CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

domingo, 1 de agosto de 2010

Houdini: The Movie Star

   Harry Houdini (1874-1926) foi o maior dos escapistas e ilusionistas, famoso mundialmente por suas fugas quase impossíveis de camisas de força, correntes com cadeado e tanques cheios d’água infestados de tubarões famintos (essa parte do tubarão eu inventei, mas o resto é verdade!). O que pouca gente sabe é que Houdini também foi astro de cinema, chegando a protagonizar um seriado e filmes de aventura, mistério e ficção científica, nos quais desempenha seus consagrados números de escapismo. Essa curiosíssima faceta de Houdini foi devidamente resgatada na coleção Houdini: The Movie Star, lançada pela Kino, um luxuoso box com três DVDs trazendo a obra cinematográfica completa do mestre de todos os ilusionistas. A caixa é formada pelo seriado The Master Mystery (1920) e os filmes Terror Island (1920), The Man from Beyond (1922) e Haldane of the Secret Service (1923), além de extras valiosíssimos.
   Houdini, nascido Ehrich Weiss no Império Áustro-Húngaro (atual Hungria), também fez carreira desmascarando falsos médiuns e demais pessoas que alegavam possuir poderes sobrenaturais. Morreu na noite de Halloween de 1926.


   Durante toda esta semana, publicarei aqui no blog o seriado mudo The Master Mystery, que foi recentemente restaurado e remontado para se aproximar de seu formato original (algumas cenas se perderam ao longo das décadas, mas tem diversão suficiente para entreter os cinéfilos que ficarem ligados: a série toda tem 238 minutos!). Na agitada trama, Houdini interpreta um agente especial que enfrenta um robô destruidor, na primeira aparição nas telas de um autômato feito de lata. Uma preciosidade fílmica também para os aficionados por ficção científica.
   Esta série de postagens é dedicada ao meu grande amigo Chris e à sua adorável esposa Flávia, com quem eu e a Bia tivemos o imenso prazer de passar grande parte da última sexta-feira. Chris tem o blog Alguém Que Anda Por Aí e é um baita artista plástico, influenciado por cultura pop em geral, fã de robôs e admirador de Houdini. Também dedico esta série ao grande Blob, que me disse que anda em ritmo de seriado, então espero que ele aprecie esta raridade. E, claro, a todos que acessam o blog, mesmo anonimamente, e me dão o prazer da visita mesmo com o meu tempo tão escasso para colocar coisas novas no ar!

sábado, 31 de julho de 2010

Fantaspoa 2010: premiação

   Tentei, eu juro. Queria mesmo fazer uma postagem com impressões finais sobre o VI Fantaspoa, mas ando tão sem tempo que não consigo sequer escrever de maneira coerente uma notinha breve. Resumindo a aventura: saí de Porto Alegre com a impressão de que o festival foi praticamente perfeito, dinâmico, diversificado e repleto de pontos altos. Eu é que tenho que me organizar melhor para aproveitar melhor o tempo na próxima edição.
   Listo abaixo os premiados deste ano (se é que alguém ainda não viu isso em algum lugar...). Na condição de representar metade do júri, obviamente só posso concordar com os escolhidos (meu parceiro de crime foi o crítico André Kleinert, do blog Anti-Dicas de Cinema). Porém, quero fazer algumas considerações. Meu único arrependimento é não ter insistido mais para que A Casa do Demônio ficasse com algum prêmio. Gosto demais do filme e de todo o seu clima oitentista e queria recompensá-lo com um prêmio de direção para Ti West, que conduz a obra com maestria, ou de atriz para a protagonista Jocelin Donahue. O amigo Leandro Caraça não perdoou a decisão final e considerou “um disparate” o filme sair do festival sem ser premiado... Tenho que discordar do termo ‘disparate’, pois acho que todos os prêmios foram merecidos, mas o filme de fato merecia algo mais.
   Também quero justificar a menção honrosa para Amargo, sugerida pelo André e com a qual prontamente concordei. O filme estava na minha lista prévia para a categoria de direção, mas francamente não sei precisar o quanto do seu deslumbrante resultado final deve ser creditado ao casal de diretores Hélène Cattet e Bruno Forzani e o quanto é resultado da brilhante montagem, da fotografia onírica e o clima surreal com referências a Buñuel e a inúmeros gialli clássicos. O importante, na minha opinião, foi não deixar o filme passar despercebido.

