CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

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quinta-feira, 10 de março de 2011

Rock Horror Show (1975)



 
   Quem não gosta de Rocky Horror Show só pode ser ruim da cabeça e doente do pé. Um dos maiores fenômenos pop de todos os tempos, a peça musical escrita por Richard O’Brien sintetiza toda uma era, o casamento perfeito entre a fase nostálgica do rock’n’roll e as antigas sessões duplas de filmes de horror e ficção científica, tudo embalado com uma sensualidade sem limites no auge da androginia e do amor livre. Obviamente, era material perfeito para o cinema, e não demorou para surgir Rocky Horror Picture Show, provavelmente o maior clássico das sessões malditas e o derradeiro cult movie.
   O que nem todo mundo sabe é que o impacto do sucesso da peça ecoou no Brasil imediatamente, com a adaptação de Rock Horror Show (escrito assim mesmo) para os nossos palcos, encenada inicialmente no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro. Os bastidores dessa produção podem ser acompanhados no blog de Edy Star, nosso maior representante do glam rock, nas partes um, dois e três. Está tudo contado por quem participou da coisa, portanto não vou reproduzir tudo aqui. Só quero contar que Edy relata como substituiu Eduardo Conde no papel de Frank Father [sic], e que quando chegou ao teatro, o roqueiro Serguei estava de prontidão para se candidatar ao posto. O elenco original contava ainda com Lucélia Santos, Zé Rodrix, Wolf Maia e Diana Strella nos principais papéis. A peça posteriormente foi montada nos palcos paulistanos, com Paulo Villaça, Antonio Biasi e Lúcia Turnbull substituindo alguns dos atores da versão carioca.
   A trilha sonora da montagem carioca foi lançada em LP em 1975, pela Som Livre, mas infelizmente não está disponível em CD. A produção do disco ficou por conta de Guilherme Araújo e Zé Rodrix, responsável também por algumas adaptações. O repertório do LP inclui as três faixas anexadas nos vídeos acima - “Science Fiction” (Lucélia Santos), “Nostalgia Rock’n’Roll” (Zé Rodrix) e “Me Toque, Me Toque, Toque, Toque” (Diana Strella) - e traz ainda “O Anel de Noivado” (Wolf Maia e Diana Strella), “Luz na Casa de Frankstein” (Diana Strella, Wolf Maia e Kao Rossman), “A Espada da Morte” (Acácio Gonçalves e Nildo Parente), “Eu Te Faço Ser Homem” (Eduardo Conde), “É Só Me Chamar, Tudo Bem” (Wolf Maia e Diana Strella), “Eu Vou Partir” (Eduardo Conde) e “Só o Amor Interessa” (Wolf Maia, Diana Strella e Nildo Parente). Quem conhece bem o repertório original certamente notou a falta de algumas canções, especialmente a clássica “Time Warp”, mas suponho que só colocaram no disco o que cabia em 45 minutos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ed Wood music video


   Como nas últimas semanas minha mulher não pensa em outra coisa que não seja balé e “Lago dos Cisnes”, de um tal de Tchaikovsky - sim, por causa do filme do momento, Cisne Negro - fiquei com vontade de rever Ed Wood, disparado o melhor filme do Tim Burton e algo que (na minha modesta opinião) está muito acima da sensibilidade artística do esquisitão oficial de Hollywood.
   Caso alguém não tenha feito a conexão, o “Lago dos Cisnes” é o tema orquestral do Bela Lugosi (Martin Landau, soberbo) no filme, pois originalmente é a única música que se ouve no clássico Drácula (1931), da Universal. Um dos momentos mais belos de Ed Wood é quando o pior cineasta do mundo (Johny Depp, transbordando empolgação) vai socorrer o velho Bela num de seus momentos de desespero. Revólver em punho, o veterano bicho-papão ameaça pôr um fim em seu sofrimento - e de quebra levar o amigo junto. Nesse momento, ouvimos ao fundo uma das muitas variações do “Lago dos Cisnes”…
   Porém, chega de Tchaikovsky. O vídeo que estou postando aqui é um dos mais divertidos extras do DVD, uma dança mais do que insinuante com a curvilínea e cadavérica (e robusta!) Lisa Marie, na época a Sra. Tim Burton. No filme ela faz o papel da Maila Nurmi, mais conhecida como Vampira, mas aqui ela aparece caracterizada de diversas maneiras, para a alegria dos fetichistas.
   O vídeo é um show, em todos os sentidos, desde a música de Howard Shore, uma mistura de ritmos cubanos e theremin, às cenas de arquivo inseridas, todas muito bem sacadas (adoro o “scene missing” pertinho do final!). A coreografia é de Toni Basil (“Hey Mickey”).
   Numa das cenas de Ed Wood, o emocionado cineasta, durante a estréia de seu Plan 9 from Outer Space, declara: “É por este filme que serei lembrado!”. Ironica e infelizmente, o mesmo pode ser dito de Tim Burton, que depois desta comovente declaração de amor ao cinema feito com paixão e raça engatou uma vertiginosa marcha ladeira abaixo.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Reveillon Maldito (1980)


