CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Zombiemania (2008)


   Um dos melhores documentários do Fantaspoa deste ano, Zombiemania analisa a cada vez mais crescente onda de filmes, livros, HQs e jogos de zumbi, desde a origem do mito até suas recriações no cinema, incluindo o pioneiro White Zombie e sua transformação a partir de Night of the Living Dead. O documentário traz depoimentos de gente como George A. Romero, o pai do zumbi moderno, o escritor Max Brooks, autor do best-seller Zombie Survival Guide, a jornalista Jovanka Vuckovich, editora da revista Rue Morgue, do escritor e pesquisador Wade Davis, autor de The Serpent and the Rainbow, a cineasta Eliza Kephart, diretora do filme independente Graveyard Alive, e ainda os mestres dos efeitos especiais e de maquiagem Tom Savini e Greg Nicotero.
   A versão do documentário disponibilizada aqui é bastante diferente da exibida no Fantaspoa: esta é a versão para a TV, com cerca de 47 minutos, enquanto que a versão do festival tem quase uma hora de duração, com montagem completamente diferente. Porém, não se trata apenas de uma versão com cenas adicionais: alguns depoimentos nesta edição curta aparecem de maneira diferente ou reduzida na cópia estendida; outros são exclusivos desta versão. Seja como for, é diversão e informação garantida para zumbimaníacos em geral, especialmente quem  não teve a oportunidade de ver o documentário na tela grande.

domingo, 27 de junho de 2010

Mangue Negro no Canal Brasil


   A legião de admiradores de Mangue Negro tem mais um motivo para festejar: o filme estréia hoje no Canal Brasil, às 22h30, com reprise na madrugada do dia 29, em verdadeiro horário de zumbi, às 4h30. Para quem apostou no filme como o representante de uma nova maneira de se fazer cinema no Brasil (e o melhor: cinema de gênero!), essa é outra grande conquista. Por mais que a gente valorize outros bravos realizadores amadores que se dedicam ao gênero com produções feitas aos trancos e barrancos, existe um abismo entre o talento artístico de Rodrigo Aragão e todos os demais. Pelo menos por enquanto. Torcemos sempre para que surjam novos talentos.
   Não tenho certeza, mas acredito que seja a primeira vez que chega à telinha do Canal Brasil um filme de ficção praticamente amador (não podemos usar o termo ‘cinema independente’ em nosso precário cenário nacional, onde quase tudo é independente!).


   A chegada do filme à programação da TV por assinatura foi devidamente registrada nas páginas da revista Monet, numa excelente matéria assinada por Dafne Sampaio, a qual reproduzo nesta postagem. Quem ainda não viu Mangue Negro, esta é mais uma ótima oportunidade de se conhecer a auspiciosa estréia de Rodrigo no longa-metragem, enquanto aguardamos o lançamento do igualmente promissor A Noite do Chupacabras.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ensaio Sobre a Cegueira (2008)

Homenagem a José Saramago (1922-2010).


   Na minha opinião, este é uma espécie de filme de zumbi disfarçado, mais cerebral do que visceral, mas ainda assim um exemplo das possibilidades do horror no cinema. Não que muita gente concorde comigo, mas isso é outra história. O português José Saramago escreveu o livro em 1995 e foi premiado com o Nobel de Literatura em 1998. A adaptação de Fernando Meirelles leva às telas a história de uma inexplicável epidemia de cegueira, altamente contagiosa, que atinge inúmeras pessoas de uma metrópole indefinida. Os infectados são recolhidos a abrigos, onde são precariamente alimentados e cuidados, e para onde mais vítimas são enviadas a cada dia. Uma mulher imune ao contágio diz estar cega para ficar em quarentena com o marido infectado, sendo a única pessoa no local capaz de enxergar. É dramático e apocalíptico, às vezes assustador e cruel, mas também esperançoso, uma parábola sobre o desmoronamento da sociedade a partir de uma fraqueza humana.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Mamá (2008)


