CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Casarão da Morte Negra (1966)



   Fiquei devendo o comentário de mais um filme do Lon Chaney Jr., e mesmo que ninguém tenha cobrado, vou cumprir a promessa. Eu ia rever o mexicano La Casa del Terror (1960), um dos muitos filmes ruins de Lon Jr., mas decidi ver este raríssimo House of the Black Death (1966), exibido na TV brasileira como O Casarão da Morte Negra. Lon sem dúvida merece muito seu lugar entre os grandes nomes do cinema de horror, mas sua vida e carreira são um tanto trágicas demais. Depois do brilhareco efêmero como o lobisomem Lawrence Talbot nos filmes da Universal na década de 1940 e os exemplares da deliciosa cinessérie Inner Sanctum, sua carreira foi ladeira abaixo a partir do começo dos anos 1950. Chaney se tornou alcóolatra - alguns dizem que ele pegou gosto pela bebida durante as intermináveis sessões de maquiagem que tinha que enfrentar para virar monstro - e não são raras as ocasiões em que ele parece bêbado em cena. Um exemplo clássico disso é sua famigerada atuação na versão para a TV de Frankenstein.
   O satanismo estava em alta quando O Casarão da Morte Negra foi realizado, mas isso não quer dizer que qualquer dos envolvidos necessariamente saiba o que está fazendo. Muito pelo contrário; é o tipo mais cafona de satanismo, com discípulos encapuzados e sacerdotisas clamando “Oh, Satanus!” com toda a pompa durante patéticos rituais de magia negra. Diante do desastre iminente, só nos resta curtir a desavergonhada exploração de belas senhoritas em danças sensuais. Nisso o filme acerta em cheio, e se hoje O Casarão da Morte Negra é uma espécie de cult movie, isso se deve muito mais à dança exótica da britânica Sabrina do que pelas presenças de Lon Chaney Jr. e John Carradine. Confira no vídeo abaixo o que o filme tem de melhor a oferecer.


   A produção é de uma miséria flagrante e aparentemente o filme ficou engavetado até 1975, quando foi exibido na televisão estadunidense. O desempenho dos dois grandes veteranos do horror - que nunca aparecem em cena juntos - é risível mesmo em comparação ao baixo padrão que já haviam estabelecido à essa altura de suas respectivas carreiras. Lon Chaney Jr. ostenta uma barriga indecente e um ridículo par de chifres diabólicos, no papel de Belial DeSade, o líder dos satanistas, protagonizando os momentos mais constrangedores. John Carradine, surpreendentemente contido, é pouco aproveitado, o que lhe poupa de um bocado de embaraços. A trama é sobre um casal de doutores que chega a um vilarejo assolado por adoradores de Satã, onde o clássico confronto entre razão e superstição se interpõe às mortes misteriosas que ocorrem na região, atribuídas a um lobisomem. Maldições de família e um duelo entre feiticeiros rivais também são jogados no caldeirão desta indigesta produção de baixa qualidade.
   Harold Daniels, realizador de carreira modesta, é o único diretor creditado, mas Reginald Le Borg e Jerry Warren (este sim, indubitavelmente, é o pior cineasta do mundo) também contribuiram com algumas cenas. O resultado final é uma colcha de retalhos que nunca convence, misturando indiscriminadamente lobisomens e culto satânico. Resumindo, uma confusão dos diabos!

Os 50 piores filmes da história

   Os leitores da revista Empire escolheram os 50 piores filmes da história: “os mais desastrosos filmes já realizados”, celebrando o que Hollywood tem de mais vergonhoso. A lista é formada basicamente por blockbusters que fracassaram retumbantemente, o conceito mais genérico do que o grande público considera como “pior”. Batman & Robin, desastre cometido por Joel Schumacher, liderou com folga a enquete. Para quem não lembra, o filme é tão ruim que enterrou a franquia durante anos, até o reboot da saga do super-herói com Batman Begins.
   A lista segue com abacaxis como A Reconquista, Guru do Amor e muitos outros exemplos de como queimar dinheiro e abusar da paciência alheia. Claro que não faltam coisas como Mulher-Gato, The Spirit, Superman IV, Howard o Super-Herói e Homem-Aranha 3, mostrando o quanto já se errou nesse subgênero de filmes de super-heróis. A maioria dos filmes desta lista eu estrategicamente evitei assistir (ninguém precisa ver coisas como Espartalhões, Eragon ou Norbit), mas é satisfatório ver tantos filmes odiáveis recebendo o que merecem, como The Matrix Revolutions e Showgirls. Discordo apenas da presença de Plan 9 from Outer Space, que os próprios editores admitem ser o mais divertido da lista, um quase estranho no ninho em meio a tanto filme sem graça.
   Poucos filmes de horror estão na lista; poucos e ruins. Uwe Boll marca presença com o canalha House of the Dead e o incompreensível Alone in the Dark. O pretensioso e apocalíptico Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan, ficou num significativo oitavo lugar - e ainda assim tem defensores ferrenhos. Os demais são indesculpáveis: O Apanhador de Sonhos, Tubarão: A Vingança, Van Helsing, o Caçador de Monstros, Blade Trinity... Chega a ser deprimente ver tanta coisa ruim junto.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1952)

   Nesta segunda e última parte do ciclo de filmes do argentino Carlos Hugo Christensen anteriores à sua fase brasileira comentarei duas interessantes produções da década de 1950. Os dois filmes são adaptações de histórias de suspense e horror do escritor William Irish (pseudônimo literário de Cornell Woolrich), autor também do conto que originou Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, entre outros. Eu planejava escrever também sobre o filme venezuelano El Demonio És un Angel (1950), aparentemente uma comédia romântica com algum toque de fantasia e sobrenatural, mas ainda não tenho o filme. Prometo comentá-lo aqui no blog logo que eu conseguir uma cópia.

Si Muero Antes de Despertar (1952)


   Possivelmente o filme mais interessante de Christensen em sua fase clássica argentina, realizado com notável inspiração e talento, adaptado do conto “If I Should Die Before I Wake”, de William Irish. Recentemente, Si Muero Antes de Despertar ganhou certa notoriedade entre pesquisadores e aficionados por filmes de horror por sua trama supostamente antecipar a premissa de A Hora do Pesadelo (1984), com um vilão semelhante ao infanticida Freddy Krueger. De fato, há algumas semelhanças entre os filmes, como o cruel homicida que seduz e mata crianças. O tema é pesado e corajoso, remetendo ao clássico M, o Vampiro de Düsseldorf (1931), de Fritz Lang; semelhança que também deve ter chamado a atenção dos mexicanos, pois o filme foi lançado naquele país com o título El Vampiro Acecha.

