CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Season of the Witch (1972)

   Possivelmente o pior filme dirigido por George A. Romero, este Season of the Witch foi sua segunda investida no horror, depois da frustrante tentativa de se fazer cinema mais ‘sério’ com There’s Always Vanilla. O filme de estréia do diretor, claro, é Night of the Living Dead. Originalmente intitulado Hungry Wives e depois Jack’s Wife e relançado dez anos depois com o nome Season of the Witch, o longa - e bota longa nisso: o filme completo tem 130 minutos, reduzidos para ainda penosos 105 na versão em DVD - é um equívoco em quase todos os níveis, mas ainda dá para tentar ver algum aspecto positivo no filme.
   Um desses méritos talvez fosse o fato de se tratar de um filme adulto com mulheres de meia idade discutindo suas vidas sexuais. Mas quando constatamos o quanto essas mulheres são desagradáveis (o elenco todo é formado por amadores desprovidos de qualquer talento dramático) e que os diálogos parecem improvisados e sem a mínima inspiração, logo isso se torna outra das fraquezas do filme. O calcanhar-de-aquiles de Romero parece mesmo ser a direção de atores: cada um faz o que bem entende em cena, e quando não há diálogos, a expressão dos personagens fica entre a cara de pateta e a completa ausência de emoção.
   A esposa de Jack é uma mulher de meia-idade desgostosa com o marido grosseirão e à beira da depressão por não poder saciar o seu desejo sexual ainda ardente. Nas reuniões com outras mulheres de sua faixa etária, ela se sente deslocada e sem graça, até que descobre o maravilhoso mundo da bruxaria. Ela se arrisca a comprar umas quinquilharias numa lojinha especializada no tema - durante esta cena toca a canção “Season of the Witch”, de Donovan, o que explica o título pelo qual esse filme ficou mais conhecido - e começa a fazer uns feitiços caseiros. O primeiro deles é para atrair até sua casa um rapaz que estava saindo com sua filha. O garotão chega e eles fazem sexo selvagem e suarento.


   Tivesse sido realizado com mais empenho e talento, certamente seria um bom filme e hoje seria lembrado por sua relevante posição feminista. Há inclusive quem enxergue nuances bergmanianas na obra. O tema da mulher frustrada sexualmente que tem pesadelos com um homem violento invadindo sua casa certamente tem potencial dramático e interessantes implicações freudianas. Entretanto, num balanço geral, o filme não é mais do que enfadonho, arrastado. A cena da maconha parece durar para sempre e as discussões entre mãe e filha não se justificam. Os únicos momentos realmente inspirados são os pesadelos da mulher atacada pelo homem mascarado. Nestas cenas, a banalidade dá lugar a tomadas com iluminação marcada por fortes contrastes de claro e escuro e montagem dinâmica, com ângulos inventivos que remetem obrigatoriamente a Night of the Living Dead.
   Romero a seguir dirigiu o irregular The Crazies e seguiu com os dois pés fincados bem fundo no horror. Mesmo contrariado, virou um cineasta filiado ao gênero e, finalmente, resignou-se à condição de pai dos zumbis quando decidiu dar continuidade à saga dos mortos-vivos, a qual até o momento conta com os capítulos Dawn, Day, Land, Diary e Survival. São os aficionados por essas obras que têm interesse em olhar para o passado para conhecer o que mais o cineasta tem a oferecer; às vezes se deparando com decepções como esta.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Christopher Cazenove (1943-2010)


   Caso não tenha ficado claro o bastante na postagem do filme O Buraco da Agulha, foi uma homenagem póstuma a Christopher Cazenove, ator britânico falecido ontem, vítima de septecimia. Ele mal aparece no trailer do filme e seu papel é menor (em comparação ao de Donald Sutherland, o verdadeiro dono da película), mas optei por colocar esse filme porque o trailer é muito bom. O filme de horror mais importante da carreira de Cazenove é Uma Voz ao Telefone (The Fantasist, 1986), dirigido por Robin Hardy, mais conhecido por sua obra-prima O Homem de Palha. Infelizmente não encontrei trechos desse filme para postar aqui, mas estas imagens devem quebrar o galho (os scans são contribuição do Jaime Palhinha, muito mais fã do ator do que eu).