   Só para não dizerem que abandonei de vez meus prezadíssimos leitores, estou aqui, no apagar de 2010, para desejar a todos um Feliz Ano Novo no estilo desse blog; ou seja, com uma pitada de maldade e derramamento de sangue. Uma obscuridade segregada à não tão saudosa era do VHS, o filme Reveillon Maldito (New Year’s Evil), produzido pela Cannon, é um dos exemplares mais esquemáticos do subgênero slasher, ainda preso ao truque da “morte pelo calendário”, pegando carona em Halloween e Sexta-Feira 13, e que depois seguiria com Dia dos Namorados Macabro e Feliz Aniversário para Mim.
   A trama envolve a apresentadora de um especial de Ano Novo na televisão que recebe um telefonema ameaçador de um psicopata misterioso, o qual anuncia que à meia-noite matará pessoas conhecidas dela. A mulher fica apavorada quando surge a primeira vítima do assassino, que voltará a matar na virada de ano nos outros fusos horários do país. Tolo, previsível e sem clima, o filme é prejudicado por personagens sem carisma e pelo plano absurdo e inverossímil do maníaco, envolvendo situações ridículas e humilhantes.


   O clima de festa fica por conta da banda de hard rock Shadow e a punk/new wave Made in Japan, as quais, até onde sei, limitaram-se ao eterno e silencioso anonimato depois desta oportunidade cinematográfica. O Shadow, para o meu gosto particular, é melhorzinho, num estilo que lembra uma versão mais domesticada do Diamond Head. Nem sei se chegaram a gravar algum álbum ou mesmo se a trilha do filme saiu oficialmente em LP, mas a canção do vídeo acima é suficientemente divertida para garantir uma passagem de ano agitada e no autêntico clima de rock horror. Desta maneira, desejo a todos que tenham um maldito reveillon embalado por tudo que há de bom.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

The Misfits: Live at Dearborn Michigan (1983)


   Este vídeo bootleg é para quem gosta de passar o Halloween em clima de festa horror punk. Trata-se de um raríssimo registro de uma apresentação da banda The Misfits em Dearborn, Michigan, no dia 7 de janeiro de 1983, gravada para o programa de TV Why Be Something You’re Not. A banda é liderada pelo catatau enfezado Glenn Danzig, nos vocais, e conta ainda com Doyle na guitarra, Jerry Only no baixo, e Robo na bateria. O set-list do show é este: “Earth A.D.”, “I Turned Into A Martian”, “Skulls”, “Devilock”, “Queen Wasp”, “Mommy, Can I Go Out And Kill Tonight?”, “Hate Breeders”, “Braineaters”, “Halloween”, “Bullet”, “Horror Business” e “We Are 138”. O áudio não está muito bom, mas pode divertir quem quiser um pouco de agitação punk neste Halloween.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Elvira, a Rainha das Trevas (1988)


