A breve enquete - que durou apenas cinco dias - sobre as impressões dos leitores acerca do filme Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, teve participação apenas modesta dos visitantes, mas terminou com arrasadores 85% a favor de “vi e gostei”. Outros 10% disseram “não vi ainda, mas pretendo ver”, e poderão fazê-lo hoje à noite, às 23 horas, pois o filme será reprisado no Canal Brasil. Apenas um visitante, representando 5%, cravou “não vi e nem pretendo ver”, enquanto que ninguém clicou em “vi e não gostei”, o que parece um voto de aprovação à obra-testamento de Mojica.
sábado, 24 de abril de 2010
sexta-feira, 23 de abril de 2010
The Flesh and Blood Show (1972)
Um ano depois do lançamento do thriller Die Screaming Marianne (1971), o britânico Pete Walker voltou ao horror aderindo ao estilo de cinema que se convencionou rotular de grand guignol, a violência física e explícita, repleta de cenas de mutilação e esquartejamento. Sua associação com essa tendência não poderia ter surgido de maneira mais significativa do que com o shocker The Flesh and Blood Show (1972), cujo cenário é justamente o palco de um teatro especializado em espetáculos sensacionalistas. O enredo proposto pelo roteirista Alfred Shaughnessy é simples e ordinário: um grupo de jovens atores se reúne num velho teatro abandonado localizado num pier desativado, onde a trupe deve ensaiar uma comédia erótica. Porém, pouco depois de chegarem ao local, os jovens começam a ser mortos brutalmente por um homicida misterioso. A premissa é similar às tramas de mistério e assassinato de Agatha Christie, incrementado com banho de sangue e criatividade homicida, com uma contagem de cadáveres digna dos exemplares slasher que surgiriam nos próximos anos.
O cenário isolado, arrepiante e sinistro como qualquer teatro vazio, é ideal para provocar sustos e sobressaltos, mas o excesso de personagens - e, consequentemente, de potenciais suspeitos - acaba tornando a trama um bocado tediosa de se acompanhar. Curiosamente, a premissa não é muito diferente de Ensaio Geral: A Noite das Fêmeas (1976), interessante suspense dirigido por Fauzi Mansur, no qual também acontece uma série de crimes misteriosos em meio a um grupo teatral. Pete Walker compensa da maneira mais básica a carência de maiores qualidades no roteiro: cenas de sexo. O elenco de beldades escalada para o filme é notável, todas aparecendo mais do que à vontade em cena, mostrando que Walker ainda não havia se livrado totalmente dos vícios de sua carreira no sexploitation.
O diferencial do filme é a sequência final de flashback, rodada em 3D, quando é revelada a identidade do assassino, mas infelizmente esse trecho está em preto e branco na versão lançada em DVD, perdendo todo o efeito tridimensional. Mais convencional e careta do que a investida anterior de Pete Walker no cinema de horror, The Flesh and Blood Show é também mais divertido do que seu predecessor. Não oferece grandes desafios intelectuais e é narrado sem maiores ambições, porém é um prazeroso exemplar baseado na tradicional fórmula de pessoas presas num lugar sombrio e ameaçadas por um assassino misterioso. Nos filmes seguintes, Walker enfim mostraria ao que veio e passaria a exercer um estilo mais único.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Mulher Objeto (1981)
Dirigido por Sílvio de Abreu em 1981, antes de ele se tornar um noveleiro de mão cheia, Mulher Objeto é um drama de suspense que reforça o conceito de que o cinema popular brasileiro exige urgente revisão, em especial o subgênero conhecido como pornochanchada, que na cabeça da maioria das pessoas ainda é sinônimo de comédia erótica apelativa.
Enfileirando referências que passam por obras hitchcockianas como Marnie, Psicose e Os Pássaros, o filme é protagonizado por Helena Ramos - num impressionante tour-de-force - no papel de uma bela porém problemática mulher, traumatizada na infância, que não consegue fazer sexo com o marido (Nuno Leal Maia), mas fica excitada a todo momento, nas situações mais banais, atormentada por pesadelos eróticos nos quais é possuída por outros homens.