   Si Muero Antes de Despertar tem um clima de conto de fadas sombrio, com alusão a “João e Maria” em algumas cenas. Christensen inteligentemente intensifica o mistério ao mostrar pouco o odiável assassino, um pedófilo que atrai crianças com promessas de doces e brinquedos. A história é narrada pela ótica de um garotinho, única testemunha do desaparecimento de suas coleguinhas de escola. O título se refere a uma oração que as crianças fazem antes de dormir - outra coincidência com A Hora do Pesadelo, que também ficou caracterizado por uma sinistra cantiga de ninar.
   Escolhi para o vídeo a cena do menino sonhando com o assassino, mergulhado num cenário surreal de pesadelo, com destaque para o plano da mão do infanticida se projetando subitamente e oferecendo uma guloseima ao menino, num momento tenso e ameaçador - e também com um flagrante teor sexual.

No Abras Nunca Esa Puerta (1952)

   Novamente Christensen recorre aos contos de suspense de William Irish neste excelente exemplar de cine negro (a maneira como os argentinos se referem ao film noir). O filme é formado por duas histórias: “Alguien al Teléfono”, adaptada do conto “Somebody on the Phone”, e “El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar”, baseada em “Hummingbird Comes Home”. O cineasta demonstra domínio absoluto da linguagem do cinema de suspense, construindo cenas tensas e climáticas. A iluminação com forte contraste entre luz e sombra, os enquadramentos inventivos e a montagem dinâmica, favorecendo a sucessão de eventos misteriosos, propiciam ao filme uma qualidade comparável ao melhor que se produziu no gênero na Hollywood da década de 1940.


   Alguien al Teléfono é sobre a morte misteriosa de uma jovem, que teoricamente teria cometido suicídio, e o desejo insano de seu irmão de vingá-la, indo em busca de um suposto agiota que a perturbava com telefonemas enigmáticos. A trama é relativamente simples e econômica, até previsível a certo momento, mas impressiona pela maneira como é conduzida. A relação entre irmão e irmã não deixa de ser intrigante. Eles moram juntos e aparentemente o rapaz tem por ela um ciúme possessivo. Não conheço a obra literária de Woolrich, mas o estilo me lembrou os contos trágicos da EC Comics, em especial das revistas policiais como Crime SuspenStories e Shock SuspenStories. O vídeo que capturei mostra o momento em que o rapaz é perturbado por um dos telefonemas misteriosos. Você terá que assistir ao filme para entender o que acontece...


   El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar é outro exuberante exercício de suspense, sobre uma noite de horror vivida por uma senhora cega que mora com a sobrinha num velho casarão. A idosa aguarda esperançosa a visita do filho, com quem ela não se encontra há anos, visita essa que acontece de maneira inesperada e traumatizante. O rapaz chega na calada da noite, acompanhado por dois amigos, um deles gravemente ferido. O filho diz que sofreram um acidente de carro, mas à esta altura já sabemos que são criminosos que acabaram de cometer um assalto. O líder do bando só é identificado por uma peculiar melodia que costuma assobiar entre dentes - aqui Christensen mais uma vez estabelece um elo com M, o Vampiro de Düsseldorf. O trecho em vídeo que selecionei é o momento em que a mãe decide enfrentar sozinha o problema, mas novamente prefiro deixar sem explicação a conclusão da trama.

   Quem tem algum interesse no cinema clássico sul-americano não pode deixar de conhecer a obra de Carlos Hugo Christensen nesse período. Para mim foi uma satisfação redobrada; há anos queria ver esses filmes, pois considero o Christensen um dos principais realizadores do cinema de horror brasileiro. Entre as demais obras do cineasta que podem (ou não) flertar com o horror, não consegui localizar Con el Diabo en el Cuerpo (1947), Leonora dos Sete Mares (1956) e A Casa de Açúcar (1996). Quem tiver qualquer informação de como eu poderia conseguir cópias desses filmes, peço por gentileza que entre em contato comigo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1946-1949)

   Cineasta nascido na Argentina e radicado no Brasil durante mais de 40 anos, Carlos Hugo Christensen começou a carreira em seu país natal em 1939. Fez cerca de 50 longas até 1996, quando realizou o raro A Casa de Açúcar, não exibido no Brasil. Sua obra se caracteriza por temas como a chegada da adolescência e o amadurecimento, reencontros e a tentativa de se resgatar um passado romântico por meio de reminiscências perdidas no tempo. Passou por Chile (La Dama de la Muerte, 1946), Venezuela (El Demonio És un Ángel, 1950) e Peru (Armiño Negro, 1953) antes de começar a filmar no Brasil, em 1955, onde chegou inclusive a dirigir um filme sobre Pelé.
   Dentro do gênero horror, suas mais notórias contribuições foram os filmes brasileiros Enigma para Demônios e A Mulher do Desejo (A Casa das Sombras), ambos de 1975, com roteiros do próprio Christensen e de Orígenes Lessa inspirados em obras de Carlos Drummond de Andrade, Nathaniel Hawthorne e Samuel Taylor Coleridge. O cineasta já demonstrara interesse pelo gênero durante seu período itinerante pela América do Sul, quando flertou com o suspense sombrio, o conto policial e com diferentes estilos de narrativas de horror em vários filmes. Finalmente consegui localizar sete destas obras e enfim pude conferir sua inequívoca vocação para filmar tramas sinistras e tensas.
   Curiosamente, estas realizações de Christensen que beiram o horror são justamente do período no qual o gênero estava desprestigiado e ameaçado de extinção tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, entre o pós-guerra e o início da era nuclear (1946-1952). É uma época de poucas e esparsas realizações dentro do gênero, o que torna as obras de Christensen ainda mais relevantes e históricas.

La Dama de la Muerte (1946)

 

   O primeiro importante filme de terror de Christensen é esta produção chilena, uma das primeiras películas produzidas no país, um thriller de horror repleto de bons momentos de medo e suspense, personagens bem desenvolvidos e final impactante. Excelente adaptação do conto “The Suicide Club”, de Robert Louis Stevenson, publicado originalmente no livro New Arabian Nights (quem se interessar pode baixar o livro em formato PDF aqui numa cópia facsímile da edição de 1905). A trama, ambientada na Londres da era Vitoriana, é sobre um rapaz desesperado que se envolve com um clube secreto de suicidas. A cena que selecionei é o momento em que ele teme estar sendo perseguido por um de seus colegas de clube, encarregado de assassiná-lo (reparem nas imagens surreais que o assombram, incluindo dois policiais que formam uma enorme e ameaçadora aranha). O conto de Stevenson foi filmado diversas outras vezes, inclusive na antologia muda alemã Histórias Tenebrosas (Unheimliche Geschichten), realizada por Richard Oswald em 1919.