   Se meu oráculo não se enganou (e ele nunca se engana!), hoje é aniversário da Paloma Rodrigues. Portanto, aqui vai uma singela homenagem a ela, a única mocinha que conheço que tem como role-model a primeira, única e imbatível Elvira, personagem encarnada pela impagável (e muito saliente) Cassandra Peterson! Claro que conheço muitos marmanjos que babam pelos... aham... ‘talentos’, da eterna Mistress of the Dark, e também muitas meninas que se rendem ao carisma cômico da Elvira, mas a Paloma é a primeira que me disse que queria ser a Elvira quando era criança! E o mais legal é que ela não é a única: existem concursos para escolher a ‘herdeira’ da Elvira, eventos que por si só já são suficientemente divertidos para quem aprecia mulheres com contornos sinuosos e indumentária sombria.
   Se é que alguém não sabe o que a Rainha das Trevas tem de melhor a oferecer, clique no vídeo acima e confira a apoteótica cena final de seu primeiro longa-metragem, uma comédia de horror de alta rotatividade nos bons tempos da Globo. A dica vale para todos os visitantes do blog nessa semana de Halloween, e os parabéns vão para a Paloma, a fã nº 1 da bruxa mais divertida da televisão!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Trovão da Montanha (2010)


   Quem me deu a dica deste curta-vídeo-musical foi o próprio montador da peça, Paulo Sacramento, uma visita sempre querida e mais do que bem-vinda a este blog. Trata-se de mais uma peripécia de Ivan Cardoso, que continua com sua verve irônica, promovendo parcerias impossíveis, desta vez unindo Mr. Robert Zimmermann com o imortal Vincent Price. O resultado é bastante divertido, casando o rock mais básico com o horror camp da banda mecânica comandada pelo indefectível Dr. Anton Phibes tocando seu órgão. Quem provavelmente vai delirar com esse encontro imaginário é minha amadinha Bia, fãzoca de ambos, Dylan e Price. Quanto ao Sacramento, tive o imenso prazer de ver muito recentemente a excelente entrevista que ele concedeu ao programa Sala de Cinema, da SESC TV, um cara que só faz bem ao cinema brasileiro e por quem tenho cada vez mais admiração e respeito.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Luigi Cozzi apresenta Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza no Fantaspoa


   A última noite de Luigi Cozzi no Fantaspoa, como já era de se esperar, foi outro momento memorável do festival, fechando de maneira merecida o ciclo dedicado ao veterano cineasta italiano. A sessão novamente teve lotação total da sala, desta vez com congestionamento até nos degraus, afinal o filme selecionado foi um giallo clássico dirigido por Dario Argento, o raríssimo Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza, de 1971, que tem roteiro co-escrito por Cozzi. O filme em si é considerado o mais fraco da chamada ‘trilogia dos bichos’ de Argento (completada por O Pássaro das Plumas de Cristal e O Gato de Nove Caudas), mas ele me pareceu bem melhor na tela grande do que quando o vi pela primeira vez, num tosco DVD caseiro com uma cópia péssima que circulou entre colecionadores durante muitos anos.
   Também foi emocionante acompanhar a entrega, por parte da direção do Fantaspoa, de um merecido ‘prêmio pela carreira’ a Luigi Cozzi, que levou para casa uma placa em homenagem aos anos dedicados ao cinema fantástico, abraçando os gêneros da ficção científica, fantasia, suspense e horror. Após a sessão, Cozzi respondeu a mais uma bateria de perguntas da platéia, desta vez concentrando-se mais em sua parceria com Dario Argento. O convidado de honra contou inúmeras anedotas dos bastidores do filme e não fugiu sequer da pergunta sobre o que acha das produções recentes do colega Argento. Felipe M. Guerra, curador da mostra e cicerone de Cozzi, foi preciso ao traduzir a resposta: “Como todo mundo, Luigi prefere os filmes mais antigos do Argento”.
   Perguntado sobre se prefere escrever ou dirigir, Cozzi tampouco teve dúvidas: “O roteirista é um solitário e tem o mundo inteiro ao seu dispor. O diretor tem que lidar com dezenas de pessoas e precisa convencê-las a fazer exatamente o que ele quer. Prefiro muito mais ficar sozinho com minha máquina de escrever ou meu computador”. Falando especificamente sobre a construção do roteiro, Cozzi revelou que primeiro ele e Dario bolaram as cenas de morte e só depois criaram os personagens e a trama em si. Questionado sobre possíveis referências hitchcockianas na obra, o roteirista reconheceu que Alfred Hitchcock é uma influência constante nesse gênero, mas que a inspiração de fato veio do livro Black Alibi, de Cornell Woolrich.


