CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

EXCLUSIVO! Mangue Negro em DVD

   Tenho o imenso prazer de anunciar em primeira-mão o lançamento oficial em DVD do filme Mangue Negro (2008), dirigido pelo capixaba Rodrigo Aragão. O filme é uma deliciosa e sangrenta comédia de zumbis, no estilo ultrajante de mestres do horror moderno como Sam Raimi e Peter Jackson, e já rodou o mundo conquistando prêmios e elogios da crítica especializada. Mangue Negro chega em DVD no dia 1º de fevereiro pelo redivivo selo Dark Side/London Films numa edição luxuosa. O lançamento terá direito a luva especial e dois discos cheio de extras, incluindo entrevistas, bastidores e os curtas anteriores dirigidos pelo Rodrigo, os cultuados Chupa Cabras (sucesso absoluto no YouTube) e Peixe Podre 1 e 2.
   Fica o convite a todos os entusiastas de filmes de horror e do cinema brasileiro em geral a prestigiar o trabalho do Rodrigo comprando o DVD - que custará apenas R$ 29,90 em lojas como Americanas, Extra e Walmart - não apenas porque o Rodrigo é gente boa e merece todo o apoio, mas principalmente porque o filme é muito bacana e está recebendo um tratamento cuidadoso que poucos títulos brasileiros têm quando chegam ao DVD.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Monstro da Censura

Proêzas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (1967)

   Consegui apenas recentemente uma cópia desse raro e obscuro filme brasileiro, mais uma das dezenas de descobertas que fiz - junto com a Laura Cánepa - durante a pesquisa para a mostra Horror no Cinema Brasileiro. O filme foi gravado da TV Brasil (não confundir com o Canal Brasil, que também passa muita coisa boa) e foi uma agradável surpresa. É incrível como nunca somos capazez de imaginar exatamente como é um filme até assisti-lo, por mais que a gente leia e se informe detalhadamente a respeito. Eu imaginava Proêzas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (1967) como uma daquelas inofensivas alegorias políticas em clima de teatro mambembe, com pesonagens excêntricos falando aos berros, muita conversa fiada e um clima geral de banalidade. Errei feio - ainda bem.
   Longe de ser uma obra-prima, é bem melhor do que pode parecer numa leitura fria de sua sinopse. Às vezes parece lhe faltar coragem para ser mais incisivo e crítico, e a direção de Paulo Gil Soares é convencional demais, mas tem personagens interessantes e alguns momentos de real brilho. A narrativa é conduzida de maneira um tanto quadrada demais para esse tipo de enredo, entre o realismo fantástico e a fantasia surreal - o que nos faz imaginar o que sujeitos como Buñuel, Jodorowsky, Lynch ou mesmo Mojica seriam capazes de fazer com esse material.
   Começa com um morador do vilarejo de Leva-e-Traz, numa região rural pobre, tendo um sonho premonitório com uma velha beata cega, a qual lhe indica o local onde está enterrado um valioso tesouro. O homem - que tem apenas um braço - escava no ponto indicado no sonho e descobre um lençol petrolífero. As autoridades logo se instalam na região e começam a extração do petróleo, gerando emprego para muitas pessoas da cidade. O terreno, antes deserto e abandonado, transforma-se rapidamente numa agitada cidade pré-fabricada, para onde parte quase toda a população de Leva-e-Traz, incluindo a prostituta mais requisitada do local. Ficam para trás apenas velhos e inválidos. Quando o padre também decide abandonar o vilarejo, levando consigo a santa padroeira protetora da cidade, estranhos fenômenos começam a acontecer.
   Uma moça virgem fica grávida repentinamente e dá à luz a sapos, um bezerro nasce com cara de gente e um bode preto surge do nada em plena igreja. São artimanhas do Diabo, que chega ao ímpio vilarejo disposto a seduzir a população. Um pequeno grupo de rejeitados - formado pelo homem de um braço só, um anão cansado de trabalhar no circo e um velho violeiro cego - se associa ao forasteiro acreditando que assim farão o vilarejo prosperar. O Diabo, por sua vez, enfrenta a oposição de Chico Amansa-Alma (Joel Barcellos, o vampiro de Olhos de Vampa), homem do bem, armado com rosário de contas de prata e um espelho de prender almas.
   Algumas cenas tentam resgatar o estilo de versos do cordel, por meio de canções originais de Caetano Veloso, as quais são dubladas no filme pelo velho violeiro vivido por Jofre Soares. O resultado, como dá para imaginar, é bizarro. Dentro desse estilo, gostei muito mais da comédia trágica O Homem Que Desafiou o Diabo (2007), de Moacyr Góes, no qual misticismo, musicalidade e erotismo se misturam num enredo rico em referências à cultura nordestina, sustentado pelo inspirado roteiro de Bráulio Tavares, um dos melhores escritores brasileiros dedicados à literatura fantástica.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Martin Scorsese: os 11 melhores filmes de horror de todos os tempos

   A notícia já é antiga, do Halloween de 2009, mas uma lista de filmes de horror organizada por Martin Scorsese não é coisa para se desprezar. Quem quiser ler os comentários do cineasta sobre cada item, clique aqui. Quem preferir apenas conferir a seleção, com direito a trechos em vídeo, a lista segue abaixo. Scorsese é dos poucos cineastas e intelectuais de Hollywood que fala abertamente - e com propriedade - sobre filmes de horror. E mostra que entende do assunto, como vocês podem conferir abaixo. Uma seleção respeitável e bem interessante!


1. Desafio do Além (The Haunting, 1963)

2. A Ilha dos Mortos (Isle of the Dead, 1945)

3. O Solar das Almas Perdidas (The Uninvited, 1944)

4. O Enigma do Mal (The Entity, 1982)

5. Na Solidão da Noite (Dead of Night, 1945)

6. Intermediário do Diabo (The Changeling, 1980)

7. O Iluminado (The Shining, 1980)

8. O Exorcista (The Exorcist, 1973)

9. A Noite do Demônio (Night of the Demon, 1957)

10. Os Inocentes (The Innocents, 1961)

11. Psicose (Psycho, 1960)

Enquete: Martyrs


   Deu a lógica na enquete “Qual destes filmes franceses de tortura e horror extremo você achou mais perturbador?”, com Martyrs (2008) conquistando o primeiro lugar, recebendo 7 votos. À l’Interieur (2007) chegou perto, mas teve que se contentar com o segundo lugar, com 5 votos, seguido por Haute Tension (2003), com 2 votos, e Dans Ma Peau (2002) e Ils (2006), com 1 voto cada. Calvaire (2004) e Frontière(s) (2007) não foram votados.
   Eu provavelmente também teria votado em Martyrs, que considero um dos pouquíssimos filmes do estilo torture porn que consegue justificar dentro do próprio roteiro as cenas de violência extrema. Também acho perturbador o elemento religioso nesse filme, assim como os cristãos fanáticos de End of the Line me deixaram profundamente irritado, pois isso é o mais próximo do horror real que consigo imaginar.
   Outro filme francês que gostei muito foi Ils (lançado em DVD no Brasil como Eles), sobre o qual não li muitos comentários. Recomendo para quem não assistiu ainda, pois é um espetacular exercício de suspense e tortura psicológica, realmente assustador, cujo formato tem sido copiado por outros filmes, inclusive produções americanas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Halloween II (2009)