El Angel Desnudo (1946)

 

   Este melodrama argentino, parcialmente filmado no Rio de Janeiro, é notável pelo clima fatalista e trágico que domina a película. Não se trata necessariamente de um filme de suspense, porém é carregado de angústia e tensão. Uma jovem argentina em visita ao Rio de Janeiro recebe uma carta desesperada de seu pai, o qual lhe pede que tente conseguir uma grande quantia em dinheiro com um velho conhecido dele. O sujeito em questão é um consagrado escultor, que recebe a moça cheio de segundas intenções. O filme é sobre o dilema moral enfrentado pela protagonista, que se questiona se deve ou não sujeitar-se aos caprichos do escultor, o qual deseja “contemplar sua beleza nua inteiramente” em troca do empréstimo.
   A barganha adquire traços malditos, como se sua entrega ao artista representasse algo irreversível, definitivo, até mesmo sua morte. O tema do sacrifício por amor se torna ainda mais intenso pelo fato de a moça salvar o pai de uma situação humilhante, pagando as dívidas contraídas pelo velho com jogatina. O escultor, insinua a trama, é o próprio Diabo, com cavanhaque mefistofeliano e personalidade reclusa. Permeia o filme esse desejo do profano pela pureza, o casamento do angelical com o diabólico. Há poucos momentos realmente impactantes, então selecionei para o vídeo a cena final, que mostra o confronto entre anjo e demônio.

La Muerte Camina en la Lluvia (1948)

 

   Este clássico filme de mistério e suspense é um dos grandes momentos nos primeiros anos da carreira de Christensen, versão argentina do livro L’Assassin Habite au 21, do autor belga S.A. Steeman. A história foi filmada anteriormente por Henri-Georges Clouzot, em sua estréia nas telas, em 1942, e não seria surpreendente que a versão de Christensen tenha sido fortemente influenciada por essa adaptação anterior, mas infelizmente não assisti ao filme de Clouzot para compará-los.
   É uma trama de mistério do tipo “quem foi?”, sobre um assassino psicopata que deixa um bilhete com sua assinatura junto de cada vítima. Seu nome é S. López e toda a cidade de Buenos Aires fica aflita com os crimes cometidos pelo misterioso homicida. Uma testemunha ocular de um dos crimes descobre que o assassino mora numa pensão, onde transcorre toda a ação do filme até que o culpado é desmascarado.
   Selecionei a cena de abertura para o vídeo, uma exuberante amostra da narrativa de suspense concisa que Christensen certamente aprendeu com o mestre Hitchcock: a economia e objetividade dos planos e o processo de informação imagética remete ao início de The Lodger: A Story of the London Fog (1927): ambos compõem o perfil do assassino a partir de fragmentos de informações e o efeito que isso causa nas pessoas.

La Trampa (1949)

 

   Outra produção argentina, adaptação do livro Algo Horrible en la Leñera (Something Nasty in the Woodshed, 1942), de Anthony Gilbert, pseudônimo da autora inglesa Lucy Beatrice Malleson. É um típico melodrama feminino, com alguns exageros próprios do gênero, mas com andamento envolvente e clima constante de suspense. Conta a história de uma solteirona que responde a um anúncio de jornal publicado por um homem recluso à procura de esposa. Não demora para percebermos que o carismático galanteador na verdade é um golpista frio que só planeja se apoderar da fortuna dela.
   A angústia vivida pela protagonista remete a clássicos melodramas sobre mulheres à mercê de homens cruéis, como Suspeita (1941) e Interlúdio (1946), de Alfred Hitchcock, e os veículos da estrela Joan Crawford, Precipícios d’Alma (1952) e Frenesi de Paixões (1955). A trama envolve também um suposto fantasma que assombra a propriedade. Selecionei para o vídeo o momento mais horrorífico do filme, justamente a aparição do tal fantasma.


   A lamentar, somente a qualidade lastimável de conservação desses filmes - alguns com créditos de abertura incompletos, copiados da TV ou de velhos VHS. Isso atesta a raridade dos mesmos e também um certo desprezo com o qual aparentemente são tratados por nossos vizinhos; certamente não muito diferente de como (des)cuidamos dos nossos próprios.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Caçadores de Mentes (2004)

   Renny Harlin escreveu seu nome de maneira infame na história do cinema de horror ao dirigir aquela horrível prequel de O Exorcista em 2004, um raro caso de filme detestado unanimemente. No mesmo ano ele fez esta mistura de ação, suspense e horror, sem se definir por nenhum dos gêneros. Caçadores de Mentes (Mindhunters) é outro filme a mostrar a supostamente fascinante rotina dos agentes do FBI - depois de O Silêncio dos Inocentes e Arquivo X, esse parece o emprego dos sonhos de todo mundo que quer viver emoções fortes.
   A trama acompanha o treinamento de um grupo de perfiladores (é desta maneira que a legenda traduz profiler, não sabia da existência dessa palavra), agentes policiais encarregados de traçar perfis dos assassinos mais perigosos para tentar antecipar seus passos antes que voltem a matar. O encarregado pelo grupo é interpretado por Val Kilmer, no breve papel de um agente durão e intolerante, que parece ter um prazer sádico de humilhar os alunos. Os treinandos são liderados por Christian Slater, outro que aparece pouco e é responsável pela única genuína surpresa do filme, pois é o primeiro a ser morto por um serial killer que se infiltrou no grupo disposto a eliminar um a um.
   A premissa - pouco provável, mas esse é o menor dos problemas do filme - coloca os recrutas isolados numa ilha onde devem investigar uma série de crimes numa missão simulada. Porém, logo no primeiro cenário eles já descobrem que estão diante de homicídios bem reais, cometidos por um assassino metódico, com obsessão por detalhes. Relógios quebrados, estrategicamente posicionados, apontam o horário em que ocorrerá a próxima morte, então o objetivo dos sobreviventes - entre eles o rapper LL Cool J - é tentar impedir que o criminoso volte a agir. Cada morte é precedida por pistas enigmáticas que o assassino planta no local; mistérios absolutamente desinteressantes, de tão improváveis e absurdos. Uma dessas charadas é uma série infindável de números, que um dos agentes decifra como sendo a velocidade da luz. Isso significa que um deles será morto por luz; ou melhor, por lâmpadas elétricas que provocarão uma descarga de alta voltagem ao entrar em contato com a água. Perto disso, até as sádicas armadilhas de Jigsaw em Jogos Mortais parecem mais plausíveis.
   No final das contras, Caçadores de Mentes não é um filme tão ruim dentro desse subgênero de serial killers, mas é indicado mais para quem gosta de mortes espetaculares, explosões, correria desenfreada e exibição generalizada de macheza - até as mulheres são do tipo que falam aos berros e empunham armas - do que propriamente aos apreciadores de uma boa trama de horror e mistério.

