CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Embrujada (1969)


   Esta é a melhor cena de horror do filme Embrujada, co-produção Argentina-Brasil estrelada pela [preencha este espaço com seu superlativo preferido para espécimes humanos do sexo feminino] Isabel Sarli. O filme foi exibido há alguns anos, em sua versão original, no saudoso canal Retrô, como Enfeitiçada. Desconfio que esta cena não existe na versão brasileira, exibida nos cinemas como Mulher Pecado, com dez anos de atraso e uma trama que - segundo as fontes da época - é completamente diferente. No lugar da curiosa lenda do Pombero, uma entidade demoníaca que se manifesta quando ‘La Coca’ Sarli apronta suas safadezas, a remontagem brasileira insere uma desinteressante trama de contrabandistas ambientada na fronteira do Paraguai. Também acrescenta cenas com Teresa Sodré, outro prejuízo.
   O diretor Armando Bo é considerado uma espécie de Russ Meyer dos pampas. Não é difícil entender por que. Inspiração e matéria-prima ele tinha em casa, pois era casado com Sarli. O galã de quase todos os filmes estrelados por ela era Victor Bo, nada menos do que filho de Armando. (Pausa para reflexão...)
   Pois é... Bem, voltando ao mundo real... quase todos os filmes do casal eram vetados sumariamente na Argentina, censurados no Brasil e faziam sucesso no circuito alternativo de Nova Iorque e em outros paraísos dos raincoaters. A intelectualidade militante da época adorava odiar as peripécias de Isabel Sarli, que foi descrita - com inequívoca elegância - como “provável símbolo sexual para quem ganha menos de três salários mínimos” por um crítico do Jornal da Tarde.

Pombero revivido

   A maquiagem do endemoniado Pombero no filme não é nenhum primor de efeitos especiais, mas se tornou cult o bastante para que um maluco argentino que trabalha desenvolvendo máscaras de monstros recriasse a entidade, que aparecerá num vídeo musical da banda de psychobilly Los Tolchocos. Confira aqui como ficou a bizarra máscara pintada e finalizada (são as mesmas imagens acima), e aqui para ver o making of dessa inusitada empreitada.

domingo, 7 de março de 2010

O Segredo dos Seus Olhos (2009)


   Domingo é dia de futebol, mas hoje é dia de Oscar, então nada melhor do que fazer uma tabelinha entre esses dois temas. Um dos concorrentes ao prêmio de melhor filme em língua estrangeira na cerimônia desta noite é a produção argentina O Segredo dos Seus Olhos (2009), um thriller policial dirigido por Juan José Campanella. Normalmente já sofro de uma inveja crônica do cinema argentino de gênero (e também do que nossos hermanos fazem na televisão, como a estupenda minissérie Epitáfios), em comparação à pobreza da atual safra brasileira, limitada a comédias acéfalas e dramas apelativos (com presença obrigatória do insuportável Selton Mello nas duas vertentes, claro!).
   Pois bem, a inveja só aumentou depois de eu ver esse espetacular plano-sequência do filme de Campanella, que demonstra um estilo puramente hitchcockiano de envolver o espectador numa narrativa dinâmica e sufocante ao mesmo tempo em que faz a linguagem do cinema parecer simples. Não vi o filme ainda, mas certamente está na minha wishlist, e a dica veio do blog do Mauro Cezar Pereira, uma das poucas (pouquíssimas) vozes inteligentes na crônica futebolística brasileira.
   Àqueles que têm o hábito de pensar e refletir, o filme argentino é um convite a reavaliarmos não apenas o estado atual de nosso cinema, mas também para reconhecermos que em termos de paixão futebolística o Brasil está na segunda divisão em comparação aos nossos vizinhos. “Melhor do que vencer é ter um time pelo qual torcer”, diz Mauro Cezar. Ou, no caso da entrega do Oscar de logo mais, um filme pelo qual torcer.