   Cozzi também falou sobre o processo criativo da trilha sonora, do qual participou ativamente, e os problemas que ele e Argento tiveram com o compositor Ennio Morricone, o qual discordava do rumo escolhido e acabou brigando seriamente com o diretor. Os dois só voltariam a se falar 25 anos depois. Foi idéia de Cozzi contratar uma banda de rock progressivo para gravar o tema de abertura e o grupo escolhido foi o Deep Purple, que na época estava no início de sua fase mais celebrada. A banda chegou a gravar a música tocada nos créditos, mas os integrantes não puderam aparecer no filme em si devido a restrições burocráticas da lei italiana, que exige que a maioria dos técnicos e artistas que participam de um filme sejam italianos. O vídeo postado aqui mostra a abertura do filme, com a banda tocando no estúdio, e se meus ouvidos não me traem, acredito que a gravação original do Deep Purple foi pelo menos parcialmente utilizada: o teclado principal não soa muito parecido com o de Jon Lord, mas acredito que há uma base com outro teclado. A guitarra não parece a de Ritchie Blackmore (cadê a alavanca?), mas os gritos parecem coisa do Ian Gillan. No final das contas, é uma bela trívia roqueira para enriquecer este giallo clássico. Quem quiser conferir o restante do filme sem levantar da cadeira, aqui estão as partes 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10.
 
Um papo familiar

   A sessão foi tão concorrida - e se espalhou até altas horas, com o pessoal do cinema literalmente nos colocando para fora - que não pude fazer as perguntas que tinha em mente, apesar de estar sempre de dedo levantado, pedindo a vez. Mas Cozzi foi simpático como sempre e, ao me ver na saída da sala, veio em minha direção e brincou: “Não teve perguntas dessa vez?”. Disse então que ia perguntar sobre o projeto do Frankenstein nazista que ele e Argento tentaram desenvolver na década de 70, e se é verdade que Argento costuma distorcer o roteiro escrito ao ponto de tornar algo que no papel é plausível e verossímil em algo completamente incompreendível nas telas, como Dardano Sacchetti certa vez comentou. Cozzi discordou veementemente e afirmou que tudo que ele escreveu foi seguido à risca por Argento, o que me deixou surpreso.
   Conversamos também sobre a suposta misoginia de Dario Argento e se ele tem idéia do porque de os assassinos na maioria de seus filmes serem mulheres. Cozzi rebateu quando comentei que Asia Argento, filha de Dario, certa vez disse que o pai dela tem “algum problema” com a mãe dele; segundo Cozzi, Dario ama a mãe, nunca teve problemas com ela. “É uma família problemática, estão sempre brigando, é melhor manter distância”, recomendou; “o problema da Asia é que ela fala demais”.
   Não acho exagero dizer que Luigi Cozzi talvez tenha sido a personalidade mais agradável já trazida a qualquer das edições do Fantaspoa. Inteligente, articulado, simpático e acessível, Cozzi certamente não é um autor celebrado por ter realizado grandes obras no cinema fantástico (apesar de nenhum dos seus filmes sofrer do mal de serem chatos; muito pelo contrário, todos são divertidíssimos), mas isso é plenamente compensado por ele ser um grande aficionado pelo gênero - em especial a ficção científica clássica - e possuir um vasto conhecimento sobre o tema. Cozzi também escreve sobre cinema de gênero, o que faz com que conversar com ele sobre cinema seja muito mais do que ter que apelar para a bajulação sem propósito.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Luigi Cozzi apresenta Black Cat e Paganini Horror no Fantaspoa


