CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A Próxima Vítima (1983)

   O gênero policial é um dos poucos nichos do cinema brasileiro relativamente prolífico, principalmente em comparação com o horror. Desde os tempos dos grandes estúdios, os experimentalismos do cinema marginal e o sensacionalismo das realizações da Boca do Lixo, chegando aos arrasa-quarteirão dos anos mais recentes, o gênero policial é muito bem representado no cinema nacional. A Próxima Vítima, de João Batista de Andrade, é um dos melhores exemplares de suspense policial da década de 80, em alguns momentos se assemelhando aos bons filmes americanos do gênero, com ritmo correto e personagens bem desenvolvidos. Não se trata de um filme de horror, mas merece menção na filmografia brasileira do gênero por tratar de um caso verídico de um assassino em série, que ficou conhecido como “o Vampiro do Brás”. A contribuição do cinema brasileiro neste subgênero é modesta - cerca de meia dúzia de títulos, se tanto - e por isso mesmo acredito que merece ser tratada com atenção.
   Antônio Fagundes, num dos melhores momentos de sua carreira, faz o papel de um repórter de telejornal encarregado por seu patrão (Goulart de Andrade, aquele do “vem comigo!”) de fazer a cobertura de uma série de homicídios de prostitutas no bairro paulistano do Brás, tradicional reduto da colônia italiana. Imerso num cenário de absoluta decadência e corrupção, o repórter acaba se envolvendo com uma prostituta menor de idade (a debutante Mayara Magri), a qual ele teme que se torne a próxima vítima do maníaco sexual. Enquanto isso, outras mortes continuam a ocorrer.
   A trama tem como pano de fundo as eleições diretas de 1982, com imagens documentais mostrando Jânio, Montoro e Lula concorrendo ao governo do estado de São Paulo. A crítica social, o pessimismo e a desesperança no futuro são onipresentes na trama; a corrupção das autoridades e a incompetência da polícia são elementos determinantes para levar a história a um desfecho trágico. Ao mesmo tempo corajoso e anti-utópico, o roteiro de Lauro César Muniz ousa desdenhar da esperança em uma nação democrática prometida pelas primeiras eleições diretas realizadas no Brasil depois do período de Ditadura Militar. O personagem de Fagundes, à certa altura, faz um discurso anárquico e revoltado em relação ao futuro político brasileiro.
   O filme não se interessa em explorar os crimes sexuais, mostrando muito rapidamente cada vítima, mas um clima tenso constante domina a narrativa. O horror, neste caso, emerge tanto do cenário decadente da prostituição e do crime quanto da podridão que domina a política e a polícia.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ato de Violência (1980)

