CRÍTICAS, ANÁLISES, IDÉIAS E FILOSOFIAS EM GERAL A RESPEITO DE FILMES DE HORROR DE TODAS AS ÉPOCAS, NACIONALIDADES E ESTILOS, E MUITAS OUTRAS COISAS RELACIONADAS AO GÊNERO

Mostrando postagens com marcador 1971. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1971. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de julho de 2010

Luigi Cozzi apresenta Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza no Fantaspoa


   A última noite de Luigi Cozzi no Fantaspoa, como já era de se esperar, foi outro momento memorável do festival, fechando de maneira merecida o ciclo dedicado ao veterano cineasta italiano. A sessão novamente teve lotação total da sala, desta vez com congestionamento até nos degraus, afinal o filme selecionado foi um giallo clássico dirigido por Dario Argento, o raríssimo Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza, de 1971, que tem roteiro co-escrito por Cozzi. O filme em si é considerado o mais fraco da chamada ‘trilogia dos bichos’ de Argento (completada por O Pássaro das Plumas de Cristal e O Gato de Nove Caudas), mas ele me pareceu bem melhor na tela grande do que quando o vi pela primeira vez, num tosco DVD caseiro com uma cópia péssima que circulou entre colecionadores durante muitos anos.
   Também foi emocionante acompanhar a entrega, por parte da direção do Fantaspoa, de um merecido ‘prêmio pela carreira’ a Luigi Cozzi, que levou para casa uma placa em homenagem aos anos dedicados ao cinema fantástico, abraçando os gêneros da ficção científica, fantasia, suspense e horror. Após a sessão, Cozzi respondeu a mais uma bateria de perguntas da platéia, desta vez concentrando-se mais em sua parceria com Dario Argento. O convidado de honra contou inúmeras anedotas dos bastidores do filme e não fugiu sequer da pergunta sobre o que acha das produções recentes do colega Argento. Felipe M. Guerra, curador da mostra e cicerone de Cozzi, foi preciso ao traduzir a resposta: “Como todo mundo, Luigi prefere os filmes mais antigos do Argento”.
   Perguntado sobre se prefere escrever ou dirigir, Cozzi tampouco teve dúvidas: “O roteirista é um solitário e tem o mundo inteiro ao seu dispor. O diretor tem que lidar com dezenas de pessoas e precisa convencê-las a fazer exatamente o que ele quer. Prefiro muito mais ficar sozinho com minha máquina de escrever ou meu computador”. Falando especificamente sobre a construção do roteiro, Cozzi revelou que primeiro ele e Dario bolaram as cenas de morte e só depois criaram os personagens e a trama em si. Questionado sobre possíveis referências hitchcockianas na obra, o roteirista reconheceu que Alfred Hitchcock é uma influência constante nesse gênero, mas que a inspiração de fato veio do livro Black Alibi, de Cornell Woolrich.


   Cozzi também falou sobre o processo criativo da trilha sonora, do qual participou ativamente, e os problemas que ele e Argento tiveram com o compositor Ennio Morricone, o qual discordava do rumo escolhido e acabou brigando seriamente com o diretor. Os dois só voltariam a se falar 25 anos depois. Foi idéia de Cozzi contratar uma banda de rock progressivo para gravar o tema de abertura e o grupo escolhido foi o Deep Purple, que na época estava no início de sua fase mais celebrada. A banda chegou a gravar a música tocada nos créditos, mas os integrantes não puderam aparecer no filme em si devido a restrições burocráticas da lei italiana, que exige que a maioria dos técnicos e artistas que participam de um filme sejam italianos. O vídeo postado aqui mostra a abertura do filme, com a banda tocando no estúdio, e se meus ouvidos não me traem, acredito que a gravação original do Deep Purple foi pelo menos parcialmente utilizada: o teclado principal não soa muito parecido com o de Jon Lord, mas acredito que há uma base com outro teclado. A guitarra não parece a de Ritchie Blackmore (cadê a alavanca?), mas os gritos parecem coisa do Ian Gillan. No final das contas, é uma bela trívia roqueira para enriquecer este giallo clássico. Quem quiser conferir o restante do filme sem levantar da cadeira, aqui estão as partes 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10.
 
