CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Lobisomem de Gedeone Malagola e Nico Rosso

   O Lobisomem vem aí, então não há momento melhor do que este para relembrarmos o melhor exemplar brasileiro sobre o tema. Desta vez não me refiro a cinema, apesar de o Brasil ter algumas interessantes contribuições ao imaginário licantropo na sétima arte, mas sim às histórias em quadrinhos. Portanto, quero aproveitar esta ocasião para homenagear o roteirista e desenhista Gedeone Malagola, um dos gigantes das HQs em nosso país, criador do conde lobisomem Louis Von Boros. Tive o privilégio de conhecer o Gedeone, que morava aqui em Jundiaí, não muito longe da minha casa, e é uma pena que não pudemos tocar nenhum projeto juntos. Durante minha breve passagem pelo jornal Bom Dia, escrevi o obituário do Gedeone. Foi uma honra e uma grande tristeza, pois eu acompanhava, à distância, os problemas de saúde que ele enfrentava no fim da vida, confinado à cadeira de rodas e sem poder sequer ter acesso à coleção de quadrinhos que ele tanto amava, que ficava numa parte da casa praticamente inacessível para ele.
   As primeiras histórias do Lobisomem de Gedeone foram publicadas por volta de 1963. As três edições que reproduzo aqui são da segunda fase do personagem, de 1974, com desenhos do genial Nico Rosso, o melhor desenhista dos quadrinhos brasileiros de horror, ilustrador das HQs clássicas de Zé do Caixão. A arte-final é de Kazuhiko, assistente de Rosso. São reedições da editora Ninja e estou postando esses quadrinhos para divulgar um pouco mais o trabalho desses pioneiros do horror em nosso país, pois acho que eles ainda são pouco comentados, mesmo entre os aficionados pelo tema.
   A primeira história foi reeditada em julho de 2002 num álbum de luxo lançado em tiragem limitada pela Opera Graphica, mas, curiosamente, uma página foi suprimida na nova versão (é uma página onde só rola sexo, não me perguntem por que cortaram!), então aqui vocês podem conferir a HQ na íntegra. Espero que apreciem este pequeno regalo e prestigiem nosso saudoso Gedeone em tempos de lua cheia.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Trog, o Monstro das Cavernas (1970)

   O canto-de-cisne da veterana atriz Joan Crawford - na época com 65 anos, ela morreria sete anos depois - Trog, o Monstro das Cavernas (1970) é dos filmes mais controversos de sua carreira e de todos os envolvidos em sua realização. Obra-prima menosprezada ou lixo irremediável? Definitivamente não era o tipo de filme que os velhos fãs de Miss Crawford esperavam àquela altura e boatos dizem que a reação da atriz, após ver a obra completa, ficou entre decidir se afastar das telas e cometer suicídio. Sabiamente, ela optou apenas pela aposentadoria. O tempo se encarregou de mostrar que o desastre não era tão grande assim e a atriz segue até hoje colecionando novos séquitos de admiradores. Afinal, não é exagero afirmar, existem basicamente dois tipos de filmes: os comuns, esses que a gente assiste todo dia, e os filmes de Joan Crawford.
   Aliás, o termo correto nem é “filme”, e sim “veículo”. Para se entender o fenômeno Joan Crawford - e especialmente seus fãs - é preciso compreender cinema como uma fábrica de magia, do culto à imagem acima de tudo. O star-system hollywoodiano sempre colocou os astros e estrelas acima de qualquer coisa; nada de “cinema de autor”. Cinema de astros. Filmes era “veículos” para astros e estrelas brilharem e não muito mais do que isso.
   Claro que a coisa não é tão simples assim. O cinema é uma arte viva e em constante transformação. Joan Crawford atravessou a história da sétima arte desde o período dos filmes silenciosos até à portinha da década de 1970. Ela tem também lugar garantido no coração dos aficionados pelo gênero horror desde que transtornou a mente de Lon Chaney no clássico do mudo O Monstro do Circo (1927). Décadas mais tarde, foi visionária ao conceber O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962) como um veículo para si e para a colega/rival Bette Davis. O êxito estupendo de Baby Jane originou um ciclo de fitas de horror psicológico sobre velhotas psicóticas, espécie de “menopausa do horror”, dando sobrevida às carreiras de estrelas aposentadas (e quase esquecidas) como Barbara Stanwyck, Olivia De Havilland, Joan Fontaine, Tallulah Bankhead, Lana Turner e Veronica Lake.

Congelado no tempo

   Entretanto, Trog não é Baby Jane; nem mesmo é Almas Mortas ou Espetáculo de Sangue. É algo completamente diferente... que ainda aguarda descrição. O filme começa com três jovens exploradores descobrindo quase ao acaso uma gruta onde vive um homem pré-histórico. Uma respeitada antropóloga inglesa (Joan Crawford), com especial interesse por primatas, fica sabendo da descoberta e imediatamente decide resgatar Trog (abreviação carinhosa de “troglodita”) de sua caverna úmida para mantê-lo enjaulado em seu centro de pesquisas, onde poderá estudá-lo em tempo integral. A doutora acredita estar diante do “elo perdido” da evolução do Homem e que o primata sobreviveu milhões de anos em suspensão criogênica.