   O horror tomou conta do Cine Bancários na terceira noite da mostra Luigi Cozzi no Fantaspoa. O programa duplo desta quinta-feira foi formado pelo raríssimo The Black Cat (O Gato Negro no programa oficial do festival, mas exibido a partir de uma cópia em VHS intitulada Filmagem Macabra) e o divertido Paganini Horror. Foram os dois últimos filmes dirigidos por Luigi Cozzi e ainda que não sejam o epitáfio digno de uma carreira que durou duas décadas, são obras das quais o veterano cineasta italiano pode se orgulhar tranquilamente.
   The Black Cat merece lugar de destaque na filmografia de Cozzi por ser uma espécie de conclusão não-oficial da trilogia das ‘Três Mães’ de Dario Argento, precedida por Suspiria (1977) e Inferno (1980), e só concluída em 2007 com o desastroso La Terza Madre (lançado no Brasil sob o insuspeito título de O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas). Na conversa com a platéia ao final da sessão, Luigi Cozzi explicou que o filme surgiu de uma idéia de Daria Nicolodi, na época esposa de Argento e roteirista de Suspiria, que estava interessada em finalmente realizar a parte final da trilogia. Nicolodi a princípio seria a protagonista do filme, que deveria se chamar De Profundis (em inglês, From the Depths), mas Cozzi mexeu tanto no roteiro que ela acabou se desinteressando pelo filme.


   O que a princípio era uma sequência convencional da saga das três bruxas se tornou um filme sobre os próprios bastidores dessa produção, contando a história de um diretor e um roteirista que convencem um produtor a investir no filme, enquanto suas respectivas esposas brigam pelo papel principal, o da maligna bruxa Levana. Cozzi disse que não se sentia à vontade mexendo no material de Dario Argento (“e ele provavelmente me mataria”, brincou).
   E onde entra o gato preto nessa história toda? Pois é, a princípio nem deveria entrar, mas Cozzi teve que enfiar um maldito felino na trama, num arremedo muito pouco convincente, para contentar um distribuidor norte-americano que havia anunciado o título The Black Cat, baseado no conto de Edgar Allan Poe, e precisava de um filme que correspondesse ao prometido. Desta maneira, De Profundis se transformou em Edgar Allan Poe’s The Black Cat, com a desculpa de que “todo gato preto é uma bruxa disfarçada”.


   O filme é uma bagunça como a maioria dos filmes oitentistas de Cozzi, com um roteiro que abusa do surrealismo (o diretor defende a idéia de que os dois filmes da noite são uma mistura de horror e ficção científica), mas não deixa de ter momentos interessantes; além de esbanjar estilo, numa tentativa de emular a atmosfera tanto de Argento quanto de Bava, evocados na fotografia com o uso de filtros azuis e luzes com tons intensos de vermelho e verde.
   Cozzi atribui o rico conteúdo histórico do roteiro ao vasto conhecimento de Daria Nicolodi em literatura sobrenatural, citando De Profundis (1857), do poeta francês Charles Baudelaire (transformado em ‘Boldlair’ ou coisa parecida na legenda do VHS nacional) e indo além, referindo-se ao livro Suspiria de Profundis (1845), de Thomas De Quincey, como a origem de tudo.


   O filme acaba deixando de lado essa trama toda acerca da bruxa Levana e se concentra nos percalços que envolvem uma produção do gênero, um mesquinho jogo de vaidades no qual todo mundo tem que ceder um pouco em benefício do filme. A obra é imperfeita e longe de estar livre de defeitos, mas não deixa de ser interessante a maneira como Cozzi trata a rivalidade entre as atrizes e o que elas são capazes de fazer para ficar com o papel. O final, com moral de conto-de-fadas, pode ser interpretado como o processo de preparação de um artista que se deixa ser engolido pela obra, criando ao seu redor uma espécie de blindagem emocional que cria uma ilusão de vida ideal, fazendo com que sua grande rival se torne sua melhor amiga e o marido (que estava prestes a se divorciar dela) seja o alicerce da família feliz.