   Cazenove contracenou com um elenco eclético - William Shatner, Barbara Eden, Roddy McDowall, Morgan Fairchild, Olivia Hussey e Traci Lords! - no telefilme Assassinato na Ilha dos Mortos (Dead Man’s Island, 1996), uma trama de mistério à moda antiga, e fez outras incursões no horror em episódios das séries Hammer House of Horror, Hammer House of Mystery and Suspense e Tales from the Crypt. Porém, talvez seu papel mais significativo seja o de Ben Carrington na popular soap opera Dinastia (1986-7), na qual contracenou com John Forsythe, também falecido recentemente.

Nike of the Living Dead: Tiger Woods


   “Você aprendeu alguma coisa?”. Estreou ontem à noite na TV dos Estados Unidos este sinistro comercial da Nike com o golfista Tiger Woods. O comercial, apelidado pela mídia de Nike of the Living Dead, está sendo considerado um dos momentos mais macabros da história da televisão norte-americana, pois a voz que se ouve é do pai de Tiger, morto em 2006, que retorna do túmulo para passar um sermão no filho. A repercussão geral foi de total incredulidade diante do mau gosto e da concepção francamente mórbida da campanha. Ou seja: nós adoramos!
   No ano passado, Tiger se envolveu num escândalo sexual que continua fascinando a conservadora sociedade norte-americana. O caso é explorado incessantemente pela mídia do país, ao ponto de o golfista ter se submetido à humilhação pública se confessando viciado em sexo. Ele se declarou arrependido e diz estar passando por um tratamento, mas o consenso da crítica é que sua motivação para essa retratação é meramente monetária, pois ele é viciado mesmo no vil-metal.
   Com essa imagem em preto e branco, tendo um herói negro (ops... afro-americano!) como protagonista e mortos ressuscitando, só ficou faltando mesmo George Romero na direção do comercial.

O Buraco da Agulha (1981)

Homenagem a Christopher Cazenove (1943-2010).




Festival de Bruxelas 2010

   Tem início hoje a 28ª edição do Festival Internacional de Filme Fantástico de Bruxelas, na Bélgica, evento que já se tornou tradicional no circuito e faz parte da federação européia de festivais. A competição internacional deste ano mescla filmes já conhecidos pelo público brasileiro, como Orphan e Thirst, com outros mais obscuros, como 5150 Rue des Ormes, Christopher Roth, Cold Souls, Hidden, Ink, Ondine, Possessed, Summer Wars e Symbol. A competição européia confronta os filmes 1, Beacon 77, Cargo, Detour, The Door, Glenn 3948, Ondine, Outcast e Solomon Kane. O festival tem mais duas categorias, intituladas 7th Orbit e Thriller Award, apresentando títulos como Deliver Us from Evil, Rampage, Life & Death of a Porno Gang e Valhalla Rising.
   O festival contará com diversos eventos paralelos e terá convidados ilustres como Tobe Hooper, Ole Bornedal, Dee Wallace, Takashi Shimizu e o arroz-de-festa Uwe Boll. Também acontecerão cerimônias especiais elegendo Luc Besson, Lance Henriksen e Harry Kümel como os novos Cavaleiros da Ordem do Corvo (o pássaro preto é o símbolo do festival), a maneira encontrada pelos organizadores para homenagear os grandes nomes que tanto fizeram pelo cinema fantástico. O BIFFF vai até o dia 20 de abril, então ainda dá tempo para você reservar sua passagem para a Bélgica.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Mystery! (1984-1988)