ATUALIZAÇÃO: O vídeo postado originalmente foi retirado do YouTube, então o substitui pelo making of da cena.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1952)

   Nesta segunda e última parte do ciclo de filmes do argentino Carlos Hugo Christensen anteriores à sua fase brasileira comentarei duas interessantes produções da década de 1950. Os dois filmes são adaptações de histórias de suspense e horror do escritor William Irish (pseudônimo literário de Cornell Woolrich), autor também do conto que originou Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, entre outros. Eu planejava escrever também sobre o filme venezuelano El Demonio És un Angel (1950), aparentemente uma comédia romântica com algum toque de fantasia e sobrenatural, mas ainda não tenho o filme. Prometo comentá-lo aqui no blog logo que eu conseguir uma cópia.

Si Muero Antes de Despertar (1952)


   Possivelmente o filme mais interessante de Christensen em sua fase clássica argentina, realizado com notável inspiração e talento, adaptado do conto “If I Should Die Before I Wake”, de William Irish. Recentemente, Si Muero Antes de Despertar ganhou certa notoriedade entre pesquisadores e aficionados por filmes de horror por sua trama supostamente antecipar a premissa de A Hora do Pesadelo (1984), com um vilão semelhante ao infanticida Freddy Krueger. De fato, há algumas semelhanças entre os filmes, como o cruel homicida que seduz e mata crianças. O tema é pesado e corajoso, remetendo ao clássico M, o Vampiro de Düsseldorf (1931), de Fritz Lang; semelhança que também deve ter chamado a atenção dos mexicanos, pois o filme foi lançado naquele país com o título El Vampiro Acecha.

   Si Muero Antes de Despertar tem um clima de conto de fadas sombrio, com alusão a “João e Maria” em algumas cenas. Christensen inteligentemente intensifica o mistério ao mostrar pouco o odiável assassino, um pedófilo que atrai crianças com promessas de doces e brinquedos. A história é narrada pela ótica de um garotinho, única testemunha do desaparecimento de suas coleguinhas de escola. O título se refere a uma oração que as crianças fazem antes de dormir - outra coincidência com A Hora do Pesadelo, que também ficou caracterizado por uma sinistra cantiga de ninar.
   Escolhi para o vídeo a cena do menino sonhando com o assassino, mergulhado num cenário surreal de pesadelo, com destaque para o plano da mão do infanticida se projetando subitamente e oferecendo uma guloseima ao menino, num momento tenso e ameaçador - e também com um flagrante teor sexual.

No Abras Nunca Esa Puerta (1952)

   Novamente Christensen recorre aos contos de suspense de William Irish neste excelente exemplar de cine negro (a maneira como os argentinos se referem ao film noir). O filme é formado por duas histórias: “Alguien al Teléfono”, adaptada do conto “Somebody on the Phone”, e “El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar”, baseada em “Hummingbird Comes Home”. O cineasta demonstra domínio absoluto da linguagem do cinema de suspense, construindo cenas tensas e climáticas. A iluminação com forte contraste entre luz e sombra, os enquadramentos inventivos e a montagem dinâmica, favorecendo a sucessão de eventos misteriosos, propiciam ao filme uma qualidade comparável ao melhor que se produziu no gênero na Hollywood da década de 1940.


   Alguien al Teléfono é sobre a morte misteriosa de uma jovem, que teoricamente teria cometido suicídio, e o desejo insano de seu irmão de vingá-la, indo em busca de um suposto agiota que a perturbava com telefonemas enigmáticos. A trama é relativamente simples e econômica, até previsível a certo momento, mas impressiona pela maneira como é conduzida. A relação entre irmão e irmã não deixa de ser intrigante. Eles moram juntos e aparentemente o rapaz tem por ela um ciúme possessivo. Não conheço a obra literária de Woolrich, mas o estilo me lembrou os contos trágicos da EC Comics, em especial das revistas policiais como Crime SuspenStories e Shock SuspenStories. O vídeo que capturei mostra o momento em que o rapaz é perturbado por um dos telefonemas misteriosos. Você terá que assistir ao filme para entender o que acontece...