Mais um filme para engordar a lista de obras nacionais que flertam com o horror psicológico, é um tanto longo demais, com duras horas de duração, porém destaca algumas sequências de flashback bem encenadas e um teor erótico bastante ousado. No vídeo acima, Ivan Cardoso recomenda o filme com sua indefectível empolgação.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Helena Ramos
Acabei de assistir Mulher, Mulher (1979), outra belíssima obra assinada por Jean Garrett e mais uma vez constatei o talento notável do diretor, o qual cada vez mais comparo com o francês Jean Rollin, tanto na sensibilidade artística quanto no fascínio pelo fantástico e maravilhoso, na habilidade de construir ambientações oníricas e abordar o horror de raízes existencialistas. O aspecto negativo é que o deslumbramento que tenho a cada filme que vejo vem acompanhado pela frustração de não poder conversar com um artista com tamanha riqueza de idéias, o qual tenho certeza que hoje seria redescoberto dignamente pelos entusiastas do horror nacional.
Claro, o filme também tem a esplendorosa Helena Ramos. Para homenageá-la, me inspirei nesta imagem de Allison Hayes e fiz esta montagem fotográfica capturando meia dúzia de frames do filme. Usando a mágica do PhotoShop, reconstruí esse mulherão para dar de presente a vocês. Tentei fazer as emendas um pouco menos perceptíveis, mas a qualidade da cópia não é das melhores. Em breve escreverei sobre o filme aqui no blog, juntamente de outras obras que alimentam essa deliciosa discussão do que é o horror no cinema brasileiro.
Die Screaming Marianne (1971)
Os primeiros anos da década de 1970 marcaram o esgotamento do formato do horror gótico inglês consagrado pela produtora Hammer. O encantamento sobrenatural de Drácula e as consequências desastrosas das experiências de Frankenstein já não faziam mais efeito, mesmo com elementos satanistas e de magia negra cada vez mais presentes nos enredos. O mercado do gênero era propício para a renovação e o futuro do horror inglês passava às mãos de cineastas independentes, dentre os quais merece destaque Pete Walker, nosso personagem desta série de postagens. Típico artesão do submundo exploitation, adepto do cinema sem um pingo de vergonha na cara, Walker começou a carreira realizando filmes eróticos baratos que lograram algum sucesso dentro de seu nicho. Sua transição para o horror foi natural, repetindo os passos de Herschell Gordon Lewis e de outros colegas com a mesma inclinação sensacionalista.
“Pete Walker é uma espécie de enigma”, pondera Andy Boot, autor do livro Fragments of Fear (1999), e a seguir questiona: “ele é de fato o autor responsável por um punhado de filmes de horror de baixo orçamento que misturam o gótico suburbano com grand guignol numa receita sanguinária destilada com notável precisão, ou é um idiota sem talento que de alguma maneira descobriu uma vertente do horror que, se não é louvável, pelo menos é original?”. É compreensível que os ingleses sejam exigentes quanto aos seus ‘homens do horror’, tendo visto gente do nível de Alfred Hitchcock, Michael Powell, Terence Fisher e Freddie Francis contribuindo tanto com o gênero. Entretanto, é exagero classificar Walker como um idiota sem talento. Portanto, diante das possibilitades propostas por Boot, só nos resta considerá-lo o descobridor de uma nova maneira de fazer cinema, inserindo horrores inomináveis num cenário da mais proverbial hipocrisia suburbana. Mas isso só aconteceria mais adiante; para começar, Walker apresentou suas armas num thriller de apelo apenas moderado.