   Não é exatamente um curta-metragem; para mim, é mais um exercício de como se filmar cenas de medo. Nesse sentido, atingiu plenamente o objetivo. Vale assistir sozinho, no escuro, com fones de ouvido, som bem alto... A reação (provavelmente) será de uma deliciosamente arrepiante sensação de pavor que o cinema cada vez mais parece estar desaprendendo como fazer. O todo-poderoso Guillermo del Toro está à frente de um projeto com o diretor Andy Muschietti para ampliar Mamá ao formato de longa-metragem. Resta torcer para que ele tenha fôlego para sustentar esse estilo clássico na duração de um feature e que seja capaz de contar uma boa história de fantasmas ou zumbis ou possessão ou qualquer coisa que nos cause medo.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Alice Cooper: Along Came a Spider (2008)


   Não é de hoje que Alice Cooper rima com horror. Aliás, a relação do veterano roqueiro de Detroit com temas macabros deu origem ao chamado ‘shock rock’, ou ‘rock horror’, na década de 1970. O conceito havia sido rascunhado pelas extravagantes performances de Screamin’ Jay Hawkins pelo menos quinze anos antes, mas foi Alice Cooper, com seus exageros cênicos dignos de espetáculos da Broadway, incluindo decapitações e enforcamentos em pleno palco, quem deu vida à idéia. Desde Kiss, Misfits, Mötley Crüe e Gwar, até King Diamond, Rob Zombie, Marilyn Manson e Lordi, todo mundo que destila a receita rock+horror deve um bocado a Alice Cooper.
   Along Came a Spider é o álbum mais recente da titia do rock pesado (sei que não chega a ser novidade - foi lançado há cerca de um ano e meio - mas só faz dois meses que tenho esse blog e não queria deixar passar a oportunidade de escrever um pouco sobre o disco!). Marca o retorno do roqueiro ao estilo hard rock clássico, depois de ele se aventurar pelo hard farofa, heavy tradicional e metal industrial. O álbum segue a tradição ‘conceitual’ do clássico Welcome to My Nightmare (1975), narrando uma história linear ao longo de todas as faixas.
   Trata-se da história de um serial killer conhecido como ‘Spider’, que captura, tortura, mata e arranca uma perna de cada vítima. Seu objetivo é juntar oito pernas e construir sua própria aranha. Não chega a ser algo inovador ou especialmente original, mas mostra a visão - um tanto ingênua - que Alice tem do horror, inclusive sua obsessão por bichos asquerosos.


   A relação de Alice Cooper com filmes de horror rendeu participações nas cinesséries Sexta-Feira 13, interpretando a canção-tema “He’s Back (The Man Behind The Mask)” no sexto exemplar (lembro até hoje quando vi, embasbacado, o vídeo dessa música no Fantástico!) e A Hora do Pesadelo, nada menos do que como o pai de Freddy Krueger, também no sexto filme da saga. Também fez papéis menores em outros filmes, como em O Príncipe das Sombras (1987), de John Carpenter, e protagonizou o espanhol Leviatán (1984), dirigido por Claudio Fragasso, lançado em VHS no Brasil como Monster Dog: Uma Noite de Horror, no qual interpreta um roqueiro que vira lobisomem.
   Para promover o lançamento de Along Came a Spider, o roqueiro lançou no YouTube este vídeo de dez minutos, reunindo três canções do álbum: “Vengeance Is Mine” (com participação de Slash na guitarra), “(In Touch With) Your Feminine Side” e a balada mórbida “Killed By Love”. Co-dirigido por Piggy D. e Gabrielle Geiselman, o vídeo é todo ambientado no manicômio onde Spider foi trancafiado. Tem alguns momentos interessantes, mas poderia ter sido melhor concebido e realizado. (Não pode ser comparado, por exemplo, ao charmoso especial para a TV inspirado no álbum Welcome to My Nightmare, feito em 1975, com a preciosa participação de Vincent Price.)
   Em compensação, os trailers promocionais do álbum Along Came a Spider são bem interessantes, então decidi também reproduzi-los aqui. Destaque para o terceiro trailer, que recria o inesquecível monólogo final de Psicose (1960) na íntegra, celebrando em grande estilo o casamento de rock pesado e filme de horror.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Encarnação do Demônio (2008)