   O programa Mystery!, exibido no canal PBS - espécie de TV Educativa dos ianques - foi criado em 1980 para levar ao espectador estadunidense histórias de crime, mistério e suspense importadas da televisão britânica, incluindo contos clássicos de detetive adaptados da obra de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Isso seria mais do que o suficiente para que a série fosse um grande sucesso, porém muitos outros detalhes a transformaram num autêntico clássico da telinha.
   Os créditos de abertura foram criados por ninguém menos do que o ilustrador Edward Gorey, célebre por seus desenhos mórbidos e macabros, mas ao mesmo tempo charmosos, engraçados e encantadores. Quem acha Tim Burton ‘gênio’ ou mesmo original com seu horror liberado para menores precisa conhecer melhor a obra de Gorey. Quem se interessar em saber mais sobre ele, tem uma ótima entrevista com o ilustrador - já falecido - no site da PBS, na qual Gorey rejeita sua relação com o horror, comparado ao cartunista Charles Addams ou mesmo com Stephen King. Derek Lamb, o animador responsável pela abertura do programa, conta sua relação com Gorey neste ótimo depoimento, no qual revela os bastidores da criação.
   Durante algumas temporadas, Mystery! exibiu episódios das séries protagonziadas pelo britânico Jeremy Brett como o detetive Sherlock Holmes, produzidas pela TV inglesa Granada. Brett é considerado por muita gente como o melhor intérprete do personagem criado por Conan Doyle, e estas adaptações das histórias originais do escritor estão entre as mais fiéis já realizadas (não tenho certeza se essas séries chegaram à TV brasileira, mas algumas histórias foram lançadas em VHS por aqui). A primeira série foi The Adventures of Sherlock Holmes (1984-1985), com 13 episódios, seguida por The Return of Sherlock Holmes (1986-1988), com 11 episódios, e ainda os longas The Sign of Four (1987) e The Hound of the Baskervilles (1988). Todas foram exibidas no programa Mystery! Brett seguiu interpretando o famoso detetive em séries curtas (The Case-Book of Sherlock Holmes e The Memoirs of Sherlock Holmes) até sua prematura morte em 1995, vitimado por um ataque cardíaco.
   O anfitrião responsável por introduzir estes episódios na antologia da PBS não poderia ser mais adequado: o veterano Vincent Price, ainda carismático e fascinante mesmo septuagenário, mantendo sua postura aristocrática dos áureos tempos. Selecionei nesta postagem as aberturas de todos os episódios apresentados por Price, uma valiosa coleção para quem cultua este ícone do horror. Nas temporadas seguintes do programa, Price foi sucedido pela maravilhosa Diana Rigg, que assumiu o posto de anfitriã.
   A combinação precisa entre a graça de Gorey, a imponência de Price, a dignidade de Brett e o brilhantismo de Conan Doyle, reunidos num único programa, é um daqueles momentos em que acreditamos que, sim, às vezes as coisas podem ser perfeitas.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Frankenstein (1910)


   Cem anos atrás, precisamente no dia 18 de março de 1910, a companhia produtora de Thomas A. Edison apresentava sua assombrosa versão cinematográfica do clássico Frankenstein, livro escrito por Mary Shelley quase um século antes. O filme é histórico por ter sido uma das primeiras importantes investidas do cinema estadunidense no gênero, e mesmo que seja marcado por situações melodramáticas características do cinema mudo, com muita pantomima e algumas soluções ingênuas, é bem mais interessante do que muitos estudiosos de cinema fizeram parecer ao longo de algumas décadas. O fato é que o filme permaneceu obscuro por muito tempo, chegando a ser dado como perdido, reaparecendo em sua versão integral somente neste século. Vale muito a pena ver essa obra seminal - tem apenas 12 minutos de duração - e também baixar a versão do filme no formato MP4 para enriquecer sua filmoteca.

Enquete: Stefanie Powers

   Sim, ela foi metade do Casal 20, mas Stefanie Powers nem sempre foi uma madame ricaça que afastava as horas de tédio investigando mistérios em companhia do marido playboy. Por algum tempo, Stef foi uma espécie diferente de Sra. H. ‘H’ de horror. Quem a conhece somente pelas pueris e ingênuas aventuras televisivas talvez nem consiga imaginar Stefanie como uma estrela de filmes de horror, mas ela deixou sua marca em algumas boas produções do gênero.
   Tinha 20 anos quando fez Escravas do Medo (Experiment in Terror, 1962) e em seguida estrelou duas das melhores produções de suspense da Hammer inglesa: Fanatismo Macabro (Fanatic, 1965) e Num Crescendo de Violência (Crescendo, 1970). Stef está encantadora em Fanatismo Macabro, no qual contracena com uma especialmente maligna e manipuladora Miss Tallulah Bankhead, em sua última aparição nas telas. O duelo entre as duas estrelas, um hipnotizante jogo de gato e rato, merece constar em qualquer antologia de horror psicológico. O filme chegou a ser exibido no saudoso Cine Trash, da Band.