   A seguir, novamente com sala lotada e gente sentada nos degraus, foi exibido Paganini Horror, que pelo menos cumpriu bem sua função de divertir a platéia, que não se intimidou em rir nas partes mais absurdas (a cena do fungo mortal oriundo da madeira usada na fabricação dos violinos Stradivarius é do tipo ‘ver pra crer’). O filme é sobre uma banda de pop rock formada por três garotas e um baterista que, em busca do sucesso garantido, adquire a partitura de uma composição inédita de Niccolò Paganini, o violinista italiano que dizem ter vendido a alma ao Diabo.
   A esperta produtora da banda, ao saber da novidade, tem a idéia de gravar um videoclipe numa mansão sinistra para promover a canção, afinal nunca ninguém fez nada parecido antes (“exceto Michael Jackson com a música ‘Thriller’ e seu sensacional videoclipe!”, fazem questão da salientar, num dos diálogos mais impagáveis do filme).
   Quando chegam à tal mansão, cuja dona é ninguém menos do que Daria Nicolodi, não demora para que o fantasma do violinista maldito comece a despachar os intrusos com requintes cruéis do melhor estilo slasher (muitas cenas nessa mesma linha tiveram que ser eliminadas quando o orçamento foi drasticamente reduzido durante a produção).


   Entre as atrações de Paganini Horror estão as canções interpretadas pela banda de garotas, as quais Luigi Cozzi admite não serem de seu agrado, “mas foi o que pudemos fazer com o curto orçamento”, defende o diretor. O detalhe problemático é que as duas principais canções são plágios escandalosos de músicas de sucesso: uma é “You Give Love A Bad Name”, do Bon Jovi, cuspida e escarrada; a outra é a cara e o focinho de “Twilight”, do Electric Light Orchestra (as duas podem ser devidamente conferidas nos vídeos acima).
   No bate-papo ao final da sessão, Cozzi falou sobre o prazer de ter trabalhado com Donald Pleasence neste filme (no qual ele interpreta o próprio Diabo) e citou como exemplo contrário as extravagâncias que teve que aturar de Klaus Kinski durante as filmagens do desastroso Nosferatu em Veneza, no qual fez pouco mais do que filmar o ator caminhando a esmo sob a bela luz do amanhecer, simplesmente porque era tudo que Kinski tinha vontade de fazer.
   Cozzi ainda falou sobre sua paixão pelo cinema, que surgiu quando ele viu o clássico Vinte Mil Léguas Submarinas (1954), da Disney, ainda quando criança, o fim do cinema italiano, engolido pela televisão e sua política que visa exclusivamente o lucro, e o prazer de trabalhar nos Estados Unidos em Dois Olhos Satânicos, onde teve o apoio de uma equipe técnica jovem e empolgada, em contraste aos velhotes desinteressados que normalmente encontrava na Itália.
   Ao final da sessão, finalmente decidi pegar um autógrafo com Luigi Cozzi. Soletrei meu nome a ele dizendo que era “igual Carlo Ponti, mas com ‘s’ no final”. Ao ver a Bia ao meu lado, também a postos para pegar um suvenir, Cozzi comentou, com um largo sorriso: “Então ela só pode ser a Sophia Loren!”. Tem como alguém ser mais simpático?

sábado, 19 de junho de 2010

Ídolos: Casa da Colina


   Odeio reality shows. Simplesmente odeio, não suporto ver nenhum. Na verdade, nunca assisti, mas não me interesso na coisa. O único que achei interessante - e mesmo assim não assisti - era um programa argentino que anunciou que ia escolher o melhor roteiro de um curta-metragem a ser filmado numa casa supostamente mal-assombrada. Não sei que fim isso levou, mas o que importa é que o tema casa mal-assombrada nos traz a este bizarro trecho do programa Ídolos, exibido na Record, com o qual esbarrei por acidente.
   O trecho mostra o candidato André Marques, de 19 anos, um sujeito que não consegue nem falar direito, pagando mico em rede nacional interpretando uma canção de sua autoria, chamada “Casa da Colina”, diante dos três jurados do programa. A música é... assim, uma coisa de doido. Tão fascinande, na verdade, que não resisti à tentação de transcrever a letra: “A casa é má, baby, lá tem fantasmas, yeah yeah, é mal-assombrada, viu?, e fantasmas moram na casa da colina. Vou passar um dia nessa casa cheia de espíritos, yeah. Vou levar muitos sustos, não vai ter futebol. Casa mal-assombrada, yeah yeah. Casa mal-assombrada... Casa da colina. Eu vou passar um dia nessa casa cheia de espíritos. Venha comigo, vou te levar... Casa da colina...”. A parte do futebol é um enigma total, adorei.
   Se essa postagem não receber nenhum comentário, vou entender. Também fiquei sem palavras.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Christopher Lee: Charlemagne, by the Sword and the Cross (2010)