   O conceito genérico de “a maior descoberta científica da civilização moderna” é uma invenção antiga do cinema; vem pelo menos desde O Mundo Perdido (1925) e King Kong (1933). O roteiro de Trog parte dessa situação básica e apela para lugares-comuns para retratar a natureza selvagem de Trog, que aprecia música suave, mas se enfurece quando ouve rock (não nos enfurecemos nós todos?); fica com expressão serena ao fitar a cor azul, mas vira fera quando vê a cor vermelha, e assim por diante. Mesmo assim, há algumas situações curiosas nessa relação entre doutora e homem-primata. A antropóloga coloca uma coleira em Trog e o trata como a um bicho de estimação, a quem sua filha, com vago interesse pela novidade, passa a alimentar e tomar conta. Elas depois o tratam como criança - uma criança retardada, como faz questão de frisar a doutora - e lhe dão brinquedos. Trog, porém, é muito sensível; prefere brincar de boneca e estraçalha geringonças barulhentas. São curiosas as insinuações de que ele teria tendências gay: além de gostar de bonecas, Trog também se encanta com o lacinho cor-de-rosa que a doutora usa no pescoço. Desta maneira, não apenas Freud foi introduzido na pré-história, como observou o crítico Rubem Biáfora, mas também o homossexualismo!


Longe de casa

   Trog é um misto de monstro de Frankenstein e King Kong. Como o primeiro, tem a mente de uma criança que precisa ser tratada com paciência, compaixão e compreensão. Como o segundo, comporta-se de maneira indomável, é incapaz de negar sua natureza selvagem e tem saudades de casa - neste ponto, o filme comete o erro histórico (e muito comum) de mostrar homens primitivos convivendo com dinossauros, ao representar as lembranças de Trog em seu habitat natural. As cenas usadas nesta breve sequência em flashback foram tiradas do filme O Milagre da Vida (1956), dirigido por Irwin Allen, com efeitos em stop-motion de Ray Harryhausen.


   Não é apenas Trog quem está longe de casa, mas também a antropóloga com seus princípios nobres. A Ciência, ensina o filme, não tem lugar num mundo no qual o progresso é sinônimo de urgência. Não há tempo para se olhar para o passado - o futuro precisa ser construído hoje. Esse pensamento é manifestado por meio do personagem interpretado por Michael Gough, inimigo declarado da doutora e interessado somente nas terras onde o troglodita foi encontrado. O ódio do empresário em relação à criatura primitiva é o de alguém que tenta negar sua origem animal. A Polícia se mostra igualmente obtusa, determinada somente em destruir aquilo que considera perigoso, tratando Trog como um simples assassino. Quando finalmente o Exército é chamado, o problema é resolvido da única maneira que os militares são capazes de entender: destruindo tudo.
   No final, o enigma de Trog - esse Kaspar Hauser da era paleolítica - é sepultado nos confins de sua caverna, aonde o pensamento reacionário, envergonhado ao fitar no espelho suas próprias fraquezas primitivas, prefere ocultar o passado. A objetividade intolerante do mundo moderno, em seu progresso voraz, não se importa com a investigação científica e é ela - a Ciência - a maior derrotada da história.

Dama para sempre

   A princípio pode nem parecer um filme de Joan Crawford, mas basta a estrela surgir em cena para que ela o transforme num filme seu. Miss Crawford mantém o estilo elegante e glamuroso e não repete figurinos ao longo de todo o filme, seja usando um macacão de mineradora, uma camisola esvoaçante ou elegantemente trajada para defender seus princípios científicos no tribunal.
   Dentro do gênero horror, a atriz já fora mesquinha e dessimulada em Baby Jane e fornecera rico material para psiquiatras em Almas Mortas. Não seria exagero dizer que aqui ela poderia fazer qualquer papel: poderia ser o vilão vivido por Michael Gough; até mesmo ser o próprio Trog, e ainda assim seu desempenho seria no padrão Crawford; ou seja, entregando-se completamente à personagem.
   A atriz esteve no Brasil na época da realização do filme, em 1970, mas não para promover Trog, que permaneceu inédito nos cinemas do país (só foi exibido na televisão, anos mais tarde), preterido pelos executivos da Warner por THX 1138, longa-metragem que marcou a estréia de George Lucas. Crawford visitou o país para inaugurar uma fábrica da Pepsi Cola, empresa da qual era uma das diretoras.


   O elenco de apoio é cheio de atrações. Michael Gough, assim como o próprio filme, costuma ser impiedosamente malhado pela crítica, mas sua performance exagerada é tão deliciosa quanto os papéis que viveu em Horrores do Museu Negro (1959), Konga (1961) e Feras Sanguinárias (1963). Também aparecem em papéis menores Robert Hutton (O Monstro de York), David Warbeck (A Casa do Além) e a menininha Chloe Franks, que no ano seguinte aterrorizaria a vida do papai Christopher Lee no melhor episódio de A Casa Que Pingava Sangue. Trog, o homem de neandertal, é interpretado pelo ex-lutador de wrestling Joe Cornelius, usando uma máscara de primata criada por Charles Parker com restos do prólogo de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick.
   Freddie Francis, provavelmente o mais irregular entre os grandes realizadores de filmes de horror, assina a direção, que deixa a desejar. A produção é de Herman Cohen, famoso pelos filmes de monstros adolescentes dos anos 50, responsável também pelo filme anterior de Miss Crawford, Espetáculo de Sangue (1968). Seu estilo chocante é perfeitamente respresentado pela cena do açougueiro que Trog pendura no gancho - isso é o que na época ainda se chamava de grand guignol. O roteiro é de Aben Kandel, escritor regular das produções de Cohen, baseado num argumento de Peter Bryan e John Gilling (diretor de Os Monstros da Morgue Sinistra, A Epidemia dos Zombies e A Serpente). A montagem é de Oswald Hafenrichter, que trabalhou no Brasil na época da Vera Cruz (Caiçara, Veneno, Sinhá Moça, Luz Apagada, O Cangaceiro, Floradas na Serra) e passou os últimos anos da vida editando filmes de horror.
   E a palavra final, como não poderia deixar de ser, é de Joan Crawford. Ou quase isso: interpelada por um repórter que deseja uma declaração sua após a destruição do homem-primata, Crawford apenas afasta o microfone e caminha para longe. Nada mais tinha a dizer. Foi sua despedida das telas e, como sempre acontecia, a câmera a acompanha até o último frame.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