Júri Oficial

Filme: Vida e Morte de uma Gangue Pornô, de Mladen Djordjevic
Direção: Eli Craig, de Tucker & Dale Enfrentam o Mal
Ator: Peter Marshall, de O Cavaleiro
Atriz: Olga Fedori, de Mamãe & Papai
Roteiro: Konstantin Lopushansky e Vyacheslav Rybakov, de Os Cisnes Feios
Efeitos Especiais: Reyes Abades, de O Legado Valdemar
 
Menções Honrosas:
   Produção de Baixo Orçamento: Recortadas, de Sebastián De Caro
   Banho de Sangue: Massacre Esta Noite, de Ramiro García Bogliano e Adrián García Bogliano
   Rainha do Grito: Julie Estelle, de Macabro
   Contribuição Artística: Amargo, de Hélène Cattet e Bruno Forzani

Longa Animação: Uma Noite na Cidade, de Jan Balej

Curta-Metragem Nacional Ação: Mapa-Múndi, de Pedro Zimmermann
Curta-Metragem Nacional Animação: O Jumento Santo, de Léo D. e William Paiva
Curta-Metragem Internacional Ação: El Nunca lo Haría, de Anartz Zuazua
Curta-Metragem Internacional Animação: Alma, de Rodrigo Blaas

Prêmio pela Carreira: Luigi Cozzi

Júri Popular

Filme: Eu Vendo os Mortos, de Glenn McQuaid
Curta-Metragem Nacional Ação: Animal Menor, de Paulo Harres e Marcos Contreras
Curta-Metragem Nacional Animação: Anjos no Meio da Praça, de Alê Camargo e Camila Carrossine
Curta-Metragem Internacional Ação: Cabuleros, de Damian Slipoi
Curta-Metragem Internacional Animação: Le Petit Dragon, de Bruno Collet

   Por último, para compensar minha indisponibilidade de tempo para escrever melhor sobre o evento, recomendo a todos que confiram o que escreveram alguns participantes e espectadores do Fantaspoa. Felipe M. Guerra deixou suas impressões sobre os filmes que viu no festival em seu blog Filmes para Doidos. Blob fez o mesmo em seu blog e Leandro Caraça postou suas notas aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Foi também no blog do Leandro que fiquei sabendo das lamentáveis mortes de Harvey Pekar e Vonetta McGee; o primeiro, um autêntico gênio outsider dos quadrinhos; a segunda, uma musa inesquecível.

sábado, 24 de julho de 2010

La Soufrière (1977)


