CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

domingo, 7 de março de 2010

Oscar 2010: Roger Corman

   Mesmo quem não torce loucamente por Avatar e não se comove com os filmes sensíveis e relevantes que têm dominado a premiação do Oscar nos últimos anos tem um motivo mais do que justo para acompanhar a cerimônia de hoje à noite: a homenagem ao imortal da sétima arte Roger Corman. A premiação, na verdade, aconteceu em 14 de novembro do ano passado durante um jantar de gala promovido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas a cerimônia não foi televisionada, então basta a gente fingir que é ao vivo e ficar à vontade para se emocionar com o merecido tributo prestado ao octogenário cineasta. 
   Para os cinéfilos de ocasião e desinformados em geral, Corman talvez seja aquele cara oportunista que fez um punhado de trash movies muito toscos (e bobagens desse nível). Para os demais, ele não é menos do que um dos maiores heróis do cinema mundial, cuja importância é imesurável: dirigiu 50 longas dos mais variados gêneros e produziu perto de 300, sendo ainda responsável por colocar nos cinemas americanos obras de cineastas como Bergman e Fellini. Corman também deu a primeira oportunidade no cinema a jovens talentos, lançando gente como Jack Nicholson, Francis Ford Coppola, Peter Fonda, Peter Bogdanovich, Martin Scorsese, Jonathan Demme, Joe Dante, James Cameron e muitos outros.
   Lembro claramente que, quando O Silêncio dos Inocentes, de Demme, e O Exterminador do Futuro 2, de Cameron, conquistaram um monte de estatuetas no Oscar de 1992, fiquei imaginando que Roger Corman era o sujeito menos provável de estar presente àquela festa, mas que aqueles dois cineastas que se consagravam naquele momento eram pupilos seus, e isso queria dizer algo. Hoje à noite, a Academia fechará esse ciclo e finalmente reconhecerá a importância de um dos gigantes do cinema, o homem que apontou o caminho das pedras para várias gerações de jovens realizadores e fez do cinema uma arte viável.

Filmografia oficial completa como diretor


1955. Five Guns West (Cinco Revólveres Mercenários)
1955. Apache Woman (Pistoleiro Solitário)
1955. Swamp Women (Mulheres do Pântano)
1955. Day the World Ended (O Fim do Mundo)
1956. The Oklahoma Woman (A Onça de Oklahoma)
1956. Gunslinger (A Lei dos Brutos)
1956. It Conquered the World (Ameaça Espacial)
1957. Attack of the Crab Monsters (A Ilha do Pavor)
1957. Not of This Earth (Emissário de Outro Mundo)
1957. The Undead (A Morta Viva)
1957. Rock All Night
1957. Naked Paradise (Paraíso em Fúria)
1957. Teenage Doll (Mulher sem Rumo)
1957. Carnival Rock
1957. Sorority Girl
1957. The Saga of the Viking Women and Their Voyage to the Waters of the Great Sea Serpent (O Monstro Marinho)
1958. She Gods of Shark Reef (A Deusa dos Arrecifes)
1958. War of the Satellites (Guerra dos Satélites)
1958. Machine Gun Kelly (Dominados pelo Ódio)
1958. I, Mobster (Destino de um Gângster)
1958. Teenage Cave Man (Os Trogloditas)
1959. A Bucket of Blood (Comédia de Terror)
1959. The Wasp Woman (A Mulher Vespa)
1960. The Little Shop of Horrors (A Loja dos Horrores)
1960. Last Woman on Earth (A Última Mulher da Terra)
1960. House of Usher (O Solar Maldito)
1960. Ski Troop Attack
1961. Atlas (Atlas)
1961. Creature from the Haunted Sea (A Criatura do Mar Encantado)
1961. Pit and the Pendulum (A Mansão do Terror)
1962. The Intruder
1962. The Premature Burial (Obsessão Macabra)
1962. Tales of Terror (Muralhas do Pavor)
1962. Tower of London (A Torre de Londres)
1963. The Young Racers (Desafiando a Morte)
1963. The Raven (O Corvo)
1963. The Terror (O Terror)
1963. X: The Man with the X-Ray Eyes (O Homem dos Olhos de Raio X)
1963. The Haunted Palace (O Castelo Assombrado)
1964. The Secret Invasion (A Invasão Secreta)
1964. The Masque of the Red Death (A Orgia da Morte)
1964. The Tomb of Ligeia (O Túmulo Sinistro)
1966. The Wild Angels (Anjos Selvagens)
1967. The St. Valentine’s Day Massacre (Massacre de Chicago)
1967. The Trip (Viagem ao Mundo da Alucinação)
1969. Target: Harry (Harry, Vivo ou Morto)
1970. Bloody Mama (Os 5 de Chicago)
1970. Gas-s-s-s... or, It May Become Necessary to Destroy the World in Order to Save It
1971. Von Richthofen and Brown (Águias em Duelo)
1990. Frankenstein Unbound (Frankenstein, o Monstro das Trevas)