   Se quisermos analisar com seriedade e cuidado um filme como Halloween II (2009), antes de mais nada temos que nos questionar com o quanto de frescor e imparcialidade conseguimos ver um filme como esse - ou qualquer filme, de fato. É preciso não apenas nos livrarmos de quaisquer conceitos pré-estabelecidos do que seria - neste caso específico - um segundo capítulo da já bastante popular franquia do psicopata Michael Myers, mas acima de tudo nos despirmos o máximo possível da mania de querermos ver um filme do ponto de vista daquilo que gostaríamos que ele fosse, e não de como ele objetivamente é. Muitos textos que leio sobre filmes recentes são pouco instigantes, porque o autor se preocupa demais com o fator “gostei/não gostei”, e menos em tentar esmiuçar o que o filme é de fato, sobre os temas que ele trata e em que níveis isso acontece. Peço licença para ter essa pretensão ao falar de Halloween II.
   Para começar, um pouco sobre o que achei do primeiro Halloween (2007) e dos demais filmes dirigidos por Rob Zombie. Apesar de tecnicamente bem feito e com algumas cenas violentas realizadas com talento, a refilmagem de Halloween comete o erro imperdoável de tentar justificar a psicopatia de Michael Myers, atribuindo sua maldade e deformidade de caráter ao meio ambiente decadente onde o menino vive: pai alcoólatra, mãe prostituta, vizinhança pobre... Um amontoado de clichês que violentaram e desrespeitaram a obra-prima de John Carpenter (o filme original de 1978, aposto que todo mundo viu...), cuja força reside justamente no fato de que não há explicação para aquilo em que se tranforma o pequeno Michael. Carpenter levou o horror ao último refúgio do sonho americano: os bucólicos subúrbios da classe média, com suas ruas arborizadas e vizinhança pacata. Michael Myers é uma pessoa tão normal que Carpenter se dá ao luxo de iniciar o filme com a visão subjetiva do assassino; é alguém tão comum que nós mesmos nos sentimos em seu lugar. E isso é perturbador.
   Depois de uma bem-sucedida carreira no rock pesado, Rob Zombie decidiu partir para a carreira de cineasta, especificamente como diretor de filmes de horror. Seus primeiros filmes são tão anárquicos quanto imperfeitos: A Casa dos 1000 Corpos (2003) e Rejeitados pelo Diabo (2005) exalam a irresponsabilidade de quem cresceu influenciado pelo horror apocalíptico da década de 1970, mas não são para todos os gostos. Ainda que seja exagero afirmar que Zombie esteja se tornando um sujeito mais tradicional, há uma sensível e incontestável diferença entre seus primeiros filmes e os dois Halloween. Isso fica mais evidente no caso de Halloween II, no qual Zombie inclusive parece disposto a refletir sobre o impacto social do culto aos anti-heróis, coisa tão comum no caso de slashers.

Delírios de um cara quase normal

   Depois de fazer dois filmes doidões, nos quais sacrificou lógica, bom-senso e bom-mocismo em favor de estilo, desenvolvimento de personagens e muita cara-de-pau, Zombie teve que aderir a um formato mais convencional de cinema. Seu desafio é exprimir nos filmes o que fazia na música: ainda que brutal, violento e agressivo ao extremo, era capaz de acrescentar um pouco de ginga, de melodia, de ritmo. O heavy metal com batida dançante e camadas intensas de som eletrônico fez com que a música de sua banda White Zombie - e, depois, de Rob Zombie em carreira-solo - rompesse os limites do público metaleiro e ele se tornasse popular também em meio a um público pouco familiarizado com o rock pesado. Mesmo com sua voz gutural e o visual de homem-das-cavernas, Rob até virou uma espécie de sex symbol para mocinhas mal-comportadas. A questão é se Rob é ou não capaz de traduzir isso em uma arte muito mais complexa e menos abstrata: o cinema.


   Halloween II mostra um Rob Zombie que começa a amadurer como cineasta e aos poucos demonstra que tem algo próprio a oferecer. Não obstante a obrigatoriedade de seguir a mitologia de Michael Myers - que rendera sete longas antes de ter seu reboot em 2007 - ele é capaz de contar uma história renovada, com elementos complexos que enriquecem a franquia e abrem um leque de possibilidades interessantes para o futuro.
   A sequência de abertura é o momento mais poderoso do filme, com 25 minutos de uma verdadeira orgia de suspense e mortes violentas, tendo como principal cenário um hospital numa noite de chuva torrencial, no qual o horror reinicia para a azarada Laurie Strode (Scout Taylor-Compton), nossa protagonista. A cena toda é embalada por uma onírica e onipresente “Nights In White Satin”, assombrosa balada do grupo The Moody Blues, estabelecendo uma referência musical ao fantasma todo de branco da mãe de Michael Myers, tema que domina o filme e explica as motivações do assassino. A canção é belíssima e, para quem quiser conhecer, inseri abaixo o vídeo que é usado no próprio filme.


   A premissa segue a cartilha da série: Michael Myers, transformado num homicida praticamente indestrutível, retorna à cidadezinha de Haddonfield em plena noite de Halloween para atormentar a vida da pobre Laurie Strode e de quaisquer desavisados que cruzarem seu caminho. Porém, quem espera apenas mais um banho de sangue obtuso, o filme surpreende ao humanizar seus personagens, sejam eles vítimas ou vilões. É uma verdadeira carnificina, não se engane, um slasher com todos os seus elementos indispensáveis, mas não há como não se comover com algumas das mortes. O elenco também é excepcional, com Brad Dourif no difícil papel de um xerife perturbado pelos fatos ocorridos no filme anterior. Surpreende também o Dr. Sam Loomis interpretado por Malcolm McDowell. Ao contrário do abnegado e obcecado psiquiatra interpretado com brilhantismo por Donald Pleasence nos filmes originais, McDowell encarna um sujeito oportunista e mau-caráter, que tira proveito de toda a tragédia envolvendo os crimes e escreve um livro no qual revela segredos da vida de todos os envolvidos. O lançamento do livro acontece em pleno 31 de outubro, dia de Halloween. A atuação de McDowell, como sempre, é notável, mantendo o filme em alto nível.
   No entanto, para poder se apreciar plenamente um filme como Halloween II, é preciso aprender a conviver com as contradições de seu autor. Rob Zombie é um típico subproduto da cultura pop americana, muito similar a Stephen King: ambos recheiam suas obras de referências diretas aos seus ídolos, puramente pelo prazer do tributo, e não se constrangem em replicar trechos de obras famosas como forma de “homenagem” ou “citação” (claro, Tarantino faz a mesma coisa e todo mundo acha o máximo). Porém, devemos reconhecer que quando Zombie usa “Freebird” no clímax de Rejeitados pelo Diabo, ele ajuda a nova geração de espectadores a aprender que isso é essencialmente uma música, um dos grandes clássicos da cultura popular do século passado, e não apenas a fase do boss no Guitar Hero (a propósito, se interessar a alguém, Rob Zombie participa do disco de estúdio mais recente do Lynyrd Skynyrd, que aliás é muito bom). Ou seja, ao recusar a armadilha fácil da auto-indulgência, ele compõe um mosaico rico em referências e contribui no resgate de parte da cultura pop.

