Nesta segunda e última parte do ciclo de filmes do argentino Carlos Hugo Christensen anteriores à sua fase brasileira comentarei duas interessantes produções da década de 1950. Os dois filmes são adaptações de histórias de suspense e horror do escritor William Irish (pseudônimo literário de Cornell Woolrich), autor também do conto que originou Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock, entre outros. Eu planejava escrever também sobre o filme venezuelano El Demonio És un Angel (1950), aparentemente uma comédia romântica com algum toque de fantasia e sobrenatural, mas ainda não tenho o filme. Prometo comentá-lo aqui no blog logo que eu conseguir uma cópia.
Si Muero Antes de Despertar (1952)
Possivelmente o filme mais interessante de Christensen em sua fase clássica argentina, realizado com notável inspiração e talento, adaptado do conto “If I Should Die Before I Wake”, de William Irish. Recentemente, Si Muero Antes de Despertar ganhou certa notoriedade entre pesquisadores e aficionados por filmes de horror por sua trama supostamente antecipar a premissa de A Hora do Pesadelo (1984), com um vilão semelhante ao infanticida Freddy Krueger. De fato, há algumas semelhanças entre os filmes, como o cruel homicida que seduz e mata crianças. O tema é pesado e corajoso, remetendo ao clássico M, o Vampiro de Düsseldorf (1931), de Fritz Lang; semelhança que também deve ter chamado a atenção dos mexicanos, pois o filme foi lançado naquele país com o título El Vampiro Acecha.
Si Muero Antes de Despertar tem um clima de conto de fadas sombrio, com alusão a “João e Maria” em algumas cenas. Christensen inteligentemente intensifica o mistério ao mostrar pouco o odiável assassino, um pedófilo que atrai crianças com promessas de doces e brinquedos. A história é narrada pela ótica de um garotinho, única testemunha do desaparecimento de suas coleguinhas de escola. O título se refere a uma oração que as crianças fazem antes de dormir - outra coincidência com A Hora do Pesadelo, que também ficou caracterizado por uma sinistra cantiga de ninar.
Escolhi para o vídeo a cena do menino sonhando com o assassino, mergulhado num cenário surreal de pesadelo, com destaque para o plano da mão do infanticida se projetando subitamente e oferecendo uma guloseima ao menino, num momento tenso e ameaçador - e também com um flagrante teor sexual.
No Abras Nunca Esa Puerta (1952)
Novamente Christensen recorre aos contos de suspense de William Irish neste excelente exemplar de cine negro (a maneira como os argentinos se referem ao film noir). O filme é formado por duas histórias: “Alguien al Teléfono”, adaptada do conto “Somebody on the Phone”, e “El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar”, baseada em “Hummingbird Comes Home”. O cineasta demonstra domínio absoluto da linguagem do cinema de suspense, construindo cenas tensas e climáticas. A iluminação com forte contraste entre luz e sombra, os enquadramentos inventivos e a montagem dinâmica, favorecendo a sucessão de eventos misteriosos, propiciam ao filme uma qualidade comparável ao melhor que se produziu no gênero na Hollywood da década de 1940.
Alguien al Teléfono é sobre a morte misteriosa de uma jovem, que teoricamente teria cometido suicídio, e o desejo insano de seu irmão de vingá-la, indo em busca de um suposto agiota que a perturbava com telefonemas enigmáticos. A trama é relativamente simples e econômica, até previsível a certo momento, mas impressiona pela maneira como é conduzida. A relação entre irmão e irmã não deixa de ser intrigante. Eles moram juntos e aparentemente o rapaz tem por ela um ciúme possessivo. Não conheço a obra literária de Woolrich, mas o estilo me lembrou os contos trágicos da EC Comics, em especial das revistas policiais como Crime SuspenStories e Shock SuspenStories. O vídeo que capturei mostra o momento em que o rapaz é perturbado por um dos telefonemas misteriosos. Você terá que assistir ao filme para entender o que acontece...
El Pájaro Cantor Vuelve al Hogar é outro exuberante exercício de suspense, sobre uma noite de horror vivida por uma senhora cega que mora com a sobrinha num velho casarão. A idosa aguarda esperançosa a visita do filho, com quem ela não se encontra há anos, visita essa que acontece de maneira inesperada e traumatizante. O rapaz chega na calada da noite, acompanhado por dois amigos, um deles gravemente ferido. O filho diz que sofreram um acidente de carro, mas à esta altura já sabemos que são criminosos que acabaram de cometer um assalto. O líder do bando só é identificado por uma peculiar melodia que costuma assobiar entre dentes - aqui Christensen mais uma vez estabelece um elo com M, o Vampiro de Düsseldorf. O trecho em vídeo que selecionei é o momento em que a mãe decide enfrentar sozinha o problema, mas novamente prefiro deixar sem explicação a conclusão da trama.
Quem tem algum interesse no cinema clássico sul-americano não pode deixar de conhecer a obra de Carlos Hugo Christensen nesse período. Para mim foi uma satisfação redobrada; há anos queria ver esses filmes, pois considero o Christensen um dos principais realizadores do cinema de horror brasileiro. Entre as demais obras do cineasta que podem (ou não) flertar com o horror, não consegui localizar Con el Diabo en el Cuerpo (1947), Leonora dos Sete Mares (1956) e A Casa de Açúcar (1996). Quem tiver qualquer informação de como eu poderia conseguir cópias desses filmes, peço por gentileza que entre em contato comigo.
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