Clique em qualquer um dos links abaixo para fazer o download de todos os cartazes!

sábado, 6 de março de 2010

Sherlock Holmes: The Man Who Disappeared (1951)


   Passada toda a onda em torno do novo Sherlock Holmes, vamos voltar a falar do bom e velho detetive criado por Arthur Conan Doyle. O tópico, desta vez, é este raro piloto de uma série de televisão, realizado em 1951. A série, entretanto, foi rejeitada pelos executivos do canal e somente este episódio de meia hora foi concretizado. O vídeo está disponível logo acima (se você não usa o navegador Internet Explorer, possivelmente não está enxergando o vídeo; não sei por que isso acontece!).
   O episódio, intitulado The Man Who Disappeared, é baseado no conto The Man with the Twisted Lip, publicado originalmente em dezembro de 1891. O conto foi traduzido para o português como O Homem de Lábio Torcido e O Homem da Boca Torta, e pode ser lido acessando este endereço. Quem se interessar em conhecer melhor a chamada obra ‘canônica’ de Sherlock Holmes deve visitar esta página.
   A história, mais tarde reunida na antologia As Aventuras de Sherlock Holmes, é da fase na qual o Dr. Watson havia se casado, deixando Holmes morando sozinho no apartamento da Baker Street. A trama não é das melhores e o desfecho chega a ser um pouco previsível para quem já está acostumado aos truques do detetive, mas tem alguns momentos interessantes. O conto, que tem parte de sua ação ambientada numa casa de ópio, faz citação explícita ao vício de Sherlock Holmes em cocaína. Tais referências cocainômanas foram eliminadas na versão para a TV, que também trata de adequar a situação de Holmes e Watson ao seu convencional estado de solteirões colegas de quarto. De resto, a trama é razoavelmente fiel ao conto, aproveitando a premissa na primeira metade e inserindo elementos mais mirabolantes e mudando substancialmente o final.
   Sherlock Holmes é interpretado por John Longden, que teve papel de destaque em dois filmes do início da fase sonora de Alfred Hitchcock (Blackmail e The Skin Game). As feições de Longden, vinte anos mais velho do que quando atuou para Hitchcock, são incrivelmente semelhantes à imagem de Sherlock Holmes consagrada pelas ilustrações clássicas publicadas na revista Strand em fins do século retrasado. Mesmo que este piloto não seja brilhante, não é exagero afirmar que Longden poderia ter interpretado um memorável Sherlock Holmes, caso a série tivesse vingado.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Shutter Island: o jogo oficial

   Vou entrar brevemente na seara do meu primo Kdão e falar um pouco de videogame, mas sem sair do assunto principal do blog, claro. Trata-se do jogo oficial para promover o filme Ilha do Medo (Shutter Island), que marca a investida do diretor Martin Scorsese num “terror psicológico com elementos de horror gótico” (segundo declaração de Leonardo DiCaprio, astro da película).
   O jogo não poderia ser mais simples: tem um enredo de mistério fantasmagórico, inspirado na trama do filme, porém a jogabilidade se resume a procurar objetos pelo cenário e clicar sobre eles para coletar pistas. Gosto muito desses games casuais, porque não vejo sentido em ficar estressado jogando videogame, tentando resolver aqueles problemas insolúveis ou apertando oito botões ao mesmo tempo para acionar aquele golpe ultrasecreto. Você pode baixar o game completo no site da Big Fish Games, com direito a jogar gratuitamente durante uma hora. O filme estréia no Brasil em 12 de março.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Alice Cooper: Along Came a Spider (2008)