Bem-vindo ao meu pesadelo

   No final, entretanto, é tudo questão de afinidade. No mundo imaginário de Rob Zombie, é comum que meninas teenagers se divirtam ouvindo “Kick Out The Jams”, do MC5, pendurem quadros de Alice Cooper e Charles Manson pela casa (Manson é uma das obsessões de Zombie), ou mesmo saiam dirigindo loucamente ao som de “Am I Evil”, do Diamond Head, e se fantasiem como personagens do musical The Rocky Horror Picture Show. Claro que isso tudo fala muito mais do próprio Zombie do que da personagem que ele quer mostrar (no caso, Laurie Strode), ainda que algumas letras - especialmente a de “Am I Evil” - sirvam também como importante elemento narrativo. Paradoxal, mas ao mesmo tempo revelador, acaba denunciando uma certa ansiedade por parte de Rob Zombie de preencher a tela com seus ídolos, em total descompromisso com a lógica (exceto que se disponha a interpretar tudo como um quebra-cabeça que se completa no final...).
   O filme tem outros pontos positivos, como a relação complexa entre as garotas e o fracasso do tratamento psiquiátrico de Laurie, com Margot Kidder no papel da doutora. O final também é especialmente poderoso e novamente fazendo uso correto de uma canção pop, um coda adequado a um filme que busca ter vida própria ao mesmo tempo que deixa portas e janelas abertas para um eventual terceiro capítulo. A ambiguidade da tomada final é uma amostra do que Rob Zombie é capaz de criar - e, esperamos, um indício do que ele tem de melhor a oferecer futuramente.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Horrível Segredo do Dr. Renault (1942)

   O que seria do cinema clássico de horror sem os cientistas loucos? Simplesmente não seria, claro. Desde os pioneiros Caligari e Mabuse, passando por Frankenstein, Phibes e Moreau, os doutores do horror e da ficção científica são personagens indispensáveis para mostrar as bobagens que o Homem é capaz de cometer quando mexe com o que não deve. Boris Karloff, Bela Lugosi, Peter Lorre, Vincent Price, Peter Cushing... todos viveram médicos memoráveis nas telas. Porém, poucos tinham o physique du rôle do cientista louco tão convincente quanto George Zucco, que interpretou tantos doutores ao longo da carreira que fica difícil imaginá-lo em qualquer outro papel.
   O Horrível Segredo do Dr. Renault (Dr. Renault’s Secret), de 1942, é uma produção modesta - porém feita com competência - da Twentieth Century-Fox, na qual Zucco interpreta o cientista do título, cujo segredo envolve a transmutação de feras selvagens em seres humanos. A referência que nos vem à cabeça imediatamente é o livro A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, adaptado algumas vezes às telas, mas o filme também se baseia em Balaoo, curta-metragem mudo francês, de 1913, com roteiro inspirado na obra de Gaston Leroux, e na refilmagem americana da mesma obra, The Wizard, de 1927.


   A trama acompanha a chegada de um jovem médico novaiorquino à França, onde planeja se casar com a bela sobrinha do Dr. Renault. O médico é recebido na cidade por Noel, um criado sinistro, de poucas palavras e comportamento submisso, que o leva até a propriedade de seu patrão. Noel, nascido na ilha de Java, tem dedicação absoluta à moça, que o trata com condescendência e uma certa dose de compaixão. Ninguém sabe das experiências do Dr. Renault - claro, elas são secretas - e muito menos que Noel é cria do cientista, que o transformou de um gorila feroz num ser humano domado e obediente. Entretanto, o traumático - e mal resolvido - processo de mutação de Noel o tornou humano ao ponto de ele ser capaz de ressentir a perda de sua natureza, vivendo em constante conflito. O choque entre o instinto e o comportamento racional acaba por torná-lo violento e homicida.
   Zucco tem participação destacada no papel do cientista, cuja brutalidade com a qual trata Noel acaba denunciando sua frustração diante do fracasso evidente. Porém, o veículo é todo de J. Carrol Naish, que encabeça o elenco e encarna com coragem o difícil papel do homem-símio javanês, ao mesmo tempo sensível, tímido e selvagem. Naish foi um prolífico e respeitado ator característico, com mais de duzentos créditos ao longo de quatro décadas de carreira. Por algum estranho motivo, não consigo tirar da cabeça seu impagável Dr. Daka, o deliciosamente ridículo cientista e espião japonês que interpretou no seriado Batman, de 1943. Naish encerrou a carreira no abismal Dracula vs. Frankenstein (1971), de Al Adamson, filme que tristemente também pôs um ponto final na trajetória de Lon Chaney Jr. nas telas.
   A curta duração de O Horrível Segredo do Dr. Renault - com menos de uma hora - não permite que o roteiro explore todas as possibilidades da trama. Para piorar, ainda tem que lidar com personagens banais como o jovem doutor, cuja presença em cena aparentemente serve para garantir um supostamente indispensável interesse romântico. O mistério fica por conta da série de mortes inexplicadas ocorridas nas proximidades e a presença de outros personagens suspeitos.
   Mesmo que não esteja entre os clássicos do horror das décadas de 1930 e 40, este filme não merece o ostracismo ao qual foi condenado, retratando um interessante embate entre criador e criatura. Não encontrei o trailer no YouTube, então digitalizei do meu DVD e inseri no site para poder exibi-lo aqui. Ganhei esse DVD do meu grande amigo Jaime Palhinha, que me presenteou com a coleção Fox Horror Classics Vol. 2, que tem ainda os filmes Chandu the Magician e Dragonwyck. Deixarei para falar do Lon Chaney Jr. mais tarde. Na próxima postagem, comentarei um filme recente, para não ficar repetitivo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Morrendo de Medo (1947)


   Para contemplar as presenças de George Zucco e Bela Lugosi na enquete acerca dos astros do horror clássico, escolhi rever em DVD esta confusa produção de 1947, que vi há muitos anos (se não me engano) num site de vídeos stream. Quem quiser conhecer esta paupérrima produção da Screen Guild basta clicar no botão play acima (preferencialmente usando Internet Explorer); ou, se for do tipo completista, pode baixar o filme legalmente aqui, de graça.
   Morrendo de Medo (Scared to Death) é o único filme de horror colorido da carreira de Bela Lugosi, feito num processo econômico chamado Cinecolor (ou Natural Color, segundo os créditos de abertura). Deve haver alguma coisa errada na cópia que circula em DVD e na internet, pois uma tal “máscara verde” que tem alguma importância na trama na verdade é azul! Problemas daltônicos à parte, trata-se de um convencional filme ruim na carreira de Zucco e Lugosi, dupla fadada a atuar em filmes ruins durante grande parte de suas carreiras. A trama é confusa e estapafúrdia, seguindo o padrão enxuto das produções dos estúdios pobres da década de 1940: personagens confinados a um único cenário, pouquíssima ação e muito falatório.