You Asked for It: Bela Lugosi (1952)


   Raríssima aparição de Bela Lugosi na televisão, num episódio do programa You Asked for It, no qual os telespectadores escolhiam por carta as atrações que gostariam de ver no ar. Mais uma vez com suas vestimentas de Drácula, o veterano Lugosi levanta-se do caixão e participa do programa realizando um breve número de ilusionismo, transformando uma bela moça num morcego vampiro.
   A beldade em questão é Shirley Patterson, aspirante a estrela que acabara de fazer um papel menor no thriller em 3-D Second Chance, mas logo desapareceu como que num passe de mágica. Na entrevista final Lugosi anuncia seus próximos projetos: um filme em 3-D chamado Phantom Ghoul e a série de TV Dr. Acula, ambos jamais concretizados. E lembre-se: você pediu por isso!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Enquete: Joan Crawford

   Os numerosos (e militantes radicais) fãs de Joan Crawford não deixaram por menos e garantiram a esmagadora vitória da idolatrada estrela de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, Almas Mortas e Trog, o Monstro das Cavernas na enquete que perguntava “Qual destas divas veteranas do cinema de horror é a sua favorita?”. Miss Crawford ficou com 75% dos votos, contra apenas 14% de sua arqui-rival Bette Davis, com quem contracenou em Baby Jane. Barbara Stanwyck (Quando Descem as Trevas), Shelley Winters (Obsessão Sinistra, Fábula Macabra) e Olivia De Havilland (Com a Maldade na Alma) receberam, respectivamente, 3, 2 e 1 votos, comprovando que quando o assunto é diva veterana do horror, é melhor ninguém mexer com Miss Crawford... e muito menos com seus fãs!!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Convite à Morte (1978)

   Hoje é dia de Super Bowl, o maior espetáculo esportivo da Terra! New Orleans Saints contra Indianapolis Colts. Como é...? O quê? Ah, sim... Cinéfilo odeia esportes, eu tinha esquecido. Especialmente futebol - mesmo quando a bola não é redonda. E rock’n’roll, pode? Pois tem show do The Who no intervalo, que tal? Classic rock de primeira grandeza! Errr... nem isso foi capaz de animá-lo? Então vamos voltar ao tema original deste blog e falar de um filme de horror com participação do veterano crooner desta noite.
   Roger Daltrey tem uma carreira relativamente prolífica como ator, paralelamente à sua atividade como o homem que melhor faz girar microfones pelos palcos do mundo. Depois de estrelar os musicais Tommy (1975) e Lisztomania (1975) e antes de McVicar (1980), Daltrey fez uma pequena, porém enfática, participação no filme de horror Convite à Morte, em 1978. O ator-cantor posteriormente apareceria em outros filmes do gênero, como Vampirella (1996), uma produção de baixo orçamento baseada na curvilínea musa dos quadrinhos, e Príncipe das Trevas: A Verdadeira História de Drácula (2000), um drama histórico sobre Vlad Tepes, o tirano da Valáquia. Daltrey ainda interpretou um Diabo pop na série de TV Strange Frequency (2001), uma curiosa mistura de rock e horror.
   A presença de Roger Daltrey em Convite à Morte (The Legacy), não obstante, é como touchdown no jogo de hoje: um mero detalhe. Ele basicamente interpreta a si próprio, um extravagante astro pop que sofre uma das mortes mais indignas já vistas num filme de horror: engasgado com comida. Katharine Ross e Sam Elliott - casados na vida real - são os verdadeiros astros do filme. Ela faz o papel de uma arquiteta americana contratada para um misterioso trabalho na Inglaterra, para onde ambos partem durante os créditos de abertura. Gosto muito do Sam Elliott (bem mais do que de Katharine, que parece sempre preocupada com algo), mas aqui ele definitivamente estraga o clima do filme com sua permanente cara de safado (ele parece o Harry Reems, de Garganta Profunda, em versão mais carismática).


   Seguindo a tradição dos filmes ingleses de horror e mistério, praticamente toda a ação acontece numa suntuosa mansão, repleta de convidados extravagantes. Convite à Morte tem todos os elementos necessários para ser um baita clássico do horror setentista, com o argumento de Jimmy Sangster combinando conspiração satânica e um punhado de mortes sádicas e absurdamente inventivas - incluindo uma moça que se afoga na piscina quando fica presa numa barreira invisível e uma mulher que tem o corpo todo perfurado por estilhaços de um espelho. Tem até uma freira que se transforma em gato. Para sabotar tudo isso, temos o banal Richard Marquand (O Retorno de Jedi) cuidando da direção, imprimindo um inadequado ritmo de aventura e uma atmosfera de distante casualidade. Quanto à interação entre personagens, suspeitos e vítimas, ainda que peculiares, são tão superficiais quanto os peões do jogo de tabuleiro Detetive. A trilha sonora é outro grave equívoco, incluindo uma indigesta canção estilo balada discothèque, cantada por Kiki Dee, que acaba com qualquer resquício de seriedade. Ah, falando em música, já comentei que hoje tem show do The Who?!

