CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Reveillon Maldito (1980)


   Só para não dizerem que abandonei de vez meus prezadíssimos leitores, estou aqui, no apagar de 2010, para desejar a todos um Feliz Ano Novo no estilo desse blog; ou seja, com uma pitada de maldade e derramamento de sangue. Uma obscuridade segregada à não tão saudosa era do VHS, o filme Reveillon Maldito (New Year’s Evil), produzido pela Cannon, é um dos exemplares mais esquemáticos do subgênero slasher, ainda preso ao truque da “morte pelo calendário”, pegando carona em Halloween e Sexta-Feira 13, e que depois seguiria com Dia dos Namorados Macabro e Feliz Aniversário para Mim.
   A trama envolve a apresentadora de um especial de Ano Novo na televisão que recebe um telefonema ameaçador de um psicopata misterioso, o qual anuncia que à meia-noite matará pessoas conhecidas dela. A mulher fica apavorada quando surge a primeira vítima do assassino, que voltará a matar na virada de ano nos outros fusos horários do país. Tolo, previsível e sem clima, o filme é prejudicado por personagens sem carisma e pelo plano absurdo e inverossímil do maníaco, envolvendo situações ridículas e humilhantes.


   O clima de festa fica por conta da banda de hard rock Shadow e a punk/new wave Made in Japan, as quais, até onde sei, limitaram-se ao eterno e silencioso anonimato depois desta oportunidade cinematográfica. O Shadow, para o meu gosto particular, é melhorzinho, num estilo que lembra uma versão mais domesticada do Diamond Head. Nem sei se chegaram a gravar algum álbum ou mesmo se a trilha do filme saiu oficialmente em LP, mas a canção do vídeo acima é suficientemente divertida para garantir uma passagem de ano agitada e no autêntico clima de rock horror. Desta maneira, desejo a todos que tenham um maldito reveillon embalado por tudo que há de bom.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Luigi Cozzi apresenta Contamination e Starcrash no Fantaspoa

   O segundo dia da mostra Luigi Cozzi começou mais cedo, com entrevistas marcadas para a TVE para uma reportagem sobre o Fantaspoa que vai ao ar, se não me engano, na próxima terça-feira. Eu planejava ver então os dois episódios da série de TV La Porta sul Buio, programados para às 17 horas, mas acabei trocando a sessão de cinema pelo convite de Luigi Cozzi e comitiva - ou seja, Felipe M. Guerra - para ver os últimos minutos do jogo entre Alemanha e Espanha num restaurante próximo. Cozzi comemorou o gol espanhol e festejou a “final inédita” da Copa, com Espanha enfrentando a Holanda no domingo. Aproveitei a deixa e contei a Cozzi que em 2002, durante a produção da coleção de DVDs do Zé do Caixão, o Mojica sempre chegava atrasado às gravações das trilhas de comentário em áudio porque ficava em casa vendo os jogos da Copa do Mundo.
   Também tive que explicar a barra-pesada do caso do goleiro Bruno, do Flamengo, que naquele momento estava sendo preso acusado de assassinato, pois a TV estava ligada na Band, com aquela baixaria toda do Datena no Brasil Urgente. Pobre Luigi, não merecia isso...


   A sessão seguinte foi Alien, o Monstro Assassino (1980), praticamente lotada e com a companhia do recém-chegado Leandro Caraça, e ainda Laura Cánepa, Carlos Thomaz Albornoz, Blob e toda a galera mais legal dessas bandas, como o Cristian Verardi e o Marcelo Severo. O principal filme da noite, Starcrash, exibido às 21 horas, lotou de vez o Cine Bancários e teve muita gente sentando pelas escadas.
   Foi ótimo rever Alien, o Monstro Assassino, do qual eu só me lembrava de algumas cenas - basicamente, os ovos explodindo e o sangue jorrando. Também lembrava que tinha alguma coisa relacionada com café colombiano, mas fiquei surpreso ao constatar o quanto o filme bebe na fonte da fase áurea da ficção científica, paixão confessa de Luigi Cozzi. A estrutura do roteiro me lembrou demais o clássico The Beast from 20,000 Fathoms (O Monstro do Mar), de 1953, o primeiro grande filme com efeitos visuais em stop-motion de Ray Harryhausen. Cozzi explicou que seu trabalho, basicamente, era convencer os produtores que seu filme era na toada de Alien, o 8º Passageiro e que, portanto, ia render uma nota preta nas bilheterias. Depois disso, ele ficava à vontade para fazer o filme que queria. Deliciosamente antiquado, sobram na obra de Cozzi citações explícitas a filmes como O Mundo em Perigo (1954), Usina de Monstros (1957) e a produção japonesa The H-Man (1958).
   O bate-papo com a platéia após a exibição de Starcrash durou mais de uma hora e foi recheada de anedotas sobre como funcionavam os bastidores do cinema comercial italiano na época. Cozzi contou, por exemplo, que o projeto que resultou em Alien, o Monstro Assassino começou como uma imitação de Síndrome da China e teve influência do êxito de bilheteria do Zombi 2, de Lucio Fulci, que estava rendendo muita grana aos produtores naquele momento.


