CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

quinta-feira, 10 de março de 2011

Rock Horror Show (1975)



 
   Quem não gosta de Rocky Horror Show só pode ser ruim da cabeça e doente do pé. Um dos maiores fenômenos pop de todos os tempos, a peça musical escrita por Richard O’Brien sintetiza toda uma era, o casamento perfeito entre a fase nostálgica do rock’n’roll e as antigas sessões duplas de filmes de horror e ficção científica, tudo embalado com uma sensualidade sem limites no auge da androginia e do amor livre. Obviamente, era material perfeito para o cinema, e não demorou para surgir Rocky Horror Picture Show, provavelmente o maior clássico das sessões malditas e o derradeiro cult movie.
   O que nem todo mundo sabe é que o impacto do sucesso da peça ecoou no Brasil imediatamente, com a adaptação de Rock Horror Show (escrito assim mesmo) para os nossos palcos, encenada inicialmente no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro. Os bastidores dessa produção podem ser acompanhados no blog de Edy Star, nosso maior representante do glam rock, nas partes um, dois e três. Está tudo contado por quem participou da coisa, portanto não vou reproduzir tudo aqui. Só quero contar que Edy relata como substituiu Eduardo Conde no papel de Frank Father [sic], e que quando chegou ao teatro, o roqueiro Serguei estava de prontidão para se candidatar ao posto. O elenco original contava ainda com Lucélia Santos, Zé Rodrix, Wolf Maia e Diana Strella nos principais papéis. A peça posteriormente foi montada nos palcos paulistanos, com Paulo Villaça, Antonio Biasi e Lúcia Turnbull substituindo alguns dos atores da versão carioca.
   A trilha sonora da montagem carioca foi lançada em LP em 1975, pela Som Livre, mas infelizmente não está disponível em CD. A produção do disco ficou por conta de Guilherme Araújo e Zé Rodrix, responsável também por algumas adaptações. O repertório do LP inclui as três faixas anexadas nos vídeos acima - “Science Fiction” (Lucélia Santos), “Nostalgia Rock’n’Roll” (Zé Rodrix) e “Me Toque, Me Toque, Toque, Toque” (Diana Strella) - e traz ainda “O Anel de Noivado” (Wolf Maia e Diana Strella), “Luz na Casa de Frankstein” (Diana Strella, Wolf Maia e Kao Rossman), “A Espada da Morte” (Acácio Gonçalves e Nildo Parente), “Eu Te Faço Ser Homem” (Eduardo Conde), “É Só Me Chamar, Tudo Bem” (Wolf Maia e Diana Strella), “Eu Vou Partir” (Eduardo Conde) e “Só o Amor Interessa” (Wolf Maia, Diana Strella e Nildo Parente). Quem conhece bem o repertório original certamente notou a falta de algumas canções, especialmente a clássica “Time Warp”, mas suponho que só colocaram no disco o que cabia em 45 minutos.

terça-feira, 8 de março de 2011

Apocalipse de São João (1470)


   A Biblioteca Digital Mundial vem construindo aos poucos um precioso acervo com alguns dos documentos mais raros, influentes e apreciados da Humanidade, entre mapas, fotografias, filmes, manuscritos e livros. Tudo com acesso livre ao público e com opção para se baixar os arquivos.
   Um dos inúmeros itens preciosos disponíveis no catálogo é uma edição de 1470 do Apocalipse de São João, o incendiário, catastrófico e sangrento clímax da Bíblia cristã, com toda aquela história da chegada da Besta e a derradeira guerra entre o Bem e o Mal que vai arrasar o planeta.
   Também conhecido como Livro da Revelação na tradução em português, ou Apocalypsis Sancti Johannis, no original em latim, o livro traz as visões e premonições de São João e, escrito de maneira enigmática, é fonte inesgotável de interpretações teológicas para quem o leva totalmente a sério - e inspiração permanente para filmes de horror, como A Profecia (1976), de Richard Donner, álbuns de rock, como The Number of the Beast (1982), do Iron Maiden, e tantas outras obras de ficção da cultura pop.
   A edição, impressa na Alemanha usando uma técnica de entalhe em placas de madeira, é rica em ilustrações, no característico estilo medieval, tão fascinante quanto perturbador, todas reproduzidas abaixo para quem tiver preguiça para baixar o arquivo no site. No verso dessas páginas está o texto apocalíptico.
   O acervo da biblioteca digital oferece também aquele que provavelmente é o livro mais famoso de todos os tempos: a edição da Bíblia criada em 1455 por Johannes Gutenberg, o inventor da imprensa, com 654 páginas em alta resolução, pronta para serem impressas e criar uma réplica caseira desse tesouro da Humanidade.

