   Costuma-se dizer que George Zucco era a opção barata quando Lugosi e Karloff não estavam disponíveis, mas essa é uma maneira simplória e equivocada de tratá-lo. Zucco sempre dava um ar de dignidade aos filmes que fazia, com seu profissionalismo e dedicação. Mais do que Lugosi, que quase sempre parecia estar no limite da paródia, Zucco se esforçava em soar natural em seus papéis, por mais esdrúxulos que fossem. O duelo entre os dois astros em Morrendo de Medo - no qual interpretam primos que não são exatamente melhores amigos - é uma amostra fiel da diferença de estilo (e talento) entre os dois. Lugosi, acompanhado pelo diminuto Angelo Rossitto (meu anão cinematográfico predileto, cuja carreira vai de Freaks, de 1932, a Mad Max III, de 1985), surge em cena para atrair para si todas as suspeitas. Capa preta, olhar misterioso, falar entre dentes... Bela é o hipnotizador Leonide, o estereótipo do vilão. Tão maligno e sinistro que fica óbvio desde o início que ele é inocente. Zucco, por sua vez, compõe um personagem mais cativante, de fala mansa, manipulador, cínico.
   O filme é narrado todo em flashback, em tom de comédia de humor negro, pelo cadáver de uma moça que relembra sua morte enquanto aguarda ser autopsiada no necrotério. Suas seguidas intervenções, acompanhada por uma repetitiva vinheta sonora, são ridículas e irritantes. Igualmente inconveniente é o papel de Nat Pendleton, um segurança que perambula pela clínica fazendo investigações por conta própria. A trama envolve uma série de personagens suspeitos que transitam pela tal clínica, na qual o Dr. Zucco é uma espécie de psiquiatra. Morrendo de Medo é notável apenas por se tratar de um dos pouquíssimos filmes de horror realizados em 1947, época em que o gênero foi praticamente banido de Hollywood, deixando Lugosi, Karloff e outros atores desempregados. É também um dos últimos filmes de Zucco, que tem cerca de 25 títulos de horror no currículo, sendo outros dois deles em companhia de Lugosi. Ele assumiu o papel que seria de Lionel Atwill, que adoeceu - e acabou falecendo - pouco antes de iniciadas as filmagens. Zucco morreu em 1960, muitos anos depois de ter se afastado das telas, o que deu origem ao rumor de que ele passou seus últimos dias enlouquecido num sanatório, agindo como um personagem típico dos seus filmes.

   Morrendo de Medo permaneceu inédito no Brasil tanto nos cinemas quanto na televisão, mas foi lançado em VHS há uma eternidade. Também passou no saudoso canal Retrô, da Sky. Amanhã comentarei mais um filme com George Zucco, desta vez uma produção de primeira linha, para variar. Quem quiser conhecer outras obras dele, recomendo The Flying Serpent (1945), no qual ele controla um pássaro mitológico para eliminar seus rivais, e Dead Men Walk (1943), refilmagem disfarçada de Drácula, com direito a dose dupla de Zucco e a preciosa presença de Dwight Frye, num de seus últimos filmes, interpetando um maluco obviamente inspirado em Renfield.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Enquete: Lon Chaney Jr. e George Zucco


   Deu empate na enquete “Sobre qual astro do cinema clássico de horror você quer ler nos próximos comentários desse blog?”! Lon Chaney Jr. (acima) e George Zucco (abaixo) receberam 5 votos cada e lideraram a pesquisa. Bela Lugosi e Boris Karloff vieram a seguir com 3 votos cada, com Basil Rathbone fechando a lista com 2 votos. Conforme prometido, falarei um pouco dos vencedores nas próximas postagens, comentando dois filmes de cada (com direito a Lugosi como bônus num dos filmes).

Encarnação do Demônio (2008)

   Sabadão à noite fiz uma sessão de cinema aqui em casa com meus grandes amigos Marco e Vladimir (que só ficam prometendo visitar o blog, mas nunca têm tempo...) para rever Encarnação do Demônio, filme que encerra a trilogia do Zé do Caixão. Só então me dei conta que, por mais que eu tenha conversado e dado palpites sobre o filme, nunca escrevi formalmente a respeito dele. O assunto já está caduco à esta altura, mas darei uns breves pitacos para quem ainda quiser discutir a obra.
   Foi apenas a segunda vez que vi o filme em sua forma definitiva, com pouco mais de 90 minutos. A primeira foi no cinema aqui da minha cidade, sala praticamente vazia, eu e minha namorada e um sujeito perdido lá nas primeiras fileiras. Antes assisti a dois workprints na produtora Olhos de Cão, sendo o primeiro com excruciantes duas horas de duração e o segundo com cerca de 105 minutos, e uma versão quase definitiva, com trilha sonora provisória que ajudei a compilar, numa sessão privativa no Cine Sesc, em São Paulo.
   Sempre fiz questão de deixar claro que não tenho qualquer interesse em fazer cinema, mas que fazia questão de participar dessa obra histórica, da melhor maneira que eu pudesse contribuir. Terei para sempre as melhores lembranças sobre o processo de criação, execução e finalização desse filme que nasceu cult e que marcará toda uma geração de aficionados pelo horror brasileiro (em especial, pelo cinema de Mojica) com o lema “eu assisti um filme de Zé do Caixão no cinema”.


   O filme, vocês sabem, começa com Zé do Caixão sendo libertado de um presídio de segurança máxima depois de passar 40 anos atrás das grades, onde pagou pelas barbaridades que cometeu em À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Em sua nova morada, no meio de uma favela, Zé volta a procurar pela mulher ideal que lhe dará o filho perfeito. Contando com seu séquito de fiéis discípulos, tendo o corcunda Bruno à frente, o coveiro maldito volta a azarar a mulherada com esperanças de encontrar a escolhida. Entre baforadas de cachimbo, goles de peiote e noites mal dormidas, Zé sofre alucinações com os fantasmas de suas vítimas do passado e começa a contestar a própria sanidade.
   Porém, não é só o Além que tem contas a acertar com o assassino com unhas “desse tamanho”: dois irmãos policiais (Jece Valadão e Adriano Stuart, que só contracenam graças às mágicas da edição de Paulo Sacramento) querem ver a caveira de Zé do Caixão e apelam para toda a truculência e brutalidade inerentes à sua posição de “otoridade”. Tem também um padre doido de pedra, do tipo que se autoflagela ouvindo música sacra, filho do médico queimado vivo por Zé no primeiro episódio da trilogia. Polícia e Igreja se unem contra o herege infame.
   O filme tem falhas em quase todos os departamentos. O roteiro é apressado em alguns momentos e teve que ser remendado para se adequar à ausência de Jece Valadão, falecido depois de poucos dias de filmagem; as atuações são desiguais, transitando entre discreto, histérico e exagerado, e as cenas chocantes de tortura e mutilação, em sua ânsia pelo realismo extremo, cometem gafes imperdoáveis como o “carrasco” que costura a boca de uma mulher usando luvas cirúrgicas! Porém, é um filme visualmente deslumbrante, repleto de cenas de impacto e cenografia surrealista. Para mim, o que mais salta aos olhos - e é o que realmente importa - é que Encarnação do Demônio é um filme com culhões; cinema corajoso, selvagem, horror físico e metafísico, que não tem medo de colocar um septuagenário Zé do Caixão em luta corporal com seus inimigos, ao mesmo tempo em que propaga sua filosofia bestial e troca carícias com mulheres ideais. Mulheres de todas as raças e formatos, nuas e em quantidade, pois mulheres nunca são demais - e no écran nunca devem estar vestidas.

