Antes do advento do DVD e - principalmente - da internet, curtas-metragens ficavam restritos a uma pequena camada de cinéfilos, quase sempre estudantes de audiovisual. O restante nem sabia da existência desses filmetes, ou só ouviam falar a respeito, sem saber onde encontrá-los. Não é exagero dizer que a história do curta-metragem brasileiro ainda precisa ser devidamente contada. Para deixar minha contribuição nessa difícil empreitada, quero resgatar aqui um dos curtas nacionais mais impactantes que já tive o privilégio de assistir (na sala de cinema, onde seu efeito é ainda mais devastador!): Juvenília, escrito, produzido, dirigido e montado por Paulo Sacramento em 1994. Sacramento é diretor do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2004), produtor de Encarnação do Demônio (2008) e o mais premiado (e requisitado) montador do atual cinema brasileiro.
Há alguns anos, Juvenília foi motivo de polêmica numa lista de discussão da qual eu fazia parte, com os argumentos se limitando à questão do direito (ou não) de se matar um animal para fazer arte. Espero estar elevando a discussão com esta postagem, tentando ver além desse detalhe e buscar a essência do filme. Tenho certeza que Juvenília continua chocando e causando polêmica (duvido que esta não seja uma de suas propostas), mas espero que a oportunidade de (re)ver o filme possa melhorar as argumentações. Fica o aviso àqueles que ainda não conhecem o curta: Juvenília tem cenas explícitas de violência contra um cachorro. Quem não tiver estômago forte, é melhor nem assistir ao curta!

O filme, totalmente narrado por stills em preto e branco, mostra um grupo de jovens que, sem qualquer motivo aparente, decidem espancar um cachorro. O elemento chocante, até mesmo revoltante, é a maneira casual com a qual se dedicam à tarefa, rindo e se divertindo com a brincadeira. Como toda obra de arte, o curta é aberto a interpretações (muitas das que eu li são completamente desprovidas de inteligência), mas para mim é o retrato perfeito da doom generation, dos jovens tomados pelo tédio e pela absoluta falta de objetivos - algo como a ressaca pós-grunge. Um rebelde que golpeia o vácuo, sem sequer saber o motivo de sua explosão de violência.
A cópia do curta disponível aqui, via YouTube, foi retirada de um surrado VHS. Está em péssimas condições, mas plenamente assistível. O próprio Sacramento não tem uma cópia melhor, pois o curta nunca foi transferido para o formato digital. Até que isso seja providenciado, o vídeo quebra o galho. A seguir, uma breve entrevista que fiz este final de semana com o cineasta para contar um pouco sobre seu filho mais controverso.
Qual foi o processo usado para a realização de Juvenília? Foram feitas as fotografias e depois transferidas para 35 mm?
Sim, fizemos primeiramente um storyboard bem detalhado, e a partir dele encenamos com os atores e fotografamos ao invés de filmar. Uma vez batidas, reveladas e ampliadas as fotos, eu as filmei de uma maneira bem tosca, em VHS mesmo. Fui para uma ilha de edição de corte seco (VHS!!) e fiz um rascunho da montagem. Uma vez feito esse trabalho, minutei os tempos que precisava, filmei as ampliações das fotos em um table-top, que é basicamente uma câmera 35mm de cinema presa em um trilho vertical, apontada para uma base onde se prendem fotografias ou desenhos. É o equipamento usado (ou melhor, era!) para qualquer filme de animação. Essa montagem prévia no VHS foi fundamental pois tínhamos apenas duas latas de 35mm, ou seja, menos de 9 minutos de material virgem. Como o filme finalizado teria 7 minutos, veja o aperto! Bom, depois do table-top, revelamos o filme e fui para uma moviola já com o magnético transcrito para fazer a montagem. Era assim antes do advento da tecnologia digital, hoje seria tudo bem mais fácil e barato!
O filme causa incômodo no espectador por mostrar jovens saudáveis e alegres cometendo um ato abominável. Qual é a mensagem que o curta quer passar?
Como diria o Orson Welles, um filme morre quando vira veículo de uma mensagem. Não há moral da história, mas um sentimento muito forte que o filme provoca. Ele faz o espectador pensar, utilizando-se do cinema e da violência como um anti-espetáculo, algo realmente terrível. Ao final do filme, há uma quebra decisiva de perspectiva. Está claro que não estamos ao lado da barbárie.
