CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

The Adventures of Uncle Mistletoe (1949)



   Para começar os vídeos especiais de Halloween, vale esse resgate de um dos mais antigos programas infantis da televisão estadunidense. Este episódio do programa The Adventures of Uncle Mistletoe, exibido no canal ABC originalmente em 25 de outubro de 1949, tem o Dia das Bruxas como tema. São apenas 15 minutos, então reúna a criançada em torno do computador e curta um Halloween à moda antiga, quando tudo pelo menos parecia mais inocente.

domingo, 19 de setembro de 2010

Bon Voyage e Aventure Malgache (1944)



   Dois curtas-metragens dirigidos por Alfred Hitchcock para o British Ministry of Information (o serviço secreto britânico), a contribuição do cineasta aos esforços de guerra para ajudar os membros da resistência francesa a enfrentar a ocupação nazista. Os filmes foram considerados de moral dúbia e não chegaram a ser exibidos na época, transformando-se nas décadas seguintes em itens de colecionador, até serem resgatados e lançados, inicialmente em VHS e depois em DVD. Baixar Bon Voyage em AVI com 193 MB. Baixar Aventure Malgache em AVI com 207 MB.

sábado, 18 de setembro de 2010

Under Capricorn (1949)


   Talvez o último dos longas estranhos de Hitchcock, este é um filme de época que em quase nenhum momento lembra o estilo consagrado do Mestre do Suspense. Foi o segundo e último filme de sua própria produtora, a Transatlantic Pictures, que encerrou as atividades depois deste fracasso. O filme anterior foi Festim Diabólico (1948), conhecido pelas longas tomadas sem cortes; técnica repetida em muitos momentos deste longa. O filme foi lançado originalmente em setembro de 1949 e chegou ao Brasil com o equivocado título Sob o Signo de Capricórnio (a história se passa na Austrália, país que fica abaixo da linha imaginária do Trópico de Capricórnio; não tem nada a ver com o signo). Baixar em MP4 com 1.3 GB.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Incrível! Fantástico! Extraordinário! (1947-1958)

   Eu estava quase finalizando esta postagem quando, por uma feliz coincidência, Laura Cánepa postou no blog dela um texto sobre a adaptação cinematográfica de Incrível! Fantástico! Extraordinário! (1969). Isso me motivou a colocar logo no ar esse texto, pois aqui falo especificamente sobre o programa de rádio que, durante mais de dez anos, prejudicou o sono de muitos ouvintes. Não faltam sequer relatos (aparentemente um tanto exagerados) até de pessoas que cometeram suicídio depois de acompanhar os contos assustadores que eram narrados no programa. Ótima publicidade, sem dúvida.
   Incrível! Fantástico! Extraordinário! foi criado por Henrique Foreis Domingues, mais conhecido como Almirante, um dos nomes mais importantes do rádio brasileiro. O programa era transmitido pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro, apresentando dramatizações de casos fantásticos, sobrenaturais e inexplicados, os quais supostamente eram relatos verídicos enviados pelos ouvintes e narrados por Almirante e pelo elenco da rádio. Os textos eram escritos por José Mauro e, posteriormente, por Cesar de Barros Barreto. Cada programa era composto por quatro histórias curtas, narradas em clima de suspense, com direito a sonoplastia e música incidental, tudo desempenhado ao vivo no estúdio.
   O programa estreou em 21 de outubro de 1947, quando foram ao ar as histórias A Aranha, O Comandante, Saci Pererê e O Baile. Seguiram-se centenas de programas, apresentando casos como Pianinho de Brinquedo, O Estranho Homem Que Queria Construir uma Granja, O Defunto Que Respondia as Perguntas, O Fantasma da Negra Que Vendia Acarajé, O Cadáver Que Se Levanta da Cama e Pede um Café e tantas outras narrativas tão pitorescas quanto intrigantes. O último programa foi ao ar em 1958. Parte do acervo da série foi restaurado e está disponível para compra na página do Collector’s Studio. Quem se interessar em comprar toda a coleção deve se preparar para desembolsar mais de R$ 600. Ou então pode saciar a curiosidade ouvindo o programa abaixo, infelizmente com qualidade de som sofrível.