   Não é de hoje que Alice Cooper rima com horror. Aliás, a relação do veterano roqueiro de Detroit com temas macabros deu origem ao chamado ‘shock rock’, ou ‘rock horror’, na década de 1970. O conceito havia sido rascunhado pelas extravagantes performances de Screamin’ Jay Hawkins pelo menos quinze anos antes, mas foi Alice Cooper, com seus exageros cênicos dignos de espetáculos da Broadway, incluindo decapitações e enforcamentos em pleno palco, quem deu vida à idéia. Desde Kiss, Misfits, Mötley Crüe e Gwar, até King Diamond, Rob Zombie, Marilyn Manson e Lordi, todo mundo que destila a receita rock+horror deve um bocado a Alice Cooper.
   Along Came a Spider é o álbum mais recente da titia do rock pesado (sei que não chega a ser novidade - foi lançado há cerca de um ano e meio - mas só faz dois meses que tenho esse blog e não queria deixar passar a oportunidade de escrever um pouco sobre o disco!). Marca o retorno do roqueiro ao estilo hard rock clássico, depois de ele se aventurar pelo hard farofa, heavy tradicional e metal industrial. O álbum segue a tradição ‘conceitual’ do clássico Welcome to My Nightmare (1975), narrando uma história linear ao longo de todas as faixas.
   Trata-se da história de um serial killer conhecido como ‘Spider’, que captura, tortura, mata e arranca uma perna de cada vítima. Seu objetivo é juntar oito pernas e construir sua própria aranha. Não chega a ser algo inovador ou especialmente original, mas mostra a visão - um tanto ingênua - que Alice tem do horror, inclusive sua obsessão por bichos asquerosos.


   A relação de Alice Cooper com filmes de horror rendeu participações nas cinesséries Sexta-Feira 13, interpretando a canção-tema “He’s Back (The Man Behind The Mask)” no sexto exemplar (lembro até hoje quando vi, embasbacado, o vídeo dessa música no Fantástico!) e A Hora do Pesadelo, nada menos do que como o pai de Freddy Krueger, também no sexto filme da saga. Também fez papéis menores em outros filmes, como em O Príncipe das Sombras (1987), de John Carpenter, e protagonizou o espanhol Leviatán (1984), dirigido por Claudio Fragasso, lançado em VHS no Brasil como Monster Dog: Uma Noite de Horror, no qual interpreta um roqueiro que vira lobisomem.
   Para promover o lançamento de Along Came a Spider, o roqueiro lançou no YouTube este vídeo de dez minutos, reunindo três canções do álbum: “Vengeance Is Mine” (com participação de Slash na guitarra), “(In Touch With) Your Feminine Side” e a balada mórbida “Killed By Love”. Co-dirigido por Piggy D. e Gabrielle Geiselman, o vídeo é todo ambientado no manicômio onde Spider foi trancafiado. Tem alguns momentos interessantes, mas poderia ter sido melhor concebido e realizado. (Não pode ser comparado, por exemplo, ao charmoso especial para a TV inspirado no álbum Welcome to My Nightmare, feito em 1975, com a preciosa participação de Vincent Price.)
   Em compensação, os trailers promocionais do álbum Along Came a Spider são bem interessantes, então decidi também reproduzi-los aqui. Destaque para o terceiro trailer, que recria o inesquecível monólogo final de Psicose (1960) na íntegra, celebrando em grande estilo o casamento de rock pesado e filme de horror.

terça-feira, 2 de março de 2010

Juvenília (1994)