   Antes de se consagrar como a madame investigativa de Casal 20, Stefanie Powers atuou também em episódios das séries de televisão Enigma e Sexto Sentido, dedicando a maior parte de sua carreira a produções para a telinha. Seu trabalho mais recente no gênero suspense/horror é o telefilme Alguém na Escuridão (Someone Is Watching), realizado no ano 2000. Quem viu de perto a estrela na edição do ano passado do festival de cinema de Manaus garante que Stefanie continua linda e simpática - e já está chegando perto dos 70 anos!

   Uma frase famosa dela talvez resuma essa aparente contradição entre a delicadeza feminina e a força de uma ‘rainha do grito’: “O problema de falarmos com gentileza é que infelizmente algumas pessoas não lhe dão ouvidos até que você grite”.
   A enquete das esquecidas fez pouco sucesso entre os visitantes do blog (vocês estão enjoados de mulher, não é??) e terminou com Stefanie Powers vencendo com 27%, seguida por Sigourney Weaver com 18%, Asia Argento, Caroline Munro e Edwige Fenech empatadas com 13%, Kim Novak com 9% e Julie Adams com 4%. Eliza Dushku e Julie Strain, tadinhas, foram escandalosamente ignoradas por vocês, leitores insensíveis.
   As imagens desta postagem são todas do acervo de Jaime Palhinha, que cedeu mais um pouco de seu raro material, incluindo os folhetos brasileiros dos três primeiros filmes de horror feitos pela atriz.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Psicose de Gus Van Sant: comédia

   Finalmente alguém descobriu a razão de ser do desastroso remake que Gus Van Sant fez do clássico Psicose em 1998: é uma comédia! Confira abaixo a imagem do guia de programação do canal pago Space. Agora sim o filme faz sentido.

   Quem quiser dar boas risadas, o filme será exibido na madrugada de terça para quarta-feira no Space. Quem preferir conferir como e por que um clássico nunca perde a majestade, o original de Hitchcock será exibido no TCM no sábado, dia 10, às 22h, e no TeleCine Cult na quarta, dia 21, às 12h15, e na sexta, dia 23, às 8h.

Burger King: Open Late

sábado, 3 de abril de 2010

Festival Hitchcock: O Homem Que Sabia Demais

   Velhos hábitos são difíceis de morrer: pelo menos uma vez ao ano algum canal de TV programa um festival de clássicos de Alfred Hitchcock. Ainda bem! São filmes que, por mais que tenham sido reprisados, preservam sua força e não perderam nadinha de seu impacto, o que faz com que sejam descobertos também pelas novas gerações. Seus filmes não são meras relíquias para cinéfilos: continuam sendo entretenimento de primeira qualidade, ao mesmo tempo em que oferecem inesgotáveis temas para estudos mais profundos sobre seu significado e sobre o próprio processo de criação artística.
   O ciclo Hitchcock: O Homem Que Sabia Demais, do canal pago TCM (Turner Classic Movie), apresentará sessões duplas de clássicos do diretor todas as quartas e sábados de abril, começando hoje à noite com as obras-primas Um Corpo Que Cai e Pacto Sinistro. Ao todo são quinze longas, incluindo três dos melhores de sua fase britânica, e um documentário de curta duração. Nem precisa dizer que é um festival imperdível, certo?
   Hitchcock é uma paixão antiga minha que e durante anos me dediquei a estudar profundamente sua obra. Em agosto de 2008 organizei e ministrei em Fortaleza, no Ceará, o curso O Cinema de Alfred Hitchcock, o qual pretendo continuar lecionando em outras cidades. Basta me convidarem! Colocarei em breve aqui no blog a ementa do curso para que os interessados entrem em contato comigo e possamos levar adiante esse projeto. Garanto que o curso é bacana e cheio de surpresas, mesmo para quem já é iniciado no universo do Mestre do Suspense!
   Para ilustrar a postagem, reproduzo as páginas da edição histórica da revista Vanity Fair de março de 2008, que convidou alguns dos maiores astros e estrelas de Hollywood para recriar cenas famosas dos clássicos de Hitchcock. O resultado é encantador, com atrizes do calibre de Charlize Theron, Scarlett Johanson, Naomi Watts, Jodie Foster e Marion Cotillard, além das veteranas Eva Marie Saint e Julie Christie, dando nova roupagem a momentos emblemáticos do cinema hitchcockiano.