   El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar é outro exuberante exercício de suspense, sobre uma noite de horror vivida por uma senhora cega que mora com a sobrinha num velho casarão. A idosa aguarda esperançosa a visita do filho, com quem ela não se encontra há anos, visita essa que acontece de maneira inesperada e traumatizante. O rapaz chega na calada da noite, acompanhado por dois amigos, um deles gravemente ferido. O filho diz que sofreram um acidente de carro, mas à esta altura já sabemos que são criminosos que acabaram de cometer um assalto. O líder do bando só é identificado por uma peculiar melodia que costuma assobiar entre dentes - aqui Christensen mais uma vez estabelece um elo com M, o Vampiro de Düsseldorf. O trecho em vídeo que selecionei é o momento em que a mãe decide enfrentar sozinha o problema, mas novamente prefiro deixar sem explicação a conclusão da trama.

   Quem tem algum interesse no cinema clássico sul-americano não pode deixar de conhecer a obra de Carlos Hugo Christensen nesse período. Para mim foi uma satisfação redobrada; há anos queria ver esses filmes, pois considero o Christensen um dos principais realizadores do cinema de horror brasileiro. Entre as demais obras do cineasta que podem (ou não) flertar com o horror, não consegui localizar Con el Diabo en el Cuerpo (1947), Leonora dos Sete Mares (1956) e A Casa de Açúcar (1996). Quem tiver qualquer informação de como eu poderia conseguir cópias desses filmes, peço por gentileza que entre em contato comigo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Carlos Hugo Christensen: filmografia de horror e suspense (1946-1949)

   Cineasta nascido na Argentina e radicado no Brasil durante mais de 40 anos, Carlos Hugo Christensen começou a carreira em seu país natal em 1939. Fez cerca de 50 longas até 1996, quando realizou o raro A Casa de Açúcar, não exibido no Brasil. Sua obra se caracteriza por temas como a chegada da adolescência e o amadurecimento, reencontros e a tentativa de se resgatar um passado romântico por meio de reminiscências perdidas no tempo. Passou por Chile (La Dama de la Muerte, 1946), Venezuela (El Demonio És un Ángel, 1950) e Peru (Armiño Negro, 1953) antes de começar a filmar no Brasil, em 1955, onde chegou inclusive a dirigir um filme sobre Pelé.
   Dentro do gênero horror, suas mais notórias contribuições foram os filmes brasileiros Enigma para Demônios e A Mulher do Desejo (A Casa das Sombras), ambos de 1975, com roteiros do próprio Christensen e de Orígenes Lessa inspirados em obras de Carlos Drummond de Andrade, Nathaniel Hawthorne e Samuel Taylor Coleridge. O cineasta já demonstrara interesse pelo gênero durante seu período itinerante pela América do Sul, quando flertou com o suspense sombrio, o conto policial e com diferentes estilos de narrativas de horror em vários filmes. Finalmente consegui localizar sete destas obras e enfim pude conferir sua inequívoca vocação para filmar tramas sinistras e tensas.
   Curiosamente, estas realizações de Christensen que beiram o horror são justamente do período no qual o gênero estava desprestigiado e ameaçado de extinção tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, entre o pós-guerra e o início da era nuclear (1946-1952). É uma época de poucas e esparsas realizações dentro do gênero, o que torna as obras de Christensen ainda mais relevantes e históricas.

La Dama de la Muerte (1946)

 

   O primeiro importante filme de terror de Christensen é esta produção chilena, uma das primeiras películas produzidas no país, um thriller de horror repleto de bons momentos de medo e suspense, personagens bem desenvolvidos e final impactante. Excelente adaptação do conto “The Suicide Club”, de Robert Louis Stevenson, publicado originalmente no livro New Arabian Nights (quem se interessar pode baixar o livro em formato PDF aqui numa cópia facsímile da edição de 1905). A trama, ambientada na Londres da era Vitoriana, é sobre um rapaz desesperado que se envolve com um clube secreto de suicidas. A cena que selecionei é o momento em que ele teme estar sendo perseguido por um de seus colegas de clube, encarregado de assassiná-lo (reparem nas imagens surreais que o assombram, incluindo dois policiais que formam uma enorme e ameaçadora aranha). O conto de Stevenson foi filmado diversas outras vezes, inclusive na antologia muda alemã Histórias Tenebrosas (Unheimliche Geschichten), realizada por Richard Oswald em 1919.