Enquete: Um Lobisomem Americano em Londres

   A comédia macabra Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London), dirigida por John Landis e lançada em 1981, venceu a enquete que perguntava “qual é o melhor filme clássico de lobisomem”, recebendo 50% dos votos. Pelo jeito os leitores desse blog preferem os filmes modernos sobre o tema, em comparação com os clássicos das décadas de 1930, 40 e 50. Para comemorar a vitória, coloco aqui dois belos cartazes do filme, para quem gosta de colecionar esse tipo de coisa.
   A seguir ficaram The Howling (1981), de Joe Dante, com 21%, The Curse of the Werewolf (1961), produção da Hammer estrelada por Oliver Reed, com 14%, e dois filmes empatados com apenas um voto cada: The Wolf Man (1941) e The Beast Must Die (1974). Cinco filmes sequer foram votados: Werewolf of London (1935), The Werewolf (1956), I Was a Teenage Werewolf (1957), Wolfen (1981) e Silver Bullet (1985).
   A questão que fica agora é o que podemos esperar da refilmagem de The Wolf Man, que estréia dia 12 de fevereiro. Alguém está com boas expectativas sobre este filme? Comentem aqui!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

EXCLUSIVO! Programação de filmes de horror na TV

   A partir deste final de semana os digníssimos leitores deste blog poderão consultar diretamente aqui no Cine Monstro a programação diária completa dos filmes de horror exibidos na televisão brasileira. A grade de programação automática é um dispositivo exclusivo deste blog e foi desenvolvida pela empresa Visual Info. Quem acha que tem pouco filme de horror nas nossas telinhas vai se surpreender com a generosa oferta: são cerca de 20 e até 30 longas por dia espalhados pelos canais, variando entre clássicos e filmes recentes. A programação ficará disponível na coluna da direita, sempre destacando o(s) filme(s) em exibição no momento (quando houver) e todos os demais que serão exibidos durante o dia de hoje e no dia seguinte, para que ninguém perca aquele filmaço que queria ver há muito tempo. Pode servir também para você se aventurar a ver algum filme que nem sabia que existia! O guia ainda destaca o trailer de um filme que está sendo exibido no momento ou prestes a começar.
   A grade por enquanto é formada pelas TVs abertas e canais por assinatura disponíveis no Brasil, incluindo Fox, FX, TNT, TCM, MGM, Universal, SciFi, AXN, Space, Megapix, Canal Brasil, Cinemax, Max Prime e as redes TeleCine e HBO, entre outros. Esse banco de dados é alimentado manualmente e dá um trabalhão danado para fazer, então seria muito valioso ter um retorno da parte dos visitantes do blog, para que eu avalie a utilidade ou não dessa grade. Quaisquer sugestões para melhorar esse recurso (inclusão de mais canais, por exemplo) serão muito bem-vindas, então encham esse espaço de comentários!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Festival de Gérardmer 2010

   Acontece entre os dias 27 e 31 de janeiro a 17ª edição do Festival Internacional du Film Fantastique de Gérardmer, na França. O festival surgiu em 1994 e inicialmente se chamava Fantastic’Arts, substituindo o tradicional Festival de Avoriaz, criado em 1973. A mostra competitiva de longas-metragens deste ano é formada pelos filmes The Door, de Anne Saoul, Possessed, de Lee Yong-ju, Moon, de Duncan Jones, Les Témoins du Mal, de Elio Quiroga, Hierro, de Gabe Ibáñez, Amer, de Hélène Cattet e Bruno Forzani, 5150 Rue des Ormes, de Eric Tessier, e La Horde, de Yannick Dahan e Benjamin Rocher.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Intermediário do Diabo (1980)

   Para dissipar de vez quaisquer dúvidas que ainda poderiam existir a respeito do título brasileiro do filme The Changeling (1980), comentado na lista dos preferidos do Scorsese, aqui estão o folheto publicitário da época e uma notinha de jornal anunciando sua estréia em São Paulo, em julho de 1984. O filme se chamou mesmo Intermediário do Diabo (sem artigo no início).
   A pesquisa de títulos e datas é uma das minhas obsessões, algo que me dá prazer tanto quanto ver um filme, e tenho a sorte de contar com a valiosa amizade e colaboração do grande jornalista Jaime Palhinha, o mais apaixonado historiador de cinema clássico e de filmes de horror que existe no Brasil. Esses raros e exclusivos scans são gentilezas dele. Para conhecer parte do acervo fílmico do Jaime, visitem o site dele. Fica também a sugestão para que todos assistam Intermediário do Diabo; é um filmaço (e mais um que corre o sério risco de ser refilmado em breve!). De bônus, inseri abaixo os cartazes originais (em inglês e francês, as duas línguas oficiais do Canadá) e mais uma obra-prima dos poloneses, os cartazistas mais doidos do mundo.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Enquete: Paul Naschy

   O ator, diretor e roteirista espanhol Paul Naschy (Jacinto Molina) recebeu quase metade dos votos dos leitores deste blog e ficou em primeiro lugar na enquete “Qual foi a perda mais lamentável do cinema de horror em 2009?”, com 11 cliques. Naschy é tido como o responsável pelo surgimento do cinema de horror em seu país e ficou conhecido principalmente pelo personagem do conde lobisomem Waldemar Daninsky, mas viveu vários outros personagens horroríficos em cerca de 40 anos de carreira. Recentemente participou de Um Lobisomem na Amazônia (2005), de Ivan Cardoso, no papel de Dr. Moreau, e seu último trabalho se chama La Herencia Valdemar, filme baseado na obra de H.P. Lovecraft que estreou sexta-feira na Espanha (confira o trailer abaixo).