A curiosa e memorável sequência de créditos de abertura de Die Screaming Marianne (1971) é uma extravagante combinação de sexploitation com o estilo espalhafatoso dos filmes de James Bond, com a sensual Susan George - a Marianne do título - sacolejando o corpo com entusiasmo num autêntico clima da festiva Swinging London. Tendo surgido no mercado do cinema erótico, era natural que Walker fosse fascinado pela sexualidade libertina dos jovens ingleses da época e muitas protagonistas de seus filmes de horror surgiam deste cenário.
Marianne é uma dançarina go-go perseguida incansavelmente por assassinos a mando de seu próprio pai, que deseja se apoderar de uma fortuna e documentos importantes que somente a moça pode resgatar do banco. A conspiração da qual ela é vítima só se torna clara perto do final, mas o desenvolvimento do roteiro, escrito por Murray Smith, é enfadonho, arrastado. Talvez a ambição do enredo, que aparentemente tenta evocar alguma inspiração hitchcockiana em suas implicações psicológicas, estivesse acima da capacidade da direção de Pete Walker àquela altura. A narrativa vertiginosa e enigmática das primeiras cenas, com Marianne fugindo de seus perseguidores anônimos e pulando para um casamento precipitado com um rapaz que acabou de conhecer, logo descamba para uma convencional história da garota em fuga, sem muito para oferecer.
Mesmo assim, há elementos intrigantes para se descobrir no filme, como o papel do destino na vida dos personagens, com encontros furtivos mais tarde se revelando menos casuais do que parecem a princípio. A sexualidade problemática combinada com situações de perigo ainda não atinge os níveis perturbadores dos demais filmes do diretor, que só mergulharia de vez no horror carregado de tintas grotescas três anos depois, mas já há um certo clima de estranheza que o torna interessante de uma maneira muito particular. Certamente o mais fraco de todos os filmes do ciclo de horror de Pete Walker, ainda guarda uma surpresa para a cena final. Porém, o excesso de reviravoltas já tratou de diluir parte do impacto e o filme termina num clima decepcionante.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
ATUALIZAÇÃO: Encarnação do Demônio (2008)
Estréia hoje à noite no Canal Brasil a aguardada conclusão da trilogia de Zé do Caixão, o controverso Encarnação do Demônio (2008). O filme será exibido logo mais às 22 horas e será reprisado no sábado, dia 24, às 23 horas. São as duas únicas sessões programadas para este mês, então são duas ótimas oportunidades para se ver ou rever esta obra que dividiu opiniões entre os fãs do personagem. Vale a pena reaquecer a discussão acerca do filme que postei aqui, para que aqueles que vão assistir ao filme pela primeira vez também possam dar sua opinião. A enquete desta semana também é sobre o filme, então não deixe de participar!
Enquete: Halloween
Poxa, ninguém aqui curte Papai Noel assassino? Nem transsexual psicopata?? Desprezam bailes de formatura que terminam em banho de sangue? Silent Night, Deadly Night (Natal Sangrento), Sleepaway Camp (Acampamento Sinistro) e Prom Night (A Morte Convida para Dançar ou Baile de Formatura) somaram exatamente zero votos na enquete que queria saber “qual cinessérie slasher é a sua predileta?”. O mascarado Michael Myers, mentor de todos os modernos assassinos das telas, ganhou fácil com Halloween, faturando 53% dos votos. A seguir vieram, empatados, Freddy Krueger com A Nightmare on Elm Street (A Hora do Pesadelo), e o destruidor Jason com Friday the 13th (Sexta-Feira 13), cada um com 23% da preferência dos nobres leitores.