ATUALIZAÇÃO: aí está o vídeo do The Who no Super Bowl. No mínimo, o melhor pocket-show do ano. Atenção para os raios laser: aparentemente é o mesmo equipamento que a banda emprestou para Ridley Scott usar no filme Alien, o 8º Passageiro (1979), na cena em que os astronautas descobrem os ovos alienígenas.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A Força dos Sentidos (1980)

   Maravilhosa incursão de Jean Garrett pelo universo fantástico, A Força dos Sentidos (1980) é uma obra de inspiração lovecraftiana com um clima poético e melancólico que considero comparável aos melhores trabalhos de Jean Rollin (em especial, Lèvres de Sang). Faz algum tempo que quero escrever um texto à altura deste filme, pois ainda acho que pouco se escreveu de instigante a respeito dele (Excitação, do mesmo Garrett, é muito mais popular entre os cinéfilos interessados na produção nacional). Acabei optando por fazer uma fortuna crítica do filme.
   Quem se aventurar pelos textos compilados abaixo certamente achará fascinante a pluralidade de opiniões. Aqueles que ainda não conhecem os textos de Jairo Ferreira - de quem tive o privilégio de ser “colega” na série especial do centenário do cinema no Jornal da Tarde - poderão acompanhar o quanto ele conhecia de cinema fantástico. Não apenas foi um dos poucos críticos brasileiros que apreciava filmes de horror e ficção científica, mas um dos raríssimos a escrever sobre o tema com sabedoria. Por sua vez, a crítica de Rubens Ewald Filho - definido com sagacidade genial aqui - é mais um atestado de preconceito pequeno-burguês, capaz de enxergar no filme somente méritos técnicos. Isso também parece ser a única coisa perceptível para os demais críticos.
   Caso queiram ler coisas ainda mais assustadoras, confiram os documentos oficiais do processo de censura do filme.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

As Garras do Mal (2001)

   Cinco jovens amigos são convidados para uma rave e partem rumo ao local da festa, onde um deles pretende conseguir dinheiro vendendo drogas. A farra logo termina em briga e eles são expulsos do local. Na estrada, de volta para casa, socorrem uma moça que diz ter sido vítima de uma seita satânica cujos seguidores se autodenominam Sombras. Uma van passa a persegui-los em alta velocidade e os jovens sofrem um grave acidente. Eles conseguem escapar dos perseguidores e perambulam pela mata durante a noite, em busca de abrigo, e acabam matando alguns dos satanistas. Ao amanhecer, conseguem fugir e pedem ajuda num pacato vilarejo próximo.
   A trama de As Garras do Mal (Devil’s Prey, 2001), lançado em DVD no Brasil como Sombras do Mal, é convencional em todos os detalhes, inclusive em suas surpresas absolutamente previsíveis. Logo de cara fica óbvio que a moça que eles socorrem é membro da tal seita satânica, por mais que ela se esforce em parecer vítima. Quando isso é revelado, muito mais tarde, não causa qualquer surpresa. Igualmente previsível é o papel de Patrick Bergin, um suposto pastor religioso que, com aquela cara de canalha, é incapaz de convencer qualquer cristão. Bergin tem alguma experiência como vilão no cinema (teve o privilégio de encarnar Drácula no ano seguinte), mas é difícil olhar para a cara dele e não lembrar de seu papel de cafajeste em Dormindo com o Inimigo, perseguindo a indefesa Julia Roberts num dos muitos thrillers com mulheres em perigo da década de 1990.
   O saldo final desse As Garras do Mal é a mesma ladainha de sempre: aos pecadores é permitida apenas a redenção, mas mesmo assim eles devem ser punidos de maneira implacável, como acontece com o traficante de drogas e sua namorada promíscua. Por sua vez, o casal de namorados que demonstra mais responsabilidade e consciência social durante toda a história é misericordiosamente poupado de um destino mais trágico. O filme ainda guarda uma surpresa para o final, mas trata-se de um epílogo tão ridículo que só pode ser encarado como um deboche, uma brincadeira de mau gosto com o pobre espectador.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Cine Terror na Praia 2010

   O Perocão vai ferver neste final-de-semana! Ou quase isso... A praia de Santa Monica, em Guarapari, no Espírito Santo, testemunhará o Cine Terror na Praia, evento promovido pela Fábulas Negras, produtora do Rodrigo Aragão, a mente deturpada por trás de Mangue Negro. O evento acontece nos dias 5, 6 e 7 de fevereiro, começando às 19 horas, e terá exibição de filmes de horror de estilos variados, incluindo muitos curtas amadores e profissionais e os cultuados longas À Meia-Noite Levarei Sua Alma, do Mojica, e Zombie, do Fulci. O evento começa com uma apresentação da Banda de Congo de Perocão e marca também o lançamento oficial de Mangue Negro em DVD duplo, com direito a exibição de todos os curtas feitos anteriormente pelo Rodrigo Aragão. Também serão promovidas “toalhas redondas” com gente interessante como os diretores Joel Caetano, Ivan Castilho e Cristian Verardi, às 19 horas do sábado e do domingo, discutindo com a platéia a produção de filmes de horror no Brasil.

Programação completa dos filmes

5 de fevereiro, sexta-feira
20h00 Guarapari Trash Part I: Águas da VingançaCachorro do MatoBalada SangrentaPeixe PodreChupa Cabras
22h00 Recurso Zero Produções: GatoJunho SangrentoO Assassinato da Mulher MentalMinha Esposa É um Zumbi
23h30 Sessão Maldita: À Meia-Noite Levarei Sua Alma

6 de fevereiro, sábado
20h00 Guarapari Trash Part II: Águas da Vingança 2: A VingançaCachorro do Mato 2Peixe Podre 2O Massacre da Espada ElétricaEve
21h00 Sessão Seu Osório
22h00 Estranho Sul: Quarto de EsperaQuiropterofobiaCortejo NegroJoão NinguémSessão das OitoZombio
23h30 Sessão Maldita: Zombie

7 de fevereiro, domingo
20h00 Sangue Capixaba: VampsidaRito de PassagemA Lenda de Proitner
21h30 Premiados CineFantasy: Manual Practico del Amigo ImaginárioForecastPorque Hay Cosas Que Nunca Se OlvidanEl Hombre de la BolsaDVDA Última NoiteRomance

O Casarão da Morte Negra (1966)