Um papo familiar

   A sessão foi tão concorrida - e se espalhou até altas horas, com o pessoal do cinema literalmente nos colocando para fora - que não pude fazer as perguntas que tinha em mente, apesar de estar sempre de dedo levantado, pedindo a vez. Mas Cozzi foi simpático como sempre e, ao me ver na saída da sala, veio em minha direção e brincou: “Não teve perguntas dessa vez?”. Disse então que ia perguntar sobre o projeto do Frankenstein nazista que ele e Argento tentaram desenvolver na década de 70, e se é verdade que Argento costuma distorcer o roteiro escrito ao ponto de tornar algo que no papel é plausível e verossímil em algo completamente incompreendível nas telas, como Dardano Sacchetti certa vez comentou. Cozzi discordou veementemente e afirmou que tudo que ele escreveu foi seguido à risca por Argento, o que me deixou surpreso.
   Conversamos também sobre a suposta misoginia de Dario Argento e se ele tem idéia do porque de os assassinos na maioria de seus filmes serem mulheres. Cozzi rebateu quando comentei que Asia Argento, filha de Dario, certa vez disse que o pai dela tem “algum problema” com a mãe dele; segundo Cozzi, Dario ama a mãe, nunca teve problemas com ela. “É uma família problemática, estão sempre brigando, é melhor manter distância”, recomendou; “o problema da Asia é que ela fala demais”.
   Não acho exagero dizer que Luigi Cozzi talvez tenha sido a personalidade mais agradável já trazida a qualquer das edições do Fantaspoa. Inteligente, articulado, simpático e acessível, Cozzi certamente não é um autor celebrado por ter realizado grandes obras no cinema fantástico (apesar de nenhum dos seus filmes sofrer do mal de serem chatos; muito pelo contrário, todos são divertidíssimos), mas isso é plenamente compensado por ele ser um grande aficionado pelo gênero - em especial a ficção científica clássica - e possuir um vasto conhecimento sobre o tema. Cozzi também escreve sobre cinema de gênero, o que faz com que conversar com ele sobre cinema seja muito mais do que ter que apelar para a bajulação sem propósito.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Die Screaming Marianne (1971)

   Os primeiros anos da década de 1970 marcaram o esgotamento do formato do horror gótico inglês consagrado pela produtora Hammer. O encantamento sobrenatural de Drácula e as consequências desastrosas das experiências de Frankenstein já não faziam mais efeito, mesmo com elementos satanistas e de magia negra cada vez mais presentes nos enredos. O mercado do gênero era propício para a renovação e o futuro do horror inglês passava às mãos de cineastas independentes, dentre os quais merece destaque Pete Walker, nosso personagem desta série de postagens. Típico artesão do submundo exploitation, adepto do cinema sem um pingo de vergonha na cara, Walker começou a carreira realizando filmes eróticos baratos que lograram algum sucesso dentro de seu nicho. Sua transição para o horror foi natural, repetindo os passos de Herschell Gordon Lewis e de outros colegas com a mesma inclinação sensacionalista.
   “Pete Walker é uma espécie de enigma”, pondera Andy Boot, autor do livro Fragments of Fear (1999), e a seguir questiona: “ele é de fato o autor responsável por um punhado de filmes de horror de baixo orçamento que misturam o gótico suburbano com grand guignol numa receita sanguinária destilada com notável precisão, ou é um idiota sem talento que de alguma maneira descobriu uma vertente do horror que, se não é louvável, pelo menos é original?”. É compreensível que os ingleses sejam exigentes quanto aos seus ‘homens do horror’, tendo visto gente do nível de Alfred Hitchcock, Michael Powell, Terence Fisher e Freddie Francis contribuindo tanto com o gênero. Entretanto, é exagero classificar Walker como um idiota sem talento. Portanto, diante das possibilitades propostas por Boot, só nos resta considerá-lo o descobridor de uma nova maneira de fazer cinema, inserindo horrores inomináveis num cenário da mais proverbial hipocrisia suburbana. Mas isso só aconteceria mais adiante; para começar, Walker apresentou suas armas num thriller de apelo apenas moderado.


   A curiosa e memorável sequência de créditos de abertura de Die Screaming Marianne (1971) é uma extravagante combinação de sexploitation com o estilo espalhafatoso dos filmes de James Bond, com a sensual Susan George - a Marianne do título - sacolejando o corpo com entusiasmo num autêntico clima da festiva Swinging London. Tendo surgido no mercado do cinema erótico, era natural que Walker fosse fascinado pela sexualidade libertina dos jovens ingleses da época e muitas protagonistas de seus filmes de horror surgiam deste cenário.


   Marianne é uma dançarina go-go perseguida incansavelmente por assassinos a mando de seu próprio pai, que deseja se apoderar de uma fortuna e documentos importantes que somente a moça pode resgatar do banco. A conspiração da qual ela é vítima só se torna clara perto do final, mas o desenvolvimento do roteiro, escrito por Murray Smith, é enfadonho, arrastado. Talvez a ambição do enredo, que aparentemente tenta evocar alguma inspiração hitchcockiana em suas implicações psicológicas, estivesse acima da capacidade da direção de Pete Walker àquela altura. A narrativa vertiginosa e enigmática das primeiras cenas, com Marianne fugindo de seus perseguidores anônimos e pulando para um casamento precipitado com um rapaz que acabou de conhecer, logo descamba para uma convencional história da garota em fuga, sem muito para oferecer.


   Mesmo assim, há elementos intrigantes para se descobrir no filme, como o papel do destino na vida dos personagens, com encontros furtivos mais tarde se revelando menos casuais do que parecem a princípio. A sexualidade problemática combinada com situações de perigo ainda não atinge os níveis perturbadores dos demais filmes do diretor, que só mergulharia de vez no horror carregado de tintas grotescas três anos depois, mas já há um certo clima de estranheza que o torna interessante de uma maneira muito particular. Certamente o mais fraco de todos os filmes do ciclo de horror de Pete Walker, ainda guarda uma surpresa para a cena final. Porém, o excesso de reviravoltas já tratou de diluir parte do impacto e o filme termina num clima decepcionante.
Related Posts with Thumbnails

Canal Cine Monstro Rock Horror Show!!