   Sabadão à noite fiz uma sessão de cinema aqui em casa com meus grandes amigos Marco e Vladimir (que só ficam prometendo visitar o blog, mas nunca têm tempo...) para rever Encarnação do Demônio, filme que encerra a trilogia do Zé do Caixão. Só então me dei conta que, por mais que eu tenha conversado e dado palpites sobre o filme, nunca escrevi formalmente a respeito dele. O assunto já está caduco à esta altura, mas darei uns breves pitacos para quem ainda quiser discutir a obra.
   Foi apenas a segunda vez que vi o filme em sua forma definitiva, com pouco mais de 90 minutos. A primeira foi no cinema aqui da minha cidade, sala praticamente vazia, eu e minha namorada e um sujeito perdido lá nas primeiras fileiras. Antes assisti a dois workprints na produtora Olhos de Cão, sendo o primeiro com excruciantes duas horas de duração e o segundo com cerca de 105 minutos, e uma versão quase definitiva, com trilha sonora provisória que ajudei a compilar, numa sessão privativa no Cine Sesc, em São Paulo.
   Sempre fiz questão de deixar claro que não tenho qualquer interesse em fazer cinema, mas que fazia questão de participar dessa obra histórica, da melhor maneira que eu pudesse contribuir. Terei para sempre as melhores lembranças sobre o processo de criação, execução e finalização desse filme que nasceu cult e que marcará toda uma geração de aficionados pelo horror brasileiro (em especial, pelo cinema de Mojica) com o lema “eu assisti um filme de Zé do Caixão no cinema”.


   O filme, vocês sabem, começa com Zé do Caixão sendo libertado de um presídio de segurança máxima depois de passar 40 anos atrás das grades, onde pagou pelas barbaridades que cometeu em À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Em sua nova morada, no meio de uma favela, Zé volta a procurar pela mulher ideal que lhe dará o filho perfeito. Contando com seu séquito de fiéis discípulos, tendo o corcunda Bruno à frente, o coveiro maldito volta a azarar a mulherada com esperanças de encontrar a escolhida. Entre baforadas de cachimbo, goles de peiote e noites mal dormidas, Zé sofre alucinações com os fantasmas de suas vítimas do passado e começa a contestar a própria sanidade.
   Porém, não é só o Além que tem contas a acertar com o assassino com unhas “desse tamanho”: dois irmãos policiais (Jece Valadão e Adriano Stuart, que só contracenam graças às mágicas da edição de Paulo Sacramento) querem ver a caveira de Zé do Caixão e apelam para toda a truculência e brutalidade inerentes à sua posição de “otoridade”. Tem também um padre doido de pedra, do tipo que se autoflagela ouvindo música sacra, filho do médico queimado vivo por Zé no primeiro episódio da trilogia. Polícia e Igreja se unem contra o herege infame.
   O filme tem falhas em quase todos os departamentos. O roteiro é apressado em alguns momentos e teve que ser remendado para se adequar à ausência de Jece Valadão, falecido depois de poucos dias de filmagem; as atuações são desiguais, transitando entre discreto, histérico e exagerado, e as cenas chocantes de tortura e mutilação, em sua ânsia pelo realismo extremo, cometem gafes imperdoáveis como o “carrasco” que costura a boca de uma mulher usando luvas cirúrgicas! Porém, é um filme visualmente deslumbrante, repleto de cenas de impacto e cenografia surrealista. Para mim, o que mais salta aos olhos - e é o que realmente importa - é que Encarnação do Demônio é um filme com culhões; cinema corajoso, selvagem, horror físico e metafísico, que não tem medo de colocar um septuagenário Zé do Caixão em luta corporal com seus inimigos, ao mesmo tempo em que propaga sua filosofia bestial e troca carícias com mulheres ideais. Mulheres de todas as raças e formatos, nuas e em quantidade, pois mulheres nunca são demais - e no écran nunca devem estar vestidas.