   Fiquei devendo o comentário de mais um filme do Lon Chaney Jr., e mesmo que ninguém tenha cobrado, vou cumprir a promessa. Eu ia rever o mexicano La Casa del Terror (1960), um dos muitos filmes ruins de Lon Jr., mas decidi ver este raríssimo House of the Black Death (1966), exibido na TV brasileira como O Casarão da Morte Negra. Lon sem dúvida merece muito seu lugar entre os grandes nomes do cinema de horror, mas sua vida e carreira são um tanto trágicas demais. Depois do brilhareco efêmero como o lobisomem Lawrence Talbot nos filmes da Universal na década de 1940 e os exemplares da deliciosa cinessérie Inner Sanctum, sua carreira foi ladeira abaixo a partir do começo dos anos 1950. Chaney se tornou alcóolatra - alguns dizem que ele pegou gosto pela bebida durante as intermináveis sessões de maquiagem que tinha que enfrentar para virar monstro - e não são raras as ocasiões em que ele parece bêbado em cena. Um exemplo clássico disso é sua famigerada atuação na versão para a TV de Frankenstein.
   O satanismo estava em alta quando O Casarão da Morte Negra foi realizado, mas isso não quer dizer que qualquer dos envolvidos necessariamente saiba o que está fazendo. Muito pelo contrário; é o tipo mais cafona de satanismo, com discípulos encapuzados e sacerdotisas clamando “Oh, Satanus!” com toda a pompa durante patéticos rituais de magia negra. Diante do desastre iminente, só nos resta curtir a desavergonhada exploração de belas senhoritas em danças sensuais. Nisso o filme acerta em cheio, e se hoje O Casarão da Morte Negra é uma espécie de cult movie, isso se deve muito mais à dança exótica da britânica Sabrina do que pelas presenças de Lon Chaney Jr. e John Carradine. Confira no vídeo abaixo o que o filme tem de melhor a oferecer.


   A produção é de uma miséria flagrante e aparentemente o filme ficou engavetado até 1975, quando foi exibido na televisão estadunidense. O desempenho dos dois grandes veteranos do horror - que nunca aparecem em cena juntos - é risível mesmo em comparação ao baixo padrão que já haviam estabelecido à essa altura de suas respectivas carreiras. Lon Chaney Jr. ostenta uma barriga indecente e um ridículo par de chifres diabólicos, no papel de Belial DeSade, o líder dos satanistas, protagonizando os momentos mais constrangedores. John Carradine, surpreendentemente contido, é pouco aproveitado, o que lhe poupa de um bocado de embaraços. A trama é sobre um casal de doutores que chega a um vilarejo assolado por adoradores de Satã, onde o clássico confronto entre razão e superstição se interpõe às mortes misteriosas que ocorrem na região, atribuídas a um lobisomem. Maldições de família e um duelo entre feiticeiros rivais também são jogados no caldeirão desta indigesta produção de baixa qualidade.
   Harold Daniels, realizador de carreira modesta, é o único diretor creditado, mas Reginald Le Borg e Jerry Warren (este sim, indubitavelmente, é o pior cineasta do mundo) também contribuiram com algumas cenas. O resultado final é uma colcha de retalhos que nunca convence, misturando indiscriminadamente lobisomens e culto satânico. Resumindo, uma confusão dos diabos!

Os 50 piores filmes da história

   Os leitores da revista Empire escolheram os 50 piores filmes da história: “os mais desastrosos filmes já realizados”, celebrando o que Hollywood tem de mais vergonhoso. A lista é formada basicamente por blockbusters que fracassaram retumbantemente, o conceito mais genérico do que o grande público considera como “pior”. Batman & Robin, desastre cometido por Joel Schumacher, liderou com folga a enquete. Para quem não lembra, o filme é tão ruim que enterrou a franquia durante anos, até o reboot da saga do super-herói com Batman Begins.
   A lista segue com abacaxis como A Reconquista, Guru do Amor e muitos outros exemplos de como queimar dinheiro e abusar da paciência alheia. Claro que não faltam coisas como Mulher-Gato, The Spirit, Superman IV, Howard o Super-Herói e Homem-Aranha 3, mostrando o quanto já se errou nesse subgênero de filmes de super-heróis. A maioria dos filmes desta lista eu estrategicamente evitei assistir (ninguém precisa ver coisas como Espartalhões, Eragon ou Norbit), mas é satisfatório ver tantos filmes odiáveis recebendo o que merecem, como The Matrix Revolutions e Showgirls. Discordo apenas da presença de Plan 9 from Outer Space, que os próprios editores admitem ser o mais divertido da lista, um quase estranho no ninho em meio a tanto filme sem graça.
   Poucos filmes de horror estão na lista; poucos e ruins. Uwe Boll marca presença com o canalha House of the Dead e o incompreensível Alone in the Dark. O pretensioso e apocalíptico Fim dos Tempos, de M. Night Shyamalan, ficou num significativo oitavo lugar - e ainda assim tem defensores ferrenhos. Os demais são indesculpáveis: O Apanhador de Sonhos, Tubarão: A Vingança, Van Helsing, o Caçador de Monstros, Blade Trinity... Chega a ser deprimente ver tanta coisa ruim junto.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1952)

   Nesta segunda e última parte do ciclo de filmes do argentino Carlos Hugo Christensen anteriores à sua fase brasileira comentarei duas interessantes produções da década de 1950. Os dois filmes são adaptações de histórias de suspense e horror do escritor William Irish (pseudônimo literário de Cornell Woolrich), autor também do conto que originou Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, entre outros. Eu planejava escrever também sobre o filme venezuelano El Demonio És un Angel (1950), aparentemente uma comédia romântica com algum toque de fantasia e sobrenatural, mas ainda não tenho o filme. Prometo comentá-lo aqui no blog logo que eu conseguir uma cópia.

