O canto-de-cisne da veterana atriz Joan Crawford - na época com 65 anos, ela morreria sete anos depois - Trog, o Monstro das Cavernas (1970) é dos filmes mais controversos de sua carreira e de todos os envolvidos em sua realização. Obra-prima menosprezada ou lixo irremediável? Definitivamente não era o tipo de filme que os velhos fãs de Miss Crawford esperavam àquela altura e boatos dizem que a reação da atriz, após ver a obra completa, ficou entre decidir se afastar das telas e cometer suicídio. Sabiamente, ela optou apenas pela aposentadoria. O tempo se encarregou de mostrar que o desastre não era tão grande assim e a atriz segue até hoje colecionando novos séquitos de admiradores. Afinal, não é exagero afirmar, existem basicamente dois tipos de filmes: os comuns, esses que a gente assiste todo dia, e os filmes de Joan Crawford.
Aliás, o termo correto nem é “filme”, e sim “veículo”. Para se entender o fenômeno Joan Crawford - e especialmente seus fãs - é preciso compreender cinema como uma fábrica de magia, do culto à imagem acima de tudo. O star-system hollywoodiano sempre colocou os astros e estrelas acima de qualquer coisa; nada de “cinema de autor”. Cinema de astros. Filmes era “veículos” para astros e estrelas brilharem e não muito mais do que isso.
Claro que a coisa não é tão simples assim. O cinema é uma arte viva e em constante transformação. Joan Crawford atravessou a história da sétima arte desde o período dos filmes silenciosos até à portinha da década de 1970. Ela tem também lugar garantido no coração dos aficionados pelo gênero horror desde que transtornou a mente de Lon Chaney no clássico do mudo O Monstro do Circo (1927). Décadas mais tarde, foi visionária ao conceber O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (1962) como um veículo para si e para a colega/rival Bette Davis. O êxito estupendo de Baby Jane originou um ciclo de fitas de horror psicológico sobre velhotas psicóticas, espécie de “menopausa do horror”, dando sobrevida às carreiras de estrelas aposentadas (e quase esquecidas) como Barbara Stanwyck, Olivia De Havilland, Joan Fontaine, Tallulah Bankhead, Lana Turner e Veronica Lake.
Congelado no tempo
Entretanto, Trog não é Baby Jane; nem mesmo é Almas Mortas ou Espetáculo de Sangue. É algo completamente diferente... que ainda aguarda descrição. O filme começa com três jovens exploradores descobrindo quase ao acaso uma gruta onde vive um homem pré-histórico. Uma respeitada antropóloga inglesa (Joan Crawford), com especial interesse por primatas, fica sabendo da descoberta e imediatamente decide resgatar Trog (abreviação carinhosa de “troglodita”) de sua caverna úmida para mantê-lo enjaulado em seu centro de pesquisas, onde poderá estudá-lo em tempo integral. A doutora acredita estar diante do “elo perdido” da evolução do Homem e que o primata sobreviveu milhões de anos em suspensão criogênica.
O conceito genérico de “a maior descoberta científica da civilização moderna” é uma invenção antiga do cinema; vem pelo menos desde O Mundo Perdido (1925) e King Kong (1933). O roteiro de Trog parte dessa situação básica e apela para lugares-comuns para retratar a natureza selvagem de Trog, que aprecia música suave, mas se enfurece quando ouve rock (não nos enfurecemos nós todos?); fica com expressão serena ao fitar a cor azul, mas vira fera quando vê a cor vermelha, e assim por diante. Mesmo assim, há algumas situações curiosas nessa relação entre doutora e homem-primata. A antropóloga coloca uma coleira em Trog e o trata como a um bicho de estimação, a quem sua filha, com vago interesse pela novidade, passa a alimentar e tomar conta. Elas depois o tratam como criança - uma criança retardada, como faz questão de frisar a doutora - e lhe dão brinquedos. Trog, porém, é muito sensível; prefere brincar de boneca e estraçalha geringonças barulhentas. São curiosas as insinuações de que ele teria tendências gay: além de gostar de bonecas, Trog também se encanta com o lacinho cor-de-rosa que a doutora usa no pescoço. Desta maneira, não apenas Freud foi introduzido na pré-história, como observou o crítico Rubem Biáfora, mas também o homossexualismo!
Longe de casa
Trog é um misto de monstro de Frankenstein e King Kong. Como o primeiro, tem a mente de uma criança que precisa ser tratada com paciência, compaixão e compreensão. Como o segundo, comporta-se de maneira indomável, é incapaz de negar sua natureza selvagem e tem saudades de casa - neste ponto, o filme comete o erro histórico (e muito comum) de mostrar homens primitivos convivendo com dinossauros, ao representar as lembranças de Trog em seu habitat natural. As cenas usadas nesta breve sequência em flashback foram tiradas do filme O Milagre da Vida (1956), dirigido por Irwin Allen, com efeitos em stop-motion de Ray Harryhausen.