Cinema impetuoso, ousado, para poucos


   O filme foi festejado de maneira praticamente unânime pela crítica - em alguns casos, com certo ar de mea culpa, de gente que cansou de implicar com o “velhinho” Mojica - e colheu troféus alhures, mas foi um absoluto fracasso comercial no mercado doméstico. Azar do zé-povinho, que lota os cineplex de shopping perfumados de pipoca amanteigada, para ver quantos Jogos Mortais os ianques imperialistas fizerem e desdenha com sorrisinho arrogante quando indagado sobre o que tem a dizer de nosso Zé. Diante disso, dá aquela vontade de que o filme fosse mais “nosso”, cinema hermético e auto-suficiente, auto-indulgente e feito para os iniciados, dando uma proverbial banana àqueles que ignoram as peripécias sessentistas de Josefel Zanatas e sua filosofia de botequim. Mais ainda: faz a gente pensar que, entre as cenas não aproveitadas, deve existir material precioso de Zé Celso e Zé Mojica visitando o purgatório dantesco, mais improvisos geniais de Adriano Stuart e muita cena de horror com sacanagem e sacanagem com horror. Cenas estas que quiçá tenham sido sacrificadas em benefício de um filme mais “redondo”.
   Encarnação do Demônio não é o filho perfeito de José Mojica Marins, não chega aos pés do imponente, delirante e psicossomático Ritual dos Sádicos (1970), mas é a prova em celulóide que seu sangue tem poder e que seu legado cinemático é perpétuo. Afinal, como filosofa Zé do Caixão lá pelas tantas, “imagens não morrem”!

sábado, 9 de janeiro de 2010

Charles Gemora, homem-gorila

   Qualquer dia desses farei aqui no blog uma retrospectiva de filmes sobre gorilas assassinos, um dos temas que mais me fascinam. Sou completamente apaixonado pelos pequenos, anônimos e quase esquecidos do cinema de horror - estes me interessam muito mais do que os astros consagrados, pois são eles que têm as melhores histórias. Afinal, convenhamos, o que pode estar abaixo de um sujeito que tem como profissão vestir uma fantasia de gorila e pagar mico em filmes de horror de quinta categoria? Acho que foi o Carlão Reichenbach quem observou que filmes com gorilas costumam frequentar as listas de piores de todos os tempos (tinha vários deles numa lista publicada recentemente). Até que dá para entender isso, mas não consigo deixar de me encantar com a absoluta falta de vergonha na cara desse pessoal que fazia horror de baixo orçamento nas décadas de 1930, 40 e 50.
   Também quero dizer que é um alívio descobrir que não sou o único maluco que adora esses monstros peludos: encontrei, quase ao acaso, uma página dedicada à carreira de Charles Gemora, o maior de todos os dublês de gorila, e outra com Bob Burns, o último dos homens-macaco, também falando de Gemora numa entrevista histórica. Enquanto não organizo minha “semana primata”, divirtam-se com esses endereços (ambos em inglês).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Mistério das Duas Irmãs (2009)

   Não sou daquelas pessoas que adivinham finais de filme, mas acho que já vi coisas o bastante para prever alguns truques. Em algumas raras situações saquei logo de cara a surpresa que determinados filmes reservam para o final. Foi assim com O Mistério das Duas Irmãs (The Uninvited), que se mostrou óbvio para mim desde o comecinho. Tendo em mente o truque no qual o filme sustenta sua narrativa, pude ir confirmando cada vez mais que eu estava com a razão. Porém, ao contrário de destruir o prazer de assistir ao filme, fui capaz de curtir ainda mais a maneira engenhosa com a qual a trama é conduzida. E, para pegar de surpresa mesmo os mais espertinhos (como eu), o filme ainda guarda uma reviravolta final - esta sim, imprevisível para este escriba.
   O Mistério das Duas Irmãs, dirigido por Charles e Thomas Guard, é o tipo de filme que vale a pena ver pelo menos duas vezes; a primeira pelo prazer da história, a segunda para ve como tudo é conduzido seguindo uma lógica própria. Acredito que um filme seja um universo fechado em si próprio. As regras que ele cria, desde o primeiro fotograma até a cena final, vale somente para a duração do filme, e é por meio desse conjunto de parâmetros que devemos julgar o desenrolar de uma trama. Nesse sentido, considero O Mistério das Duas Irmãs suficientemente honesto com aquilo que ele propõe. As atitudes dos personagens, a maneira como interagem e as decisões que tomam seguem uma lógica determinada pelo ponto de vista adotado na narrativa. Gosto muito quando um filme nos convence de que os personagens estão agindo da maneira que julgam ser a mais correta, para depois nos mostrar como estamos equivocados. Acho genial, por exemplo, a reviravolta final de O Chamado, quando Rachel (Naomi Watts) liberta o espírito de Samara, acreditando estar fazendo a coisa certa - quando, na verdade, está permitindo que o fantasma da menina cometa ainda mais malvadezas.


   O Mistério das Duas Irmãs, refilmagem do sul-coreano Janghwa, Hongryeon (lançado por aqui como Medo, mas mais conhecido como A Tale of Two Sisters), é rico em personagens fazendo bobagens devido à incapacidade de raciocinar de maneira correta. Conta a história de uma garota que retorna para casa depois de se tratar numa clínica psiquiátrica, onde fez terapia para superar a perda trágica da mãe, morta num incêndio do qual a menina pouco se lembra. De volta para casa, ela passa a viver com o pai e sua nova madrasta, tendo ainda a companhia da irmã rebelde. Logo a menina se convence que a namorada de seu pai foi a causadora da tragédia que culminou no incêndio que matou sua mãe e decide investigar o passado dela. Uma série de acontecimentos assustadores levam a história a um desfecho trágico e surpreendente.
   Um filme bem narrado, envolvente e dinâmico, com todos os elementos necessários para agradar tanto ao consumidor casual do gênero quanto aos aficionados por horror. Acima de tudo, um filme que consegue se sustentar mais pela história interessante do que por cenas violentas e sustos exagerados.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Passageiros da Noite (2008)