   A série causou enorme impacto por todo o país, um testemunho valioso do poder do rádio na época, deixando as pessoas apavoradas, imaginando da maneira mais assustadora possível as histórias narradas a cada episódio. A sofisticação do programa chegava ao ponto de dar nome e endereço completo das pessoas que enviavam os relatos, além de garantir que tudo era cuidadosamente investigado, com integrantes da equipe de produção indo ao local onde teria ocorrido o fenômeno sobrenatural. Difícil acreditar que isso acontecia de verdade, mas certamente servia para inflamar ainda mais a imaginação dos ouvintes.
   O sucesso do programa se repetiu numa edição em livro, no qual o próprio Almirante selecionou 70 dos casos assombrosos mais populares dramatizados no rádio. O volume foi lançado originalmente em 1951 pelas edições O Cruzeiro e reeditado em fins da década de 80, com uma organização mais cuidadosa e focada na pesquisa e no aspecto histórico do programa, pela editora Francisco Alves.
   O programa também inspirou o longa-metragem em episódios Incrível! Fantástico! Extraordinário!, dirigido por C. Adolpho Chadler em 1969, o qual é abordado detalhadamente aqui, e virou série de televisão na temporada 1994-95. Produzido pela TV Manchete e apresentado por Rubens Correa, a nova encarnação de Incrível! Fantástico! Extraordinário! só reaproveitou o nome da clássica criação de Almirante. Os roteiros deixaram de lado os pretensos ‘causos’ verídicos e buscaram inspiração em contos literários, como no programa de estréia, de 23 de novembro de 1994, com o popular A Garra do Macaco. Seguiram-se outros doze episódios (pelo menos tenho gravado esses treze programas; não acredito que a série seja maior do que isso), incluindo títulos como Gêmeas, O Fantasma da Prostituta, A Casa da Clareira e O Relógio do Tempo. Porém, o nível de produção era baixíssimo, com praticamente todas as tramas se passando numa casa de fazenda. Afastadas do cenário urbano, essencial para evocar alguma credibilidade, as histórias quase sempre eram desprovidas de interesse. O derradeiro programa, intitulado Possessão, foi ao ar em 22 de fevereiro de 1995, e a série desapareceu da grade da emissora sem deixar saudades.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Experiments in the Revival of Organisms (1940)


   Depois de todo o rebuliço causado pelo curta-metragem Juvenília entre os amantes de cachorros que visitam este blog, aqui está algo para realmente aguçar a militância no combate à crueldade contra animais, principalmente os pobrezinhos que são cortados, perfurados e cutucados em laboratórios científicos. O filme Experiments in the Revival of Organisms (1940) é um pseudocumentário curto realizado na União Soviética em fins da década de 1930, registrando as assombrosas façanhas da equipe liderada pelo Dr. S.S. Bryukhonenko no Instituto Experimental de Fisiologia e Terapia, em Voronezh, na tentativa de reviver organismos mortos. Bryukhonenko, o arquétipo irretocável do ‘cientista louco’, conduz experiências grotescas com cachorros, extraindo seus órgãos vitais (coração e pulmão) e os mantendo funcionando fora do corpo. A cena mais impressionante (e, por extensão, a mais desagradável e repulsiva) é a da cabeça decapitada de um cãozinho que é mantida viva por algumas horas por meio de um complexo maquinário. O derradeiro experimento mostra um cachorro sendo ressuscitado depois de ficar morto durante dez minutos, quando todo o sangue que foi retirado de seu corpo é novamente injetado em seu organismo por meio de uma engenhoca batizada de Sistema Artificial de Circulação de Sangue.
   Falando estritamente em termos cinemáticos (que é o que realmente importa aqui), este bizarro filme de propaganda comunista é um tesouro proibido nos anais dos filmes de horror e ficção cietífica, tendo provavelmente servido de inspiração para obras cultuadas como The Brain That Wouldn’t Die, Donovan’s Brain, The Frozen Dead e tantas outras sobre cientistas que tentam reviver cérebros, cabeças e membros emputados. Comprova, acima de tudo, que os cientistas loucos da ficção ainda ficam devendo aos seus colegas do mundo real.
   Prefiro não discutir mais detalhadamente a autenticidade, veracidade ou mesmo a validade do filme como documento científico, mas é flagrante o quanto ele borra os limites entre documentário, propaganda e ficção científica. O filme é repleto de cenas perturbadoras, cruéis e até doentias; o próprio ambiente do laboratório é assustador, com cientistas de aparência sinistra. A Medicina moderna contradiz muitas das ‘façanhas’ apresentadas no filme: como seria possível, por exemplo, o cérebro do cãozinho não sofrer nenhum dano grave depois de ficar dez minutos sem oxigenação?
   O documentário, em sua versão americanizada, é apresentado pelo Prof. J.B.S. Haldane, que afirma ter sido testemunha dos experimentos retratados no filme, tornando a farsa ainda mais complexa e preocupante, demonstrando na prática o poder de manipulação que as autoridades enxergavam no cinema. O epílogo é de um absurdo ridículo, no clima de “tudo fica bem quando acaba bem”, e é impressionante que alguém acreditasse na veracidade dessas proezas mesmo naquela época.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1946-1949)

