Os primeiros anos da década de 1970 marcaram o esgotamento do formato do horror gótico inglês consagrado pela produtora Hammer. O encantamento sobrenatural de Drácula e as consequências desastrosas das experiências de Frankenstein já não faziam mais efeito, mesmo com elementos satanistas e de magia negra cada vez mais presentes nos enredos. O mercado do gênero era propício para a renovação e o futuro do horror inglês passava às mãos de cineastas independentes, dentre os quais merece destaque Pete Walker, nosso personagem desta série de postagens. Típico artesão do submundo exploitation, adepto do cinema sem um pingo de vergonha na cara, Walker começou a carreira realizando filmes eróticos baratos que lograram algum sucesso dentro de seu nicho. Sua transição para o horror foi natural, repetindo os passos de Herschell Gordon Lewis e de outros colegas com a mesma inclinação sensacionalista.
“Pete Walker é uma espécie de enigma”, pondera Andy Boot, autor do livro Fragments of Fear (1999), e a seguir questiona: “ele é de fato o autor responsável por um punhado de filmes de horror de baixo orçamento que misturam o gótico suburbano com grand guignol numa receita sanguinária destilada com notável precisão, ou é um idiota sem talento que de alguma maneira descobriu uma vertente do horror que, se não é louvável, pelo menos é original?”. É compreensível que os ingleses sejam exigentes quanto aos seus ‘homens do horror’, tendo visto gente do nível de Alfred Hitchcock, Michael Powell, Terence Fisher e Freddie Francis contribuindo tanto com o gênero. Entretanto, é exagero classificar Walker como um idiota sem talento. Portanto, diante das possibilitades propostas por Boot, só nos resta considerá-lo o descobridor de uma nova maneira de fazer cinema, inserindo horrores inomináveis num cenário da mais proverbial hipocrisia suburbana. Mas isso só aconteceria mais adiante; para começar, Walker apresentou suas armas num thriller de apelo apenas moderado.
A curiosa e memorável sequência de créditos de abertura de Die Screaming Marianne (1971) é uma extravagante combinação de sexploitation com o estilo espalhafatoso dos filmes de James Bond, com a sensual Susan George - a Marianne do título - sacolejando o corpo com entusiasmo num autêntico clima da festiva Swinging London. Tendo surgido no mercado do cinema erótico, era natural que Walker fosse fascinado pela sexualidade libertina dos jovens ingleses da época e muitas protagonistas de seus filmes de horror surgiam deste cenário.

Marianne é uma dançarina go-go perseguida incansavelmente por assassinos a mando de seu próprio pai, que deseja se apoderar de uma fortuna e documentos importantes que somente a moça pode resgatar do banco. A conspiração da qual ela é vítima só se torna clara perto do final, mas o desenvolvimento do roteiro, escrito por Murray Smith, é enfadonho, arrastado. Talvez a ambição do enredo, que aparentemente tenta evocar alguma inspiração hitchcockiana em suas implicações psicológicas, estivesse acima da capacidade da direção de Pete Walker àquela altura. A narrativa vertiginosa e enigmática das primeiras cenas, com Marianne fugindo de seus perseguidores anônimos e pulando para um casamento precipitado com um rapaz que acabou de conhecer, logo descamba para uma convencional história da garota em fuga, sem muito para oferecer.
Mesmo assim, há elementos intrigantes para se descobrir no filme, como o papel do destino na vida dos personagens, com encontros furtivos mais tarde se revelando menos casuais do que parecem a princípio. A sexualidade problemática combinada com situações de perigo ainda não atinge os níveis perturbadores dos demais filmes do diretor, que só mergulharia de vez no horror carregado de tintas grotescas três anos depois, mas já há um certo clima de estranheza que o torna interessante de uma maneira muito particular. Certamente o mais fraco de todos os filmes do ciclo de horror de Pete Walker, ainda guarda uma surpresa para a cena final. Porém, o excesso de reviravoltas já tratou de diluir parte do impacto e o filme termina num clima decepcionante.