   Antes do advento do DVD e - principalmente - da internet, curtas-metragens ficavam restritos a uma pequena camada de cinéfilos, quase sempre estudantes de audiovisual. O restante nem sabia da existência desses filmetes, ou só ouviam falar a respeito, sem saber onde encontrá-los. Não é exagero dizer que a história do curta-metragem brasileiro ainda precisa ser devidamente contada. Para deixar minha contribuição nessa difícil empreitada, quero resgatar aqui um dos curtas nacionais mais impactantes que já tive o privilégio de assistir (na sala de cinema, onde seu efeito é ainda mais devastador!): Juvenília, escrito, produzido, dirigido e montado por Paulo Sacramento em 1994. Sacramento é diretor do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), produtor de Encarnação do Demônio (2008) e o mais premiado (e requisitado) montador do atual cinema brasileiro.
   Há alguns anos, Juvenília foi motivo de polêmica numa lista de discussão da qual eu fazia parte, com os argumentos se limitando à questão do direito (ou não) de se matar um animal para fazer arte. Espero estar elevando a discussão com esta postagem, tentando ver além desse detalhe e buscar a essência do filme. Tenho certeza que Juvenília continua chocando e causando polêmica (duvido que esta não seja uma de suas propostas), mas espero que a oportunidade de (re)ver o filme possa melhorar as argumentações. Fica o aviso àqueles que ainda não conhecem o curta: Juvenília tem cenas explícitas de violência contra um cachorro. Quem não tiver estômago forte, é melhor nem assistir ao curta!


   O filme, totalmente narrado por stills em preto e branco, mostra um grupo de jovens que, sem qualquer motivo aparente, decidem espancar um cachorro. O elemento chocante, até mesmo revoltante, é a maneira casual com a qual se dedicam à tarefa, rindo e se divertindo com a brincadeira. Como toda obra de arte, o curta é aberto a interpretações (muitas das que eu li são completamente desprovidas de inteligência), mas para mim é o retrato perfeito da doom generation, dos jovens tomados pelo tédio e pela absoluta falta de objetivos - algo como a ressaca pós-grunge. Um rebelde que golpeia o vácuo, sem sequer saber o motivo de sua explosão de violência.
   A cópia do curta disponível aqui, via YouTube, foi retirada de um surrado VHS. Está em péssimas condições, mas plenamente assistível. O próprio Sacramento não tem uma cópia melhor, pois o curta nunca foi transferido para o formato digital. Até que isso seja providenciado, o vídeo quebra o galho. A seguir, uma breve entrevista que fiz este final de semana com o cineasta para contar um pouco sobre seu filho mais controverso.


Qual foi o processo usado para a realização de Juvenília? Foram feitas as fotografias e depois transferidas para 35 mm?
   Sim, fizemos primeiramente um storyboard bem detalhado, e a partir dele encenamos com os atores e fotografamos ao invés de filmar. Uma vez batidas, reveladas e ampliadas as fotos, eu as filmei de uma maneira bem tosca, em VHS mesmo. Fui para uma ilha de edição de corte seco (VHS!!) e fiz um rascunho da montagem. Uma vez feito esse trabalho, minutei os tempos que precisava, filmei as ampliações das fotos em um table-top, que é basicamente uma câmera 35mm de cinema presa em um trilho vertical, apontada para uma base onde se prendem fotografias ou desenhos. É o equipamento usado (ou melhor, era!) para qualquer filme de animação. Essa montagem prévia no VHS foi fundamental pois tínhamos apenas duas latas de 35mm, ou seja, menos de 9 minutos de material virgem. Como o filme finalizado teria 7 minutos, veja o aperto! Bom, depois do table-top, revelamos o filme e fui para uma moviola já com o magnético transcrito para fazer a montagem. Era assim antes do advento da tecnologia digital, hoje seria tudo bem mais fácil e barato!

O filme causa incômodo no espectador por mostrar jovens saudáveis e alegres cometendo um ato abominável. Qual é a mensagem que o curta quer passar?
   Como diria o Orson Welles, um filme morre quando vira veículo de uma mensagem. Não há moral da história, mas um sentimento muito forte que o filme provoca. Ele faz o espectador pensar, utilizando-se do cinema e da violência como um anti-espetáculo, algo realmente terrível. Ao final do filme, há uma quebra decisiva de perspectiva. Está claro que não estamos ao lado da barbárie.