   O roteirista e diretor Dan O’Bannon (Alien, o 8º Passageiro, A Volta dos Mortos-Vivos) recebeu 5 votos e também foi uma morte muito sentida (seu relato do processo de criação do roteiro de Alien, disponível nos extras da coleção em DVD, é emocionante). Edward Woodward (O Homem de Palha) teve 3 votos, seguido por Robert Quarry (Conde Yorga, Vampiro) e David Carradine (Q, a Serpente Alada), com 2 votos cada. Karl Malden (O Gato de Nove Caudas) teve 1 voto. Não foram votados Edmund Purdom (ator, Fracchia contro Dracula), Ray Dennis Steckler (diretor, The Incredibly Strange Creatures Who Stopped Living and Became Mixed-Up Zombies!!?), Susanna Foster (atriz, O Fantasma da Ópera), Harry Alan Towers (produtor da série Fu Manchu e de diversos filmes de Jesus Franco), Richard Todd (ator, O Retrato de Dorian Gray, A Mansão da Meia-Noite) e Chas Balun (jornalista e crítico especializado em filmes de horror, principalmente os mais brutais e violentos).

sábado, 23 de janeiro de 2010

Dominique (1978)

Homenagem a Jean Simmons (1929-2010).


   Uma milionária (Jean Simmons) passa a ouvir vozes e ter visões fantasmagóricas que abalam sua sanidade. Ela desconfia que o marido (Cliff Robertson) esteja por trás dos estranhos eventos, mas entra em desespero e acaba se enforcando. O marido também passa a experimentar os sinistros fenômenos, porém fica determinado a provar que tudo não passa de armação. Produção inglesa setentista, exemplar ideal de obra onde a hipótese do “sobrenatural explicado” margeia entre o suspense e o horror. O filme conta com peripécias deliciosamente antiquadas e lugares-comuns competentemente utilizados, com violações de túmulos, pianos que tocam sozinhos, leituras de testamentos e outros.
   O filme se encontra em domínio público e pode ser assistido diretamente neste blog clicando play no vídeo acima (de preferência usando Internet Explorer) ou baixado gratuitamente aqui.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Monstro Elétrico (1941)

   Lon Chaney Jr. é apenas mais um em meio a inúmeros astros de Hollywood com uma trajetória ao mesmo tempo fascinante e trágica. É também outro dos muitos artistas de talento limitado que devem aos filmes de horror sua popularidade perene e o renovado interesse por sua carreira. Basicamente, Chaney Jr. tem um único papel respeitável em sua trajetória fora do horror, como o simplório Lennie em Of Mice and Men (Carícia Fatal), de 1939, adaptado do celebrado livro de John Steinbeck.
   Filho de um dos maiores astros do cinema mudo, o consagrado “homem das mil faces” Lon Chaney, responsável por caracterizações memoráveis como O Fantasma da ÓperaO Corcunda de Notre Dame, Lon Chaney Jr. não apenas relutou em seguir os passos de seu pai no horror, mas na própria carreira de ator, só entrando para o cinema depois da morte do pai. No início, fez papéis menores, aparecendo principalmente em faroestes, usando seu verdadeiro nome, Creighton Chaney. Acabou se rendendo aos filmes de horror, e à pressão dos produtores de usar o famoso nome paterno, no começo da década de 1940, quando acabou se tornando uma figura chave no segundo grande ciclo de filmes do gênero em Hollywood.
   Todos conhecem o amadiçoado Lawrence Talbot que Chaney Jr. interpretou no clássico O Lobisomem (1941) e em todas as continuações produzidas pela Universal - e cujo remake vem aí, e tem tudo para ser muito ruim, a começar pelo diretor (Joe Johnston, cria de Lucas e Spielberg, assinou alguns dos piores blockbusters de ação e fantasia das duas últimas décadas). Portanto, para evitar o óbvio, escolhi comentar o filme que marcou a estréia de Chaney Jr. no horror, o relativamente obscuro O Monstro Elétrico (Man Made Monster), também realizado em 1941, com direção do mesmo George Waggner que logo em seguida voltou a trabalhar com o ator em O Lobisomem.


   O filme inicialmente seria mais um veículo para colocar Karloff e Lugosi frente a frente, com um roteiro que reaproveita vários elementos de filmes de horror da época, em especial The Invisible Ray e Frankenstein. Chaney Jr. é um homem simplório e ingênuo - impossível não pensar novamente em seu Lennie de Carícia Fatal - que sobrevive a um grave acidente de ônibus, quando o veículo se chocou contra uma torre de alta tensão. Ele só resistiu ao choque porque está acostumado a receber descargas elétricas, trabalhando como atração de circo fazendo truques com faíscas e eletricidade.
   Um respeitado cientista se interessa em realizar experiências com o rapaz, que aceita a oferta e se submete aos testes ingenuamente. Porém, todo cientista bom tem um assistente maluco; neste caso, Lionel Atwill no auge da vilanice. Sem que o patrão saiba, ele passa a submeter a cobaia humana a descargas cada vez mais fortes de eletricidade, até transformar o pobre Lon Chaney Jr. num ‘homem elétrico’, um homicida descontrolado que foge do laboratório e passa a matar - literalmente até que sua energia se descarregue.
   O filme pode ser considerado apenas um clássico menor da Universal, histórico por marcar a estréia de Lon Chaney Jr. no horror, mas a produção é desleixada. O filme não se preocupa sequer em mostrar o personagem de Chaney Jr. desempenhando seus truques de circo: o filme já começa com a cena do acidente com o ônibus. O ator tem um de seus piores desempenhos - ele só descobriria seu registro ideal como o perturbado lobisomem, no mesmo ano - mas em compensação é sempre uma delícia ver Lionel Atwill em ação, devorando com voracidade seu papel de vilão.
   Apesar de os créditos não fazerem qualquer referência a isso, é bem provável que o charmoso equipamento elétrico usado pelo cientista louco no laboratório - cheio de máquinas de soltar faíscas e raios - seja mais uma criação de Ken Strickfaden, cujas geniais engenhocas ficaram famosas a partir do clássico Frankenstein (1931). No final das contas, O Homem Elétrico é um filme de menor importância na história do horror, mas marcante por ter dado início à carreira de Lon Chaney Jr. no gênero e motivar o segundo grande ciclo de filmes americanos de horror.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