domingo, 6 de março de 2011

Unidos da Tijuca: Esta Noite Levarei Sua Alma (2011)


Tá com medo de quê?
O filme já vai começar
Você foi convidado
Caronte no barco não pode esperar
Apague a luz, a guerra começou
Sob o capuz, delira o diretor
No filme que passa piada em cartaz
Pavor me abraça, isso não se faz
No espaço se vai, é a força que vem
Meu medo não teme ninguém

É o boom! Quem não viu? A casa caiu
Com a bomba na mão o vilão explodiu
O plano de fuga é jogo de cena
“Um Deus nos acuda”… Agita o cinema

Ele volta, revolta mistério no ar
Dos milharais uma estranha visão
Mais uma vez olha a encenação
Morrer de amar faz o povo gargalhar
Pare! Eu pego vocês, grita o mau condutor
Mas deu tudo errado, não há outro lado
Esse povo me enganou
Eu sou brasileiro, amor tijucano
Roteiro sem ponto final
Coitado o barqueiro entrou pelo cano
E brinca no meu carnaval

Eu sou Tijuca, estou em cartaz
Sucesso na tela meu povo é quem faz
Sou do Borel, da gente guerreira
A pura cadência levanta poeira



sábado, 5 de março de 2011

Bellini e o Demônio (2010)


   O decadente detetive particular Remo Bellini é contratado por um cliente desconhecido para encontrar O Livro da Lei. Desorientado e em estado de constante delírio devido ao vício em remédios de tarja preta, o investigador recebe um volumoso adiantamento pelo trabalho e inicia sua missão de encontrar o tal livro, aparentemente sem método algum. Bellini mergulha num submundo de crimes violentos, rituais satânicos e conspiração. Depois de consultar um demonólogo, fica sabendo que O Livro da Lei é um dos tomos escritos por Aleister Crowley, o maior bruxo da Nova Era e anunciador do Anticristo. Ao mesmo tempo que busca desesperadamente o livro, assassinatos violentos perturbam a rotina de policiais da cidade. Bellini é avisado pelo demonólogo que quando quatro pessoas forem sacrificadas na fase cheia da lua, a Besta subirá em sua nova forma - e os cadáveres vão se acumulando.
   Bellini e o Demônio é o segundo filme adaptado dos livros policiais de Tony Bellotto, talvez mais conhecido como um dos integrantes da banda de rock Titãs. O anterior foi Bellini e a Esfinge, dirigido por Roberto Santucci em 2001. Nos dois, o detetive do título é interpretado por Fábio Assunção, fisicamente adequado ao papel, mas sua atuação não está acima do nível das telenovelas, com todos os cacoetes e exageros típicos de uma mídia que não tolera sutilezas.