   Não é de hoje que o cinema de horror tenta meter medo ao inserir o caos nas situações mais cotidianas. É a essência do gênero fazer com que o espectador passe a ter receio de atravessar a rua, atender ao telefone ou mesmo apagar a luz antes de dormir. Sentir medo sempre é bom, faz parte do instinto de sobrevivência animal, e se um filme for capaz de perturbá-lo a ponto de você ficar com ele na cabeça durante dias ou semanas ou meses, o filme cumpriu seu papel.
   Passageiros da Noite (Shuttle) definitivamente não é recomendado para quem costuma andar de lotação, ainda mais se for tarde da noite. A história é relativamente simples, acompanhando a noite de terror de um grupo de passageiros desavisados que acaba entrando na van errada, mas a força do filme está na maneira como as surpresas vão sendo apresentadas ao longo da trama. É o tipo de filme em que você pensa que as coisas não podem mais piorar - e elas sempre pioram. Seguindo a tendência dos filmes de violência extrema que invadiram as telas nos últimos anos, Passageiros da Noite em determinado momento induz o espectador a torcer por uma morte misericordiosa para os protagonistas - somente para então nos negar esse alívio amargo e nos abandonar desamparados diante do caos absoluto.


   Duas amigas retornam de uma viagem de férias no México. A mala de uma delas é extraviada no aeroporto e as garotas acabam ficando sem condução em plena madrugada. Embaixo de uma chuva torrencial, conseguem parar uma van de lotação que passava pelo local. O motorista (Tony Curran, cujo desempenho excepcional evita que o filme se torne monótono), que já tinha um passageiro na van, aceita levar até seus respectivos destinos as duas amigas e outros dois rapazes que elas conheceram no aeroporto e que passaram a flertar com elas ao longo da noite.
   Não demora para que a viagem se torne infernal: o motorista parece não conhecer o caminho, aventurando-se pela parte mais barra-pesada da cidade. As coisas se complicam quando fura um pneu da lotação e um dos rapazes sofre um grave acidente quando tentava ajudar o motorista a tirar a roda. A partir de então, o filme se empenha a mostrar algumas das maneiras mais cruéis e impiedosas de torturar física e psicologicamente os quatro jovens, com a dose indispensável de agressão ao corpo, mutilações, esquartejamentos e humilhação. Para a maioria dos espectadores, é um entretenimento inofensivo, mas o realismo com que a ação transcorre na tela, até o final pessimista e inesperado, nos faz pensar em que ponto termina a ficção e onde esbarramos na dura realidade cotidiana.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A Próxima Vítima (1983)

   O gênero policial é um dos poucos nichos do cinema brasileiro relativamente prolífico, principalmente em comparação com o horror. Desde os tempos dos grandes estúdios, os experimentalismos do cinema marginal e o sensacionalismo das realizações da Boca do Lixo, chegando aos arrasa-quarteirão dos anos mais recentes, o gênero policial é muito bem representado no cinema nacional. A Próxima Vítima, de João Batista de Andrade, é um dos melhores exemplares de suspense policial da década de 80, em alguns momentos se assemelhando aos bons filmes americanos do gênero, com ritmo correto e personagens bem desenvolvidos. Não se trata de um filme de horror, mas merece menção na filmografia brasileira do gênero por tratar de um caso verídico de um assassino em série, que ficou conhecido como “o Vampiro do Brás”. A contribuição do cinema brasileiro neste subgênero é modesta - cerca de meia dúzia de títulos, se tanto - e por isso mesmo acredito que merece ser tratada com atenção.
   Antônio Fagundes, num dos melhores momentos de sua carreira, faz o papel de um repórter de telejornal encarregado por seu patrão (Goulart de Andrade, aquele do “vem comigo!”) de fazer a cobertura de uma série de homicídios de prostitutas no bairro paulistano do Brás, tradicional reduto da colônia italiana. Imerso num cenário de absoluta decadência e corrupção, o repórter acaba se envolvendo com uma prostituta menor de idade (a debutante Mayara Magri), a qual ele teme que se torne a próxima vítima do maníaco sexual. Enquanto isso, outras mortes continuam a ocorrer.
   A trama tem como pano de fundo as eleições diretas de 1982, com imagens documentais mostrando Jânio, Montoro e Lula concorrendo ao governo do estado de São Paulo. A crítica social, o pessimismo e a desesperança no futuro são onipresentes na trama; a corrupção das autoridades e a incompetência da polícia são elementos determinantes para levar a história a um desfecho trágico. Ao mesmo tempo corajoso e anti-utópico, o roteiro de Lauro César Muniz ousa desdenhar da esperança em uma nação democrática prometida pelas primeiras eleições diretas realizadas no Brasil depois do período de Ditadura Militar. O personagem de Fagundes, à certa altura, faz um discurso anárquico e revoltado em relação ao futuro político brasileiro.
   O filme não se interessa em explorar os crimes sexuais, mostrando muito rapidamente cada vítima, mas um clima tenso constante domina a narrativa. O horror, neste caso, emerge tanto do cenário decadente da prostituição e do crime quanto da podridão que domina a política e a polícia.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ato de Violência (1980)