   O cineasta detalhou o cronograma de produção de Starcrash, segundo ele próprio, a primeira imitação de Star Wars a ser produzida, com as filmagens iniciando em meados de setembro de 1977. O filme chegou às telas no início de 1979. Falando sobre o clima infanto-juvenil de Starcrash, Cozzi comentou que quis fazer um filme caricatural, inspirado nas histórias em quadrinhos do Mickey, especialmente suas aventuras detetivescas. As aparições do Conde Zarth Arn, o vilão interpretado por Joe Spinell, com suas gargalhadas malignas, arrancou risos da platéia, que entrou na brincadeira e parece ter curtido bastante a ingênua saga espacial de Cozzi.
   O diretor também contou que o robô Elle foi interpretado pelo então marido da estrela Caroline Munro, que encheu o saco dos produtores até conseguir um papel no filme. Durante as filmagens, o sujeito continuou atormentando o diretor com detalhes irrelevantes e, enciumado com o clima entre sua esposa e o co-astro David Hasselhoff, acabou convencendo Cozzi a encerrar o filme sem o esperado beijo entre os heróis, que apenas se abraçam amigavelmente ao fim da aventura.
   Falastrão e acessível, Cozzi comentou que seu filme também é uma homenagem a Ray Harryhausen (os robôs malignos que são chamados de Golems no filme são óbvias referências aos esqueletos espadachins dos filmes de fantasia de Harryhausen), citou os diretores John Ford, Stanley Kubrick e Jack Arnold como suas grandes influências e comentou a amizade com outros grandes nomes do cinema fantástico italiano, como Riccardo Freda, Mario Bava, Antonio Margheriti e, claro, Dario Argento.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A Força dos Sentidos (1980)

   Maravilhosa incursão de Jean Garrett pelo universo fantástico, A Força dos Sentidos (1980) é uma obra de inspiração lovecraftiana com um clima poético e melancólico que considero comparável aos melhores trabalhos de Jean Rollin (em especial, Lèvres de Sang). Faz algum tempo que quero escrever um texto à altura deste filme, pois ainda acho que pouco se escreveu de instigante a respeito dele (Excitação, do mesmo Garrett, é muito mais popular entre os cinéfilos interessados na produção nacional). Acabei optando por fazer uma fortuna crítica do filme.
   Quem se aventurar pelos textos compilados abaixo certamente achará fascinante a pluralidade de opiniões. Aqueles que ainda não conhecem os textos de Jairo Ferreira - de quem tive o privilégio de ser “colega” na série especial do centenário do cinema no Jornal da Tarde - poderão acompanhar o quanto ele conhecia de cinema fantástico. Não apenas foi um dos poucos críticos brasileiros que apreciava filmes de horror e ficção científica, mas um dos raríssimos a escrever sobre o tema com sabedoria. Por sua vez, a crítica de Rubens Ewald Filho - definido com sagacidade genial aqui - é mais um atestado de preconceito pequeno-burguês, capaz de enxergar no filme somente méritos técnicos. Isso também parece ser a única coisa perceptível para os demais críticos.
   Caso queiram ler coisas ainda mais assustadoras, confiram os documentos oficiais do processo de censura do filme.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Intermediário do Diabo (1980)

   Para dissipar de vez quaisquer dúvidas que ainda poderiam existir a respeito do título brasileiro do filme The Changeling (1980), comentado na lista dos preferidos do Scorsese, aqui estão o folheto publicitário da época e uma notinha de jornal anunciando sua estréia em São Paulo, em julho de 1984. O filme se chamou mesmo Intermediário do Diabo (sem artigo no início).
   A pesquisa de títulos e datas é uma das minhas obsessões, algo que me dá prazer tanto quanto ver um filme, e tenho a sorte de contar com a valiosa amizade e colaboração do grande jornalista Jaime Palhinha, o mais apaixonado historiador de cinema clássico e de filmes de horror que existe no Brasil. Esses raros e exclusivos scans são gentilezas dele. Para conhecer parte do acervo fílmico do Jaime, visitem o site dele. Fica também a sugestão para que todos assistam Intermediário do Diabo; é um filmaço (e mais um que corre o sério risco de ser refilmado em breve!). De bônus, inseri abaixo os cartazes originais (em inglês e francês, as duas línguas oficiais do Canadá) e mais uma obra-prima dos poloneses, os cartazistas mais doidos do mundo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ato de Violência (1980)