   Cineasta nascido na Argentina e radicado no Brasil durante mais de 40 anos, Carlos Hugo Christensen começou a carreira em seu país natal em 1939. Fez cerca de 50 longas até 1996, quando realizou o raro A Casa de Açúcar, não exibido no Brasil. Sua obra se caracteriza por temas como a chegada da adolescência e o amadurecimento, reencontros e a tentativa de se resgatar um passado romântico por meio de reminiscências perdidas no tempo. Passou por Chile (La Dama de la Muerte, 1946), Venezuela (El Demonio És un Ángel, 1950) e Peru (Armiño Negro, 1953) antes de começar a filmar no Brasil, em 1955, onde chegou inclusive a dirigir um filme sobre Pelé.
   Dentro do gênero horror, suas mais notórias contribuições foram os filmes brasileiros Enigma para Demônios e A Mulher do Desejo (A Casa das Sombras), ambos de 1975, com roteiros do próprio Christensen e de Orígenes Lessa inspirados em obras de Carlos Drummond de Andrade, Nathaniel Hawthorne e Samuel Taylor Coleridge. O cineasta já demonstrara interesse pelo gênero durante seu período itinerante pela América do Sul, quando flertou com o suspense sombrio, o conto policial e com diferentes estilos de narrativas de horror em vários filmes. Finalmente consegui localizar sete destas obras e enfim pude conferir sua inequívoca vocação para filmar tramas sinistras e tensas.
   Curiosamente, estas realizações de Christensen que beiram o horror são justamente do período no qual o gênero estava desprestigiado e ameaçado de extinção tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, entre o pós-guerra e o início da era nuclear (1946-1952). É uma época de poucas e esparsas realizações dentro do gênero, o que torna as obras de Christensen ainda mais relevantes e históricas.

La Dama de la Muerte (1946)

 

   O primeiro importante filme de terror de Christensen é esta produção chilena, uma das primeiras películas produzidas no país, um thriller de horror repleto de bons momentos de medo e suspense, personagens bem desenvolvidos e final impactante. Excelente adaptação do conto “The Suicide Club”, de Robert Louis Stevenson, publicado originalmente no livro New Arabian Nights (quem se interessar pode baixar o livro em formato PDF aqui numa cópia facsímile da edição de 1905). A trama, ambientada na Londres da era Vitoriana, é sobre um rapaz desesperado que se envolve com um clube secreto de suicidas. A cena que selecionei é o momento em que ele teme estar sendo perseguido por um de seus colegas de clube, encarregado de assassiná-lo (reparem nas imagens surreais que o assombram, incluindo dois policiais que formam uma enorme e ameaçadora aranha). O conto de Stevenson foi filmado diversas outras vezes, inclusive na antologia muda alemã Histórias Tenebrosas (Unheimliche Geschichten), realizada por Richard Oswald em 1919.