Como foram realizadas as cenas de esquartejamento e evisceração do cachorro? O animal foi morto durante as filmagens?
Tínhamos um sério problema para realizar esse filme. Como mexeríamos com vísceras de um animal, havia a possibilidade de contaminar a equipe e o elenco com raiva, uma doença horrível. Um cachorro só transmite a raiva nos últimos dias de sua doença, então ele morre. Quando um cachorro morde uma pessoa, ele é preso e posto de quarentena. Se ele morrer nos três dias seguintes à dentada, o caso é grave. A pessoa vitimada deve então tomar injeções fortes e perigosíssimas. Se o cachorro não morrer, não há necessidade, pois ele não está contaminado. Como nosso cachorro estaria já morto, não poderíamos ter certeza se ele estava doente ou não. Por isso tivemos que arrumar um animal em um canil em uma cidade próxima, onde não haviam registros de raiva nem em cachorro nem em morcegos há cinco anos. Os canis funcionavam assim: um cachorro era recolhido da rua e ficava três dias esperando que alguém reclamasse por ele. Se ninguém o procurasse, após três dias ele era sacrificado. Por dia aconteciam de 5 a 10 sacrifícios nesse canil que eu visitei. Eles apoiaram a realização do filme e eu pude escolher um entre os corpos eliminados naquele dia. Foi com esse corpo que filmamos, já morto portanto. Ah, sim, a presença do cachorro na filmagem era muito desagradável, ainda mais depois de seu ventre aberto. Muitos atores se recusaram a colocar as mãos ali dentro e eu mesmo tive que fazê-lo nos planos fechados!
A trilha sonora é uma faixa do disco Ummagumma, do Pink Floyd. Por que escolheu essa música?
A faixa chama-se “A Saucerful of Secrets”. No disco Ummagumma tem a versão ao vivo, que utilizamos. Era fundamental para minha concepção os aplausos finais. Tive a idéia desse filme ouvindo essa música e acho que ela se encaixa à perfeição com o que eu queria. Lembrando que o filme é praticamente um video-clip, não tem diálogos ou qualquer edição de som acrescentada à faixa. Bem, a música não é creditada por motivos óbvios!
A tomada final, na minha opinião, é o momento mais poderoso do filme, devido à longa exposição da imagem do cãozinho. Isso me lembrou o estilo de Werner Herzog, que costuma inserir cenas parecidas em seus filmes, chegando a deixar o espectador desconcertado. Em Juvenília, temos tempo de pensar que o cãozinho será a próxima vítima do grupo, ou que ele é mais civilizado do que o Homem, ou que vai vingar a morte do outro cachorro... O que, afinal, significa esta última cena?
Nunca tinham feito essa comparação com o Herzog, que muito me honra. Para mim ele é o maior diretor de cinema vivo do mundo, penso que ninguém nunca foi tão longe quanto ele. Bem, o tempo de exposição desse plano é fundamental. O filme não se completa, ele recusa-se a acabar, ele obriga o espectador a ter uma reação, a tomar uma posição. Após a música encerrar, ainda faço um ou dois zooms, em silêncio, rumo ao cachorrinho. Está claro, ele somos nós, os espectadores, as testemunhas dessa história. Essa última foto foi dirigida pela Debora Waldman, que desenhou também o storyboard. Nessa hora eu estava na delegacia mais próxima, prestando esclarecimentos, pois um morador do entorno do set de filmagem (a sede atual da Cinemateca Brasileira, antigo Matadouro Municipal) nos denunciou. E a polícia que veio nos prender foi a mesma que havíamos solicitado para fazer o isolamento da área, mas que não compareceu alegando “falta de efetivo”!!!
Como foi a recepção do curta nos festivais em que foi exibido?
Foi super mal exibido em festivais brasileiros na época, embora tenha se tornado muito conhecido nos bastidores, na classe cinematográfica. No exterior, ao contrário, ele foi exibido em uns 40 países e ganhou prêmios bem importantes na Itália e na Alemanha. Mas o maior deles foi o de Melhor Filme no festival Rencontres Internacionales Henri Langlois, na França, um dos mais renomados festivais de escolas de cinema do mundo. Para se ter uma idéia, no júri estavam, entre outros, a Bulle Ogier (atriz de O Discreto Charme da Burguesia) e a Caroline Champetier (fotógrafa de diversos filmes do Godard). Foi muito foda. Mas aqui no Brasil eu fiquei estigmatizado e levei sete anos até conseguir fazer outro filme!