Chaney Jr. no horror, o relativamente obscuro O Monstro Elétrico (Man Made Monster), também realizado em 1941, com direção do mesmo George Waggner que logo em seguida voltou a trabalhar com o ator em O Lobisomem.


   O filme inicialmente seria mais um veículo para colocar Karloff e Lugosi frente a frente, com um roteiro que reaproveita vários elementos de filmes de horror da época, em especial The Invisible Ray e Frankenstein. Chaney Jr. é um homem simplório e ingênuo - impossível não pensar novamente em seu Lennie de Carícia Fatal - que sobrevive a um grave acidente de ônibus, quando o veículo se chocou contra uma torre de alta tensão. Ele só resistiu ao choque porque está acostumado a receber descargas elétricas, trabalhando como atração de circo fazendo truques com faíscas e eletricidade.
   Um respeitado cientista se interessa em realizar experiências com o rapaz, que aceita a oferta e se submete aos testes ingenuamente. Porém, todo cientista bom tem um assistente maluco; neste caso, Lionel Atwill no auge da vilanice. Sem que o patrão saiba, ele passa a submeter a cobaia humana a descargas cada vez mais fortes de eletricidade, até transformar o pobre Lon Chaney Jr. num ‘homem elétrico’, um homicida descontrolado que foge do laboratório e passa a matar - literalmente até que sua energia se descarregue.
   O filme pode ser considerado apenas um clássico menor da Universal, histórico por marcar a estréia de Lon Chaney Jr. no horror, mas a produção é desleixada. O filme não se preocupa sequer em mostrar o personagem de Chaney Jr. desempenhando seus truques de circo: o filme já começa com a cena do acidente com o ônibus. O ator tem um de seus piores desempenhos - ele só descobriria seu registro ideal como o perturbado lobisomem, no mesmo ano - mas em compensação é sempre uma delícia ver Lionel Atwill em ação, devorando com voracidade seu papel de vilão.
   Apesar de os créditos não fazerem qualquer referência a isso, é bem provável que o charmoso equipamento elétrico usado pelo cientista louco no laboratório - cheio de máquinas de soltar faíscas e raios - seja mais uma criação de Ken Strickfaden, cujas geniais engenhocas ficaram famosas a partir do clássico Frankenstein (1931). No final das contas, O Homem Elétrico é um filme de menor importância na história do horror, mas marcante por ter dado início à carreira de Lon Chaney Jr. no gênero e motivar o segundo grande ciclo de filmes americanos de horror.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Proêzas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (1967)

   Consegui apenas recentemente uma cópia desse raro e obscuro filme brasileiro, mais uma das dezenas de descobertas que fiz - junto com a Laura Cánepa - durante a pesquisa para a mostra Horror no Cinema Brasileiro. O filme foi gravado da TV Brasil (não confundir com o Canal Brasil, que também passa muita coisa boa) e foi uma agradável surpresa. É incrível como nunca somos capazez de imaginar exatamente como é um filme até assisti-lo, por mais que a gente leia e se informe detalhadamente a respeito. Eu imaginava Proêzas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (1967) como uma daquelas inofensivas alegorias políticas em clima de teatro mambembe, com pesonagens excêntricos falando aos berros, muita conversa fiada e um clima geral de banalidade. Errei feio - ainda bem.
   Longe de ser uma obra-prima, é bem melhor do que pode parecer numa leitura fria de sua sinopse. Às vezes parece lhe faltar coragem para ser mais incisivo e crítico, e a direção de Paulo Gil Soares é convencional demais, mas tem personagens interessantes e alguns momentos de real brilho. A narrativa é conduzida de maneira um tanto quadrada demais para esse tipo de enredo, entre o realismo fantástico e a fantasia surreal - o que nos faz imaginar o que sujeitos como Buñuel, Jodorowsky, Lynch ou mesmo Mojica seriam capazes de fazer com esse material.
   Começa com um morador do vilarejo de Leva-e-Traz, numa região rural pobre, tendo um sonho premonitório com uma velha beata cega, a qual lhe indica o local onde está enterrado um valioso tesouro. O homem - que tem apenas um braço - escava no ponto indicado no sonho e descobre um lençol petrolífero. As autoridades logo se instalam na região e começam a extração do petróleo, gerando emprego para muitas pessoas da cidade. O terreno, antes deserto e abandonado, transforma-se rapidamente numa agitada cidade pré-fabricada, para onde parte quase toda a população de Leva-e-Traz, incluindo a prostituta mais requisitada do local. Ficam para trás apenas velhos e inválidos. Quando o padre também decide abandonar o vilarejo, levando consigo a santa padroeira protetora da cidade, estranhos fenômenos começam a acontecer.
   Uma moça virgem fica grávida repentinamente e dá à luz a sapos, um bezerro nasce com cara de gente e um bode preto surge do nada em plena igreja. São artimanhas do Diabo, que chega ao ímpio vilarejo disposto a seduzir a população. Um pequeno grupo de rejeitados - formado pelo homem de um braço só, um anão cansado de trabalhar no circo e um velho violeiro cego - se associa ao forasteiro acreditando que assim farão o vilarejo prosperar. O Diabo, por sua vez, enfrenta a oposição de Chico Amansa-Alma (Joel Barcellos, o vampiro de Olhos de Vampa), homem do bem, armado com rosário de contas de prata e um espelho de prender almas.
   Algumas cenas tentam resgatar o estilo de versos do cordel, por meio de canções originais de Caetano Veloso, as quais são dubladas no filme pelo velho violeiro vivido por Jofre Soares. O resultado, como dá para imaginar, é bizarro. Dentro desse estilo, gostei muito mais da comédia trágica O Homem Que Desafiou o Diabo (2007), de Moacyr Góes, no qual misticismo, musicalidade e erotismo se misturam num enredo rico em referências à cultura nordestina, sustentado pelo inspirado roteiro de Bráulio Tavares, um dos melhores escritores brasileiros dedicados à literatura fantástica.
Related Posts with Thumbnails

Canal Cine Monstro Rock Horror Show!!