Na próxima semana escreverei sobre cinco slashers que só eu vi, produções obscuras, miseráveis ou injustiçadas que foram realizadas na década de 1980, no auge da popularidade desse subgênero, porém ficaram à sombra de produções mais conhecidas, mas não necessariamente melhores. Para encerrar, vale uma explicação: antes que as ‘otoridades’ em filmes de horror se rebelem porque estou dizendo que só eu vi esses slashers pretensamente raros, quero deixar claro que é apenas uma brincadeirinha; esse ciclo é uma homenagem ao blog Filmes Que Só Eu Vi, do grande amigo Rodrigo Pereira, que infelizmente não é atualizado há bastante tempo, mas não deixa de ser uma ótima recomendação de leitura.
sábado, 17 de abril de 2010
Cinema de Bordas (2ª Edição)
Esta notícia eu roubei do novo blog da Laura Cánepa, mas confesso que é meramente uma mais do que justificável desculpa para poder recomendar a reencarnação de Medo de Quê?, agora mais interativo e com o mesmo alto padrão de postagens que têm como principal proposta discutir o cinema brasileiro de horror (tema pelo qual sou particularmente apaixonado). A mostra Cinema de Bordas, agora em sua segunda edição, também conta com a colaboração da Laura, juntamente dos idealizadores do projeto, Bernadette Lyra e Gelson Santana. O texto abaixo foi surrupiado diretamente da apresentação do evento divulgado no site do Itaú Cultural, onde você pode conferir a programação completa.
Entre os dias 21 e 25 de abril, o Itaú Cultural apresenta a segunda edição do Cinema de Bordas. Nada de grandes orçamentos ou efeitos especiais de tirar o fôlego. A mostra é o espaço das produções cinematográficas independentes realizadas em todo o Brasil. Improvisação reunida em histórias inusitadas, “às bordas” do cinema comercial ou artístico. Com curadoria de Bernadette Lyra e Gelson Santana, a seleção de filmes do Cinema de Bordas se abastece, sobretudo, dos filmes policiais, de horror, ficção científica, kung fu, histórias em quadrinhos, faroeste, comédia e por aí vai. Seja nas grandes capitais, seja nas pequenas cidades do interior, o importante é fazer cinema. Não deixe de conferir a programação completa e os trailers de alguns filmes. Compareça e surpreenda-se!
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Il Mondo di Notte Numero 3 (1963): Grand-Guignol
Trecho do documentário mondo Il Mondo di Notte Numero 3 (1963), dirigido por Gianni Proia, apresentando aquela que supostamente foi a última apresentação do Théâtre du Grand-Guignol. A versão americanizada foi lançada com o título Ecco, com narração de George Sanders. With a little help from my friends Leandro Caraça e Rodrigo Ramos.
Théâtre du Grand-Guignol
Quem tem o hábito de ler artigos mais antigos sobre o cinema de horror certamente já se deparou com o termo grand guignol, que era usado com certa frequência pelos críticos de outrora para descrever o conteúdo mais violento e sanguinolento de determinados filmes. Ainda hoje há quem use o termo e eu mesmo costumo recorrer a esse charmoso estrangeirismo para especificar o tipo de violência gráfica e gratuíta que marca algumas produções mais sensacionalistas das décadas de 50, 60 e 70. Realizações britânicas desse período, como Sangue de Vampiro (1958), Névoas do Terror (1965) e as produções da Hammer são alguns exemplos clássicos de grand guignol nas telas, e é também a maneira ideal de descrever o estilo de horror praticado por Pete Walker, diretor que iremos dissecar nas próximas postagens.
A origem do termo é o Théâtre du Grand-Guignol, localizado em Paris, que se tornou infame por apresentar peças grotescas de horror com cenas explícitas de decapitação, desmembramento, esquartejamento, evisceração e outras práticas de imolação corporal. O teatro - o menor de Paris, com menos de 300 assentos - iniciou as atividades em 1897, onde antes funcionava uma pequena igreja. A velha arquitetura católica lhe propiciava um aspecto ainda mais tétrico, com os antigos confessionários transformados em camarotes. André de Lorde foi o principal dramaturgo do Grand-Guignol, escrevendo pelo menos uma centena de peças curtas entre 1901 e 1926, especializando-se em narrativas sobre loucura e demência, contando com a colaboração do psicólogo experimental Alfred Binet.