Si Muero Antes de Despertar (1952)


   Possivelmente o filme mais interessante de Christensen em sua fase clássica argentina, realizado com notável inspiração e talento, adaptado do conto “If I Should Die Before I Wake”, de William Irish. Recentemente, Si Muero Antes de Despertar ganhou certa notoriedade entre pesquisadores e aficionados por filmes de horror por sua trama supostamente antecipar a premissa de A Hora do Pesadelo (1984), com um vilão semelhante ao infanticida Freddy Krueger. De fato, há algumas semelhanças entre os filmes, como o cruel homicida que seduz e mata crianças. O tema é pesado e corajoso, remetendo ao clássico M, o Vampiro de Düsseldorf (1931), de Fritz Lang; semelhança que também deve ter chamado a atenção dos mexicanos, pois o filme foi lançado naquele país com o título El Vampiro Acecha.

   Si Muero Antes de Despertar tem um clima de conto de fadas sombrio, com alusão a “João e Maria” em algumas cenas. Christensen inteligentemente intensifica o mistério ao mostrar pouco o odiável assassino, um pedófilo que atrai crianças com promessas de doces e brinquedos. A história é narrada pela ótica de um garotinho, única testemunha do desaparecimento de suas coleguinhas de escola. O título se refere a uma oração que as crianças fazem antes de dormir - outra coincidência com A Hora do Pesadelo, que também ficou caracterizado por uma sinistra cantiga de ninar.
   Escolhi para o vídeo a cena do menino sonhando com o assassino, mergulhado num cenário surreal de pesadelo, com destaque para o plano da mão do infanticida se projetando subitamente e oferecendo uma guloseima ao menino, num momento tenso e ameaçador - e também com um flagrante teor sexual.

No Abras Nunca Esa Puerta (1952)

   Novamente Christensen recorre aos contos de suspense de William Irish neste excelente exemplar de cine negro (a maneira como os argentinos se referem ao film noir). O filme é formado por duas histórias: “Alguien al Teléfono”, adaptada do conto “Somebody on the Phone”, e “El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar”, baseada em “Hummingbird Comes Home”. O cineasta demonstra domínio absoluto da linguagem do cinema de suspense, construindo cenas tensas e climáticas. A iluminação com forte contraste entre luz e sombra, os enquadramentos inventivos e a montagem dinâmica, favorecendo a sucessão de eventos misteriosos, propiciam ao filme uma qualidade comparável ao melhor que se produziu no gênero na Hollywood da década de 1940.


   Alguien al Teléfono é sobre a morte misteriosa de uma jovem, que teoricamente teria cometido suicídio, e o desejo insano de seu irmão de vingá-la, indo em busca de um suposto agiota que a perturbava com telefonemas enigmáticos. A trama é relativamente simples e econômica, até previsível a certo momento, mas impressiona pela maneira como é conduzida. A relação entre irmão e irmã não deixa de ser intrigante. Eles moram juntos e aparentemente o rapaz tem por ela um ciúme possessivo. Não conheço a obra literária de Woolrich, mas o estilo me lembrou os contos trágicos da EC Comics, em especial das revistas policiais como Crime SuspenStories e Shock SuspenStories. O vídeo que capturei mostra o momento em que o rapaz é perturbado por um dos telefonemas misteriosos. Você terá que assistir ao filme para entender o que acontece...


   El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar é outro exuberante exercício de suspense, sobre uma noite de horror vivida por uma senhora cega que mora com a sobrinha num velho casarão. A idosa aguarda esperançosa a visita do filho, com quem ela não se encontra há anos, visita essa que acontece de maneira inesperada e traumatizante. O rapaz chega na calada da noite, acompanhado por dois amigos, um deles gravemente ferido. O filho diz que sofreram um acidente de carro, mas à esta altura já sabemos que são criminosos que acabaram de cometer um assalto. O líder do bando só é identificado por uma peculiar melodia que costuma assobiar entre dentes - aqui Christensen mais uma vez estabelece um elo com M, o Vampiro de Düsseldorf. O trecho em vídeo que selecionei é o momento em que a mãe decide enfrentar sozinha o problema, mas novamente prefiro deixar sem explicação a conclusão da trama.

   Quem tem algum interesse no cinema clássico sul-americano não pode deixar de conhecer a obra de Carlos Hugo Christensen nesse período. Para mim foi uma satisfação redobrada; há anos queria ver esses filmes, pois considero o Christensen um dos principais realizadores do cinema de horror brasileiro. Entre as demais obras do cineasta que podem (ou não) flertar com o horror, não consegui localizar Con el Diabo en el Cuerpo (1947), Leonora dos Sete Mares (1956) e A Casa de Açúcar (1996). Quem tiver qualquer informação de como eu poderia conseguir cópias desses filmes, peço por gentileza que entre em contato comigo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1946-1949)

   Cineasta nascido na Argentina e radicado no Brasil durante mais de 40 anos, Carlos Hugo Christensen começou a carreira em seu país natal em 1939. Fez cerca de 50 longas até 1996, quando realizou o raro A Casa de Açúcar, não exibido no Brasil. Sua obra se caracteriza por temas como a chegada da adolescência e o amadurecimento, reencontros e a tentativa de se resgatar um passado romântico por meio de reminiscências perdidas no tempo. Passou por Chile (La Dama de la Muerte, 1946), Venezuela (El Demonio És un Ángel, 1950) e Peru (Armiño Negro, 1953) antes de começar a filmar no Brasil, em 1955, onde chegou inclusive a dirigir um filme sobre Pelé.
   Dentro do gênero horror, suas mais notórias contribuições foram os filmes brasileiros Enigma para Demônios e A Mulher do Desejo (A Casa das Sombras), ambos de 1975, com roteiros do próprio Christensen e de Orígenes Lessa inspirados em obras de Carlos Drummond de Andrade, Nathaniel Hawthorne e Samuel Taylor Coleridge. O cineasta já demonstrara interesse pelo gênero durante seu período itinerante pela América do Sul, quando flertou com o suspense sombrio, o conto policial e com diferentes estilos de narrativas de horror em vários filmes. Finalmente consegui localizar sete destas obras e enfim pude conferir sua inequívoca vocação para filmar tramas sinistras e tensas.
   Curiosamente, estas realizações de Christensen que beiram o horror são justamente do período no qual o gênero estava desprestigiado e ameaçado de extinção tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, entre o pós-guerra e o início da era nuclear (1946-1952). É uma época de poucas e esparsas realizações dentro do gênero, o que torna as obras de Christensen ainda mais relevantes e históricas.