 
Programação completa do festival

Um Corpo Que Cai, sábado 3, 22h
Pacto Sinistro, sábado 3, 0h10
Perfil de Hitchcock: Os Primeiros Anos, quarta 7, 22h
Sabotagem (O Marido Era o Culpado), quarta 7, 22h30
Disque M para Matar, quarta 7, 23h50
Psicose, sábado 10, 22h
A Dama Oculta, sábado 10, 23h55
Suspeita, quarta 14, 22h
Os 39 Degraus, quarta 14, 23h45
Janela Indiscreta, sábado 17, 22h
O Homem Errado, sábado 17, 0h
A Sombra de uma Dúvida, quarta 21, 22h
Um Casal do Barulho, quarta 21, 23h55
Intriga Internacional, sábado 24, 22h
Perfil de Hitchcock: Os Primeiros Anos, sábado 24, 0h20
O Homem Que Sabia Demais, quarta 28, 22h
A Tortura do Silêncio, quarta 28, 23h20

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Terceiro Tiro (1955)

Homenagem a John Forsythe (1918-2010).


   A antológica entrada em cena de John Forsythe, cantando “Flaggin’ the Train to Tuscaloosa”, de Raymond Scott, na comédia macabra dirigida por Alfred Hitchcock, que discute sexo e morte com desconcertante casualidade, ao ponto de ser uma das obras ainda incompreendidas por parte do público.

Christopher Lee: Charlemagne, by the Sword and the Cross (2010)


   Não é engraçado ou ridículo como alguns tentam fazer parecer; também não é nenhuma extravagância metaleira como outros tantos celebram. Eis, enfim, que foi lançado, dia 15 de março, o tão comentado álbum épico de symphonic metal interpretado por Sir Christopher Lee, o grande e cinzento Saruman, o conde sideral Dooku, sua majestade satânica, Drácula. O disco, uma obra conceitual ambiciosa, realizada com a devida grandiosidade, é intitulada Charlemagne, by the Sword and the Cross e narra a história do imperador romano Carlos Magno. O estilo operístico e sinfônico, cruzado com guitarras pesadas e bateria marcante, valeu ao CD essa suposta filiação ao metal, mas recomenda-se discrição: há menos heavy metal nesta sinfonia do que a maioria dos envolvidos parece querer reconhecer. Nada de guitarras flamejantes, riffs dilacerantes, massacres a dois bumbos, contrabaixos nucleares. Nem sequer um mísero solo estilo guitar hero. O que temos é uma tímida textura de guitarra com distorção e marcação baixo-bateria formando uma base roqueira... e isso apenas às vezes.
   Controvérsias metalúrgicas à parte, o álbum é agradável aos tímpanos, num sentido um tanto exótico e bizarro; tanto quanto pode ser uma ópera rock sinfônica sobre um imperador romano que tem a voz de trovão de um ídolo do horror no alto dos seus 87 anos de idade. De sua parte, Lee surpreende favoravelmente com um vocal sólido, sem vacilos, demonstrando inclusive alguma inclinação roqueira no refrão pulsante de “The Bloody Verdict of Verden”, a mais animada e metaleira do disco, e também faz bonito na suave “Starlight”, quase uma balada romântica. Vale lembrar que Chris Lee não é debutante no estilo: ele narrou algumas canções da banda italiana de metal sinfônico Rhapsody e há alguns anos gravou uma vinheta em vídeo para um show da banda Manowar proclamando “heavy metal will never die!”. Antes disso, o veterano ator empregou de maneira brilhante sua notável voz de barítono na canção “The Tinker of Rye”, da trilha sonora de O Homem de Palha (1973), na qual faz dueto com Diane Cilento.

