O que seria do cinema clássico de horror sem os cientistas loucos? Simplesmente não seria, claro. Desde os pioneiros Caligari e Mabuse, passando por Frankenstein, Phibes e Moreau, os doutores do horror e da ficção científica são personagens indispensáveis para mostrar as bobagens que o Homem é capaz de cometer quando mexe com o que não deve. Boris Karloff, Bela Lugosi, Peter Lorre, Vincent Price, Peter Cushing... todos viveram médicos memoráveis nas telas. Porém, poucos tinham o physique du rôle do cientista louco tão convincente quanto George Zucco, que interpretou tantos doutores ao longo da carreira que fica difícil imaginá-lo em qualquer outro papel.
O Horrível Segredo do Dr. Renault (Dr. Renault’s Secret), de 1942, é uma produção modesta - porém feita com competência - da Twentieth Century-Fox, na qual Zucco interpreta o cientista do título, cujo segredo envolve a transmutação de feras selvagens em seres humanos. A referência que nos vem à cabeça imediatamente é o livro A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, adaptado algumas vezes às telas, mas o filme também se baseia em Balaoo, curta-metragem mudo francês, de 1913, com roteiro inspirado na obra de Gaston Leroux, e na refilmagem americana da mesma obra, The Wizard, de 1927.
A trama acompanha a chegada de um jovem médico novaiorquino à França, onde planeja se casar com a bela sobrinha do Dr. Renault. O médico é recebido na cidade por Noel, um criado sinistro, de poucas palavras e comportamento submisso, que o leva até a propriedade de seu patrão. Noel, nascido na ilha de Java, tem dedicação absoluta à moça, que o trata com condescendência e uma certa dose de compaixão. Ninguém sabe das experiências do Dr. Renault - claro, elas são secretas - e muito menos que Noel é cria do cientista, que o transformou de um gorila feroz num ser humano domado e obediente. Entretanto, o traumático - e mal resolvido - processo de mutação de Noel o tornou humano ao ponto de ele ser capaz de ressentir a perda de sua natureza, vivendo em constante conflito. O choque entre o instinto e o comportamento racional acaba por torná-lo violento e homicida.
Zucco tem participação destacada no papel do cientista, cuja brutalidade com a qual trata Noel acaba denunciando sua frustração diante do fracasso evidente. Porém, o veículo é todo de J. Carrol Naish, que encabeça o elenco e encarna com coragem o difícil papel do homem-símio javanês, ao mesmo tempo sensível, tímido e selvagem. Naish foi um prolífico e respeitado ator característico, com mais de duzentos créditos ao longo de quatro décadas de carreira. Por algum estranho motivo, não consigo tirar da cabeça seu impagável Dr. Daka, o deliciosamente ridículo cientista e espião japonês que interpretou no seriado Batman, de 1943. Naish encerrou a carreira no abismal Dracula vs. Frankenstein (1971), de Al Adamson, filme que tristemente também pôs um ponto final na trajetória de Lon Chaney Jr. nas telas.
A curta duração de O Horrível Segredo do Dr. Renault - com menos de uma hora - não permite que o roteiro explore todas as possibilidades da trama. Para piorar, ainda tem que lidar com personagens banais como o jovem doutor, cuja presença em cena aparentemente serve para garantir um supostamente indispensável interesse romântico. O mistério fica por conta da série de mortes inexplicadas ocorridas nas proximidades e a presença de outros personagens suspeitos.
Mesmo que não esteja entre os clássicos do horror das décadas de 1930 e 40, este filme não merece o ostracismo ao qual foi condenado, retratando um interessante embate entre criador e criatura. Não encontrei o trailer no YouTube, então digitalizei do meu DVD e inseri no site para poder exibi-lo aqui. Ganhei esse DVD do meu grande amigo Jaime Palhinha, que me presenteou com a coleção Fox Horror Classics Vol. 2, que tem ainda os filmes Chandu the Magician e Dragonwyck. Deixarei para falar do Lon Chaney Jr. mais tarde. Na próxima postagem, comentarei um filme recente, para não ficar repetitivo.
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