La Dama de la Muerte (1946)

 

   O primeiro importante filme de terror de Christensen é esta produção chilena, uma das primeiras películas produzidas no país, um thriller de horror repleto de bons momentos de medo e suspense, personagens bem desenvolvidos e final impactante. Excelente adaptação do conto “The Suicide Club”, de Robert Louis Stevenson, publicado originalmente no livro New Arabian Nights (quem se interessar pode baixar o livro em formato PDF aqui numa cópia facsímile da edição de 1905). A trama, ambientada na Londres da era Vitoriana, é sobre um rapaz desesperado que se envolve com um clube secreto de suicidas. A cena que selecionei é o momento em que ele teme estar sendo perseguido por um de seus colegas de clube, encarregado de assassiná-lo (reparem nas imagens surreais que o assombram, incluindo dois policiais que formam uma enorme e ameaçadora aranha). O conto de Stevenson foi filmado diversas outras vezes, inclusive na antologia muda alemã Histórias Tenebrosas (Unheimliche Geschichten), realizada por Richard Oswald em 1919.

El Angel Desnudo (1946)

 

   Este melodrama argentino, parcialmente filmado no Rio de Janeiro, é notável pelo clima fatalista e trágico que domina a película. Não se trata necessariamente de um filme de suspense, porém é carregado de angústia e tensão. Uma jovem argentina em visita ao Rio de Janeiro recebe uma carta desesperada de seu pai, o qual lhe pede que tente conseguir uma grande quantia em dinheiro com um velho conhecido dele. O sujeito em questão é um consagrado escultor, que recebe a moça cheio de segundas intenções. O filme é sobre o dilema moral enfrentado pela protagonista, que se questiona se deve ou não sujeitar-se aos caprichos do escultor, o qual deseja “contemplar sua beleza nua inteiramente” em troca do empréstimo.
   A barganha adquire traços malditos, como se sua entrega ao artista representasse algo irreversível, definitivo, até mesmo sua morte. O tema do sacrifício por amor se torna ainda mais intenso pelo fato de a moça salvar o pai de uma situação humilhante, pagando as dívidas contraídas pelo velho com jogatina. O escultor, insinua a trama, é o próprio Diabo, com cavanhaque mefistofeliano e personalidade reclusa. Permeia o filme esse desejo do profano pela pureza, o casamento do angelical com o diabólico. Há poucos momentos realmente impactantes, então selecionei para o vídeo a cena final, que mostra o confronto entre anjo e demônio.

La Muerte Camina en la Lluvia (1948)

 

   Este clássico filme de mistério e suspense é um dos grandes momentos nos primeiros anos da carreira de Christensen, versão argentina do livro L’Assassin Habite au 21, do autor belga S.A. Steeman. A história foi filmada anteriormente por Henri-Georges Clouzot, em sua estréia nas telas, em 1942, e não seria surpreendente que a versão de Christensen tenha sido fortemente influenciada por essa adaptação anterior, mas infelizmente não assisti ao filme de Clouzot para compará-los.
   É uma trama de mistério do tipo “quem foi?”, sobre um assassino psicopata que deixa um bilhete com sua assinatura junto de cada vítima. Seu nome é S. López e toda a cidade de Buenos Aires fica aflita com os crimes cometidos pelo misterioso homicida. Uma testemunha ocular de um dos crimes descobre que o assassino mora numa pensão, onde transcorre toda a ação do filme até que o culpado é desmascarado.
   Selecionei a cena de abertura para o vídeo, uma exuberante amostra da narrativa de suspense concisa que Christensen certamente aprendeu com o mestre Hitchcock: a economia e objetividade dos planos e o processo de informação imagética remete ao início de The Lodger: A Story of the London Fog (1927): ambos compõem o perfil do assassino a partir de fragmentos de informações e o efeito que isso causa nas pessoas.

La Trampa (1949)

 

   Outra produção argentina, adaptação do livro Algo Horrible en la Leñera (Something Nasty in the Woodshed, 1942), de Anthony Gilbert, pseudônimo da autora inglesa Lucy Beatrice Malleson. É um típico melodrama feminino, com alguns exageros próprios do gênero, mas com andamento envolvente e clima constante de suspense. Conta a história de uma solteirona que responde a um anúncio de jornal publicado por um homem recluso à procura de esposa. Não demora para percebermos que o carismático galanteador na verdade é um golpista frio que só planeja se apoderar da fortuna dela.
   A angústia vivida pela protagonista remete a clássicos melodramas sobre mulheres à mercê de homens cruéis, como Suspeita (1941) e Interlúdio (1946), de Alfred Hitchcock, e os veículos da estrela Joan Crawford, Precipícios d’Alma (1952) e Frenesi de Paixões (1955). A trama envolve também um suposto fantasma que assombra a propriedade. Selecionei para o vídeo o momento mais horrorífico do filme, justamente a aparição do tal fantasma.