O Grand-Guignol oferecia uma grande variedade de peças no estilo brutal do teatro naturalista, quase sempre tratando de personagens das camadas mais baixas da sociedade francesa, como criminosos e prostitutas. Cada sessão era composta por cinco ou seis peças curtas, nem todas de horror, mas foram as apresentações neste gênero mais extremo que consolidaram a fama do teatro. Os efeitos especiais chocantes e os finais invariavelmente sanguinolentos ao mesmo tempo fascinavam e criavam repúdio na platéia, garantindo a fama do Grand-Guignol mundo afora. O estilo de horror explícito do teatro francês naturalmente foi absorvido pelo cinema, desde Dr. Gogol, o Médico Louco (1935) e Olho Diabólico (1960) até os exageros de artistas tão díspares quanto Herschell Gordon Lewis e Dario Argento.
A decadência do Grand-Guignol teve início depois do final da Segunda Guerra Mundial e o teatro fechou definitivamente suas portas em 1962. Charles Nonon, o último diretor do teatro, resumiu assim seu declínio: “Antes da guerra, todos tinham a sensação de que o que acontecia em cima do palco era algo impossível. Agora sabemos que essas coisas, e outras ainda piores, são uma realidade possível”. O site GrandGuignol.com oferece um interessante apanhado sobre a história do teatro parisiense e seu legado perene para o entretenimento de horror.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Enquete: Heróis não-celebrados do horror
A notícia da morte de Meinhardt Raabe me motivou a criar um tópico para comentar os unsung heroes do cinema fantástico, aquelas figuras pouco conhecidas, às vezes não muito talentosas, mas que deixaram de alguma maneira sua marca no gênero e se tornaram imortais. Tenho muitos desses heróis e não me canso de falar deles: Ken Strickfaden, George Barrows, Paul Blaisdell, Bob Kinoshita, Eiji Tsuburaya, George Barris, além de ‘astros’ improváveis como Angelo Rossitto, Mantan Moreland e Rondo Hatton. Imagino que todo mundo que gosta de filmes menos óbvios tem também seu patinho-feio preferido. Pois comentem aqui, deixem seus depoimentos sobre qual nome do horror, da fantasia e da ficção científica deveria ser lembrado com um pouco mais de carinho e respeito.
O desafio é esta enquete bombar como a que perguntava sobre alguns dos exageros e idiotices pela cinefilia que cada visitante do blog já havia cometido. E vamos bater o recorde de comentários! Fale do seu ídolo no horror, na fantasia e na ficção científica, mesmo que ele não seja tão desconhecido assim, não tem problema; seja algum maquiador de efeitos especiais, um ator coadjuvante carismático, alguém pioneiro, ousado ou criativo de alguma maneira. Há uma infinidade de técnicos brilhantes, como Willis H. O’Brien, Ray Harryhausen, Jack P. Pierce, Monte Hellman, H.R. Giger ou Giannetto de Rossi, que são bem conhecidos, mas talvez ainda mereçam ser comentados. Figuras peculiares - e pouco cinematográficas - como o esquisitão Michael Berryman, o anão Hervé Villechaize ou o transformista peso-pesado Divine são alguns exemplos de personalidades do cinema que vingaram na sétima arte lutando contra todas as probabilidades. Quem preferir, pode falar de algum realizador fora do circuito de Hollywood que merecia ser mais reconhecido. Opções não faltam. Só é proibido não participar!
terça-feira, 13 de abril de 2010
Seven Keys to Baldpate (1913)
Durante as primeiras décadas do horror nas telas, a literatura clássica do gênero foi a principal fonte para roteiristas, produtores e diretores. Porém, os filmes de mistério, suspense e horror não se resumem a obras consagradas como Drácula, Frankenstein e O Médico e o Monstro. Escritores pulp, autores prolíficos de livros baratos e extremamente populares, foram essenciais para abastecer a sempre voraz indústria cinematográfica. Edgar Wallace, por exemplo, contabiliza cerca de 50 filmes adaptados de seus espetaculares mistérios criminais, enquanto que Arthur Conan Doyle e seu imortal detetive Sherlock Holmes lideram a lista do personagem de ficção mais adaptado para as telas de cinema. O estadunidense Earl Derr Biggers (1884-1933) também merece constar nessa lista, graças à sua criação mais famosa, o detetive Charlie Chan, que foi levado às telas pelo menos 48 vezes, entre 1926 e 1949.