Pela espada e pela cruz

   A autoria dessa extravagância musical é Marco Sabiu, que tem folha corrida no universo do pop rock e aqui é responsável pelas melodias. As letras - algumas quase didáticas, estilo almanaque - foram escritas por Marie-Claire Calvet, estudiosa do assunto, e contam com a voz professoral de Christina Lee, filha do homem, que narra com seu enfático bloody British accent. Contado (e cantado) em cinco atos, o épico começa no ano 814 d.C., no leito de morte de Carlos Magno, primeiro imperador do Sacro Império Romano. Carlos Magno é também conhecido como Carlos, o Grande - ou Carolus Magnus, em latim, Karl der Große, em alemão, e Charlemagne, em francês.
   O próprio Lee assume o personagem, do qual ele afirma ser descendente direto por parte de mãe. Carlos Magno, nascido há exatos 1263 anos, em 2 de abril de 747, foi rei dos Francos e dos Lombardos, tendo relevância histórica não somente por ter sido o fundador das monarquias da França e Alemanha, mas também por ser considerado o pai de toda a Europa. Numa de suas campanhas mais vitoriosas, derrotou os saxões e os converteu à força ao Cristianismo, resgatando a supremacia religiosa dos romanos.


   Portanto, não espere uma tolice oportunista e auto-indulgente como as gravações ‘musicais’ de William Shatner e Leonard Nimoy (só para citar os piores). Ou as investidas de Lon Chaney Jr. (Spider Baby) e Boris Karloff (Mad Monster Party?) no pop inocente. Christopher Lee, como sempre, leva muito a sério o que faz e merece respeito por não fazer concessões. O flerte com o heavy metal soa meramente circunstancial, uma jogada de marketing esperta. Musicalmente, o álbum fica mais próximo da trilha incidental de um épico histórico imaginário (alguns trechos lembram muito a partitura de Drácula, de Wojciech Kilar), com temática digna de um Manowar e vocalizações que não estariam deslocadas num musical da Broadway.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

2001: A Space Odyssey monolith action figure

   O melhor 1º de Abril deste ano para tirar sarro de nerds e geeks em geral foi esta action figure anunciada no site da ThinkGeek. Garanto que muita gente compraria se lançassem de verdade!

A Pequena Sereia (1836)


   Pensei em fazer uma postagem de 1º de Abril, mas desisti porque geralmente essas brincadeiras são muito bobas (o dia começou com um amigo tentando me convencer de que o Jerry Lewis havia morrido...). Mas pelo menos uma das pegadinhas do dia de hoje eu achei muito criativa e mais ou menos no espírito deste blog: o Museu de História Natural de Copenhague, na Dinamarca, apresentou ao público este esqueleto que seria da mítica Pequena Sereia. A simpática personagem, que certamente é mais conhecida pelas novas gerações através do desenho da Disney, é na verdade uma criação do escritor de contos de fadas Hans Christian Andersen (1805-1875), que também era dinamarquês e amanhã, dia 2, completa 205 anos de nascimento. A brincadeira espirituosa e com essa louvável motivação cultural me levou a reproduzir a foto aqui no blog e deixar a dica para quem ainda não conhece a obra do escritor. Basta uma rápida clicada no Google para encontrar os contos de Andersen traduzidos para praticamente todas as línguas. Porém, quem lê alemão ou gosta de ver garranchos quase ilegíveis pode conhecer os manuscritos originais de vinte contos de fadas do escritor, incluindo as 35 páginas de A Pequena Sereia (1836), clicando neste endereço.