   A referência inicial que se tem diante da sinopse do filme é um cruzamento entre Coração Satânico, de Alan Parker, e O Último Portal, de Roman Polanski, e essa impressão paira durante todo o filme, indo e vindo. Porém, a bagunça é tamanha que em vários momentos fica duvidoso que caminho o filme pretende seguir. Alguma soluções narrativas são mais do que discutíveis, como colocar personagens dentro da própria cena que estão narrando num flashback. Tenta mostrar estilo, mas é apenas bobo, risível. A câmera treme, chacoalha e trepida em toda cena tensa - e o filme é todo tenso e dramático. Há um abuso de tomadas subjetivas, do tipo ‘alguém espreitando’, sem que nunca fique claro se é de fato o ponto de vista de algum personagem, um anseio de colocar o espectador numa posição desconfortável ou pura baderna. Num dos momentos mais absurdos, a câmera está dentro de um envelope de papel, olhando para a cara de Fábio Assunção, que olha para dentro do envelope! Por que? Impossível saber.
   Fazia tempo que eu não via um filme (brasileiro) tão problemático. Certamente há algo de errado num filme que passou pelas mãos de quatro montadores e que tem três créditos distintos de roteiro (eu nunca tinha visto, num mesmo filme, créditos de ‘roteiro original’ e ‘roteiro adaptado’!). A trama tem buracos escandalosos; certamente passagens importantes foram eliminadas na montagem final, enquanto somos bombardeados por cenas repetitivas - Bellini às voltas com seus comprimidos e os policiais batendo cabeças durante as investigações. O diretor Marcelo Galvão andou dando entrevistas renegando o corte imposto pelo produtor. Enquanto que algumas fontes apontam que o filme tem 120 minutos de duração, a versão em DVD é substancialmente mais curta, com 85 minutos.


   Porém, só podemos avaliar o filme lançado, não a versão ‘original’ que habita o limbo. Em comparação a Os Famosos e os Duendes da Morte e A Erva do Rato, dois filmes brasileiros recentes que possuem tênues - porém ricas e relevantes - relações com o horror, e são acusados de ‘pretensiosos’ devido às ambições artísticas, Bellini e o Demônio perde feio. Tenta ser artístico e estiloso onde não deveria; conta uma história relativamente simples, mas teima em complicá-la a troco de nada. Numa época em que Cisne Negro vira uma mania mundial, a proposta narrativa de Bellini e o Demônio poderia ser melhor aceita pelo grande público, mas as soluções são lastimáveis.
   O próprio lançamento do filme é um drama à parte. Finalizado em 2008, foi exibido em maio do mesmo ano no festival de Los Angeles, nos Estados Unidos, de onde trouxe um prêmio de atuação para Fábio Assunção. Em setembro participou de um festival de cinema do Rio de Janeiro. Sua estréia comercial aconteceu quase dois anos depois, em agosto de 2010, passando praticamente despercebido. Co-produzido pelo TeleCine, nunca teve apoio decente do canal; nunca vi comercial na televisão ou qualquer coisa do tipo. Foi parar no DVD, também sem muita gente dar atenção, lançado alguns dias atrás. Desconfio, por mera desconfiança mesmo, que o fracasso nas bilheterias de Encarnação do Demônio, lançado em 8 de agosto de 2008, tenha influenciado na carreira abortada de Bellini e o Demônio, que chegou a ter sua data de lançamento marcada para 24 de outubro de 2008. Será que temeram que a temática ‘demoníaca’ pudesse afastar o público, numa época em que só se investe em filmes espíritas e com mensagens positivas?


   É uma pena, pois tinha tudo para ser um pequeno grande filme de horror brasileiro. Enquanto não temos caminhos originais a percorrer, pelo menos poderíamos manter o gênero vivo com filmes mais convencionais, porém feitos com correção e sinceridade. Há cenas boas no filme, ou pelo menos com potencial latente, como a do demonólogo interpretado por Jack Militello. Porém, a superficialidade de conteúdo é denunciada pelo fato de levar tão a sério um sujeito como Aleister Crowley, o mais pop dos ocultistas, e a quem os que se dizem verdadeiros satanistas dão às costas e chamam de charlatão. Para encerrar, o anticlimático final surpresa - revelado no trailer, talvez pela ganância de achar que o nome de Marília Gabriela pudesse ser um chamariz de público - mostra em que pé estamos em termos de horror brasileiro.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Folha da Manhã: Vampiros da Meia-Noite (9 a 29 de agosto de 1928)