El Angel Desnudo (1946)

 

   Este melodrama argentino, parcialmente filmado no Rio de Janeiro, é notável pelo clima fatalista e trágico que domina a película. Não se trata necessariamente de um filme de suspense, porém é carregado de angústia e tensão. Uma jovem argentina em visita ao Rio de Janeiro recebe uma carta desesperada de seu pai, o qual lhe pede que tente conseguir uma grande quantia em dinheiro com um velho conhecido dele. O sujeito em questão é um consagrado escultor, que recebe a moça cheio de segundas intenções. O filme é sobre o dilema moral enfrentado pela protagonista, que se questiona se deve ou não sujeitar-se aos caprichos do escultor, o qual deseja “contemplar sua beleza nua inteiramente” em troca do empréstimo.
   A barganha adquire traços malditos, como se sua entrega ao artista representasse algo irreversível, definitivo, até mesmo sua morte. O tema do sacrifício por amor se torna ainda mais intenso pelo fato de a moça salvar o pai de uma situação humilhante, pagando as dívidas contraídas pelo velho com jogatina. O escultor, insinua a trama, é o próprio Diabo, com cavanhaque mefistofeliano e personalidade reclusa. Permeia o filme esse desejo do profano pela pureza, o casamento do angelical com o diabólico. Há poucos momentos realmente impactantes, então selecionei para o vídeo a cena final, que mostra o confronto entre anjo e demônio.

La Muerte Camina en la Lluvia (1948)

 

   Este clássico filme de mistério e suspense é um dos grandes momentos nos primeiros anos da carreira de Christensen, versão argentina do livro L’Assassin Habite au 21, do autor belga S.A. Steeman. A história foi filmada anteriormente por Henri-Georges Clouzot, em sua estréia nas telas, em 1942, e não seria surpreendente que a versão de Christensen tenha sido fortemente influenciada por essa adaptação anterior, mas infelizmente não assisti ao filme de Clouzot para compará-los.
   É uma trama de mistério do tipo “quem foi?”, sobre um assassino psicopata que deixa um bilhete com sua assinatura junto de cada vítima. Seu nome é S. López e toda a cidade de Buenos Aires fica aflita com os crimes cometidos pelo misterioso homicida. Uma testemunha ocular de um dos crimes descobre que o assassino mora numa pensão, onde transcorre toda a ação do filme até que o culpado é desmascarado.
   Selecionei a cena de abertura para o vídeo, uma exuberante amostra da narrativa de suspense concisa que Christensen certamente aprendeu com o mestre Hitchcock: a economia e objetividade dos planos e o processo de informação imagética remete ao início de The Lodger: A Story of the London Fog (1927): ambos compõem o perfil do assassino a partir de fragmentos de informações e o efeito que isso causa nas pessoas.

La Trampa (1949)

 

   Outra produção argentina, adaptação do livro Algo Horrible en la Leñera (Something Nasty in the Woodshed, 1942), de Anthony Gilbert, pseudônimo da autora inglesa Lucy Beatrice Malleson. É um típico melodrama feminino, com alguns exageros próprios do gênero, mas com andamento envolvente e clima constante de suspense. Conta a história de uma solteirona que responde a um anúncio de jornal publicado por um homem recluso à procura de esposa. Não demora para percebermos que o carismático galanteador na verdade é um golpista frio que só planeja se apoderar da fortuna dela.
   A angústia vivida pela protagonista remete a clássicos melodramas sobre mulheres à mercê de homens cruéis, como Suspeita (1941) e Interlúdio (1946), de Alfred Hitchcock, e os veículos da estrela Joan Crawford, Precipícios d’Alma (1952) e Frenesi de Paixões (1955). A trama envolve também um suposto fantasma que assombra a propriedade. Selecionei para o vídeo o momento mais horrorífico do filme, justamente a aparição do tal fantasma.


   A lamentar, somente a qualidade lastimável de conservação desses filmes - alguns com créditos de abertura incompletos, copiados da TV ou de velhos VHS. Isso atesta a raridade dos mesmos e também um certo desprezo com o qual aparentemente são tratados por nossos vizinhos; certamente não muito diferente de como (des)cuidamos dos nossos próprios.
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