Como foram realizadas as cenas de esquartejamento e evisceração do cachorro? O animal foi morto durante as filmagens?
   Tínhamos um sério problema para realizar esse filme. Como mexeríamos com vísceras de um animal, havia a possibilidade de contaminar a equipe e o elenco com raiva, uma doença horrível. Um cachorro só transmite a raiva nos últimos dias de sua doença, então ele morre. Quando um cachorro morde uma pessoa, ele é preso e posto de quarentena. Se ele morrer nos três dias seguintes à dentada, o caso é grave. A pessoa vitimada deve então tomar injeções fortes e perigosíssimas. Se o cachorro não morrer, não há necessidade, pois ele não está contaminado. Como nosso cachorro estaria já morto, não poderíamos ter certeza se ele estava doente ou não. Por isso tivemos que arrumar um animal em um canil em uma cidade próxima, onde não haviam registros de raiva nem em cachorro nem em morcegos há cinco anos. Os canis funcionavam assim: um cachorro era recolhido da rua e ficava três dias esperando que alguém reclamasse por ele. Se ninguém o procurasse, após três dias ele era sacrificado. Por dia aconteciam de 5 a 10 sacrifícios nesse canil que eu visitei. Eles apoiaram a realização do filme e eu pude escolher um entre os corpos eliminados naquele dia. Foi com esse corpo que filmamos, já morto portanto. Ah, sim, a presença do cachorro na filmagem era muito desagradável, ainda mais depois de seu ventre aberto. Muitos atores se recusaram a colocar as mãos ali dentro e eu mesmo tive que fazê-lo nos planos fechados!

A trilha sonora é uma faixa do disco Ummagumma, do Pink Floyd. Por que escolheu essa música?
   A faixa chama-se “A Saucerful of Secrets”. No disco Ummagumma tem a versão ao vivo, que utilizamos. Era fundamental para minha concepção os aplausos finais. Tive a idéia desse filme ouvindo essa música e acho que ela se encaixa à perfeição com o que eu queria. Lembrando que o filme é praticamente um video-clip, não tem diálogos ou qualquer edição de som acrescentada à faixa. Bem, a música não é creditada por motivos óbvios!

A tomada final, na minha opinião, é o momento mais poderoso do filme, devido à longa exposição da imagem do cãozinho. Isso me lembrou o estilo de Werner Herzog, que costuma inserir cenas parecidas em seus filmes, chegando a deixar o espectador desconcertado. Em Juvenília, temos tempo de pensar que o cãozinho será a próxima vítima do grupo, ou que ele é mais civilizado do que o Homem, ou que vai vingar a morte do outro cachorro... O que, afinal, significa esta última cena?
   Nunca tinham feito essa comparação com o Herzog, que muito me honra. Para mim ele é o maior diretor de cinema vivo do mundo, penso que ninguém nunca foi tão longe quanto ele. Bem, o tempo de exposição desse plano é fundamental. O filme não se completa, ele recusa-se a acabar, ele obriga o espectador a ter uma reação, a tomar uma posição. Após a música encerrar, ainda faço um ou dois zooms, em silêncio, rumo ao cachorrinho. Está claro, ele somos nós, os espectadores, as testemunhas dessa história. Essa última foto foi dirigida pela Debora Waldman, que desenhou também o storyboard. Nessa hora eu estava na delegacia mais próxima, prestando esclarecimentos, pois um morador do entorno do set de filmagem (a sede atual da Cinemateca Brasileira, antigo Matadouro Municipal) nos denunciou. E a polícia que veio nos prender foi a mesma que havíamos solicitado para fazer o isolamento da área, mas que não compareceu alegando “falta de efetivo”!!!

Como foi a recepção do curta nos festivais em que foi exibido?
   Foi super mal exibido em festivais brasileiros na época, embora tenha se tornado muito conhecido nos bastidores, na classe cinematográfica. No exterior, ao contrário, ele foi exibido em uns 40 países e ganhou prêmios bem importantes na Itália e na Alemanha. Mas o maior deles foi o de Melhor Filme no festival Rencontres Internacionales Henri Langlois, na França, um dos mais renomados festivais de escolas de cinema do mundo. Para se ter uma idéia, no júri estavam, entre outros, a Bulle Ogier (atriz de O Discreto Charme da Burguesia) e a Caroline Champetier (fotógrafa de diversos filmes do Godard). Foi muito foda. Mas aqui no Brasil eu fiquei estigmatizado e levei sete anos até conseguir fazer outro filme!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Animaldiçoados 2010

