Um brutal contraste com a postagem que fiz há algumas semanas sobre a versão perdida no tempo de O Retrato de Dorian Gray na TV Tupi: eis aqui uma adaptação para a TV do clássico O Médico e o Monstro, transmitida em 28 de julho de 1955, na primeira temporada do programa Climax!, uma antologia de histórias de mistério, horror e suspense. Essa raridade é do tempo da televisão ao vivo, quando as dramatizações eram encenadas em tempo real no estúdio de TV, como se fosse um teatro à distância. O episódio está completíssimo, com as inserções comerciais e as vinhetas do canal, para que a experiência de viagem no tempo e espaço seja plena. Resgates de coisas assim só fazem aflorar nosso complexo de vira-lata terceiro-mundista, quando temos que reconhecer que estamos muito distante de tratar nosso passado com um mínimo de interesse e carinho. E isso não se refere apenas à memória da televisão: basta lembrar do quase nada que restou de nosso cinema mudo.
A adaptação da novela de Robert Louis Stevenson é assinada pelo escritor e dramaturgo Gore Vidal, num de seus primeiros trabalhos para a televisão. Vidal ficou famoso no cinema por não ter sido creditado como um dos roteiristas do épico bíblico Ben-Hur (1959) e por ter exigido que seu nome fosse retirado dos créditos da extravagância pornô Calígula (1979). Michael Rennie (o único e verdadeiro Klaatu de O Dia em Que a Terra Parou) assume de maneira competente o papel duplo do genial, porém inconsequente, doutor Jekyll e de seu alter ego maligno, o selvagem Hyde. Rennie se juntou a uma galeria de grandes nomes que viveram Jekyll e Hyde nas telas, incluindo John Barrymore, Fredric March e Spencer Tracy. Antes dele, Ralph Bell e Basil Rathbone também interpretaram o esquizofrênico cientista na telinha, que mais tarde seria encarnado por Kirk Douglas e tantos outros.
A californiana Mary Sinclair, rosto familiar em dramatizações de clássicos para a TV (O Morro dos Ventos Uivantes, A Letra Escarlate, Mulherzinhas), faz o papel da mocinha ameaçada pelo vicioso Hyde. O elenco do episódio conta também com a aristocrática presença de Sir Cedric Hardwicke, veterano e versátil ator inglês que um ano antes retratou um Diabo elegante no modesto melodrama noir Bait, dirigido por Hugo Haas como veículo para Cleo Moore, femme fatale de segunda classe então no auge de sua breve carreira.
Este é um dos poucos episódios de Climax! em domínio público atualmente disponível no mercado de vídeo, mas é bem provável que o resto da série acabe surgindo num lançamento oficial em DVD a qualquer momento.

