El Angel Desnudo (1946)

 

   Este melodrama argentino, parcialmente filmado no Rio de Janeiro, é notável pelo clima fatalista e trágico que domina a película. Não se trata necessariamente de um filme de suspense, porém é carregado de angústia e tensão. Uma jovem argentina em visita ao Rio de Janeiro recebe uma carta desesperada de seu pai, o qual lhe pede que tente conseguir uma grande quantia em dinheiro com um velho conhecido dele. O sujeito em questão é um consagrado escultor, que recebe a moça cheio de segundas intenções. O filme é sobre o dilema moral enfrentado pela protagonista, que se questiona se deve ou não sujeitar-se aos caprichos do escultor, o qual deseja “contemplar sua beleza nua inteiramente” em troca do empréstimo.
   A barganha adquire traços malditos, como se sua entrega ao artista representasse algo irreversível, definitivo, até mesmo sua morte. O tema do sacrifício por amor se torna ainda mais intenso pelo fato de a moça salvar o pai de uma situação humilhante, pagando as dívidas contraídas pelo velho com jogatina. O escultor, insinua a trama, é o próprio Diabo, com cavanhaque mefistofeliano e personalidade reclusa. Permeia o filme esse desejo do profano pela pureza, o casamento do angelical com o diabólico. Há poucos momentos realmente impactantes, então selecionei para o vídeo a cena final, que mostra o confronto entre anjo e demônio.

La Muerte Camina en la Lluvia (1948)

 

   Este clássico filme de mistério e suspense é um dos grandes momentos nos primeiros anos da carreira de Christensen, versão argentina do livro L’Assassin Habite au 21, do autor belga S.A. Steeman. A história foi filmada anteriormente por Henri-Georges Clouzot, em sua estréia nas telas, em 1942, e não seria surpreendente que a versão de Christensen tenha sido fortemente influenciada por essa adaptação anterior, mas infelizmente não assisti ao filme de Clouzot para compará-los.
   É uma trama de mistério do tipo “quem foi?”, sobre um assassino psicopata que deixa um bilhete com sua assinatura junto de cada vítima. Seu nome é S. López e toda a cidade de Buenos Aires fica aflita com os crimes cometidos pelo misterioso homicida. Uma testemunha ocular de um dos crimes descobre que o assassino mora numa pensão, onde transcorre toda a ação do filme até que o culpado é desmascarado.
   Selecionei a cena de abertura para o vídeo, uma exuberante amostra da narrativa de suspense concisa que Christensen certamente aprendeu com o mestre Hitchcock: a economia e objetividade dos planos e o processo de informação imagética remete ao início de The Lodger: A Story of the London Fog (1927): ambos compõem o perfil do assassino a partir de fragmentos de informações e o efeito que isso causa nas pessoas.

La Trampa (1949)

 

   Outra produção argentina, adaptação do livro Algo Horrible en la Leñera (Something Nasty in the Woodshed, 1942), de Anthony Gilbert, pseudônimo da autora inglesa Lucy Beatrice Malleson. É um típico melodrama feminino, com alguns exageros próprios do gênero, mas com andamento envolvente e clima constante de suspense. Conta a história de uma solteirona que responde a um anúncio de jornal publicado por um homem recluso à procura de esposa. Não demora para percebermos que o carismático galanteador na verdade é um golpista frio que só planeja se apoderar da fortuna dela.
   A angústia vivida pela protagonista remete a clássicos melodramas sobre mulheres à mercê de homens cruéis, como Suspeita (1941) e Interlúdio (1946), de Alfred Hitchcock, e os veículos da estrela Joan Crawford, Precipícios d’Alma (1952) e Frenesi de Paixões (1955). A trama envolve também um suposto fantasma que assombra a propriedade. Selecionei para o vídeo o momento mais horrorífico do filme, justamente a aparição do tal fantasma.