Biggers também escreveu o romance de mistério Seven Keys to Baldpate (1913), filmado inúmeras vezes desde o cinema mudo até meados da década de 1980, quando Pete Walker revisitou a trama no nostálgico A Mansão da Meia-Noite (1983). O livro se encontra em domínio público e sua edição original, em facsímile, pode ser acessada clicando aqui. Vale a pena conhecer essa relíquia, nem que seja apenas para admirar as belíssimas ilustrações de Frank Snapp.
A Mansão da Meia-Noite (1983)
O último filme dirigido pelo inglês Pete Walker é também o seu longa-metragem mais famoso - e, paradoxalmente, seu maior fracasso comercial. A decepção foi tão grande que a carreira de Walker praticamente se encerrou aí, pondo fim a vários projetos relacionados ao horror que ele anunciara com empolgação numa entrevista para a revista Fangoria de maio de 1983, pouco antes do lançamento de A Mansão da Meia-Noite (House of the Long Shadows).
O filme é basicamente uma jornada nostálgica pelo horror no estilo old dark house do início do cinema sonoro, repleto de personagens excêntricos se comportando de maneira suspeita e trocando olhares comprometedores. Isso tudo ambientado numa mansão sinistra e sombria, infestada por teias de aranha, numa noite de tempestade... A Mansão da Meia-Noite se tornou objeto de culto por reunir, pela única vez em suas carreiras, os astros Christopher Lee, Peter Cushing, Vincent Price e John Carradine. O elenco conta ainda com Sheila Keith (figura obrigatória na maioria dos filmes do diretor), o insípido Desi Arnaz Jr. (filho do bandleader cubano Desi Arnaz e de Lucille Ball) como protagonista e uma breve aparição de Richard Todd.
No auge da era dos slashers, A Mansão da Meia-Noite sequer teve oportunidade de ser avaliado na tela grande: em muitos países nem foi exibido nos cinema, indo direto para o home video e para a televisão. Foi assim no Brasil, onde fez relativo sucesso em VHS, lançado pela Globo Vídeo, e teve alguma rotatividade nas madrugadas do canal plim-plim. O filme é baseado no livro Seven Keys to Baldpate (1913), de Earl Derr Biggers, escritor especializado em histórias de mistério e criador do detetive Charlie Chan. O livro já havia sido filmado pelo menos meia dúzia de vezes antes - a versão de 1929 pode ser encontrada perambulando pela internet - e está cheio de todos os deliciosos lugares-comuns do gênero.
Ao contrário de resenhar o filme, preferi oferecer a vocês este material iconográfico, diretamente dos arquivos do historiador Jaime Palhinha, incluindo uma notinha da revista Manchete e o comentário publicado no jornal O Estado de S.Paulo no dia em que foi exibido pela primeira vez na TV. Nos próximos dias comentarei os demais filmes de Pete Walker, todos num estilo completamente diferente deste seu canto-de-cisne.
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segunda-feira, 12 de abril de 2010
Meinhardt Raabe: Ele não está meramente morto; está de fato muito sinceramente morto!
Homenagem a Meinhardt Raabe (1915-2010).
O diminuto Raabe fez o papel do médico-legista dos Munchkins que declara oficialmente a morte da Bruxa Má do Leste no clássico de fantasia O Mágico de Oz (1939). É um dos raríssimos casos de um ator que conquistou o carinho e admiração de gerações de cinéfilos tendo realizado um único filme durante toda a vida.