EXCLUSIVO! Mangue Negro em DVD

   Tenho o imenso prazer de anunciar em primeira-mão o lançamento oficial em DVD do filme Mangue Negro (2008), dirigido pelo capixaba Rodrigo Aragão. O filme é uma deliciosa e sangrenta comédia de zumbis, no estilo ultrajante de mestres do horror moderno como Sam Raimi e Peter Jackson, e já rodou o mundo conquistando prêmios e elogios da crítica especializada. Mangue Negro chega em DVD no dia 1º de fevereiro pelo redivivo selo Dark Side/London Films numa edição luxuosa. O lançamento terá direito a luva especial e dois discos cheio de extras, incluindo entrevistas, bastidores e os curtas anteriores dirigidos pelo Rodrigo, os cultuados Chupa Cabras (sucesso absoluto no YouTube) e Peixe Podre 1 e 2.
   Fica o convite a todos os entusiastas de filmes de horror e do cinema brasileiro em geral a prestigiar o trabalho do Rodrigo comprando o DVD - que custará apenas R$ 29,90 em lojas como Americanas, Extra e Walmart - não apenas porque o Rodrigo é gente boa e merece todo o apoio, mas principalmente porque o filme é muito bacana e está recebendo um tratamento cuidadoso que poucos títulos brasileiros têm quando chegam ao DVD.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Monstro da Censura

Proêzas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (1967)

   Consegui apenas recentemente uma cópia desse raro e obscuro filme brasileiro, mais uma das dezenas de descobertas que fiz - junto com a Laura Cánepa - durante a pesquisa para a mostra Horror no Cinema Brasileiro. O filme foi gravado da TV Brasil (não confundir com o Canal Brasil, que também passa muita coisa boa) e foi uma agradável surpresa. É incrível como nunca somos capazez de imaginar exatamente como é um filme até assisti-lo, por mais que a gente leia e se informe detalhadamente a respeito. Eu imaginava Proêzas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (1967) como uma daquelas inofensivas alegorias políticas em clima de teatro mambembe, com pesonagens excêntricos falando aos berros, muita conversa fiada e um clima geral de banalidade. Errei feio - ainda bem.
   Longe de ser uma obra-prima, é bem melhor do que pode parecer numa leitura fria de sua sinopse. Às vezes parece lhe faltar coragem para ser mais incisivo e crítico, e a direção de Paulo Gil Soares é convencional demais, mas tem personagens interessantes e alguns momentos de real brilho. A narrativa é conduzida de maneira um tanto quadrada demais para esse tipo de enredo, entre o realismo fantástico e a fantasia surreal - o que nos faz imaginar o que sujeitos como Buñuel, Jodorowsky, Lynch ou mesmo Mojica seriam capazes de fazer com esse material.
   Começa com um morador do vilarejo de Leva-e-Traz, numa região rural pobre, tendo um sonho premonitório com uma velha beata cega, a qual lhe indica o local onde está enterrado um valioso tesouro. O homem - que tem apenas um braço - escava no ponto indicado no sonho e descobre um lençol petrolífero. As autoridades logo se instalam na região e começam a extração do petróleo, gerando emprego para muitas pessoas da cidade. O terreno, antes deserto e abandonado, transforma-se rapidamente numa agitada cidade pré-fabricada, para onde parte quase toda a população de Leva-e-Traz, incluindo a prostituta mais requisitada do local. Ficam para trás apenas velhos e inválidos. Quando o padre também decide abandonar o vilarejo, levando consigo a santa padroeira protetora da cidade, estranhos fenômenos começam a acontecer.
   Uma moça virgem fica grávida repentinamente e dá à luz a sapos, um bezerro nasce com cara de gente e um bode preto surge do nada em plena igreja. São artimanhas do Diabo, que chega ao ímpio vilarejo disposto a seduzir a população. Um pequeno grupo de rejeitados - formado pelo homem de um braço só, um anão cansado de trabalhar no circo e um velho violeiro cego - se associa ao forasteiro acreditando que assim farão o vilarejo prosperar. O Diabo, por sua vez, enfrenta a oposição de Chico Amansa-Alma (Joel Barcellos, o vampiro de Olhos de Vampa), homem do bem, armado com rosário de contas de prata e um espelho de prender almas.
   Algumas cenas tentam resgatar o estilo de versos do cordel, por meio de canções originais de Caetano Veloso, as quais são dubladas no filme pelo velho violeiro vivido por Jofre Soares. O resultado, como dá para imaginar, é bizarro. Dentro desse estilo, gostei muito mais da comédia trágica O Homem Que Desafiou o Diabo (2007), de Moacyr Góes, no qual misticismo, musicalidade e erotismo se misturam num enredo rico em referências à cultura nordestina, sustentado pelo inspirado roteiro de Bráulio Tavares, um dos melhores escritores brasileiros dedicados à literatura fantástica.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Martin Scorsese: os 11 melhores filmes de horror de todos os tempos

   A notícia já é antiga, do Halloween de 2009, mas uma lista de filmes de horror organizada por Martin Scorsese não é coisa para se desprezar. Quem quiser ler os comentários do cineasta sobre cada item, clique aqui. Quem preferir apenas conferir a seleção, com direito a trechos em vídeo, a lista segue abaixo. Scorsese é dos poucos cineastas e intelectuais de Hollywood que fala abertamente - e com propriedade - sobre filmes de horror. E mostra que entende do assunto, como vocês podem conferir abaixo. Uma seleção respeitável e bem interessante!


1. Desafio do Além (The Haunting, 1963)

2. A Ilha dos Mortos (Isle of the Dead, 1945)

3. O Solar das Almas Perdidas (The Uninvited, 1944)

4. O Enigma do Mal (The Entity, 1982)

5. Na Solidão da Noite (Dead of Night, 1945)

6. Intermediário do Diabo (The Changeling, 1980)

7. O Iluminado (The Shining, 1980)

8. O Exorcista (The Exorcist, 1973)

9. A Noite do Demônio (Night of the Demon, 1957)

10. Os Inocentes (The Innocents, 1961)

11. Psicose (Psycho, 1960)

Enquete: Martyrs


   Deu a lógica na enquete “Qual destes filmes franceses de tortura e horror extremo você achou mais perturbador?”, com Martyrs (2008) conquistando o primeiro lugar, recebendo 7 votos. À l’Interieur (2007) chegou perto, mas teve que se contentar com o segundo lugar, com 5 votos, seguido por Haute Tension (2003), com 2 votos, e Dans Ma Peau (2002) e Ils (2006), com 1 voto cada. Calvaire (2004) e Frontière(s) (2007) não foram votados.
   Eu provavelmente também teria votado em Martyrs, que considero um dos pouquíssimos filmes do estilo torture porn que consegue justificar dentro do próprio roteiro as cenas de violência extrema. Também acho perturbador o elemento religioso nesse filme, assim como os cristãos fanáticos de End of the Line me deixaram profundamente irritado, pois isso é o mais próximo do horror real que consigo imaginar.
   Outro filme francês que gostei muito foi Ils (lançado em DVD no Brasil como Eles), sobre o qual não li muitos comentários. Recomendo para quem não assistiu ainda, pois é um espetacular exercício de suspense e tortura psicológica, realmente assustador, cujo formato tem sido copiado por outros filmes, inclusive produções americanas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Halloween II (2009)