   A lamentar, somente a qualidade lastimável de conservação desses filmes - alguns com créditos de abertura incompletos, copiados da TV ou de velhos VHS. Isso atesta a raridade dos mesmos e também um certo desprezo com o qual aparentemente são tratados por nossos vizinhos; certamente não muito diferente de como (des)cuidamos dos nossos próprios.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Monstro Elétrico (1941)

   Lon Chaney Jr. é apenas mais um em meio a inúmeros astros de Hollywood com uma trajetória ao mesmo tempo fascinante e trágica. É também outro dos muitos artistas de talento limitado que devem aos filmes de horror sua popularidade perene e o renovado interesse por sua carreira. Basicamente, Chaney Jr. tem um único papel respeitável em sua trajetória fora do horror, como o simplório Lennie em Of Mice and Men (Carícia Fatal), de 1939, adaptado do celebrado livro de John Steinbeck.
   Filho de um dos maiores astros do cinema mudo, o consagrado “homem das mil faces” Lon Chaney, responsável por caracterizações memoráveis como O Fantasma da Ópera e O Corcunda de Notre Dame, Lon Chaney Jr. não apenas relutou em seguir os passos de seu pai no horror, mas na própria carreira de ator, só entrando para o cinema depois da morte do pai. No início, fez papéis menores, aparecendo principalmente em faroestes, usando seu verdadeiro nome, Creighton Chaney. Acabou se rendendo aos filmes de horror, e à pressão dos produtores de usar o famoso nome paterno, no começo da década de 1940, quando acabou se tornando uma figura chave no segundo grande ciclo de filmes do gênero em Hollywood.
   Todos conhecem o amadiçoado Lawrence Talbot que Chaney Jr. interpretou no clássico O Lobisomem (1941) e em todas as continuações produzidas pela Universal - e cujo remake vem aí, e tem tudo para ser muito ruim, a começar pelo diretor (Joe Johnston, cria de Lucas e Spielberg, assinou alguns dos piores blockbusters de ação e fantasia das duas últimas décadas). Portanto, para evitar o óbvio, escolhi comentar o filme que marcou a estréia de Chaney Jr. no horror, o relativamente obscuro O Monstro Elétrico (Man Made Monster), também realizado em 1941, com direção do mesmo George Waggner que logo em seguida voltou a trabalhar com o ator em O Lobisomem.


   O filme inicialmente seria mais um veículo para colocar Karloff e Lugosi frente a frente, com um roteiro que reaproveita vários elementos de filmes de horror da época, em especial The Invisible Ray e Frankenstein. Chaney Jr. é um homem simplório e ingênuo - impossível não pensar novamente em seu Lennie de Carícia Fatal - que sobrevive a um grave acidente de ônibus, quando o veículo se chocou contra uma torre de alta tensão. Ele só resistiu ao choque porque está acostumado a receber descargas elétricas, trabalhando como atração de circo fazendo truques com faíscas e eletricidade.
   Um respeitado cientista se interessa em realizar experiências com o rapaz, que aceita a oferta e se submete aos testes ingenuamente. Porém, todo cientista bom tem um assistente maluco; neste caso, Lionel Atwill no auge da vilanice. Sem que o patrão saiba, ele passa a submeter a cobaia humana a descargas cada vez mais fortes de eletricidade, até transformar o pobre Lon Chaney Jr. num ‘homem elétrico’, um homicida descontrolado que foge do laboratório e passa a matar - literalmente até que sua energia se descarregue.
   O filme pode ser considerado apenas um clássico menor da Universal, histórico por marcar a estréia de Lon Chaney Jr. no horror, mas a produção é desleixada. O filme não se preocupa sequer em mostrar o personagem de Chaney Jr. desempenhando seus truques de circo: o filme já começa com a cena do acidente com o ônibus. O ator tem um de seus piores desempenhos - ele só descobriria seu registro ideal como o perturbado lobisomem, no mesmo ano - mas em compensação é sempre uma delícia ver Lionel Atwill em ação, devorando com voracidade seu papel de vilão.
   Apesar de os créditos não fazerem qualquer referência a isso, é bem provável que o charmoso equipamento elétrico usado pelo cientista louco no laboratório - cheio de máquinas de soltar faíscas e raios - seja mais uma criação de Ken Strickfaden, cujas geniais engenhocas ficaram famosas a partir do clássico Frankenstein (1931). No final das contas, O Homem Elétrico é um filme de menor importância na história do horror, mas marcante por ter dado início à carreira de Lon Chaney Jr. no gênero e motivar o segundo grande ciclo de filmes americanos de horror.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Horrível Segredo do Dr. Renault (1942)