   A estréia em São Paulo do mítico London After Midnight (Vampiros da Meia-Noite), um dos filmes mais famosos da carreira de Lon Chaney, mereceu cobertura praticamente diária no jornal Folha da Manhã, durante todo o mês de agosto de 1928. Chaney era o maior astro da Metro-Goldwyn-Mayer na época, como fazem questão de frisar todas as notas publicadas acerca de sua mais recente investida nas telas. O filme é considerado perdido e encabeça a lista dos clássicos mudos mais procurados do mundo.













terça-feira, 1 de março de 2011

Cisne Negro (2010)

Uma análise hitchcockiana 


   “Todos os bons filmes já foram feitos”, disse certa vez Peter Bogdanovich, crítico brilhante e cineasta de luz intermitente. O que pode parecer uma resignada descrença no cinema moderno é, na verdade, uma declaração apaixonada pelos filmes clássicos, aqueles que nunca terminam de dizer o que têm a dizer. São cada vez mais raras as novas idéias no cinema contemporâneo; não é o tipo de mídia onde a invenção e a novidade sejam regras. O normal é a repetição e a aposta no que está dando certo. A enxurrada de remakes e continuações nas últimas temporadas de Hollywood é uma triste constatação disso.
   Novidade: talvez esteja aí o cerne da discussão que divide o público de Cisne Negro entre devotos incondicionais e detratores impiedosos. O primeiro grupo se encanta com a complexidade da narrativa e o uso de símbolos e metáforas para retratar perturbações mentais; o segundo se irrita por isso não ser novidade alguma. Acho exagero levar a questão a tais extremos; novidade, é bom que se diga, nunca foi pré-requisito para bom cinema. Falando mais especificamente dos filmes de gênero, Carpenter, DePalma, Argento e Tarantino não são necessariamente originais, porém tampouco são realizadores desprezíveis.
   É nesse patamar que pretendo encaixar Darren Aronofsky, especificamente pelo que fez em Cisne Negro. O filme virou uma verdadeira coqueluxe em rodinhas de conversa de cinema, indo do diletantismo à erudição, e provavelmente sou a última pessoa do mundo a escrever sobre ele. A desculpa é prestar uma homenagem à premiação de Natalie Portman com o Oscar, a única real barbada dessa festa (está bem, Toy Story 3 como melhor animação era ainda mais previsível!). Porém, o viés de meu artigo é uma análise hitchcockiana do filme, a partir de suas características mais marcantes. Não quero reivindicar nenhuma originalidade no texto, pois acho a análise bastante óbvia; só quero deixar claro que não li nenhuma resenha sobre o filme e nem consultei as seções de trivias e movie connections do IMDb, por exemplo. Não sou do tipo que lê todas as críticas disponíveis antes de formar a minha opinião. A diversão, quero acreditar, é justamente expor as próprias idéias e dar início a uma discussão que, quando é boa, nunca se encerra.

Sexo e morte

   O nome de Alfred Hitchcock costuma ser evocado, quase sempre em vão, sempre que é lançado algum filme razoável de suspense. Muitas vezes, o responsável pela comparação sequer cita quais circunstâncias promovem tal aproximação; provavelmente apenas acha “chique e elegante” comparar algo a Hitchcock. O fato é que o rotundo diretor inglês não era gênio apenas porque era dotado de uma técnica impecável e contava histórias de suspense como mais ninguém. O que o tornava único - e, paradoxalmente, faz com que muitos o imitem - era sua obsessão, basicamente, por dois temas intimamente relacionados que, em suma, justificam nossa existência: sexo e morte.
   Todos os grandes filmes de Hitch foram elaborados sob a égide desse duo: Chantagem e Confissão, Pacto Sinistro, Um Corpo Que Cai, Psicose, Marnie, Frenesi, entre outros. O único outro tema que parecia interessar a Hitchcock era viagem, o que curiosamente o associa a Jim Morrison, dos Doors, que certa vez declarou que todas as canções de sua banda eram sobre “amor, morte e viagem”. Darren Aronofsky certamente não estava pensando em viagem quando fez Cisne Negro; tampouco é um filme sobre balé ou sobre uma jovem em crise porque tem medo de fracassar na carreira, como alguns parecem acreditar. Cisne Negro é, pura e simplesmente, um filme sobre sexo e morte, como esses dois temas se relacionam e como um inevitavelmente conduz ao outro.