Enquete: Pete Walker
Míseros nove votos! Isso mesmo, apenas nove visitantes desse blog se aventuraram a eleger o melhor filme de horror do diretor britânico Pete Walker. Ele merecia mais prestígio por parte dos aficionados por espetáculos do mais puro grand guignol e chocantes banhos de sangue com indefectível molho inglês. Tanto ele merece que, nos próximos dias, postarei críticas sobre todos os seus filmes, pois prefiro acreditar que a modesta frequência às urnas tenha sido mais por desconhecimento do que por desinteresse.
Surpresa alguma quanto ao vencedor da enquete: era óbvio que House of the Long Shadows (1983) ganharia, pois é o filme mais popular do diretor, famoso por reunir Christopher Lee, Peter Cushing, Vincent Price e John Carradine pela única vez em suas carreiras. O filme recebeu sete votos. O único outro filme a ser clicado foi Frightmare (1974), com dois votos. Os demais ficaram zerados, mas não pensem que vão se livrar tão facilmente de alguém como Pete Walker! Quem ficar ligado no blog ao longo da semana lerá comentários sobre os filmes citados anteriormente e também sobre Die Screaming Marianne (1971), The Flesh and Blood Show (1972), House of Whipcord (1974), House of Mortal Sin (1976), Schizo (1976) e The Comeback (1978).
Quem quiser conhecer melhor a obra do diretor, existem duas excelentes coleções em DVD. A imagem no início desta postagem é a capa de um box americano (NTSC, região 1) com quatro filmes do diretor. A simpática edição em forma de caixão, ilustrada acima, é a coleção inglesa (PAL, região 2), com cinco filmes, sendo que o box americano tem um filme não disponível no inglês - e nenhum deles tem Schizo ou House of the Long Shadows, então o colecionador completista precisa ir atrás de mais estes dois. Vale muito a pena para quem quer descobrir o que mais o horror britânico tem a oferecer além de Hammer e Amicus.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Season of the Witch (1972)
Possivelmente o pior filme dirigido por George A. Romero, este Season of the Witch foi sua segunda investida no horror, depois da frustrante tentativa de se fazer cinema mais ‘sério’ com There’s Always Vanilla. O filme de estréia do diretor, claro, é Night of the Living Dead. Originalmente intitulado Hungry Wives e depois Jack’s Wife e relançado dez anos depois com o nome Season of the Witch, o longa - e bota longa nisso: o filme completo tem 130 minutos, reduzidos para ainda penosos 105 na versão em DVD - é um equívoco em quase todos os níveis, mas ainda dá para tentar ver algum aspecto positivo no filme.
Um desses méritos talvez fosse o fato de se tratar de um filme adulto com mulheres de meia idade discutindo suas vidas sexuais. Mas quando constatamos o quanto essas mulheres são desagradáveis (o elenco todo é formado por amadores desprovidos de qualquer talento dramático) e que os diálogos parecem improvisados e sem a mínima inspiração, logo isso se torna outra das fraquezas do filme. O calcanhar-de-aquiles de Romero parece mesmo ser a direção de atores: cada um faz o que bem entende em cena, e quando não há diálogos, a expressão dos personagens fica entre a cara de pateta e a completa ausência de emoção.
A esposa de Jack é uma mulher de meia-idade desgostosa com o marido grosseirão e à beira da depressão por não poder saciar o seu desejo sexual ainda ardente. Nas reuniões com outras mulheres de sua faixa etária, ela se sente deslocada e sem graça, até que descobre o maravilhoso mundo da bruxaria. Ela se arrisca a comprar umas quinquilharias numa lojinha especializada no tema - durante esta cena toca a canção “Season of the Witch”, de Donovan, o que explica o título pelo qual esse filme ficou mais conhecido - e começa a fazer uns feitiços caseiros. O primeiro deles é para atrair até sua casa um rapaz que estava saindo com sua filha. O garotão chega e eles fazem sexo selvagem e suarento.