A Família Addams (1973-1975)



A Família Addams
The Addams Family. EUA, 1973. Criado por David Levy
   A macabra família surgida no cartoon de Charles Addams desembarcou na TV na clássica série cômica da década de 1960, mas em 1973 foi transformada em desenho animado, numa produção Hanna-Barbera. Os Addams são extravagantes e às vezes mórbidos, mas sempre bem-intencionados. As confusões provocadas por Gomez, Mortícia, Vandinha, Feioso e Tio Chico surgem pelo fato de não se darem conta do quanto são diferentes das demais pessoas. A crítica ao american way of life que marcava a série live-action dá lugar a piadas sobre a ingenuidade da família em relação ao preço das coisas e à fortuna que possui. Uma versão moderna foi ao ar em 1992.

Don Drácula (1982)


Don Drácula
Don Dracula. Japão, 1982. Criado por Osamu Tezuka
   Nem mesmo a falência da companhia que produziu este anime, depois de apenas oito episódios concluídos, impediu que esta paródia de Drácula se tornasse um cult. Cansado de ser caçado por seu nêmesis, Van Helsing, o vampiro parte para o Japão acompanhado da filha Sangria e do fiel ajudante Igor. Chegando lá, morde Blonda, uma gorducha que passa a persegui-lo. Já a adolescente Sangria tenta se adaptar ao novo lar, levando uma vida relativamente normal (pelo menos para alguém que costuma dormir num caixão!).

Monet: Os 100 melhores desenhos de todos os tempos


   A edição de aniversário da revista Monet, publicação vinculada aos canais da operadora de TV a cabo Net, traz em sua matéria de capa uma enquete com os 100 melhores desenhos animados de todos os tempos. Colaborei escrevendo 25 verbetes para esta matéria, entre os quais dois são desenhos de horror (Don Drácula, nº 81, e A Família Addams, nº 84), cujos textos postarei em seguida aqui no blog.
   O bacana dessa eleição - para a minha completa surpresa - é que o grande vencedor foi ninguém menos do que Scooby-Doo! Minha paixão por esse cachorrão vem literalmente da infância e é o principal motivo de eu ter ficado tão fascinado pelas coisas do horror desde muito cedo. Tanto que até hoje adoro os desenhos do Scooby, mesmo a série nova, que tem umas sacadas geniais (porém, como quase todo mundo, detesto o Scooby-Loo, é bom deixar claro!).
   Achei uma façanha e tanto Scooby ter desbancado Os Simpsons, desenho que eu imaginava ser imbatível em qualquer lista de melhores de todos os tempos, mas que desta vez teve que se contentar com o vice-campeonato. Scooby-dooby-dooooooo...!

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Retrato de Dorian Gray (1958)

   É um chororô antigo - porém necessário - reclamar do quanto nosso país não tem memória (para certas coisas, pelo menos). Uma delas é a televisão. Exceto quando a Globo faz algum aniversário redondo (40 anos, 50 anos...), pouco se faz para que sejam resgatados programas antigos, históricos, momentos inesquecíveis. E não adianta mostrar trechinhos de 30 segundos ou poucos minutos... tem que existir um resgate integral de programas que, do jeito que estão, permanecerão condenados a poucas linhas em livros de referência e a deixar o resto à imaginação de cada um.


   No momento em que os espanhóis - para citar apenas um exemplo - resgatam sua história televisiva do jeito que podem, colocando à disposição preciosidades como a minissérie ¿És Usted el Asesino? e a antologia Histórias Para No Dormir, só nos resta sonhar o que deve ter sido esta adaptação de O Retrato de Dorian Gray estrelada por Tarcísio Meira em 1958. As poucas fotografias que sobreviveram para contar história mostram um cuidadoso efeito de maquiagem que exteriorizam o processo de decadência de Dorian Gray.
   Esta dramatização do clássico de Oscar Wilde foi exibida originalmente no programa TV de Vanguarda, da TV Tupi, canal 3 de São Paulo. O rapaz atrás de Tarcício Meira na primeira foto se parece muito com Ronald Golias (talvez num papel sério, ou como um alívio cômico... como podemos ter certeza?); na segunda foto, quem aparece em primeiro plano é David Neto. O resto... fica para a sua imaginação.

Toy Story 3 (2010)

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