   Pretendo dedicar parte do mês de janeiro para rever alguns filmes brasileiros de horror, sobre os quais escreverei para uma publicação estrangeira. A pesquisa (inédita) sobre a produção brasileira no gênero, realizada por mim e pela amiga Laura Cánepa, resultou na mostra Horror no Cinema Brasileiro, a qual organizamos em parceria com a Heco Produções para o Centro Cultural Banco do Brasil. A mostra passou por Brasília no segundo semestre de 2009 e no momento está rolando no Rio de Janeiro. No verdadeiro trabalho de garimpo que foi organizar a filmografia brasileira no gênero, chegamos perto da conta de 200 longas de horror, mas a lista acabou sendo reduzida a 144 títulos no guia publicado no livro-catálogo da mostra. Entre os filmes excluídos da publicação está o drama policial Ato de Violência, dirigido por Eduardo Escorel em 1980.
   Sempre haverá discussão em torno de filmes sobre assassinos psicopatas serem ou não considerados do gênero horror, mas eu não abro mão de minha opinião. Para mim, um psicopata é um monstro como qualquer outro (vampiro, lobisomem, zumbi...), com a diferença apenas de não ser sobrenatural. Seu comportamento violento é injustificável: ele tem a agressividade de um monstro e não a de um criminoso de enredo de um policial ou suspense, que geralmente age com algum objetivo em mente (roubo, sequestro, vingança...). Partindo dessa equação, assassinos de ficção como Norman Bates, Michael Myers e Hannibal Lecter têm a companhia de serial killers reais, como Ed Gein, Ted Bundy e John Wayne Gacy - independentemente do gênero de seus filmes.
   Ato de Violência é um dos poucos longas brasileiros inspirados num criminoso verídico brasileiro, temática que rendeu obras como o cult marginal O Bandido da Luz Vermelha e o tosco O Maníaco do Parque - o qual será comentado aqui no blog em breve. Dirigido por Eduardo Escorel, montador competente, Ato de Violência conta a história do famigerado Chico Picadinho (Francisco Costa Rocha), psicopata que esganou e esquartejou duas mulheres em 1966 e 1976 na cidade de São Paulo. Mudaram o nome do personagem - o criminoso interpretado por Nuno Leal Maia se chama Antônio Nunes Corrêa - mas o filme recria cada crime de Chico Picadinho com fidelidade nos detalhes, incluindo o lento esquartejamento na banheira e os pedaços de corpos jogados no vaso sanitário.
   Lento, dramático e deveras deprimente, o filme é ambientado num cenário social decadente e desesperançoso. O criminoso é incapaz de explicar o que o levou a matar tão friamente as mulheres e sua passagem pela prisão não lhe propicia nenhuma espécie de cura, tratamento ou ajuda. A cena que mostra o almoço sendo servido na prisão, filmada em estilo semi-documental, denuncia as condições lamentáveis do sistema penitenciário brasileiro. Críticas sociais à parte, o filme é poderoso, dirigido com segurança por Escorel, que optou por não mostrar as cenas de morte de maneira violenta - o que as torna ainda mais chocantes e inexplicáveis.
   Nuno Leal Maia, a quem o crítico Rubem Biáfora comparava a Rondo Hatton, está correto no papel do assassino psicopata. Seu desempenho discreto, sem demonstrar grandes emoções, torna seu personagem tão patético quanto perigoso e imprevisível. A belíssima Selma Egrei tem grande presença mais uma vez; ela é a atriz brasileira que mais fez filmes que podemos considerar do gênero “fantástico”, atuando em O Anjo da Noite, O Jeca Macumbeiro, Ninfas Diabólicas, O Coronel e o Lobisomem, Uma Estranha História de Amor, As Filhas do Fogo e Estrela Nua. Uma quase rainha do grito dos trópicos!
   Recomendo Ato de Violência a quem se interessa por filmes sobre psicopatas, mas que queiram ver algo além de mulheres sendo retalhadas. Neste mesmo estilo, em breve escreverei sobre A Próxima Vítima (1983), de João Batista de Andrade, outro que só eu chamo de 'horror'.

Vinheta da mostra Horror no Cinema Brasileiro


   Vinheta de abertura da mostra Horror no Cinema Brasileiro, produzida pela Heco a partir de material bruto do filme inacabado Sentença de Deus, dirigido por José Mojica Marins entre 1955 e 1956. Não é nada assustadora, mas é muito charmosa e engraçada.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Juggernaut (1936)

   Pelos meus cálculos, Boris Karloff fez 65 filmes que podemos considerar do gênero horror, começando pelo mudo The Bells (1922), no qual encarna um hipnotizador com traços caligarianos, até as constrangedoras produções mexicanas lançadas após sua morte, ocorrida em 1969. Juggernaut, uma arrastada e enfadonha produção inglesa, é o primeiro da meia dúzia de filmes do ciclo karloffiano que pretendo assistir para completar sua filmografia (descontando alguns filmes que considero impossíveis de encontrar no momento, como The Mad Genius, de 1931). É também um dos títulos mais obscuros de sua carreira - não consegui sequer descobrir o título brasileiro, se é que foi exibido por aqui - e alguns pesquisadores até o omitem da filmografia de horror de Karloff (por pura preguiça de se informar melhor, penso eu).
   Karloff ficou (e ficará para sempre) marcado pela figura do monstro de Frankenstein, mas foi o ciclo de filmes no papel de médicos loucos que o consagraram como uma referência no cinema de horror. Desde a metade dos anos 1930 até o início da década seguinte, Karloff esteve mais às voltas com bisturis, estetoscópios e tubos de ensaio do que qualquer outra coisa. Em geral, era o médico cheio de boas intenções, no limiar de fazer uma descoberta revolucionária (a cura da paralisia ou o primeiro transplante cardíaco da história...), mas que acabava se tornando vilão ao tentar saber demais. Não cabe ao Homem contestar os desígnios divinos - este parece ser o ensinamento moralista de grande parte dos enredos clássicos de horror.
   O Dr. Sartorius de Juggernaut é um desses sujeitos com muita ambição e pouco juízo. Depois de ser obrigado a encerrar suas pesquisas em busca da cura da paralisia, devido a falta de recursos financeiros, o doutor sai do Marrocos e vai trabalhar como um simples médico na Côte d’Azur, no sul da França. Porém, sua fama o precede e ele é procurado por uma moça que sabe de seu desejo de retomar as pesquisas científicas. Ela lhe oferece uma grande quantia em dinheiro, suficiente para ele concretizar os estudos, em troca de Sartorius “cuidar” do marido dela, um velho milionário e muito doente.
   Considero Karloff um ator talentoso, com mais recursos dramáticos do que seu colega/rival mais famoso, Bela Lugosi. Porém, em Juggernaut ele vive um de seus piores desempenhos. Talvez seja culpa da incompetência de Henry Edwards na direção, pois todos no filme atuam de maneira teatral, com exageros ridículos - principalmente a mexicana Mona Goya, no papel da esposa infiel que quer dar cabo do marido para sustentar um irritante playboy viciado em jogatina. O estilo melodramático, antiquado, é típico do cinema inglês da época, anos atrasado em relação às produções americanas.
   Apesar de ser inglês, Karloff filmou pouco em seu país natal. Seu primeiro horror britânico foi The Ghoul, de 1933, lançado no Brasil em DVD numa cópia lastimável como O Zumbi (o título original brasileiro é Dragore, o Fantasma). Em resumo, Juggernaut talvez seja o pior filme de Karloff; a ruindade é tamanha que apenas reforça uma de minhas teses: a de que determinados filmes raros e obscuros só são raros e obscuros... porque são muito ruins! Acabam interessando somente a pesquisadores e completistas como eu. Se mais alguém quiser se aventurar, saiu em DVD importado e é mais um título em domínio público.
   Darei uma folga aos clássicos (para não deixar o blog repetitivo) e amanhã pretendo trazer uma surpresinha para vocês!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Vingança Diabólica (1933)