   A lamentar, somente a qualidade lastimável de conservação desses filmes - alguns com créditos de abertura incompletos, copiados da TV ou de velhos VHS. Isso atesta a raridade dos mesmos e também um certo desprezo com o qual aparentemente são tratados por nossos vizinhos; certamente não muito diferente de como (des)cuidamos dos nossos próprios.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Caçadores de Mentes (2004)

   Renny Harlin escreveu seu nome de maneira infame na história do cinema de horror ao dirigir aquela horrível prequel de O Exorcista em 2004, um raro caso de filme detestado unanimemente. No mesmo ano ele fez esta mistura de ação, suspense e horror, sem se definir por nenhum dos gêneros. Caçadores de Mentes (Mindhunters) é outro filme a mostrar a supostamente fascinante rotina dos agentes do FBI - depois de O Silêncio dos Inocentes e Arquivo X, esse parece o emprego dos sonhos de todo mundo que quer viver emoções fortes.
   A trama acompanha o treinamento de um grupo de perfiladores (é desta maneira que a legenda traduz profiler, não sabia da existência dessa palavra), agentes policiais encarregados de traçar perfis dos assassinos mais perigosos para tentar antecipar seus passos antes que voltem a matar. O encarregado pelo grupo é interpretado por Val Kilmer, no breve papel de um agente durão e intolerante, que parece ter um prazer sádico de humilhar os alunos. Os treinandos são liderados por Christian Slater, outro que aparece pouco e é responsável pela única genuína surpresa do filme, pois é o primeiro a ser morto por um serial killer que se infiltrou no grupo disposto a eliminar um a um.
   A premissa - pouco provável, mas esse é o menor dos problemas do filme - coloca os recrutas isolados numa ilha onde devem investigar uma série de crimes numa missão simulada. Porém, logo no primeiro cenário eles já descobrem que estão diante de homicídios bem reais, cometidos por um assassino metódico, com obsessão por detalhes. Relógios quebrados, estrategicamente posicionados, apontam o horário em que ocorrerá a próxima morte, então o objetivo dos sobreviventes - entre eles o rapper LL Cool J - é tentar impedir que o criminoso volte a agir. Cada morte é precedida por pistas enigmáticas que o assassino planta no local; mistérios absolutamente desinteressantes, de tão improváveis e absurdos. Uma dessas charadas é uma série infindável de números, que um dos agentes decifra como sendo a velocidade da luz. Isso significa que um deles será morto por luz; ou melhor, por lâmpadas elétricas que provocarão uma descarga de alta voltagem ao entrar em contato com a água. Perto disso, até as sádicas armadilhas de Jigsaw em Jogos Mortais parecem mais plausíveis.
   No final das contras, Caçadores de Mentes não é um filme tão ruim dentro desse subgênero de serial killers, mas é indicado mais para quem gosta de mortes espetaculares, explosões, correria desenfreada e exibição generalizada de macheza - até as mulheres são do tipo que falam aos berros e empunham armas - do que propriamente aos apreciadores de uma boa trama de horror e mistério.

Enquete: Um Lobisomem Americano em Londres

   A comédia macabra Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London), dirigida por John Landis e lançada em 1981, venceu a enquete que perguntava “qual é o melhor filme clássico de lobisomem”, recebendo 50% dos votos. Pelo jeito os leitores desse blog preferem os filmes modernos sobre o tema, em comparação com os clássicos das décadas de 1930, 40 e 50. Para comemorar a vitória, coloco aqui dois belos cartazes do filme, para quem gosta de colecionar esse tipo de coisa.
   A seguir ficaram The Howling (1981), de Joe Dante, com 21%, The Curse of the Werewolf (1961), produção da Hammer estrelada por Oliver Reed, com 14%, e dois filmes empatados com apenas um voto cada: The Wolf Man (1941) e The Beast Must Die (1974). Cinco filmes sequer foram votados: Werewolf of London (1935), The Werewolf (1956), I Was a Teenage Werewolf (1957), Wolfen (1981) e Silver Bullet (1985).
   A questão que fica agora é o que podemos esperar da refilmagem de The Wolf Man, que estréia dia 12 de fevereiro. Alguém está com boas expectativas sobre este filme? Comentem aqui!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

EXCLUSIVO! Programação de filmes de horror na TV

   A partir deste final de semana os digníssimos leitores deste blog poderão consultar diretamente aqui no Cine Monstro a programação diária completa dos filmes de horror exibidos na televisão brasileira. A grade de programação automática é um dispositivo exclusivo deste blog e foi desenvolvida pela empresa Visual Info. Quem acha que tem pouco filme de horror nas nossas telinhas vai se surpreender com a generosa oferta: são cerca de 20 e até 30 longas por dia espalhados pelos canais, variando entre clássicos e filmes recentes. A programação ficará disponível na coluna da direita, sempre destacando o(s) filme(s) em exibição no momento (quando houver) e todos os demais que serão exibidos durante o dia de hoje e no dia seguinte, para que ninguém perca aquele filmaço que queria ver há muito tempo. Pode servir também para você se aventurar a ver algum filme que nem sabia que existia! O guia ainda destaca o trailer de um filme que está sendo exibido no momento ou prestes a começar.
   A grade por enquanto é formada pelas TVs abertas e canais por assinatura disponíveis no Brasil, incluindo Fox, FX, TNT, TCM, MGM, Universal, SciFi, AXN, Space, Megapix, Canal Brasil, Cinemax, Max Prime e as redes TeleCine e HBO, entre outros. Esse banco de dados é alimentado manualmente e dá um trabalhão danado para fazer, então seria muito valioso ter um retorno da parte dos visitantes do blog, para que eu avalie a utilidade ou não dessa grade. Quaisquer sugestões para melhorar esse recurso (inclusão de mais canais, por exemplo) serão muito bem-vindas, então encham esse espaço de comentários!
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