   Não é engraçado ou ridículo como alguns tentam fazer parecer; também não é nenhuma extravagância metaleira como outros tantos celebram. Eis, enfim, que foi lançado, dia 15 de março, o tão comentado álbum épico de symphonic metal interpretado por Sir Christopher Lee, o grande e cinzento Saruman, o conde sideral Dooku, sua majestade satânica, Drácula. O disco, uma obra conceitual ambiciosa, realizada com a devida grandiosidade, é intitulada Charlemagne, by the Sword and the Cross e narra a história do imperador romano Carlos Magno. O estilo operístico e sinfônico, cruzado com guitarras pesadas e bateria marcante, valeu ao CD essa suposta filiação ao metal, mas recomenda-se discrição: há menos heavy metal nesta sinfonia do que a maioria dos envolvidos parece querer reconhecer. Nada de guitarras flamejantes, riffs dilacerantes, massacres a dois bumbos, contrabaixos nucleares. Nem sequer um mísero solo estilo guitar hero. O que temos é uma tímida textura de guitarra com distorção e marcação baixo-bateria formando uma base roqueira... e isso apenas às vezes.
   Controvérsias metalúrgicas à parte, o álbum é agradável aos tímpanos, num sentido um tanto exótico e bizarro; tanto quanto pode ser uma ópera rock sinfônica sobre um imperador romano que tem a voz de trovão de um ídolo do horror no alto dos seus 87 anos de idade. De sua parte, Lee surpreende favoravelmente com um vocal sólido, sem vacilos, demonstrando inclusive alguma inclinação roqueira no refrão pulsante de “The Bloody Verdict of Verden”, a mais animada e metaleira do disco, e também faz bonito na suave “Starlight”, quase uma balada romântica. Vale lembrar que Chris Lee não é debutante no estilo: ele narrou algumas canções da banda italiana de metal sinfônico Rhapsody e há alguns anos gravou uma vinheta em vídeo para um show da banda Manowar proclamando “heavy metal will never die!”. Antes disso, o veterano ator empregou de maneira brilhante sua notável voz de barítono na canção “The Tinker of Rye”, da trilha sonora de O Homem de Palha (1973), na qual faz dueto com Diane Cilento.

Pela espada e pela cruz

   A autoria dessa extravagância musical é Marco Sabiu, que tem folha corrida no universo do pop rock e aqui é responsável pelas melodias. As letras - algumas quase didáticas, estilo almanaque - foram escritas por Marie-Claire Calvet, estudiosa do assunto, e contam com a voz professoral de Christina Lee, filha do homem, que narra com seu enfático bloody British accent. Contado (e cantado) em cinco atos, o épico começa no ano 814 d.C., no leito de morte de Carlos Magno, primeiro imperador do Sacro Império Romano. Carlos Magno é também conhecido como Carlos, o Grande - ou Carolus Magnus, em latim, Karl der Große, em alemão, e Charlemagne, em francês.
   O próprio Lee assume o personagem, do qual ele afirma ser descendente direto por parte de mãe. Carlos Magno, nascido há exatos 1263 anos, em 2 de abril de 747, foi rei dos Francos e dos Lombardos, tendo relevância histórica não somente por ter sido o fundador das monarquias da França e Alemanha, mas também por ser considerado o pai de toda a Europa. Numa de suas campanhas mais vitoriosas, derrotou os saxões e os converteu à força ao Cristianismo, resgatando a supremacia religiosa dos romanos.