   Pretendo dedicar parte do mês de janeiro para rever alguns filmes brasileiros de horror, sobre os quais escreverei para uma publicação estrangeira. A pesquisa (inédita) sobre a produção brasileira no gênero, realizada por mim e pela amiga Laura Cánepa, resultou na mostra Horror no Cinema Brasileiro, a qual organizamos em parceria com a Heco Produções para o Centro Cultural Banco do Brasil. A mostra passou por Brasília no segundo semestre de 2009 e no momento está rolando no Rio de Janeiro. No verdadeiro trabalho de garimpo que foi organizar a filmografia brasileira no gênero, chegamos perto da conta de 200 longas de horror, mas a lista acabou sendo reduzida a 144 títulos no guia publicado no livro-catálogo da mostra. Entre os filmes excluídos da publicação está o drama policial Ato de Violência, dirigido por Eduardo Escorel em 1980.
   Sempre haverá discussão em torno de filmes sobre assassinos psicopatas serem ou não considerados do gênero horror, mas eu não abro mão de minha opinião. Para mim, um psicopata é um monstro como qualquer outro (vampiro, lobisomem, zumbi...), com a diferença apenas de não ser sobrenatural. Seu comportamento violento é injustificável: ele tem a agressividade de um monstro e não a de um criminoso de enredo de um policial ou suspense, que geralmente age com algum objetivo em mente (roubo, sequestro, vingança...). Partindo dessa equação, assassinos de ficção como Norman Bates, Michael Myers e Hannibal Lecter têm a companhia de serial killers reais, como Ed Gein, Ted Bundy e John Wayne Gacy - independentemente do gênero de seus filmes.
   Ato de Violência é um dos poucos longas brasileiros inspirados num criminoso verídico brasileiro, temática que rendeu obras como o cult marginal O Bandido da Luz Vermelha e o tosco O Maníaco do Parque - o qual será comentado aqui no blog em breve. Dirigido por Eduardo Escorel, montador competente, Ato de Violência conta a história do famigerado Chico Picadinho (Francisco Costa Rocha), psicopata que esganou e esquartejou duas mulheres em 1966 e 1976 na cidade de São Paulo. Mudaram o nome do personagem - o criminoso interpretado por Nuno Leal Maia se chama Antônio Nunes Corrêa - mas o filme recria cada crime de Chico Picadinho com fidelidade nos detalhes, incluindo o lento esquartejamento na banheira e os pedaços de corpos jogados no vaso sanitário.
   Lento, dramático e deveras deprimente, o filme é ambientado num cenário social decadente e desesperançoso. O criminoso é incapaz de explicar o que o levou a matar tão friamente as mulheres e sua passagem pela prisão não lhe propicia nenhuma espécie de cura, tratamento ou ajuda. A cena que mostra o almoço sendo servido na prisão, filmada em estilo semi-documental, denuncia as condições lamentáveis do sistema penitenciário brasileiro. Críticas sociais à parte, o filme é poderoso, dirigido com segurança por Escorel, que optou por não mostrar as cenas de morte de maneira violenta - o que as torna ainda mais chocantes e inexplicáveis.
   Nuno Leal Maia, a quem o crítico Rubem Biáfora comparava a Rondo Hatton, está correto no papel do assassino psicopata. Seu desempenho discreto, sem demonstrar grandes emoções, torna seu personagem tão patético quanto perigoso e imprevisível. A belíssima Selma Egrei tem grande presença mais uma vez; ela é a atriz brasileira que mais fez filmes que podemos considerar do gênero “fantástico”, atuando em O Anjo da Noite, O Jeca Macumbeiro, Ninfas Diabólicas, O Coronel e o Lobisomem, Uma Estranha História de Amor, As Filhas do Fogo e Estrela Nua. Uma quase rainha do grito dos trópicos!
   Recomendo Ato de Violência a quem se interessa por filmes sobre psicopatas, mas que queiram ver algo além de mulheres sendo retalhadas. Neste mesmo estilo, em breve escreverei sobre A Próxima Vítima (1983), de João Batista de Andrade, outro que só eu chamo de 'horror'.

Vinheta da mostra Horror no Cinema Brasileiro


   Vinheta de abertura da mostra Horror no Cinema Brasileiro, produzida pela Heco a partir de material bruto do filme inacabado Sentença de Deus, dirigido por José Mojica Marins entre 1955 e 1956. Não é nada assustadora, mas é muito charmosa e engraçada.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Juggernaut (1936)

   Pelos meus cálculos, Boris Karloff fez 65 filmes que podemos considerar do gênero horror, começando pelo mudo The Bells (1922), no qual encarna um hipnotizador com traços caligarianos, até as constrangedoras produções mexicanas lançadas após sua morte, ocorrida em 1969. Juggernaut, uma arrastada e enfadonha produção inglesa, é o primeiro da meia dúzia de filmes do ciclo karloffiano que pretendo assistir para completar sua filmografia (descontando alguns filmes que considero impossíveis de encontrar no momento, como The Mad Genius, de 1931). É também um dos títulos mais obscuros de sua carreira - não consegui sequer descobrir o título brasileiro, se é que foi exibido por aqui - e alguns pesquisadores até o omitem da filmografia de horror de Karloff (por pura preguiça de se informar melhor, penso eu).
   Karloff ficou (e ficará para sempre) marcado pela figura do monstro de Frankenstein, mas foi o ciclo de filmes no papel de médicos loucos que o consagraram como uma referência no cinema de horror. Desde a metade dos anos 1930 até o início da década seguinte, Karloff esteve mais às voltas com bisturis, estetoscópios e tubos de ensaio do que qualquer outra coisa. Em geral, era o médico cheio de boas intenções, no limiar de fazer uma descoberta revolucionária (a cura da paralisia ou o primeiro transplante cardíaco da história...), mas que acabava se tornando vilão ao tentar saber demais. Não cabe ao Homem contestar os desígnios divinos - este parece ser o ensinamento moralista de grande parte dos enredos clássicos de horror.
   O Dr. Sartorius de Juggernaut é um desses sujeitos com muita ambição e pouco juízo. Depois de ser obrigado a encerrar suas pesquisas em busca da cura da paralisia, devido a falta de recursos financeiros, o doutor sai do Marrocos e vai trabalhar como um simples médico na Côte d’Azur, no sul da França. Porém, sua fama o precede e ele é procurado por uma moça que sabe de seu desejo de retomar as pesquisas científicas. Ela lhe oferece uma grande quantia em dinheiro, suficiente para ele concretizar os estudos, em troca de Sartorius “cuidar” do marido dela, um velho milionário e muito doente.
   Considero Karloff um ator talentoso, com mais recursos dramáticos do que seu colega/rival mais famoso, Bela Lugosi. Porém, em Juggernaut ele vive um de seus piores desempenhos. Talvez seja culpa da incompetência de Henry Edwards na direção, pois todos no filme atuam de maneira teatral, com exageros ridículos - principalmente a mexicana Mona Goya, no papel da esposa infiel que quer dar cabo do marido para sustentar um irritante playboy viciado em jogatina. O estilo melodramático, antiquado, é típico do cinema inglês da época, anos atrasado em relação às produções americanas.
   Apesar de ser inglês, Karloff filmou pouco em seu país natal. Seu primeiro horror britânico foi The Ghoul, de 1933, lançado no Brasil em DVD numa cópia lastimável como O Zumbi (o título original brasileiro é Dragore, o Fantasma). Em resumo, Juggernaut talvez seja o pior filme de Karloff; a ruindade é tamanha que apenas reforça uma de minhas teses: a de que determinados filmes raros e obscuros só são raros e obscuros... porque são muito ruins! Acabam interessando somente a pesquisadores e completistas como eu. Se mais alguém quiser se aventurar, saiu em DVD importado e é mais um título em domínio público.
   Darei uma folga aos clássicos (para não deixar o blog repetitivo) e amanhã pretendo trazer uma surpresinha para vocês!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Vingança Diabólica (1933)