   Se quisermos analisar com seriedade e cuidado um filme como Halloween II (2009), antes de mais nada temos que nos questionar com o quanto de frescor e imparcialidade conseguimos ver um filme como esse - ou qualquer filme, de fato. É preciso não apenas nos livrarmos de quaisquer conceitos pré-estabelecidos do que seria - neste caso específico - um segundo capítulo da já bastante popular franquia do psicopata Michael Myers, mas acima de tudo nos despirmos o máximo possível da mania de querermos ver um filme do ponto de vista daquilo que gostaríamos que ele fosse, e não de como ele objetivamente é. Muitos textos que leio sobre filmes recentes são pouco instigantes, porque o autor se preocupa demais com o fator “gostei/não gostei”, e menos em tentar esmiuçar o que o filme é de fato, sobre os temas que ele trata e em que níveis isso acontece. Peço licença para ter essa pretensão ao falar de Halloween II.
   Para começar, um pouco sobre o que achei do primeiro Halloween (2007) e dos demais filmes dirigidos por Rob Zombie. Apesar de tecnicamente bem feito e com algumas cenas violentas realizadas com talento, a refilmagem de Halloween comete o erro imperdoável de tentar justificar a psicopatia de Michael Myers, atribuindo sua maldade e deformidade de caráter ao meio ambiente decadente onde o menino vive: pai alcoólatra, mãe prostituta, vizinhança pobre... Um amontoado de clichês que violentaram e desrespeitaram a obra-prima de John Carpenter (o filme original de 1978, aposto que todo mundo viu...), cuja força reside justamente no fato de que não há explicação para aquilo em que se tranforma o pequeno Michael. Carpenter levou o horror ao último refúgio do sonho americano: os bucólicos subúrbios da classe média, com suas ruas arborizadas e vizinhança pacata. Michael Myers é uma pessoa tão normal que Carpenter se dá ao luxo de iniciar o filme com a visão subjetiva do assassino; é alguém tão comum que nós mesmos nos sentimos em seu lugar. E isso é perturbador.
   Depois de uma bem-sucedida carreira no rock pesado, Rob Zombie decidiu partir para a carreira de cineasta, especificamente como diretor de filmes de horror. Seus primeiros filmes são tão anárquicos quanto imperfeitos: A Casa dos 1000 Corpos (2003) e Rejeitados pelo Diabo (2005) exalam a irresponsabilidade de quem cresceu influenciado pelo horror apocalíptico da década de 1970, mas não são para todos os gostos. Ainda que seja exagero afirmar que Zombie esteja se tornando um sujeito mais tradicional, há uma sensível e incontestável diferença entre seus primeiros filmes e os dois Halloween. Isso fica mais evidente no caso de Halloween II, no qual Zombie inclusive parece disposto a refletir sobre o impacto social do culto aos anti-heróis, coisa tão comum no caso de slashers.

Delírios de um cara quase normal

   Depois de fazer dois filmes doidões, nos quais sacrificou lógica, bom-senso e bom-mocismo em favor de estilo, desenvolvimento de personagens e muita cara-de-pau, Zombie teve que aderir a um formato mais convencional de cinema. Seu desafio é exprimir nos filmes o que fazia na música: ainda que brutal, violento e agressivo ao extremo, era capaz de acrescentar um pouco de ginga, de melodia, de ritmo. O heavy metal com batida dançante e camadas intensas de som eletrônico fez com que a música de sua banda White Zombie - e, depois, de Rob Zombie em carreira-solo - rompesse os limites do público metaleiro e ele se tornasse popular também em meio a um público pouco familiarizado com o rock pesado. Mesmo com sua voz gutural e o visual de homem-das-cavernas, Rob até virou uma espécie de sex symbol para mocinhas mal-comportadas. A questão é se Rob é ou não capaz de traduzir isso em uma arte muito mais complexa e menos abstrata: o cinema.


   Halloween II mostra um Rob Zombie que começa a amadurer como cineasta e aos poucos demonstra que tem algo próprio a oferecer. Não obstante a obrigatoriedade de seguir a mitologia de Michael Myers - que rendera sete longas antes de ter seu reboot em 2007 - ele é capaz de contar uma história renovada, com elementos complexos que enriquecem a franquia e abrem um leque de possibilidades interessantes para o futuro.
   A sequência de abertura é o momento mais poderoso do filme, com 25 minutos de uma verdadeira orgia de suspense e mortes violentas, tendo como principal cenário um hospital numa noite de chuva torrencial, no qual o horror reinicia para a azarada Laurie Strode (Scout Taylor-Compton), nossa protagonista. A cena toda é embalada por uma onírica e onipresente “Nights In White Satin”, assombrosa balada do grupo The Moody Blues, estabelecendo uma referência musical ao fantasma todo de branco da mãe de Michael Myers, tema que domina o filme e explica as motivações do assassino. A canção é belíssima e, para quem quiser conhecer, inseri abaixo o vídeo que é usado no próprio filme.


   A premissa segue a cartilha da série: Michael Myers, transformado num homicida praticamente indestrutível, retorna à cidadezinha de Haddonfield em plena noite de Halloween para atormentar a vida da pobre Laurie Strode e de quaisquer desavisados que cruzarem seu caminho. Porém, quem espera apenas mais um banho de sangue obtuso, o filme surpreende ao humanizar seus personagens, sejam eles vítimas ou vilões. É uma verdadeira carnificina, não se engane, um slasher com todos os seus elementos indispensáveis, mas não há como não se comover com algumas das mortes. O elenco também é excepcional, com Brad Dourif no difícil papel de um xerife perturbado pelos fatos ocorridos no filme anterior. Surpreende também o Dr. Sam Loomis interpretado por Malcolm McDowell. Ao contrário do abnegado e obcecado psiquiatra interpretado com brilhantismo por Donald Pleasence nos filmes originais, McDowell encarna um sujeito oportunista e mau-caráter, que tira proveito de toda a tragédia envolvendo os crimes e escreve um livro no qual revela segredos da vida de todos os envolvidos. O lançamento do livro acontece em pleno 31 de outubro, dia de Halloween. A atuação de McDowell, como sempre, é notável, mantendo o filme em alto nível.
   No entanto, para poder se apreciar plenamente um filme como Halloween II, é preciso aprender a conviver com as contradições de seu autor. Rob Zombie é um típico subproduto da cultura pop americana, muito similar a Stephen King: ambos recheiam suas obras de referências diretas aos seus ídolos, puramente pelo prazer do tributo, e não se constrangem em replicar trechos de obras famosas como forma de “homenagem” ou “citação” (claro, Tarantino faz a mesma coisa e todo mundo acha o máximo). Porém, devemos reconhecer que quando Zombie usa “Freebird” no clímax de Rejeitados pelo Diabo, ele ajuda a nova geração de espectadores a aprender que isso é essencialmente uma música, um dos grandes clássicos da cultura popular do século passado, e não apenas a fase do boss no Guitar Hero (a propósito, se interessar a alguém, Rob Zombie participa do disco de estúdio mais recente do Lynyrd Skynyrd, que aliás é muito bom). Ou seja, ao recusar a armadilha fácil da auto-indulgência, ele compõe um mosaico rico em referências e contribui no resgate de parte da cultura pop.