Cinema impetuoso, ousado, para poucos


   O filme foi festejado de maneira praticamente unânime pela crítica - em alguns casos, com certo ar de mea culpa, de gente que cansou de implicar com o “velhinho” Mojica - e colheu troféus alhures, mas foi um absoluto fracasso comercial no mercado doméstico. Azar do zé-povinho, que lota os cineplex de shopping perfumados de pipoca amanteigada, para ver quantos Jogos Mortais os ianques imperialistas fizerem e desdenha com sorrisinho arrogante quando indagado sobre o que tem a dizer de nosso Zé. Diante disso, dá aquela vontade de que o filme fosse mais “nosso”, cinema hermético e auto-suficiente, auto-indulgente e feito para os iniciados, dando uma proverbial banana àqueles que ignoram as peripécias sessentistas de Josefel Zanatas e sua filosofia de botequim. Mais ainda: faz a gente pensar que, entre as cenas não aproveitadas, deve existir material precioso de Zé Celso e Zé Mojica visitando o purgatório dantesco, mais improvisos geniais de Adriano Stuart e muita cena de horror com sacanagem e sacanagem com horror. Cenas estas que quiçá tenham sido sacrificadas em benefício de um filme mais “redondo”.
   Encarnação do Demônio não é o filho perfeito de José Mojica Marins, não chega aos pés do imponente, delirante e psicossomático Ritual dos Sádicos (1970), mas é a prova em celulóide que seu sangue tem poder e que seu legado cinemático é perpétuo. Afinal, como filosofa Zé do Caixão lá pelas tantas, “imagens não morrem”!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Passageiros da Noite (2008)

   Não é de hoje que o cinema de horror tenta meter medo ao inserir o caos nas situações mais cotidianas. É a essência do gênero fazer com que o espectador passe a ter receio de atravessar a rua, atender ao telefone ou mesmo apagar a luz antes de dormir. Sentir medo sempre é bom, faz parte do instinto de sobrevivência animal, e se um filme for capaz de perturbá-lo a ponto de você ficar com ele na cabeça durante dias ou semanas ou meses, o filme cumpriu seu papel.
   Passageiros da Noite (Shuttle) definitivamente não é recomendado para quem costuma andar de lotação, ainda mais se for tarde da noite. A história é relativamente simples, acompanhando a noite de terror de um grupo de passageiros desavisados que acaba entrando na van errada, mas a força do filme está na maneira como as surpresas vão sendo apresentadas ao longo da trama. É o tipo de filme em que você pensa que as coisas não podem mais piorar - e elas sempre pioram. Seguindo a tendência dos filmes de violência extrema que invadiram as telas nos últimos anos, Passageiros da Noite em determinado momento induz o espectador a torcer por uma morte misericordiosa para os protagonistas - somente para então nos negar esse alívio amargo e nos abandonar desamparados diante do caos absoluto.


   Duas amigas retornam de uma viagem de férias no México. A mala de uma delas é extraviada no aeroporto e as garotas acabam ficando sem condução em plena madrugada. Embaixo de uma chuva torrencial, conseguem parar uma van de lotação que passava pelo local. O motorista (Tony Curran, cujo desempenho excepcional evita que o filme se torne monótono), que já tinha um passageiro na van, aceita levar até seus respectivos destinos as duas amigas e outros dois rapazes que elas conheceram no aeroporto e que passaram a flertar com elas ao longo da noite.
   Não demora para que a viagem se torne infernal: o motorista parece não conhecer o caminho, aventurando-se pela parte mais barra-pesada da cidade. As coisas se complicam quando fura um pneu da lotação e um dos rapazes sofre um grave acidente quando tentava ajudar o motorista a tirar a roda. A partir de então, o filme se empenha a mostrar algumas das maneiras mais cruéis e impiedosas de torturar física e psicologicamente os quatro jovens, com a dose indispensável de agressão ao corpo, mutilações, esquartejamentos e humilhação. Para a maioria dos espectadores, é um entretenimento inofensivo, mas o realismo com que a ação transcorre na tela, até o final pessimista e inesperado, nos faz pensar em que ponto termina a ficção e onde esbarramos na dura realidade cotidiana.
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