   Continuando o mini-ciclo de pequenos clássicos de horror e mistério com Lionel Atwill, temos aqui mais uma realização modesta do ano de 1933, desta vez uma produção da Paramount, estúdio que, na época, tinha menos tradição no gênero - em comparação com Universal e Warner, por exemplo. Vingança Diabólica (Murders in the Zoo), dirigido por A. Edward Sutherland, é divertido e relativamente violento, com algumas cenas de mortes típicas dos abusos do período que antecedeu o Código Hays. O momento mais impressionante é a cena da mocinha atirada num poço de crocodilos para ser devorada viva. Devido a exageros como este, alguns anos depois os moralistas de Hollywood frearam a produção de filmes de horror. Atualmente, fitas da época conhecida como “pre-code” são muito cultuadas. Basta assistir Vingança Diabólica para entender o porquê.
   A trama é simplória, mas o suficiente para manter a ação contínua na tela: Atwill é Eric Gorman, milionário e filantropo que passa o tempo caçando animais selvagens na Indochina. Quando enche um navio de bestas-feras, ele parte de volta à América para doar a bicharada para um zoológico. Porém, nem tudo é diversão na vida de Gorman. Casado com uma bela e jovem esposa que não o ama, ele faz o possível para manter os rapazes longe da mulher. Um dos pretendentes termina amarrado e literalmente com a boca costurada, abandonado no meio da selva para ser comido por tigres. Na viagem de volta, a esposa infiel encontra-se com outro amante no navio e eles combinam se casar assim que ela conseguir o divórcio. Gorman, porém, está ciente das escapadelas da esposa e planeja eliminar o rival usando um de seus bichinhos de estimação - uma enorme cobra mamba, um dos répteis mais mortíferos do mundo.
   Obviamente, o filme é todo de Atwill, que parece mais do que à vontade no papel do vilão frio e sádico. Também é dele a melhor frase do filme. Ao ser acusado pela esposa de ter matado o amante dela, vítimado por uma misteriosa picada de cobra durante um jantar beneficente, Gorman responde sarcasticamente: “Você não acredita realmente que passei a noite toda com uma enorme cobra no bolso do paletó, não é mesmo? Isso não seria justo com meu alfaiate”.
   O ponto baixo do filme é a irritante presença do cômico Charlie Ruggles, no papel do atrapalhado assessor de imprensa do zoológico. Alívios cômicos como esse são comuns nos filmes de horror dessa época - e quase sempre estragam a diversão, como acontece também com o fetichista Mad Love (1935), estrelado por Peter Lorre. O papel de herói de Vingança Diabólica coube a um muito jovem Randolph Scott, em comecinho de carreira. O futuro astro do faroeste interpreta um cientista que passa o filme todo pesquisando um antídoto para o veneno da cobra mamba, o que torna o final mais do que previsível.
   O filme é dirigido de maneira leve por Sutherland, mais conhecido por suas comédias, especialmente pela parceria com W.C. Fields. Ele começou a carreira como ator e foi um dos Keystone Kops originais das populares comédias mudas. Foi assistente de Charlie Chaplin e flertou apenas brevemente com o cinema fantástico, dirigindo a comédia de ficção científica The Invisible Woman (1940). Típico de uma produção rasteira, o filme tem gafes inaceitáveis, como quando Ruggles erra uma frase e descaradamente repete a fala, mas consegue divertir mesmo nos dias de hoje. Saiu em DVD importado e não é difícil de ser encontrado pelas ondas da rede.
   Por enquanto, basta de Lionel Atwill! Se tudo correr bem, amanhã falaremos um pouco sobre um dos filmes mais obscuros de Boris Karloff.