Tivesse sido realizado com mais empenho e talento, certamente seria um bom filme e hoje seria lembrado por sua relevante posição feminista. Há inclusive quem enxergue nuances bergmanianas na obra. O tema da mulher frustrada sexualmente que tem pesadelos com um homem violento invadindo sua casa certamente tem potencial dramático e interessantes implicações freudianas. Entretanto, num balanço geral, o filme não é mais do que enfadonho, arrastado. A cena da maconha parece durar para sempre e as discussões entre mãe e filha não se justificam. Os únicos momentos realmente inspirados são os pesadelos da mulher atacada pelo homem mascarado. Nestas cenas, a banalidade dá lugar a tomadas com iluminação marcada por fortes contrastes de claro e escuro e montagem dinâmica, com ângulos inventivos que remetem obrigatoriamente a Night of the Living Dead.
Romero a seguir dirigiu o irregular The Crazies e seguiu com os dois pés fincados bem fundo no horror. Mesmo contrariado, virou um cineasta filiado ao gênero e, finalmente, resignou-se à condição de pai dos zumbis quando decidiu dar continuidade à saga dos mortos-vivos, a qual até o momento conta com os capítulos Dawn, Day, Land, Diary e Survival. São os aficionados por essas obras que têm interesse em olhar para o passado para conhecer o que mais o cineasta tem a oferecer; às vezes se deparando com decepções como esta.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Christopher Cazenove (1943-2010)
Caso não tenha ficado claro o bastante na postagem do filme O Buraco da Agulha, foi uma homenagem póstuma a Christopher Cazenove, ator britânico falecido ontem, vítima de septecimia. Ele mal aparece no trailer do filme e seu papel é menor (em comparação ao de Donald Sutherland, o verdadeiro dono da película), mas optei por colocar esse filme porque o trailer é muito bom. O filme de horror mais importante da carreira de Cazenove é Uma Voz ao Telefone (The Fantasist, 1986), dirigido por Robin Hardy, mais conhecido por sua obra-prima O Homem de Palha. Infelizmente não encontrei trechos desse filme para postar aqui, mas estas imagens devem quebrar o galho (os scans são contribuição do Jaime Palhinha, muito mais fã do ator do que eu).
Cazenove contracenou com um elenco eclético - William Shatner, Barbara Eden, Roddy McDowall, Morgan Fairchild, Olivia Hussey e Traci Lords! - no telefilme Assassinato na Ilha dos Mortos (Dead Man’s Island, 1996), uma trama de mistério à moda antiga, e fez outras incursões no horror em episódios das séries Hammer House of Horror, Hammer House of Mystery and Suspense e Tales from the Crypt. Porém, talvez seu papel mais significativo seja o de Ben Carrington na popular soap opera Dinastia (1986-7), na qual contracenou com John Forsythe, também falecido recentemente.
Nike of the Living Dead: Tiger Woods
“Você aprendeu alguma coisa?”. Estreou ontem à noite na TV dos Estados Unidos este sinistro comercial da Nike com o golfista Tiger Woods. O comercial, apelidado pela mídia de Nike of the Living Dead, está sendo considerado um dos momentos mais macabros da história da televisão norte-americana, pois a voz que se ouve é do pai de Tiger, morto em 2006, que retorna do túmulo para passar um sermão no filho. A repercussão geral foi de total incredulidade diante do mau gosto e da concepção francamente mórbida da campanha. Ou seja: nós adoramos!
No ano passado, Tiger se envolveu num escândalo sexual que continua fascinando a conservadora sociedade norte-americana. O caso é explorado incessantemente pela mídia do país, ao ponto de o golfista ter se submetido à humilhação pública se confessando viciado em sexo. Ele se declarou arrependido e diz estar passando por um tratamento, mas o consenso da crítica é que sua motivação para essa retratação é meramente monetária, pois ele é viciado mesmo no vil-metal.
Com essa imagem em preto e branco, tendo um herói negro (ops... afro-americano!) como protagonista e mortos ressuscitando, só ficou faltando mesmo George Romero na direção do comercial.
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