O mundo é um palco


   O estilo narrativo de Cisne Negro segue um ensinamento hitchcockiano que pode ser resumido por uma frase célebre de Shakespeare: “o mundo inteiro é um palco”. A atuação, a dissimulação, a falsidade, mentira ou transformação, inclusive física, tanto no palco quanto fora dele, está presente em muitos filmes de Hitchcock: Assassinato, Pavor nos Bastidores, Um Corpo Que Cai, Cortina Rasgada, Trama Macabra e tantos outros. O processo enfrentado por Nina (Natalie Portman) no filme de Aronofsky é o mesmo de muitas heroínas hitchcockianas: tentar ser outra pessoa, assumir uma identidade que não é a dela, voluntariamente ou por alguma necessidade circunstancial.
   Também podemos interpretar como uma metáfora do próprio processo da criação artística, da construção de uma personagem ou de uma trama. Hitchcock fez exatamente isso em Janela Indiscreta, Disque M para Matar e Um Corpo Que Cai, nos quais há em cena um “diretor” que conduz a trama e o rumo dos personagens.
   A obsessão trágica de Nina em se tornar o Cisne Negro é a mesma de Scotty, um ex-policial, ao decifar o mistério de Um Corpo Que Cai: ele é prisioneiro de sua profissão e, portanto, não é capaz de não cumprir sua missão, mesmo que isso custe seu grande amor. Existem outros personagens similares na galeria hitchcockiana, como Mr. Memory, de Os 39 Degraus, incapaz de não responder uma pergunta quando é questionado, ou Lila, uma balconista de uma loja de discos que não resiste à tentação de olhar o que rola na vitrola da Sra. Bates ao invadir a velha casa sinistra de Psicose.
   Natalie Portman foi merecidamente elogiada, e vem colecionando prêmios em toda festa que comparece, por seu desempenho num papel duplo, e isso nos leva a outra obsessão de Hitchcock: a personalidade dividida, a idéia de que temos dois lados em constante conflito, o bom e o mau, às vezes convivendo dentro de uma mesma pessoa (Psicose), em outras, cindido em dois personagens (Pacto Sinistro). Aronofsky inclusive recorre a um truque essencialmente hitchcokiano para enfatizar isso, abusando do uso de espelhos (vide Psicose). O doppelgänger existe no cinema pelo menos desde o expressionismo alemão (O Estudante de Praga), mas Hitchcock de alguma maneira se apoderou do tema e o tornou seu.

Voando alto

   O quebra-cabeças hitchcockiano de Cisne Negro se completa com outras peças que compõem um enredo de obsessão, paranóia e pesadelo: a sexualidade reprimida que aflora com consequências trágicas (A Tortura do Silêncio, Psicose, Marnie), a ambiguidade sexual (Assassinato, Festim Diabólico, Psicose) e a mãe dominadora (Interlúdio, Psicose, Os Pássaros), elementos que se combinam com naturalidade. A cena na qual Nina tenta estimular seu desejo sexual se masturbando na cama, até perceber, horrorizada, a presença da mãe, que dorme numa poltrona ao lado da cama, combina de maneira soberba tanto o horror quanto o humor negro hitchcockianos.
   E, obviamente, não podemos esquecer aquela que talvez seja a mais reconhecível assinatura de Hitchcock e que tem relação explícita com Cisne Negro: a presença de pássaros para representar perturbação mental, loucura e delírio. Desde Chantagem e Confissão até a obra-prima Os Pássaros, passando inevitavelmente por Psicose, o diretor recorreu ao simbolismo das aves para retratar almas atormentadas e emoções sufocadas. O clímax do filme de Aronofsky também segue a cartilha do Mestre do Suspense em seus desfechos clássicos: a queda fatal, o despencar no abismo, muitas vezes punindo culpados e pecadores. Sabotador, Um Corpo Que Cai e Intriga Internacional são alguns dos filmes de Hitchcock que terminam com pessoas caindo no abismo, como acontece com Nina em Cisne Negro.