   Pretendo dedicar parte do mês de janeiro para rever alguns filmes brasileiros de horror, sobre os quais escreverei para uma publicação estrangeira. A pesquisa (inédita) sobre a produção brasileira no gênero, realizada por mim e pela amiga Laura Cánepa, resultou na mostra Horror no Cinema Brasileiro, a qual organizamos em parceria com a Heco Produções para o Centro Cultural Banco do Brasil. A mostra passou por Brasília no segundo semestre de 2009 e no momento está rolando no Rio de Janeiro. No verdadeiro trabalho de garimpo que foi organizar a filmografia brasileira no gênero, chegamos perto da conta de 200 longas de horror, mas a lista acabou sendo reduzida a 144 títulos no guia publicado no livro-catálogo da mostra. Entre os filmes excluídos da publicação está o drama policial Ato de Violência, dirigido por Eduardo Escorel em 1980.
   Sempre haverá discussão em torno de filmes sobre assassinos psicopatas serem ou não considerados do gênero horror, mas eu não abro mão de minha opinião. Para mim, um psicopata é um monstro como qualquer outro (vampiro, lobisomem, zumbi...), com a diferença apenas de não ser sobrenatural. Seu comportamento violento é injustificável: ele tem a agressividade de um monstro e não a de um criminoso de enredo de um policial ou suspense, que geralmente age com algum objetivo em mente (roubo, sequestro, vingança...). Partindo dessa equação, assassinos de ficção como Norman Bates, Michael Myers e Hannibal Lecter têm a companhia de serial killers reais, como Ed Gein, Ted Bundy e John Wayne Gacy - independentemente do gênero de seus filmes.
   Ato de Violência é um dos poucos longas brasileiros inspirados num criminoso verídico brasileiro, temática que rendeu obras como o cult marginal O Bandido da Luz Vermelha e o tosco O Maníaco do Parque - o qual será comentado aqui no blog em breve. Dirigido por Eduardo Escorel, montador competente, Ato de Violência conta a história do famigerado Chico Picadinho (Francisco Costa Rocha), psicopata que esganou e esquartejou duas mulheres em 1966 e 1976 na cidade de São Paulo. Mudaram o nome do personagem - o criminoso interpretado por Nuno Leal Maia se chama Antônio Nunes Corrêa - mas o filme recria cada crime de Chico Picadinho com fidelidade nos detalhes, incluindo o lento esquartejamento na banheira e os pedaços de corpos jogados no vaso sanitário.
   Lento, dramático e deveras deprimente, o filme é ambientado num cenário social decadente e desesperançoso. O criminoso é incapaz de explicar o que o levou a matar tão friamente as mulheres e sua passagem pela prisão não lhe propicia nenhuma espécie de cura, tratamento ou ajuda. A cena que mostra o almoço sendo servido na prisão, filmada em estilo semi-documental, denuncia as condições lamentáveis do sistema penitenciário brasileiro. Críticas sociais à parte, o filme é poderoso, dirigido com segurança por Escorel, que optou por não mostrar as cenas de morte de maneira violenta - o que as torna ainda mais chocantes e inexplicáveis.
   Nuno Leal Maia, a quem o crítico Rubem Biáfora comparava a Rondo Hatton, está correto no papel do assassino psicopata. Seu desempenho discreto, sem demonstrar grandes emoções, torna seu personagem tão patético quanto perigoso e imprevisível. A belíssima Selma Egrei tem grande presença mais uma vez; ela é a atriz brasileira que mais fez filmes que podemos considerar do gênero “fantástico”, atuando em O Anjo da Noite, O Jeca Macumbeiro, Ninfas Diabólicas, O Coronel e o Lobisomem, Uma Estranha História de Amor, As Filhas do Fogo e Estrela Nua. Uma quase rainha do grito dos trópicos!
   Recomendo Ato de Violência a quem se interessa por filmes sobre psicopatas, mas que queiram ver algo além de mulheres sendo retalhadas. Neste mesmo estilo, em breve escreverei sobre A Próxima Vítima (1983), de João Batista de Andrade, outro que só eu chamo de 'horror'.
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