The Sphinx (1933)

   O primeiro filme que vi em 2010 é um modesto melodrama de mistério produzido pela Monogram em 1933. A Monogram foi o mais miserável de todos os miseráveis estúdios de Hollywood, mas seus filmes têm um charme irresistível, com tramas tão absurdas que beiram o surreal. Geralmente, os filmes da Monogram se resolvem praticamente na conversa - pouquíssima ação, absoluta pobreza visual e personagens quase caricaturais. The Sphinx, dirigido por Phil Rosen - responsável por vários títulos do ciclo do detetive Charlie Chan - é um desses casos, tendo como único trunfo no enredo um suspeito de assassinato que prova sua inocência no tribunal por ser surdo-mudo. O papel é de Lionel Atwill, vilão do segundo escalão do primeiro grande ciclo de filmes de horror de Hollywood. A única testemunha do crime é o faxineiro do prédio onde foi encontrada a vítima mais recente, um corretor de ações da bolsa de valores que foi estrangulado dentro de seu próprio escritório. Depois de perpetrar o crime, o homicida sai tranquilamente do prédio, pede fogo para acender o charuto e pergunta as horas ao faxineiro, que logo em seguida encontra um corpo estendido no chão.
   É o quarto crime cometido com as mesmas características em apenas um mês e a polícia não tem pista alguma do suspeito. Porém, claro, como em quase todos os filmes de horror/mistério desse período, há um intrépido repórter determinado a fazer o serviço que a polícia é incapaz de fazer. Sem muita explicação lógica, o sujeito decide investigar os crimes e tem certeza de que o criminoso é mesmo o tal surdo-mudo, um respeitado cavalheiro que surge na história apenas e tão-somente como suspeito - e nós, espectadores, somos convencidos de que só ele pode ser o assassino, pois é ele, e ninguém mais, quem sai da cena do crime após cada assassinato. Há um falatório de que ele é um milionário muito respeitado, mas nada fica muito claro. O mistério é frágil, a tensão é praticamente nula e a solução do enigma é tão óbvia quanto decepcionante: existem dois sujeitos, o surdo-mudo que senta no banco dos réus e seu irmão gêmeo, o estrangulador.
   É curioso observar que as vítimas do assassino são corretores de ações, poucos anos depois da Grande Depressão que quebrou a bolsa de valores em 1929, e cujos efeitos devastadores ainda eram sentidos pelo povo estadunidense. O filme talvez fosse mais envolvente se tivesse vítimas menos detestáveis; afinal, quem sentiria a falta de um corretor?? Lionel Atwill, que na mesma época aterrorizou a encantadora Fay Wray em Doctor X, The Vampire Bat e Mystery of the Wax Museum, apareceu em duas dúzias de filmes de horror até 1946, ano de sua morte, quase sempre como coadjuvante. O filme é todo dele, com um desempenho bastante sutil, pois passa a maior parte do filme calado. Mas seu sorrisinho inocente chega a ser ridículo às vezes.Assisti a esse filme como parte do ciclo dos grandes astros do horror mundial que estou realizando. É verdade que Atwill está longe de ser assim tão “grande”, mas não existem muitos astros de cinema identificados com o horror, então ele merece seu espaço. Não sei se o filme é inédito no Brasil; imagino que tenha sido exibido na televisão lá pelos anos 60 ou 70. Está disponível em DVD importado e circula pela internet em cópia de domínio público, portanto não é nada difícil de encontrar. A ilustração desse post é uma edição da revista Filmfax, a única publicação do mundo capaz de estampar Lionel Atwill na capa!

O início do horror...


   Depois de adiar por alguns anos, finalmente me rendi à idéia de ter um blog sobre cinema. Resisti o quanto pude, principalmente devido à preguiça e desorganização geral, mas acho que não tem como viver e respirar cinema (essencialmente filmes de horror) e não compartilhar algumas impressões via internet. Se alguém vai ler, só os posts futuros dirão, mas vamos dar início à brincadeira e ver o que rola...
   Decidi escrever somente sobre os filmes que vejo no dia, assim nem perco tempo pensando sobre o que escrever. Portanto, será uma trajetória errática, porém bastante fiel do que passa pela minha cabeça a cada novo filme que assisto. Então, vamos começar a tocar o horror em 2010...
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