O duplo do duplo

   Não tenho a intenção de argumentar que Cisne Negro é um bom filme por ser um apanhado de temas tipicamernte hitchcockianos; o que me interessa observar é que Aronofsky emprega esses símbolos de maneira que dialogam diretamente com o estilo de Hitch. Não são características que encontramos casualmente nos filmes do Mestre do Suspense; são, isso sim, os alicerces de sua maneira de contar histórias. Mesmo os filmes menores do diretor costumam ser discutidos com interesse por apresentarem as mesmas preocupações. Cisne Negro, mesmo com suas imperfeições, também merece suscitar o mesmo tipo de debate, pelo menos para quem acha que vale a pena discutir as muitas possibilidades do horror. (Às vezes tenho a impressão que apenas filmes imperfeitos me interessam, pois são eles que nos revelam o processo humano - portanto fadado a erro - da criação cinematográfica; são eles que nos convidam à discussão, aguçam os sentidos e inflamam opiniões.)
   O tema não é novo - a quem quiser conferir outros bons filmes sobre doppelgänger, recomendo As Irmãs Diabólicas, A Janela Secreta, A Metade Negra e até os brasileiros O Sósia da Morte e Gêmeas - mas o filme de Aronofsky tem brilho próprio por conseguir compor personagens tão cativantes e envolver o público em sua obsessão particular. Num nível mais pessoal, comemoro que um filme denso e sombrio como este se torne tão popular e um papel feminino desses seja tão premiado, pois pode ser a deixa para que o cinema industrial americano invista em mais produções deste estilo e contemple níveis de horror que fujam do óbvio.
   A lição final, inevitável, é que ainda há o que se aprender com o cinema de Hitchcock, algo que fica muito além da visão superficial de imitadores de pirotecnias, maneirismos e finais-surpresa.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Prêmio Dardos

   Recebi do J. Luca, do blog Midnight Drive-In, o “selo de qualidade” Dardos, o que imagino ser uma coisa muito boa, pois significa que alguém lê e até gosta do que escrevo. Isso é bom.
   Também fui avisado que esse prêmio tem algumas regras que devem ser cumpridas, sendo a mais importante delas agraciar mais quatro blogs com esse selo. Bem, assim sendo, os meus eleitos são: Medo de Quê?, da Laura Cánepa, Blog do Blob, do Paulo Teixeira, Viver e Morrer no Cinema, do Leandro Caraça, e Cinema Gato Preto, da Beatriz Saldanha (agora quero ver se ela se anima a atualizar o blog com mais frequência!). Os eleitos serão avisados e deverão seguir a corrente; quem não cumprir as regras dentro de 48 horas sofrerá as consequências, tipo a sogra pegar resfriado ou o cachorro de estimação engasgar com um osso, essas coisas.
   Para encerrar, só quero lembrar que tem muitos outros blogs ótimos de amigos meus, mas alguns mudam de endereço eletrônico com mais regularidade do que trocam de cueca, outros já são consagrados e não merecem mais paparicação, outros ainda enjoaram de ganhar selos.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Folha de S.Paulo: O Horror Nacional (1978)