   O que seria do cinema clássico de horror sem os cientistas loucos? Simplesmente não seria, claro. Desde os pioneiros Caligari e Mabuse, passando por Frankenstein, Phibes e Moreau, os doutores do horror e da ficção científica são personagens indispensáveis para mostrar as bobagens que o Homem é capaz de cometer quando mexe com o que não deve. Boris Karloff, Bela Lugosi, Peter Lorre, Vincent Price, Peter Cushing... todos viveram médicos memoráveis nas telas. Porém, poucos tinham o physique du rôle do cientista louco tão convincente quanto George Zucco, que interpretou tantos doutores ao longo da carreira que fica difícil imaginá-lo em qualquer outro papel.
   O Horrível Segredo do Dr. Renault (Dr. Renault’s Secret), de 1942, é uma produção modesta - porém feita com competência - da Twentieth Century-Fox, na qual Zucco interpreta o cientista do título, cujo segredo envolve a transmutação de feras selvagens em seres humanos. A referência que nos vem à cabeça imediatamente é o livro A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, adaptado algumas vezes às telas, mas o filme também se baseia em Balaoo, curta-metragem mudo francês, de 1913, com roteiro inspirado na obra de Gaston Leroux, e na refilmagem americana da mesma obra, The Wizard, de 1927.


   A trama acompanha a chegada de um jovem médico novaiorquino à França, onde planeja se casar com a bela sobrinha do Dr. Renault. O médico é recebido na cidade por Noel, um criado sinistro, de poucas palavras e comportamento submisso, que o leva até a propriedade de seu patrão. Noel, nascido na ilha de Java, tem dedicação absoluta à moça, que o trata com condescendência e uma certa dose de compaixão. Ninguém sabe das experiências do Dr. Renault - claro, elas são secretas - e muito menos que Noel é cria do cientista, que o transformou de um gorila feroz num ser humano domado e obediente. Entretanto, o traumático - e mal resolvido - processo de mutação de Noel o tornou humano ao ponto de ele ser capaz de ressentir a perda de sua natureza, vivendo em constante conflito. O choque entre o instinto e o comportamento racional acaba por torná-lo violento e homicida.
   Zucco tem participação destacada no papel do cientista, cuja brutalidade com a qual trata Noel acaba denunciando sua frustração diante do fracasso evidente. Porém, o veículo é todo de J. Carrol Naish, que encabeça o elenco e encarna com coragem o difícil papel do homem-símio javanês, ao mesmo tempo sensível, tímido e selvagem. Naish foi um prolífico e respeitado ator característico, com mais de duzentos créditos ao longo de quatro décadas de carreira. Por algum estranho motivo, não consigo tirar da cabeça seu impagável Dr. Daka, o deliciosamente ridículo cientista e espião japonês que interpretou no seriado Batman, de 1943. Naish encerrou a carreira no abismal Dracula vs. Frankenstein (1971), de Al Adamson, filme que tristemente também pôs um ponto final na trajetória de Lon Chaney Jr. nas telas.
   A curta duração de O Horrível Segredo do Dr. Renault - com menos de uma hora - não permite que o roteiro explore todas as possibilidades da trama. Para piorar, ainda tem que lidar com personagens banais como o jovem doutor, cuja presença em cena aparentemente serve para garantir um supostamente indispensável interesse romântico. O mistério fica por conta da série de mortes inexplicadas ocorridas nas proximidades e a presença de outros personagens suspeitos.
   Mesmo que não esteja entre os clássicos do horror das décadas de 1930 e 40, este filme não merece o ostracismo ao qual foi condenado, retratando um interessante embate entre criador e criatura. Não encontrei o trailer no YouTube, então digitalizei do meu DVD e inseri no site para poder exibi-lo aqui. Ganhei esse DVD do meu grande amigo Jaime Palhinha, que me presenteou com a coleção Fox Horror Classics Vol. 2, que tem ainda os filmes Chandu the Magician e Dragonwyck. Deixarei para falar do Lon Chaney Jr. mais tarde. Na próxima postagem, comentarei um filme recente, para não ficar repetitivo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Morrendo de Medo (1947)