   Minha formação como cinéfilo, depois de passar pelos obrigatórios clássicos hollywoodianos das madrugadas da Globo, aconteceu fuçando as prateleiras de ‘cinema de arte’ das poucas locadoras decentes de minha cidade, em Jundiaí, no interior de São Paulo. Durante um par de anos, convivi diariamente com nomes como Bergman, Saura, Szabó, Wajda, Fellini, Godard, Fassbinder, Reggio, Stelling, Schroeder, Almodóvar, Kurosawa. Foi um aprendizado intenso, valioso e solitário; sem ter com quem discutir tais descobertas, eu tentava extrair o melhor de cada cineasta sem procurar uma identificação mais pessoal com suas obras. Somente muitos anos depois, reavaliando essa minha fase ‘cinema de arte’, percebi que, com raras exceções, tenho pouquíssima, às vezes nenhuma, identificação com muitos desses cineastas, ainda que eu os reconheça como nomes inestimáveis da sétima arte. A exceção à regra é Werner Herzog.
   Descobri Herzog, se não me engano, por meio de Aguirre, a Cólera dos Deuses, um filme que muito provavelmente assisti achando que era uma espécie de Indiana Jones peruano. A experiência foi, para dizer o mínimo, um daqueles episódios que moldam nosso caráter de maneira permanente. Passei a ser outro depois de Aguirre; passei a acreditar no cinema como algo relevante e pertinente. Algo que não se divide entre Spielberg, Lucas, Zemeckis e ‘os outros’. Descobri cinema como ‘arte’, e - mais importante - como uma arte viva e capaz de se comunicar comigo. E vice-versa.
   Nos meses seguintes, assisti a todos os filmes de Herzog nos quais fui capaz de meter a mão: O Enigma de Kaspar Hauser, Coração de Cristal, Stroszek, Nosferatu, o Vampiro da Noite, Woyzeck, Fitzcarraldo, culminando com os dois que considero os mais fracos de sua filmografia até então, Onde Sonham as Formigas Verdes e Cobra Verde (esse eu tive que convencer o dono da locadora a comprar a fita para eu poder ver!). Até hoje, meu parâmetro de avaliação do caráter de uma pessoa é a maneira como ela reage diante de Kaspar Hauser.
   Entretanto, somente depois de velho descobri o que me fascina tanto em Herzog: sua capacidade poética de retratar a vida dos excluídos, os malditos, os fracassados. Todos os seus filmes são narrativas amarguradas sobre desgraçados que sequer conseguem justificar a própria existência. Não existe a esperança de elevação espiritual ou adequação social aos personagens de Herzog. Incompreensão, vergonha, humilhação, angústia e desespero são sentimentos compartilhados por Kaspar Hauser, Stroszek, Woyzeck e outros ‘herzoguianos’; mesmo seu Nosferatu é o retrato patético de um maldito, de um infeliz condenado à vida eterna, à negação do amor e ao infortúnio de semear a morte por onde passa.
   O meu ‘período herzoguiano’ se completou quando eu e um amigo fomos a algumas sessões gratuitas de uma retrospectiva do cineasta no Instituto Goethe, em São Paulo, lá por volta de 1990. Foi quando pude ver seus primeiros longas-metragens, os impactantes e abilolados Também os Anões Começaram Pequenos (1970) e Fata Morgana (1971), este último uma espécie de documentário. Mais experiências de retorcer o cérebro. Eu tinha uns 20 anos. Então veio o documentário de curta-metragem La Soufrière: Warten auf eine unausweichliche Katastrophe (1977), sobre uma iminente tragédia na ilha caribenha de Guadeloupe, prestes a ser devastada por uma erupção vulcânica. A situação apresentada é que a atividade sísmica do vulcâo La Soufrière indica que ele explodirá em breve. Herzog e seus operadores de câmera chegam à ilha para registrar a catástrofe e encontram a cidade completamente deserta, exceto por alguns animais famintos e um ou outro morador que não quis fugir do local. A narração explica que se o vulcão entrar em erupção, toda a ilha será coberta pela lava e todos morrerão. O documentário somente existe porque o desastre não ocorreu.
   Hoje enxergo La Soufrière como uma reflexão do significado do cinema e da própria atividade fílmica, sobre o poder caótico da criação e o sacrifício pela arte. Sobre o quanto não somos donos de nossos destinos, por mais que queiramos acreditar na capacidade de decidir qual rumo tomar. No final das contas, este ‘documentário sobre nada’ é quase que um Cannibal Holocaust às avessas; sua força comunicativa reside justamente naquilo que não acontece, no que não é forjado como ‘documental’, em algo que possibilita a vida pela recusa de se mostrar. Poesia tipicamente ‘herzoguiana’, é também o retrato de um fracasso, de uma frustração íntima e coletiva, da antecipação de um clímax que jamais se concretiza.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Turist Ömer Uzay Yolunda (1973)


   Dando continuidade à postagem anterior, temos aqui mais uma bizarrice trekker para fazer a alegria dos caçadores de raridades, um dos mais celebrados filmes ruins de todos os tempos. Trata-se de Turist Ömer Uzay Yolunda, mais conhecido como simplesmente Turkish Star Trek, ou a versão turca de Jornadas nas Estrelas. Realizado em 1973, o filme faz parte de uma série de comédias protagonizadas pelo turista Ömer, interpretado por Sadri Alisik, que sempre se mete nas mais absurdas aventuras. O personagem apareceu em pelo menos oito filmes entre 1964 e 73, sempre vivido por Alisik. O que torna o filme ainda mais interessante aos aficionados por Star Trek é o fato de o filme descaradamente reaproveitar cenas da própria série de televisão. Trekkers e curiosos em geral, assistam por sua própria conta a risco. O filme tem legendas em inglês.
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