   Mais um festival de cinema fantástico surge prometendo se inserir no calendário nacional, que aos poucos começa a oferecer boas opções para quem gosta do gênero. O Animaldiçoados, como o próprio nome indica, é um festival internacional de animação de horror, que acontecerá no Rio de Janeiro, no CCJF (Centro Cultural Justiça Federal), entre os dias 7 e 12 de setembro. As inscrições dos filmes acontecem agora no mês de março. Vale prestigiar e torcer para que seja um grande sucesso e retorne nos próximos anos. A dica do evento é da Carolinne Vieira, cineclubista de intensa atividade na região Nordeste e também em todo o resto do país.

Enquete: George A. Romero

   Quando decidi incluir a opção ‘nenhuma’ na enquete que perguntava “Qual outra obra de horror de George A. Romero merece ser refilmada?”, eu já imaginava que essa seria a mais votada. Não foi diferente: 82% dos votantes pediram um basta nos remakes de clássicos do bom velhinho de Pittsburgh. Somente dois, entre os cinco filmes da enquete, receberam votos: Martin (1976) teve dois cliques, enquanto que Monkey Shines (1988) recebeu um. Os demais - Season of the Witch (1972), The Dark Half (1993) e Bruiser (2000) - foram deixados em paz.
   Sexta-feira passada, dia 26, estreou nos Estados Unidos a nova versão de The Crazies (confiram abaixo o trailer), refilmagem da obra homônima - no Brasil lançada como O Exército do Extermínio - feita por Romero em 1973. O veterano diretor, cujos três primeiros filmes de mortos-vivos foram refeitos por outros cineastas nas décadas de 1990 e 2000, terá outro de seus clássicos do horror ganhando roupagem moderna: a refilmagem de Creepshow está programada para chegar às telas em 2011. O projeto está em fase de pré-produção, o que significa que ainda dá tempo de jogar areia nas engrenagens.

ATUALIZAÇÃO: Programação de filmes de horror na TV

   Depois de um mês em caráter experimental, dá para dizer que está funcionando perfeitamente o guia de filmes de horror na TV. O dispositivo, exclusivo deste blog, informa em tempo real quais filmes do gênero estão sendo exibidos neste momento e quais estão prestes a entrar no ar. Para contemplar o máximo de assinantes de TVs pagas por todo o país, a grade agora inclui os canais de filmes das operadoras Net, Sky, TVA e Embratel, totalizando cerca de 50 canais. O guia inclui os canais de cinema das redes TeleCine (Premium, Action, Light, Pipoca, Cult, HD e Pipoca HD), HBO (HBO, HBO 2, Plus, Plus-e, Family, Family-e, Cinemax, Cinemax-e, Max Prime e Max Prime-e), Turner (TNT, TCM, Space e I-Sat) e ainda Megapix, MGM, Universal, Studio Universal e SciFi. A grade também engloba os longas-metragens exibidos nos canais de variedades AXN, Warner, Sony, Fox, FX, Fox Life, A&E, People+Arts, Eurochannel, Film&Arts, GNT, Futura, TV Brasil, Canal Brasil, Animal Planet, Animax e Cartoon Network, além dos canais abertos - Cultura, SBT, Globo, Record, RedeTV!, Gazeta e Band.
   Continuo desejando que esse dispositivo seja útil para muita gente que gosta de ver filmes de horror na TV. Para ilustrar essa postagem, escolhi uma imagem nostálgica, de uma época em que assistir filmes de horror na televisão era uma experiência muito diferente, quase mágica: a figura sinistra da foto é Zacherley, um dos mais famosos apresentadores de sessões de horror da TV estadunidense, uma tradição que infelizmente pouco tivemos em nosso país. Fico imaginando como teria sido minha infância se tivesse uma figura dessas (ou a curvilínea Elvira, ou mesmo nosso Zé do Caixão...) apresentando filmes de horror na telinha!
Related Posts with Thumbnails

Canal Cine Monstro Rock Horror Show!!