   O jornal Folha de S.Paulo colocou no ar recentemente, a princípio com acesso livre e gratuíto a qualquer cidadão, todo o acervo do periódico em formato digital. São quase dois milhões de páginas em 90 anos de jornal. Eu, que já estava com visita marcada à biblioteca, justamente para pesquisar o acervo desse jornal, comemorei essa possibilidade de acessar as mesmas informações no conforto do lar. Uma oportunidade preciosa para apurar dados, ler opinões e preencher lacunas sobre o cinema de horror, em especial a produção nacional, que é o que mais tem me interessado nos últimos meses.
   A seleção de reportagens que apresento aqui é a cobertura que o crítico e cineasta Jairo Ferreira fez da mostra O Horror Nacional, que aconteceu paralelamente - e extra-oficialmente - durante o Festival de Cinema de Brasília, no final de julho de 1978. O gênero, então discutido e representado por artistas como Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Elyseu Visconti Cavalleiro e, obviamente, por José Mojica Marins, na época lançando Delírios de um Anormal, simboliza mais uma revolta e um inconformismo com o estado do cinema nacional da época do que necessariamente exercícios de medo ou estéticas do grotesco. Ainda que alguns filmes possam ser considerados representações válidas do horror brasileiro, outros não podem ser vistos dessa maneira.
   Porém, o que importa é o registro histórico; vale ler o que Jairo tinha a dizer sobre a situação do nosso cinema na época - concorde-se ou não com as idéias dele. O resultado mais notório desse encontro memorável foi o documentário Horror Palace Hotel ou O Gênio Total, que Jairo Ferreira e Rogério Sganzerla dirigiram, em Super-8, durante o festival.








quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Filme Cultura 53


   A edição mais recente da revista Filme Cultura apresenta uma lista denominada “os 10 filmes brasileiros do coração”. A enquete, que escolheu os filmes nacionais mais queridos, mas não necessariamente os melhores ou mais relevantes, foi feita a partir de votos de 102 pessoas ligadas ao cinema de alguma maneira. Tive a honra de estar entre esses votantes, ao lado de realizadores renomados como Alfredo Sternheim, Carlos Reichenbach, Daniel Filho, Ivan Cardoso, Paulo Sacramento e Silvio de Abreu, e também de críticos e pesquisadores como Bernadette Lyra, Daniel Caetano, Fernando Veríssimo, Gelson Santana, Inácio Araújo, Laura Cánepa e Rubens Ewald Filho.
   A lista dos mais votados é bem curiosa e reveladora, mas não foi surpresa o grande vencedor ter sido O Bandido da Luz Vermelha (1969), de Rogério Sganzerla, um marco do cinema nacional. O que muitos acharão bizarro, de fato, são alguns títulos que entraram na minha própria listagem, formada por dez favoritos obrigatórios e mais dez filmes menos óbvios. Como não posso me considerar um especialista em cinema brasileiro, meu objetivo foi dar alguma visibilidade a obras mais obscuras que, dentro da minha pesquisa do gênero horror no cinema nacional, merecem ser conhecidas.
   Entre esses quase absolutamente esquecidos estão Tormenta (1982), de Uberto Mollo, O Sósia da Morte (1975), de Luís Miranda Correia e João Ramiro Mello, Mistéryos (2008), de Beto Carminatti e Pedro Merege, Morgue Story: Sangue, Baiacu e Quadrinhos (2009), de Paulo Biscaia Filho, Mangue Negro (2008), de Rodrigo Aragão, e até mesmo o extravagante Os Sóis da Ilha de Páscoa (1972), um delírio ufólogo de Pierre Kast.
   Por outro lado, brigo por meus dez preferidos: O Ritual dos Sádicos (1970), de José Mojica Marins, A Força dos Sentidos (1978), de Jean Garrett, O Anjo da Noite (1974), de Walter Hugo Khouri, À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), de José Mojica Marins, Baixio das Bestas (2006), de Cláudio Assis, Amadas e Violentadas (1975), de Jean Garrett, O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), de José Mojica Marins, Os Monstros de Babaloo (1971), de Elyseu Visconti Cavalleiro, Os Famosos e os Duendes da Morte (2009), de Esmir Filho, e Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins. O único filme dos vinte da minha lista que foi classificado entre os 25 finalistas foi À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Todas as listas individuais podem ser conferidas aqui.
   A fase clássica da Filme Cultura foi entre 1966 e 1988, mas a publicação voltou à ativa em abril de 2010 e já lançou quatro edições desde então, revigorando a pesquisa, crítica e divulgação da produção nacional. Todas as edições estão disponíveis no site em versão PDF. Você pode baixar o número 53 da revista em formato digital clicando aqui.
   Também pode entrar na brincadeira e fazer sua própria lista de prediletos ou contestar a minha ou outras listas deixando comentários para esta postagem!
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