   Continuando o mini-ciclo de pequenos clássicos de horror e mistério com Lionel Atwill, temos aqui mais uma realização modesta do ano de 1933, desta vez uma produção da Paramount, estúdio que, na época, tinha menos tradição no gênero - em comparação com Universal e Warner, por exemplo. Vingança Diabólica (Murders in the Zoo), dirigido por A. Edward Sutherland, é divertido e relativamente violento, com algumas cenas de mortes típicas dos abusos do período que antecedeu o Código Hays. O momento mais impressionante é a cena da mocinha atirada num poço de crocodilos para ser devorada viva. Devido a exageros como este, alguns anos depois os moralistas de Hollywood frearam a produção de filmes de horror. Atualmente, fitas da época conhecida como “pre-code” são muito cultuadas. Basta assistir Vingança Diabólica para entender o porquê.
   A trama é simplória, mas o suficiente para manter a ação contínua na tela: Atwill é Eric Gorman, milionário e filantropo que passa o tempo caçando animais selvagens na Indochina. Quando enche um navio de bestas-feras, ele parte de volta à América para doar a bicharada para um zoológico. Porém, nem tudo é diversão na vida de Gorman. Casado com uma bela e jovem esposa que não o ama, ele faz o possível para manter os rapazes longe da mulher. Um dos pretendentes termina amarrado e literalmente com a boca costurada, abandonado no meio da selva para ser comido por tigres. Na viagem de volta, a esposa infiel encontra-se com outro amante no navio e eles combinam se casar assim que ela conseguir o divórcio. Gorman, porém, está ciente das escapadelas da esposa e planeja eliminar o rival usando um de seus bichinhos de estimação - uma enorme cobra mamba, um dos répteis mais mortíferos do mundo.
   Obviamente, o filme é todo de Atwill, que parece mais do que à vontade no papel do vilão frio e sádico. Também é dele a melhor frase do filme. Ao ser acusado pela esposa de ter matado o amante dela, vítimado por uma misteriosa picada de cobra durante um jantar beneficente, Gorman responde sarcasticamente: “Você não acredita realmente que passei a noite toda com uma enorme cobra no bolso do paletó, não é mesmo? Isso não seria justo com meu alfaiate”.
   O ponto baixo do filme é a irritante presença do cômico Charlie Ruggles, no papel do atrapalhado assessor de imprensa do zoológico. Alívios cômicos como esse são comuns nos filmes de horror dessa época - e quase sempre estragam a diversão, como acontece também com o fetichista Mad Love (1935), estrelado por Peter Lorre. O papel de herói de Vingança Diabólica coube a um muito jovem Randolph Scott, em comecinho de carreira. O futuro astro do faroeste interpreta um cientista que passa o filme todo pesquisando um antídoto para o veneno da cobra mamba, o que torna o final mais do que previsível.
   O filme é dirigido de maneira leve por Sutherland, mais conhecido por suas comédias, especialmente pela parceria com W.C. Fields. Ele começou a carreira como ator e foi um dos Keystone Kops originais das populares comédias mudas. Foi assistente de Charlie Chaplin e flertou apenas brevemente com o cinema fantástico, dirigindo a comédia de ficção científica The Invisible Woman (1940). Típico de uma produção rasteira, o filme tem gafes inaceitáveis, como quando Ruggles erra uma frase e descaradamente repete a fala, mas consegue divertir mesmo nos dias de hoje. Saiu em DVD importado e não é difícil de ser encontrado pelas ondas da rede.
   Por enquanto, basta de Lionel Atwill! Se tudo correr bem, amanhã falaremos um pouco sobre um dos filmes mais obscuros de Boris Karloff.

The Sphinx (1933)

   O primeiro filme que vi em 2010 é um modesto melodrama de mistério produzido pela Monogram em 1933. A Monogram foi o mais miserável de todos os miseráveis estúdios de Hollywood, mas seus filmes têm um charme irresistível, com tramas tão absurdas que beiram o surreal. Geralmente, os filmes da Monogram se resolvem praticamente na conversa - pouquíssima ação, absoluta pobreza visual e personagens quase caricaturais. The Sphinx, dirigido por Phil Rosen - responsável por vários títulos do ciclo do detetive Charlie Chan - é um desses casos, tendo como único trunfo no enredo um suspeito de assassinato que prova sua inocência no tribunal por ser surdo-mudo. O papel é de Lionel Atwill, vilão do segundo escalão do primeiro grande ciclo de filmes de horror de Hollywood. A única testemunha do crime é o faxineiro do prédio onde foi encontrada a vítima mais recente, um corretor de ações da bolsa de valores que foi estrangulado dentro de seu próprio escritório. Depois de perpetrar o crime, o homicida sai tranquilamente do prédio, pede fogo para acender o charuto e pergunta as horas ao faxineiro, que logo em seguida encontra um corpo estendido no chão.
   É o quarto crime cometido com as mesmas características em apenas um mês e a polícia não tem pista alguma do suspeito. Porém, claro, como em quase todos os filmes de horror/mistério desse período, há um intrépido repórter determinado a fazer o serviço que a polícia é incapaz de fazer. Sem muita explicação lógica, o sujeito decide investigar os crimes e tem certeza de que o criminoso é mesmo o tal surdo-mudo, um respeitado cavalheiro que surge na história apenas e tão-somente como suspeito - e nós, espectadores, somos convencidos de que só ele pode ser o assassino, pois é ele, e ninguém mais, quem sai da cena do crime após cada assassinato. Há um falatório de que ele é um milionário muito respeitado, mas nada fica muito claro. O mistério é frágil, a tensão é praticamente nula e a solução do enigma é tão óbvia quanto decepcionante: existem dois sujeitos, o surdo-mudo que senta no banco dos réus e seu irmão gêmeo, o estrangulador.
   É curioso observar que as vítimas do assassino são corretores de ações, poucos anos depois da Grande Depressão que quebrou a bolsa de valores em 1929, e cujos efeitos devastadores ainda eram sentidos pelo povo estadunidense. O filme talvez fosse mais envolvente se tivesse vítimas menos detestáveis; afinal, quem sentiria a falta de um corretor?? Lionel Atwill, que na mesma época aterrorizou a encantadora Fay Wray em Doctor X, The Vampire Bat e Mystery of the Wax Museum, apareceu em duas dúzias de filmes de horror até 1946, ano de sua morte, quase sempre como coadjuvante. O filme é todo dele, com um desempenho bastante sutil, pois passa a maior parte do filme calado. Mas seu sorrisinho inocente chega a ser ridículo às vezes.Assisti a esse filme como parte do ciclo dos grandes astros do horror mundial que estou realizando. É verdade que Atwill está longe de ser assim tão “grande”, mas não existem muitos astros de cinema identificados com o horror, então ele merece seu espaço. Não sei se o filme é inédito no Brasil; imagino que tenha sido exibido na televisão lá pelos anos 60 ou 70. Está disponível em DVD importado e circula pela internet em cópia de domínio público, portanto não é nada difícil de encontrar. A ilustração desse post é uma edição da revista Filmfax, a única publicação do mundo capaz de estampar Lionel Atwill na capa!

O início do horror...


   Depois de adiar por alguns anos, finalmente me rendi à idéia de ter um blog sobre cinema. Resisti o quanto pude, principalmente devido à preguiça e desorganização geral, mas acho que não tem como viver e respirar cinema (essencialmente filmes de horror) e não compartilhar algumas impressões via internet. Se alguém vai ler, só os posts futuros dirão, mas vamos dar início à brincadeira e ver o que rola...
   Decidi escrever somente sobre os filmes que vejo no dia, assim nem perco tempo pensando sobre o que escrever. Portanto, será uma trajetória errática, porém bastante fiel do que passa pela minha cabeça a cada novo filme que assisto. Então, vamos começar a tocar o horror em 2010...
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