   Para contemplar as presenças de George Zucco e Bela Lugosi na enquete acerca dos astros do horror clássico, escolhi rever em DVD esta confusa produção de 1947, que vi há muitos anos (se não me engano) num site de vídeos stream. Quem quiser conhecer esta paupérrima produção da Screen Guild basta clicar no botão play acima (preferencialmente usando Internet Explorer); ou, se for do tipo completista, pode baixar o filme legalmente aqui, de graça.
   Morrendo de Medo (Scared to Death) é o único filme de horror colorido da carreira de Bela Lugosi, feito num processo econômico chamado Cinecolor (ou Natural Color, segundo os créditos de abertura). Deve haver alguma coisa errada na cópia que circula em DVD e na internet, pois uma tal “máscara verde” que tem alguma importância na trama na verdade é azul! Problemas daltônicos à parte, trata-se de um convencional filme ruim na carreira de Zucco e Lugosi, dupla fadada a atuar em filmes ruins durante grande parte de suas carreiras. A trama é confusa e estapafúrdia, seguindo o padrão enxuto das produções dos estúdios pobres da década de 1940: personagens confinados a um único cenário, pouquíssima ação e muito falatório.

   Costuma-se dizer que George Zucco era a opção barata quando Lugosi e Karloff não estavam disponíveis, mas essa é uma maneira simplória e equivocada de tratá-lo. Zucco sempre dava um ar de dignidade aos filmes que fazia, com seu profissionalismo e dedicação. Mais do que Lugosi, que quase sempre parecia estar no limite da paródia, Zucco se esforçava em soar natural em seus papéis, por mais esdrúxulos que fossem. O duelo entre os dois astros em Morrendo de Medo - no qual interpretam primos que não são exatamente melhores amigos - é uma amostra fiel da diferença de estilo (e talento) entre os dois. Lugosi, acompanhado pelo diminuto Angelo Rossitto (meu anão cinematográfico predileto, cuja carreira vai de Freaks, de 1932, a Mad Max III, de 1985), surge em cena para atrair para si todas as suspeitas. Capa preta, olhar misterioso, falar entre dentes... Bela é o hipnotizador Leonide, o estereótipo do vilão. Tão maligno e sinistro que fica óbvio desde o início que ele é inocente. Zucco, por sua vez, compõe um personagem mais cativante, de fala mansa, manipulador, cínico.
   O filme é narrado todo em flashback, em tom de comédia de humor negro, pelo cadáver de uma moça que relembra sua morte enquanto aguarda ser autopsiada no necrotério. Suas seguidas intervenções, acompanhada por uma repetitiva vinheta sonora, são ridículas e irritantes. Igualmente inconveniente é o papel de Nat Pendleton, um segurança que perambula pela clínica fazendo investigações por conta própria. A trama envolve uma série de personagens suspeitos que transitam pela tal clínica, na qual o Dr. Zucco é uma espécie de psiquiatra. Morrendo de Medo é notável apenas por se tratar de um dos pouquíssimos filmes de horror realizados em 1947, época em que o gênero foi praticamente banido de Hollywood, deixando Lugosi, Karloff e outros atores desempregados. É também um dos últimos filmes de Zucco, que tem cerca de 25 títulos de horror no currículo, sendo outros dois deles em companhia de Lugosi. Ele assumiu o papel que seria de Lionel Atwill, que adoeceu - e acabou falecendo - pouco antes de iniciadas as filmagens. Zucco morreu em 1960, muitos anos depois de ter se afastado das telas, o que deu origem ao rumor de que ele passou seus últimos dias enlouquecido num sanatório, agindo como um personagem típico dos seus filmes.

   Morrendo de Medo permaneceu inédito no Brasil tanto nos cinemas quanto na televisão, mas foi lançado em VHS há uma eternidade. Também passou no saudoso canal Retrô, da Sky. Amanhã comentarei mais um filme com George Zucco, desta vez uma produção de primeira linha, para variar. Quem quiser conhecer outras obras dele, recomendo The Flying Serpent (1945), no qual ele controla um pássaro mitológico para eliminar seus rivais, e Dead Men Walk (1943), refilmagem disfarçada de Drácula, com direito a dose dupla de Zucco e a preciosa presença de Dwight Frye, num de seus últimos filmes, interpetando um maluco obviamente inspirado em Renfield.
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