   Portanto, não espere uma tolice oportunista e auto-indulgente como as gravações ‘musicais’ de William Shatner e Leonard Nimoy (só para citar os piores). Ou as investidas de Lon Chaney Jr. (Spider Baby) e Boris Karloff (Mad Monster Party?) no pop inocente. Christopher Lee, como sempre, leva muito a sério o que faz e merece respeito por não fazer concessões. O flerte com o heavy metal soa meramente circunstancial, uma jogada de marketing esperta. Musicalmente, o álbum fica mais próximo da trilha incidental de um épico histórico imaginário (alguns trechos lembram muito a partitura de Drácula, de Wojciech Kilar), com temática digna de um Manowar e vocalizações que não estariam deslocadas num musical da Broadway.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Alice Cooper: Along Came a Spider (2008)


   Não é de hoje que Alice Cooper rima com horror. Aliás, a relação do veterano roqueiro de Detroit com temas macabros deu origem ao chamado ‘shock rock’, ou ‘rock horror’, na década de 1970. O conceito havia sido rascunhado pelas extravagantes performances de Screamin’ Jay Hawkins pelo menos quinze anos antes, mas foi Alice Cooper, com seus exageros cênicos dignos de espetáculos da Broadway, incluindo decapitações e enforcamentos em pleno palco, quem deu vida à idéia. Desde Kiss, Misfits, Mötley Crüe e Gwar, até King Diamond, Rob Zombie, Marilyn Manson e Lordi, todo mundo que destila a receita rock+horror deve um bocado a Alice Cooper.
   Along Came a Spider é o álbum mais recente da titia do rock pesado (sei que não chega a ser novidade - foi lançado há cerca de um ano e meio - mas só faz dois meses que tenho esse blog e não queria deixar passar a oportunidade de escrever um pouco sobre o disco!). Marca o retorno do roqueiro ao estilo hard rock clássico, depois de ele se aventurar pelo hard farofa, heavy tradicional e metal industrial. O álbum segue a tradição ‘conceitual’ do clássico Welcome to My Nightmare (1975), narrando uma história linear ao longo de todas as faixas.
   Trata-se da história de um serial killer conhecido como ‘Spider’, que captura, tortura, mata e arranca uma perna de cada vítima. Seu objetivo é juntar oito pernas e construir sua própria aranha. Não chega a ser algo inovador ou especialmente original, mas mostra a visão - um tanto ingênua - que Alice tem do horror, inclusive sua obsessão por bichos asquerosos.


   A relação de Alice Cooper com filmes de horror rendeu participações nas cinesséries Sexta-Feira 13, interpretando a canção-tema “He’s Back (The Man Behind The Mask)” no sexto exemplar (lembro até hoje quando vi, embasbacado, o vídeo dessa música no Fantástico!) e A Hora do Pesadelo, nada menos do que como o pai de Freddy Krueger, também no sexto filme da saga. Também fez papéis menores em outros filmes, como em O Príncipe das Sombras (1987), de John Carpenter, e protagonizou o espanhol Leviatán (1984), dirigido por Claudio Fragasso, lançado em VHS no Brasil como Monster Dog: Uma Noite de Horror, no qual interpreta um roqueiro que vira lobisomem.
   Para promover o lançamento de Along Came a Spider, o roqueiro lançou no YouTube este vídeo de dez minutos, reunindo três canções do álbum: “Vengeance Is Mine” (com participação de Slash na guitarra), “(In Touch With) Your Feminine Side” e a balada mórbida “Killed By Love”. Co-dirigido por Piggy D. e Gabrielle Geiselman, o vídeo é todo ambientado no manicômio onde Spider foi trancafiado. Tem alguns momentos interessantes, mas poderia ter sido melhor concebido e realizado. (Não pode ser comparado, por exemplo, ao charmoso especial para a TV inspirado no álbum Welcome to My Nightmare, feito em 1975, com a preciosa participação de Vincent Price.)
   Em compensação, os trailers promocionais do álbum Along Came a Spider são bem interessantes, então decidi também reproduzi-los aqui. Destaque para o terceiro trailer, que recria o inesquecível monólogo final de Psicose (1960) na íntegra, celebrando em grande estilo o casamento de rock pesado e filme de horror.

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