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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Christopher Lee: Charlemagne, by the Sword and the Cross (2010)


   Não é engraçado ou ridículo como alguns tentam fazer parecer; também não é nenhuma extravagância metaleira como outros tantos celebram. Eis, enfim, que foi lançado, dia 15 de março, o tão comentado álbum épico de symphonic metal interpretado por Sir Christopher Lee, o grande e cinzento Saruman, o conde sideral Dooku, sua majestade satânica, Drácula. O disco, uma obra conceitual ambiciosa, realizada com a devida grandiosidade, é intitulada Charlemagne, by the Sword and the Cross e narra a história do imperador romano Carlos Magno. O estilo operístico e sinfônico, cruzado com guitarras pesadas e bateria marcante, valeu ao CD essa suposta filiação ao metal, mas recomenda-se discrição: há menos heavy metal nesta sinfonia do que a maioria dos envolvidos parece querer reconhecer. Nada de guitarras flamejantes, riffs dilacerantes, massacres a dois bumbos, contrabaixos nucleares. Nem sequer um mísero solo estilo guitar hero. O que temos é uma tímida textura de guitarra com distorção e marcação baixo-bateria formando uma base roqueira... e isso apenas às vezes.
   Controvérsias metalúrgicas à parte, o álbum é agradável aos tímpanos, num sentido um tanto exótico e bizarro; tanto quanto pode ser uma ópera rock sinfônica sobre um imperador romano que tem a voz de trovão de um ídolo do horror no alto dos seus 87 anos de idade. De sua parte, Lee surpreende favoravelmente com um vocal sólido, sem vacilos, demonstrando inclusive alguma inclinação roqueira no refrão pulsante de “The Bloody Verdict of Verden”, a mais animada e metaleira do disco, e também faz bonito na suave “Starlight”, quase uma balada romântica. Vale lembrar que Chris Lee não é debutante no estilo: ele narrou algumas canções da banda italiana de metal sinfônico Rhapsody e há alguns anos gravou uma vinheta em vídeo para um show da banda Manowar proclamando “heavy metal will never die!”. Antes disso, o veterano ator empregou de maneira brilhante sua notável voz de barítono na canção “The Tinker of Rye”, da trilha sonora de O Homem de Palha (1973), na qual faz dueto com Diane Cilento.

Pela espada e pela cruz

   A autoria dessa extravagância musical é Marco Sabiu, que tem folha corrida no universo do pop rock e aqui é responsável pelas melodias. As letras - algumas quase didáticas, estilo almanaque - foram escritas por Marie-Claire Calvet, estudiosa do assunto, e contam com a voz professoral de Christina Lee, filha do homem, que narra com seu enfático bloody British accent. Contado (e cantado) em cinco atos, o épico começa no ano 814 d.C., no leito de morte de Carlos Magno, primeiro imperador do Sacro Império Romano. Carlos Magno é também conhecido como Carlos, o Grande - ou Carolus Magnus, em latim, Karl der Große, em alemão, e Charlemagne, em francês.
   O próprio Lee assume o personagem, do qual ele afirma ser descendente direto por parte de mãe. Carlos Magno, nascido há exatos 1263 anos, em 2 de abril de 747, foi rei dos Francos e dos Lombardos, tendo relevância histórica não somente por ter sido o fundador das monarquias da França e Alemanha, mas também por ser considerado o pai de toda a Europa. Numa de suas campanhas mais vitoriosas, derrotou os saxões e os converteu à força ao Cristianismo, resgatando a supremacia religiosa dos romanos.


   Portanto, não espere uma tolice oportunista e auto-indulgente como as gravações ‘musicais’ de William Shatner e Leonard Nimoy (só para citar os piores). Ou as investidas de Lon Chaney Jr. (Spider Baby) e Boris Karloff (Mad Monster Party?) no pop inocente. Christopher Lee, como sempre, leva muito a sério o que faz e merece respeito por não fazer concessões. O flerte com o heavy metal soa meramente circunstancial, uma jogada de marketing esperta. Musicalmente, o álbum fica mais próximo da trilha incidental de um épico histórico imaginário (alguns trechos lembram muito a partitura de Drácula, de Wojciech Kilar), com temática digna de um Manowar e vocalizações que não estariam deslocadas num musical da Broadway.

5 comentários:

  1. Diante do que está escrito aqui, resta pouco a dizer, a não ser, que, "Rhapsody - The Magic of the Wizard's Dream" é outro disco do qual Sir Lee faz parte e, desta vez com a banda "Rhapsody of fire" e mais vez faz uma bela apresentação com sua voz tonitruante. Recomendo. Assim como recomendo CHARLEMAGNE, que me fez lembrar alguns dos melhores momentos de Rick Wakeman em MYTHS AND LEGENDS OF KING ARTHUR AND THE KNIGHTS OF THE ROUND TABLE e em JOURNEY TO CENTER OF THE EARTH, ambos nos saudosos anos 70. Falar de Sir Christopher Lee, último titã do horror vivo, é um pouco suspeito para mim, fã doente do velho, cujo trabalho acompanho há mais de trinta anos. E sou feliz por este fenômeno ainda fazer parte da época em que vivemos.

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  2. Cayman, excelente a lembrança do Rick Wakeman! Nossa, na minha infância eu ouvi muito esses dois discos que você citou, pois meu irmão mais velho era fanático pelo Rick Wakeman! Eu pensava que JOURNEY era trilha sonora de um filme (o LP tinha um encarte com várias fotos); aliás, o álbum é bem melhor do que o filme sobre o mesmo tema, estrelado pelo Pat Boone!

    Também vejo motivos para festejar que Sir Christopher Lee não apenas esteja vivo e na ativa, mas que tenha disposição para ser relevante à sua época, envolvendo-se em projetos ousados e arriscados, ao invés de sentar sua bunda octogenária nesse conceito vago de "lenda viva" e ficar vivendo às custas do culto cego aos astros veteranos. Um artista precisa sempre ser moderno, contemporâneo, até mesmo vanguardista, para que não se torne uma relíquia em vida, e posso citar outros três exemplos de ídolos do horror que encerraram suas vidas (e suas carreiras) de maneira relevante: Karloff, Hitchcock e Price.

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  3. Agora fiquei curiso pra ourvir! Ainda mais sabendo que o próprio Lee diz ser descendente direto desta realeza. Isso me leva a crer que ele fez o álbum com bastante seriedade. Um outro trabalho que não tem muito haver com este, mas que mistura guitarras com o clássico é o do Uli Jon Roth, do Scorpions. Neste disco ele toca "As Quatro Estações" de Vivaldi. Confeço que quando fiquei sabendo torci o nariz, mas depois de ouvir achei legal. Marcone

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