Bem-vindo ao meu pesadelo

   No final, entretanto, é tudo questão de afinidade. No mundo imaginário de Rob Zombie, é comum que meninas teenagers se divirtam ouvindo “Kick Out The Jams”, do MC5, pendurem quadros de Alice Cooper e Charles Manson pela casa (Manson é uma das obsessões de Zombie), ou mesmo saiam dirigindo loucamente ao som de “Am I Evil”, do Diamond Head, e se fantasiem como personagens do musical The Rocky Horror Picture Show. Claro que isso tudo fala muito mais do próprio Zombie do que da personagem que ele quer mostrar (no caso, Laurie Strode), ainda que algumas letras - especialmente a de “Am I Evil” - sirvam também como importante elemento narrativo. Paradoxal, mas ao mesmo tempo revelador, acaba denunciando uma certa ansiedade por parte de Rob Zombie de preencher a tela com seus ídolos, em total descompromisso com a lógica (exceto que se disponha a interpretar tudo como um quebra-cabeça que se completa no final...).
   O filme tem outros pontos positivos, como a relação complexa entre as garotas e o fracasso do tratamento psiquiátrico de Laurie, com Margot Kidder no papel da doutora. O final também é especialmente poderoso e novamente fazendo uso correto de uma canção pop, um coda adequado a um filme que busca ter vida própria ao mesmo tempo que deixa portas e janelas abertas para um eventual terceiro capítulo. A ambiguidade da tomada final é uma amostra do que Rob Zombie é capaz de criar - e, esperamos, um indício do que ele tem de melhor a oferecer futuramente.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Horrível Segredo do Dr. Renault (1942)

   O que seria do cinema clássico de horror sem os cientistas loucos? Simplesmente não seria, claro. Desde os pioneiros Caligari e Mabuse, passando por Frankenstein, Phibes e Moreau, os doutores do horror e da ficção científica são personagens indispensáveis para mostrar as bobagens que o Homem é capaz de cometer quando mexe com o que não deve. Boris Karloff, Bela Lugosi, Peter Lorre, Vincent Price, Peter Cushing... todos viveram médicos memoráveis nas telas. Porém, poucos tinham o physique du rôle do cientista louco tão convincente quanto George Zucco, que interpretou tantos doutores ao longo da carreira que fica difícil imaginá-lo em qualquer outro papel.
   O Horrível Segredo do Dr. Renault (Dr. Renault’s Secret), de 1942, é uma produção modesta - porém feita com competência - da Twentieth Century-Fox, na qual Zucco interpreta o cientista do título, cujo segredo envolve a transmutação de feras selvagens em seres humanos. A referência que nos vem à cabeça imediatamente é o livro A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, adaptado algumas vezes às telas, mas o filme também se baseia em Balaoo, curta-metragem mudo francês, de 1913, com roteiro inspirado na obra de Gaston Leroux, e na refilmagem americana da mesma obra, The Wizard, de 1927.


   A trama acompanha a chegada de um jovem médico novaiorquino à França, onde planeja se casar com a bela sobrinha do Dr. Renault. O médico é recebido na cidade por Noel, um criado sinistro, de poucas palavras e comportamento submisso, que o leva até a propriedade de seu patrão. Noel, nascido na ilha de Java, tem dedicação absoluta à moça, que o trata com condescendência e uma certa dose de compaixão. Ninguém sabe das experiências do Dr. Renault - claro, elas são secretas - e muito menos que Noel é cria do cientista, que o transformou de um gorila feroz num ser humano domado e obediente. Entretanto, o traumático - e mal resolvido - processo de mutação de Noel o tornou humano ao ponto de ele ser capaz de ressentir a perda de sua natureza, vivendo em constante conflito. O choque entre o instinto e o comportamento racional acaba por torná-lo violento e homicida.
   Zucco tem participação destacada no papel do cientista, cuja brutalidade com a qual trata Noel acaba denunciando sua frustração diante do fracasso evidente. Porém, o veículo é todo de J. Carrol Naish, que encabeça o elenco e encarna com coragem o difícil papel do homem-símio javanês, ao mesmo tempo sensível, tímido e selvagem. Naish foi um prolífico e respeitado ator característico, com mais de duzentos créditos ao longo de quatro décadas de carreira. Por algum estranho motivo, não consigo tirar da cabeça seu impagável Dr. Daka, o deliciosamente ridículo cientista e espião japonês que interpretou no seriado Batman, de 1943. Naish encerrou a carreira no abismal Dracula vs. Frankenstein (1971), de Al Adamson, filme que tristemente também pôs um ponto final na trajetória de Lon Chaney Jr. nas telas.
   A curta duração de O Horrível Segredo do Dr. Renault - com menos de uma hora - não permite que o roteiro explore todas as possibilidades da trama. Para piorar, ainda tem que lidar com personagens banais como o jovem doutor, cuja presença em cena aparentemente serve para garantir um supostamente indispensável interesse romântico. O mistério fica por conta da série de mortes inexplicadas ocorridas nas proximidades e a presença de outros personagens suspeitos.
   Mesmo que não esteja entre os clássicos do horror das décadas de 1930 e 40, este filme não merece o ostracismo ao qual foi condenado, retratando um interessante embate entre criador e criatura. Não encontrei o trailer no YouTube, então digitalizei do meu DVD e inseri no site para poder exibi-lo aqui. Ganhei esse DVD do meu grande amigo Jaime Palhinha, que me presenteou com a coleção Fox Horror Classics Vol. 2, que tem ainda os filmes Chandu the Magician e Dragonwyck. Deixarei para falar do Lon Chaney Jr. mais tarde. Na próxima postagem, comentarei um filme recente, para não ficar repetitivo.
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