Não é apenas Trog quem está longe de casa, mas também a antropóloga com seus princípios nobres. A Ciência, ensina o filme, não tem lugar num mundo no qual o progresso é sinônimo de urgência. Não há tempo para se olhar para o passado - o futuro precisa ser construído hoje. Esse pensamento é manifestado por meio do personagem interpretado por Michael Gough, inimigo declarado da doutora e interessado somente nas terras onde o troglodita foi encontrado. O ódio do empresário em relação à criatura primitiva é o de alguém que tenta negar sua origem animal. A Polícia se mostra igualmente obtusa, determinada somente em destruir aquilo que considera perigoso, tratando Trog como um simples assassino. Quando finalmente o Exército é chamado, o problema é resolvido da única maneira que os militares são capazes de entender: destruindo tudo.
No final, o enigma de Trog - esse Kaspar Hauser da era paleolítica - é sepultado nos confins de sua caverna, aonde o pensamento reacionário, envergonhado ao fitar no espelho suas próprias fraquezas primitivas, prefere ocultar o passado. A objetividade intolerante do mundo moderno, em seu progresso voraz, não se importa com a investigação científica e é ela - a Ciência - a maior derrotada da história.
Dama para sempre
A princípio pode nem parecer um filme de Joan Crawford, mas basta a estrela surgir em cena para que ela o transforme num filme seu. Miss Crawford mantém o estilo elegante e glamuroso e não repete figurinos ao longo de todo o filme, seja usando um macacão de mineradora, uma camisola esvoaçante ou elegantemente trajada para defender seus princípios científicos no tribunal.
Dentro do gênero horror, a atriz já fora mesquinha e dessimulada em Baby Jane e fornecera rico material para psiquiatras em Almas Mortas. Não seria exagero dizer que aqui ela poderia fazer qualquer papel: poderia ser o vilão vivido por Michael Gough; até mesmo ser o próprio Trog, e ainda assim seu desempenho seria no padrão Crawford; ou seja, entregando-se completamente à personagem.
A atriz esteve no Brasil na época da realização do filme, em 1970, mas não para promover Trog, que permaneceu inédito nos cinemas do país (só foi exibido na televisão, anos mais tarde), preterido pelos executivos da Warner por THX 1138, longa-metragem que marcou a estréia de George Lucas. Crawford visitou o país para inaugurar uma fábrica da Pepsi Cola, empresa da qual era uma das diretoras.
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O elenco de apoio é cheio de atrações. Michael Gough, assim como o próprio filme, costuma ser impiedosamente malhado pela crítica, mas sua performance exagerada é tão deliciosa quanto os papéis que viveu em Horrores do Museu Negro (1959), Konga (1961) e Feras Sanguinárias (1963). Também aparecem em papéis menores Robert Hutton (O Monstro de York), David Warbeck (A Casa do Além) e a menininha Chloe Franks, que no ano seguinte aterrorizaria a vida do papai Christopher Lee no melhor episódio de A Casa Que Pingava Sangue. Trog, o homem de neandertal, é interpretado pelo ex-lutador de wrestling Joe Cornelius, usando uma máscara de primata criada por Charles Parker com restos do prólogo de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick. Freddie Francis, provavelmente o mais irregular entre os grandes realizadores de filmes de horror, assina a direção, que deixa a desejar. A produção é de Herman Cohen, famoso pelos filmes de monstros adolescentes dos anos 50, responsável também pelo filme anterior de Miss Crawford, Espetáculo de Sangue (1968). Seu estilo chocante é perfeitamente respresentado pela cena do açougueiro que Trog pendura no gancho - isso é o que na época ainda se chamava de grand guignol. O roteiro é de Aben Kandel, escritor regular das produções de Cohen, baseado num argumento de Peter Bryan e John Gilling (diretor de Os Monstros da Morgue Sinistra, A Epidemia dos Zombies e A Serpente). A montagem é de Oswald Hafenrichter, que trabalhou no Brasil na época da Vera Cruz (Caiçara, Veneno, Sinhá Moça, Luz Apagada, O Cangaceiro, Floradas na Serra) e passou os últimos anos da vida editando filmes de horror.
E a palavra final, como não poderia deixar de ser, é de Joan Crawford. Ou quase isso: interpelada por um repórter que deseja uma declaração sua após a destruição do homem-primata, Crawford apenas afasta o microfone e caminha para longe. Nada mais tinha a dizer. Foi sua despedida das telas e, como sempre acontecia, a câmera a acompanha até o último frame.